Teoria da Sociedade em Rede

EDIMIR BRILHADOR

A INTELECÇÃO DA TEORIA DA SOCIEDADE EM REDE

DE MANUEL CASTELLS

MARINGÁ

2006

EDIMIR BRILHADOR

A INTELECÇÃO DA TEORIA DA SOCIEDADE EM REDE

DE MANUEL CASTELLS

Trabalho apresentado como requisito para conclusão de curso de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá, orientado pelo Prof. Walter Praxedes

MARINGÁ

2006

EDIMIR BRILHADOR

A INTELECÇÃO DA TEORIA DA SOCIEDADE EM REDE

DE MANUEL CASTELLS

Aprovado em ____/____/____

Trabalho apresentado como requisito para conclusão de curso de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá, sob a apreciação da seguinte banca examinadora:

______________________________________

Walter Praxedes — UEM-PR

______________________________________

Antonio Ozaí da Silva — UEM-PR

______________________________________

Nilson Nobuaki Yamauti  — UEM-PR

BRILHADOR, Edimir. A intelecção da teoria da sociedade em rede de Manuel Castells. 2006. 73 f. Monografia (graduação em Ciências Sociais) — Universidade Estadual de Maringá. Maringá. 2006. 

RESUMO

Este trabalho analisa a teoria da “sociedade em rede” do sociólogo espanhol Manuel Castells contida na sua obra composta em três volumes A sociedade em rede. Objetiva entender a teoria e ressaltar os pontos relevantes como: a sociedade em rede e sua dependência das tecnologias da informação, a construção da identidade na sociedade em rede e a interpretação de fim de milênio. Resumidamente, a sociedade em rede é a nova estrutura social que surge no final do século XX, construída a partir dos fluxos de informação/comunicação formando uma rede global informacional. A dependência se caracteriza pela assimilação e intensificação do uso dos sistemas eletrônicos em todas as atividades humanas. Já a construção da identidade na sociedade em rede se dá pelo entrincheiramento do sujeito social em torno de um princípio comunal como a religião, a nação em oposição a um adversário bem definido, geralmente instituições sociais consideradas antiquadas, como o patriarcalismo e processos modernos como a globalização econômica. Na interpretação de fim de milênio é analisado as transformações macrossociais e macropolíticas ocorridas no último quarto de século, como a queda do Império Soviético, o crime organizado, o surgimento do quarto mundo, o desenvolvimento do Pacífico asiático e a criação do Estado em rede através da União Européia. Esta análise visa mostrar como Castells utilizou a teoria para a interpretação destes temas. A metodologia para a elaboração da pesquisa foi a análise focada na relação entre a teoria e os dados. Os resultados foram satisfatórios a contar pela contigüidade de informações locadas nestas páginas. O resultado foi compreensão da nova estrutura e dinâmica social baseada nas tecnologias da informação. A conclusão desta pesquisa é que, de fato, vivenciamos o limiar de uma nova era pautada na revolução da tecnologia da informação, na reestruturação do capitalismo e na ingerência de diversos movimentos sociais (feministas, ambientalistas, fundamentalistas etc) e que novas conjunturas favorecidas pela sociedade em rede redesenha o mapa do mundo com base na capacidade de assimilação tecnológica das nações, empresas e indivíduos criando vínculos inextirpáveis.   

Palavras-chave: Rede. Nós. Espaços. Fluxos. Informação. Sociedade.

SUMÁRIO

Introdução………………………………………………………………………………………………………………………  6

PARTE I

A teoria da sociedade em rede e sua dependência das tecnologias da informação……………………  9

PARTE II

A construção da identidade na sociedade em rede………………………………………………………………. 9

PARTE III

A interpretação de fim de milênio……………………………………………………………………………………  23

Conclusão…………………………………………………………………………………………………………………….. 66

Referências…………………………………………………………………………………………………………………… 69

Bibliografia…………………………………………………………………………………………………………………… 73

INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é o entendimento da teoria da sociedade em rede de Manuel Castells exposta em sua trilogia Sociedade em rede volumes I, II e III. Os esforços se concentram nos pontos relevantes da obra. Analisarei três características fundamentais da sua obra: a teoria da sociedade em rede e sua dependência em relação às tecnologias da informação, como as identidades estão em construção na sociedade em rede e a interpretação da conjuntura no final de século. A idéia é entender a relação da sociedade em rede e os diversos atores sociais.

Pretendo, ao longo deste trajeto, alcançar uma compreensão razoável sobre as transformações nas principais dimensões da vida humana: sociedade, economia, cultura, política etc., a partir do prisma do paradigma informacional, ocorridas no final de milênio. Castells diz que estas transformações são frutos do paradigma informacional porque tem como base a informação processada por computadores em rede. Para ele, a fusão entre os sistemas de telecomunicações tem criado uma gigantesca rede que interliga vários pontos do planeta, consolidando uma Rede global informacional. A Rede é global porque afeta todo o planeta por sua presença ou por sua ausência. A Rede é informacional porque está assentada nos sistemas eletrônicos de processamento da informação. A Rede é construída pela conectividade do Ser (ator social), mas afeta-o por sua desconexão. Esta Rede tem modificado substancialmente a sociedade no final do século XX. E quais são características que têm estas transformações? Entender como se processam estas transformações através do olhar de Manuel Castells é o desafio desta análise.

Destaco alguns aspectos que considerei relevantes na obra de Castells e que servirão para criar um centro de atenção no meu texto. A discussão, do meu ponto de vista, tem duas características principais que marcam a interação do Ser e a Rede. Estas características são: a interação/integração e a interação/oposição. Temos então, no primeiro caso, a visão de uma estrutura única, interdependente e interligada pelos sistemas eletrônicos de telecomunicações nos mais diferentes níveis e independente de contexto social, político e cultural. Uma Rede global que integra indivíduos, comunidades, cidades, regiões e países em uma mesma lógica, a lógica dos fluxos informacionais. Daí, uma sociedade homogeneizada. No segundo caso, a visão é de uma estrutura de oposição bipolar em que a lógica do Ser não combina com a lógica da Rede. Há uma divisão fundamental entre a globalidade da Rede e localidade do Ser. O Ser tem sempre um inimigo, que geralmente parece se esconder em forma de fluxo na Rede. Por outro lado, o Ser se esconde em trincheiras cavadas em sua própria particularidade. Daí uma sociedade heterogênea. Neste dois casos, o mundo é caracterizado pela presença ou ausência da Rede e pela conexão ou desconexão do Ser. Minha análise circula em volta destes dois centros de atenção. 

Procurarei à medida do possível dar precisão à exposição da teoria sem o compromisso de esgotar toda a envergadura da obra. Desenvolvo três partes. Na primeira parte, analiso a teoria da sociedade em rede e sua dependência em relação às tecnologias da informação. Falarei em linhas gerais dos fluxos de informação, riqueza e poder que dão à sociedade global a morfologia de rede. Tento explicar que a dependência se assenta na intensificação dos processos sociais apoiados pelos sistemas eletrônicos de processamento e comunicação que se desenvolveram com a revolução tecnológica e a reestruturação do capitalismo do final do século XX. Como já havia analisado o volume I quando fiz um projeto de iniciação científica, meu enfoque neste volume foi somente no sentido de buscar conteúdo para compreensão da teoria sociedade em rede e sua dependência das tecnologias da informação. Compreender em linhas gerais a teoria da sociedade em rede e os porquês da sua dependência das tecnologias da informação será a primeira tarefa. 

Na segunda parte, analisarei como as identidades estão em construção na sociedade em rede. Se a sociedade em rede é dependente das tecnologias da informação, as identidades são construídas com base numa luta constante contra a sociedade em rede. Mas um paradoxo se estabelece quando alguns movimentos utilizam-se da mesma tecnologia para levantar seu estandarte. A construção das identidades está baseada em comunas primárias como a localidade, a religião, a nação, o que resulta numa sociedade fragmentada e diversificada. A análise nesta segunda parte se caracteriza, primeiro, por um levantamento de informações que depois servirão para construir uma idéia da identidade. Como são construídas essas identidades? Esta é a minha segunda tarefa.

Na terceira parte, a interpretação do fim de milênio. Um exame sobre as macro-transformações econômicas, sociais e políticas ocorrentes na sociedade em rede, como informacionalização, globalização, atividades em rede e crise do Estado. A idéia aqui é entender como a interatividade entre diversos atores modifica as estruturas sociais existentes e para que mundo estas transformações apontam. Esta parte também se caracteriza por um levantamento de informações e depois uma conclusão que tenta integrar em afirmações coerentes os dados levantados ao longo da leitura. Entender o fim de milênio é a terceira tarefa.

Depois, na conclusão, para dar uma idéia geral da análise farei uma síntese bem geral da teoria. Não vou me preocupar com algumas especificidades, até porque já estão antecipadas nas conclusões de cada parte.

PARTE I —  A TEORIA DA SOCIEDADE EM REDE E SUA DEPENDÊNCIA DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO

Nesta primeira parte vou estudar a teoria da sociedade em rede[a] e sua dependência das tecnologias da informação. Antes, no primeiro momento da análise, a teoria da sociedade em rede na qual Castells apresenta a rede global informacional caracterizada por fluxos de informações, riqueza e poder. Em linhas gerais, a rede é polarizada por três importantes regiões do planeta, cujas características específicas cria interdependência. Ela tem uma lógica estrutural hierárquica e uma lógica relacional de fluxos. Possui uma estrutura permanente e uma geometria variável. É adaptável e flexível de acordo com o contexto econômico, político, social e cultural. Além de interagir com o ambiente sócio-técnico e institucional, tem o poder de conectar ou desconectar o Ser. Os efeitos desta dinâmica são diversidade, fragmentação e segmentação social.  Depois, no segundo momento, a dependência da sociedade em rede das tecnologias da informação. A dependência está relacionada à assimilação dos meios eletrônicos de processamento de dados e transmissão de imagens, sons e mensagens. As tecnologias da informação aceleraram os processos sociais que se desenvolviam desde as décadas de 50 e 60. A partir do momento em que a tecnologia da informação se infiltrou em quase todos os aspectos da vida social, a sociedade em rede passou a funcionar globalmente como uma unidade de tempo real. Surgiu, então, uma nova forma de relação entre economia, Estado e sociedade: a economia em rede, a empresa em rede, o trabalho em rede e redes de comunicação interativa. Duas causas encerram esta dependência: a primeira foi a revolução das tecnologias da informação, a segunda foi a reestruturação do capitalismo.

Esta parte da análise tem o objetivo de entender a sociedade em rede e sua dependência das tecnologias da informação, observando como os atores sociais interagem com a rede. O que se apresenta preliminarmente é a de uma interação/integração do Ser com a Rede, pois quando os atores sociais assimilaram os meios eletrônicos, se tornaram nós integrados na rede global informacional.

Analisemos primeiramente a sociedade em rede.

A teoria da sociedade em rede se assenta em alguns conceitos chaves. Estes são: “rede” e “fluxos”. Por rede se entende um conjunto de nós interconectados. Nó é o ponto onde uma curva se entrecorta. O tipo de nó depende do tipo de rede que falamos. Mais precisamente, como Castells mesmo expõe, os nós são mercados, bolsas de valores, empresas, instituições, conselhos nacionais de ministros, campos de coca e de papoula, laboratórios clandestinos, pistas de aterrissagem secretas, gangues de rua e instituições financeiras para lavagem de dinheiro, sistemas de televisão, estúdios de entretenimento, meios de computação gráfica, equipes para cobertura jornalística e equipamentos gerando, transmitindo e recebendo sinais na era da informação.[1] A rede é, portanto, formada de pontos nodais interligados entre si via sistemas de telecomunicações e/ou transportes.

Por fluxos, os intercâmbios entre os pontos nodais da rede. Os fluxos são “seqüências programáveis e repetitivas, de intercâmbio e interações entre posições fisicamente distanciadas”.[2] São fluxos da informação, fluxos de capital, fluxos da tecnologia, fluxos de pessoas, fluxos de bens, fluxos de serviços, fluxos de poder, fluxos de conhecimento, imagens, sons e símbolos.

A partir destes conceitos se desenvolve um terceiro, também importante. Alguns pontos nodais da rede são entendidos como “espaços de fluxos”. São pontos específicos em várias partes do planeta que concentram o melhor da tecnologia, profissionais especializados e serviços avançados. Com apoio de boa teoria, Castells define o espaço como “suporte material de práticas sociais de tempo compartilhado”. Espaço de fluxos é, então, a “organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos”.[3]

O espaço de fluxos pode ser entendido pela descrição de três camadas de suportes materiais. A primeira é a dos circuitos eletrônicos, a segunda é constituída por seus nós e centros de comunicação e a terceira refere-se à organização espacial das elites gerenciais dominantes. Então, espaço de fluxos é um lugar localizado, geralmente, numa grande cidade que funciona como nó da rede global e que concentra uma elite dominante em vários setores da vida e que processa suas atividades através de fluxos na rede de circuitos eletrônicos.[4]

Baseado em Castells, a estrutura central da rede global é formada por três macro-regiões centralizadas nos EUA, Europa e Japão, cujas características específicas diferenciam estes pólos em sua forma, organização e funcionamento gerando interdependência. Em sua expressão mais ampla é o núcleo da rede global e em volta de seus pólos principais há uma hinterlândia de países, regiões e cidades de menor expressão. Estas três áreas são caracterizadas pela riqueza de capital, informação e tecnologia em oposição assimétrica à sua vizinhança empobrecida e sem valor. Na periferia da rede, países em desenvolvimento e pequenos segmentos fragmentados com base informacional se conectam à economia global através de seus pólos regionais, mas uma boa parte dos países não tem nenhuma relevância e estão excluídos do sistema global.

Caracterizarei em linhas gerais a complexa estrutura e dinâmica da rede. Diversas redes se formam a partir da rede global. Estas redes estão entrelaçadas. Segundo Castells, “redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação”.[5] A rede global informacional é um complexo de outras redes interligadas entre si pelos mesmos códigos. A sociedade em rede é ainda uma sociedade capitalista, contudo o capital na sociedade em rede tem duas características básicas, afirma ele: é global e está estabelecido em rede de fluxos financeiros. Daí que, a mãe de todas as redes é a rede financeira global, uma metarrede que unifica e comanda as atividades do Ser em submissão à rede global. Esta rede é suportada por outras redes eletrônicas de informação, formadas pela fusão entre os sistemas de telecomunicações. As redes eletrônicas de informação mundial são frutos da fusão entre a tecnologia informática e de telecomunicações, cuja maior expressão foi a Internet, a rede mundial de computadores. Esta rede eletrônica propiciou a formação de redes transnacionais de empresas, com a produção em rede independente das fronteiras dos países. As principais multinacionais do mundo em telecomunicações e de outros segmentos da economia fizeram fusões entre si, o que deu forma à economia em rede. As empresas cada vez mais se organizam em redes, tanto internamente como em seus relacionamentos externos. Pode ser dito que existem redes entre empresas e redes dentro de empresas, que são capazes de formar-se e expandir-se por todas as avenidas e becos da economia global, porque contam com o poder da informação e comunicação em tempo variável propiciado pelo novo paradigma tecnológico. Existem redes de pequenas empresas subordinadas às redes globais de empresas. Uma rede de transporte aéreo vincula-se a uma rede de transporte terrestre. Redes de produção dependem de redes de distribuição. Redes de televisão são partes de um conglomerado de redes de empresas da área de comunicação. Os telespectadores dispersos estão vinculados nas redes televisivas pelos fluxos de imagens e sons, hoje com a capacidade de interagir com a programação. Há redes globais e locais de rádio e televisão. A Internet articula as pessoas numa rede eletrônica de relacionamentos aleatórios ao nível do indivíduo sem começo, meio e fim. Através dos fluxos financeiros, indivíduos de qualquer lugar do mundo se conectam na rede financeira global. Enfim, a rede é uma estrutura flexível e adaptável bem-servida por uma combinação entre a aglomeração de redes centrais e a participação dessas redes centrais e de suas redes dispersas auxiliares em redes globais, via telecomunicações e transporte aéreo com intensa participação das características institucionais de cada cultura.

Segundo Castells, a arquitetura da rede é de uma estrutura permanente e uma geometria variável. De certa forma, esta característica é creditada principalmente ao complexo padrão de interação entre Estado, cultura e sociedade em que a rede está estruturada. A assimetria é percebida no tamanho do PIB, na transferência tecnológica, na comparação do volume e tipo de comércio entre os países que estão mais próximos do núcleo central da rede e os países periféricos. Nas empresas pelas posições ocupadas por uma minoria de profissionais especializados, geralmente em posições de comando e nos serviços avançados, em oposição a uma maioria pouca qualificada, cuja ocupação são serviços rotineiros, repetitivos que requerem pouca aplicação de conhecimento. No trabalho é patente porque os países dominantes concentram o maior número de profissionais especializados, os melhores engenheiros e cientistas trabalhando nas melhores funções, geralmente de planejamento, gerência, consultoria, projetos etc., enquanto os trabalhadores dos demais países se ocupam com a execução da parte mais bruta do processo produtivo. Na organização do espaço, onde o espaço de fluxos está organizado em volta do interesse da classe dominante. A elite em oposição à população ocupa cotidianamente este espaço enquanto a grande maioria das pessoas está completamente fora.[6]

Junto com a geometria variável, a rede é dotada de flexibilidade e adaptabilidade. Segundo Castells a flexibilidade da rede é resultado de transformações que operavam muito antes da difusão das tecnologias da informação, mas sofreu um processo de intensificação com a sua chegada.[7] A flexibilidade e adaptabilidade da rede são creditadas aos modernos meios oferecidos pela tecnologia da informação que permitem o deslocamento dos processos produtivos e gerenciamento a distancia da produção. Países e suas multinacionais adaptaram a produção de acordo com a oferta de mão-de-obra, matéria-prima e mercado consumidor. Diversas etapas da produção são distribuídas pela rede em vários pontos nodais ao redor do globo, de acordo com a hierarquia da rede e suas características institucionais e culturais. Geralmente os serviços de planejamento e gerenciamento que dependem de alto grau de informação se localizam nos grandes centros, ou país sede, e os serviços menos qualificados, a produção material de baixo valor informacional, é estabelecido no exterior.  A distribuição também é feita de forma flexível e adaptada ao mercado consumidor, seja pela diversidade ou quantidade de consumo. As empresas adquiriram a capacidade de gerenciamento flexível tanto externamente com as parcerias com outras empresas como internamente através de uma reestruturação organizativa da hierarquia administrativa saindo de uma estrutura vertical para uma horizontal, dando mais poder de decisão aos funcionários no chão da fábrica como também um equilíbrio de decisões entre os gerentes de vários setores da empresa. A estrutura do trabalho se modificou e se tornou flexível, criando o trabalho em rede e jornadas de trabalho flexíveis com jornadas menores, onde aparecem os trabalhadores de meio-expediente e trabalhadores autônomos adaptando-se à lógica da nova forma de produção.[8]

A rede é seletiva. Ela estrutura os processos sociais de forma diversificada, fragmentada e segmentada e depois seleciona o segmento sócio-econômico de acordo com o seu nível informacional para incluí-lo, ou o rejeita. Abstraindo do texto de Castells, a seletividade da rede caracteriza-se por:

Interdependência, assimetria, regionalização, crescente diversificação dentro de cada região, inclusão seletiva, segmentação excludente e, em conseqüência de todos esses fatores, por uma geometria extraordinariamente variável que tende a desintegrar a geografia econômica e histórica.[9] [grifos do autor]

A sociedade em rede é global porque afeta todo o planeta, mas nem é preciso que todos atores do panorama mundial estejam presentes na rede. Ela afeta todo o planeta pela segmentação, diversificação, inclusão ou exclusão de pessoas a enormes regiões de acordo com os valores pertinentes da sociedade informacional. As conexões com a rede só serão possíveis se houver na sociedade o poder de receber ou emitir fluxos via tecnologias da informação. A rede segmenta mercados regionais que possam oferecer algum valor econômico ou cultural e que tenha se submetido à lógica informacional dos fluxos para conectá-los e automaticamente desconecta as regiões cuja existência contrariam esta lógica. A rede é seletiva porque afeta todo o planeta por inclusão ou exclusão. A seletividade é proeminente nas redes de empresas e no mercado de trabalho. As redes de empresas formadas por multinacionais são altamente seletivas se considerado do ponto de vista do poder destas empresas. Elas escolhem o país onde estabelecem suas unidades industriais, o mercado de mão-de-obra, sua rede de fornecedores e distribuidores. Em linhas gerais, esta é a teoria da sociedade em rede de Manuel Castells. Agora analisarei a dependência da sociedade em rede das tecnologias da informação.

A sociedade do fim do século XX assimilou, incorporou e promoveu a utilização dos sistemas eletrônicos de geração, armazenamento, processamento e transmissão de informação. A dependência se dá com a transferência de parte das atividades humanas para pacotes binários de informação, formando uma imensa rede de interatividade global e informacional. A sociedade se vê envolvida por um emaranhado de circuitos do qual não é mais permitido desvencilhar-se. A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo são os dois pontos importantes relacionados a esta dependência. Estes processos forçaram o estabelecimento e a penetração destes circuitos eletrônicos em todos os becos da sociedade mundial dotados de uma infra-estrutura mínima. Surgiu a economia em rede que depende dos meios eletrônicos para seu funcionamento. Mas a dependência não está somente no campo econômico, no cultural e no político também. Todavia, por questão de espaço, avaliarei somente o aspecto econômico, acredito que será o suficiente para o propósito estabelecido.   

Ao analisar como Castells expõe esta dependência, requer colocar em relevância os sistemas eletrônicos de telecomunicações. São estes sistemas que aumentam exponencialmente o poder dos fluxos. Os sistemas eletrônicos ao ampliarem o poder de transmissão de informação concomitantemente ampliam o poder da comunicação. Comunicação, espaço e tempo são substancialmente importantes para as relações sociais na sociedade informacional. Estes aspectos materiais da cultura foram cuidadosamente analisados por Castells e compõem a base da qual emerge a dependência da sociedade em rede das tecnologias da informação. O processo de formação da sociedade em rede é pautado por modificações do espaço e do tempo causado pelos sistemas eletrônicos de geração, processamento e transmissão de informações. É este triplé com os sistemas eletrônicos no alto e espaço e tempo abaixo que minha análise percorre a economia em rede na busca de encontrar os pontos da análise de Castells que comprovem a proposta deste estudo. Sendo assim, avaliarei, primeiramente os sistemas eletrônicos de comunicação, o espaço e o tempo para depois me referir à economia em rede. Não esquecendo que a sociedade em rede se tornou dependente deste sistema porque ao percebê-lo como um meio de facilitar as suas atividades, promoveu e intensificou seu uso, entrando em um círculo virtuoso. Cada ator social, considerado sua posição, que buscou nas tecnologias um meio de facilitar suas práticas sociais, acabou interagindo com a rede e, por fim, integrando-se a ela. Como tinha dito, uma interação/integração que os tornou nós da rede, portanto dependente. Verifiquemos. 

A tecnologia da informação é um conjunto de conhecimentos técnicos sobre sistemas eletrônicos de comunicação e transmissão de informações. Este conhecimento possibilitou que a tecnologia da informação atuasse sobre a própria tecnologia da informação. A sua evolução contínua facilitou cada vez mais a transmissão eletrônica de informação via pacotes de bits intensificando o processo de comunicação de acordo coma as formas sociais preexistentes. Estas formas sociais junto com o avanço das técnicas forçaram a flexibilização da comunicação de massa para uma comunicação segmentada e diversificada. Segundo Castells, o rádio perdeu centralidade, mas ganhou penetrabilidade e flexibilidade. A televisão ganhou centralidade e se tornou a mídia de massa, ou grande mídia, com muita rapidez. Uma nova forma de comunicação surgiu com a mediação de computadores. A comunicação deixou de ser de uma única via para ser interativa. A WWW (World Wide Web) se tornou uma rede flexível dentro da Internet, onde empresas, pessoas, organizações e instituições atuam numa grande teia mundial de comunicação individualizada e interativa graças à tecnologia da informação. A Internet contém a interatividade e a individualização tecnológicas culturalmente embutidas.[10] 

Redes de televisão, redes de rádios, redes de telefonia, redes de agências de notícias enviam fluxos constantes de imagens, sons, mensagens, informações e conhecimento. Os sistemas eletrônicos dominaram todos os aspectos da comunicação. Castells fala que “o surgimento de um novo sistema eletrônico de comunicação caracterizado pelo seu alcance global, integração de todos os meios de comunicação e interatividade potencial está mudando e mudará para sempre nossa cultura”.[11]

Nas minhas observações de Castells, entendo que a sociedade em rede é dependente das tecnologias da informação porque usa a tecnologia para facilitar suas ações, com isto, evidentemente intensificando-as. Vale a pena fazer esta extensa citação:  

Assim, as comunidades do norte da Califórnia por ele[b] estudadas adotaram o telefone para melhorar as redes sociais de comunicação existentes e reforçar seus hábitos sociais profundamente enraizados. O telefone foi adaptado, não apenas adotado. As pessoas moldam a tecnologia para adaptá-la a suas necessidades… O modo de comunicação eletrônica multipessoal representado pela CMC[c] tem sido usado de formas diferentes e para diferentes finalidades, tantas quantas existem no âmbito da variação social e contextual entre seus usuários. O denominador comum da CMC é que, de acordo com os poucos estudos existentes sobre o assunto, ela não substitui outros meios de comunicação nem cria novas redes: reforça os padrões sociais preexistentes. Contribui com a comunicação telefônica e do setor de transportes, expande o alcance das redes sociais e possibilita que elas interajam de forma mais ativa e em horários optativos. Como o acesso à CMC é cultural, educacional e economicamente restritivo, e continuará assim por muito tempo, seu impacto cultural mais importante poderia ser o reforço potencial das redes sociais culturalmente dominantes, bem como o aumento de seu cosmopolitismo e globalização. Não que a CMC per se seja mais cosmopolita. Como Fischer demonstrou, as primeiras redes telefônicas favoreceram mais a comunicação local do que a interurbana. Em algumas das comunidades virtuais, a exemplo da SFNET na área da Baía de San Francisco, a maioria de seus usuários são residentes locais, e alguns deles se vêem pessoalmente em comemorações periódicas para alimentar sua intimidade eletrônica. As redes eletrônicas em geral, no entanto, tendem a reforçar o cosmopolitismo das novas classes profissionais e empresariais que simbolicamente moram em uma estrutura de referência global, ao contrário da maioria da população de qualquer país. Portanto a CMC pode ser um meio poderoso para reforçar a coesão social da elite cosmopolita, fornecendo um apoio importante ao significado de uma cultura global, que vai da elegância de um endereço eletrônico à circulação rápida das mensagens em moda.[12] [Grifos nossos]

Vale destacar também o empenho dos governos para a instalação de sistemas multimída que:

Estende o âmbito da comunicação eletrônica para todo o domínio da vida: de casa a trabalho, de escolas a hospitais, de entretenimento a viagens. Em meados dos anos 90, governos e empresas do mundo inteiro empenhavam-se em uma corrida frenética para a instalação do novo sistema, considerado uma ferramenta de poder, fonte potencial de altos lucros e símbolo de hipermodernidade.[13]

As novas tecnologias permitem o funcionamento da sociedade mundial como uma unidade de tempo real. Um fator importante para isso foi a alteração do conceito de tempo estabelecido pelas tecnologias da informação: o tempo intemporal, e flexível. O conceito de tempo, segundo Castells, mudou devido à capacidade de colar num supertexto passado, presente e futuro, imagens, sons e escrita e permitir uma interação deslocada no tempo pela comunicação mediada por computadores com perguntas no presente e respostas retardadas, como também em tempo real, além de multidirecionais, de um para com muitos e de muitos para com um. O tempo não é apenas contado, mas processado pelos mecanismos tecnológicos. Como diz Castells, este sistema depende: “da temporalidade flexível, da capacidade de acelerar ou desacelerar o produto e os ciclos de lucros, do tempo compartilhado por equipamentos e pessoal e de controle das defasagens de tempo da tecnologia disponível em relação à concorrência”.[14]

Graças aos mecanismos tecnológicos que tornam o tempo flexível e intemporal “a economia mundial conseguiu tornar-se verdadeiramente global com base na nova infra-estrutura, propiciada pelas tecnologias da informação e comunicação”.[15] Temos, então, pela primeira vez na história um mercado global unificado, funcionando em tempo real. O capital é gerenciado vinte quatro horas por dia nos mercados financeiros globalmente integrados. Localizados em nós globais de uma rede seletiva de telecomunicações, poderosos analistas com seus poderosos computadores e programas participam do jogo bilionário mundial numa busca desesperada pelo lucro. Uma rede formada por especuladores desconhecidos, mas principalmente por grandes bancos, fundos de pensão e grandes multinacionais. O tempo é crucial para a geração de lucros. A velocidade das transações gera ganhos ou perdas. E somente uma tecnologia altamente sofisticada permite a interação com esta rede bilionária.[16]

A tecnologia permite o funcionamento integrado da sociedade a nível mundial em tempo real. A economia global/informacional, segundo Castells, é organizada em torno de centros de controle (espaços de fluxos) e comando capazes de coordenar, inovar e gerenciar as atividades interligadas das redes de empresas. Os serviços avançados (marketing, finanças, propaganda, gerenciamento de sistemas de informação etc.) estão no cerne de todos os processos econômicos. Estes serviços “podem ser reduzidos à geração de conhecimentos e a fluxos de informação. Portanto, os sistemas avançados de telecomunicações poderiam possibilitar sua localização dispersa pelo globo”.[17] De um lado, estes serviços aumentam nas principais regiões metropolitanas do mundo e, de outro lado, tem havido uma concentração espacial de camadas superiores nos principais pontos nodais de alguns países. Esta lógica do espaço de fluxo junto com o advento da indústria de alta tecnologia, ou seja, a indústria com base na microeletrônica e assistida por computadores, introduziu uma nova lógica no espaço industrial.

Esse espaço caracteriza-se pela capacidade organizacional e tecnológica de separar o processo produtivo em diferentes localizações, ao mesmo tempo em que reintegra sua unidade por meio de conexões de telecomunicações e da flexibilidade e precisão resultante da microeletrônica na fabricação de componentes.[18]

Por isso, a economia é altamente dependente das tecnologias da informação. O novo paradigma tecnológico incorpora mais informação ao produto e ao processo produtivo. Configura-se uma nova organização econômica a partir da evolução tecnológica.  As novas tecnologias agem sobre todos domínios da atividade humana. Elas estão infiltradas no tecido sócio-econômico, cuja circulação de informações em tempo real é crucial para o funcionamento da economia.

Castells fala da Revolução da Tecnologia da Informação e da sua relação com a nova economia. Para ele a associação de tecnologias da informação com a economia criou a que ele chamou de economia informacional:

Porque a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos… porque a Revolução da Tecnologia da Informação fornece a base material indispensável para essa nova economia… Sem dúvida, informação e conhecimentos sempre foram elementos cruciais no crescimento da economia, e a evolução da tecnologia determinou em grande parte a capacidade produtiva da sociedade e os padrões de vida, bem como formas sociais de organização econômica… A emergência de um novo paradigma tecnológico organizado em torno de novas tecnologias da informação, mais flexíveis e poderosas, possibilita que a própria informação se torne o produto do processo produtivo. Sendo mais preciso: os produtos das novas indústrias de tecnologia da informação são dispositivos de processamento da informação ou o próprio processamento da informação. Ao transformarem os processos de processamento da informação, as novas tecnologias da informação agem sobre todos os domínios da atividade humana e possibilitam o estabelecimento de conexões infinitas entre os diferentes domínios, assim como entre os elementos e agentes de tais atividades. Surge uma economia em rede profundamente interdependente que se torna cada vez mais capaz de aplicar seu progresso em tecnologia, conhecimentos e administração na própria tecnologia, conhecimentos e administração. Um círculo tão virtuoso deve conduzir à maior produtividade e eficiência, considerando as condições corretas de transformações organizacionais e institucionais igualmente drásticas.[19]

Há agropecuária informacional, indústria informacional e atividades de serviços informacionais que produzem e distribuem com base na informação e em conhecimentos incorporados no processo de trabalho pelo poder cada vez maior das tecnologias da informação. O que mudou não foi o tipo de atividades em que a humanidade está envolvida, mas sua capacidade tecnológica de utilizar, como força produtiva direta, aquilo que caracteriza nossa espécie como uma singularidade biológica: nossa capacidade superior de processar símbolos. [20]

A densidade de informações contida nestas passagens não me permite uma análise mais detalhada no espaço que me é reservado. Creio que meu dever é fazer alguns comentários que dêem respostas à minha proposta colocada acima: a de entender porque a sociedade em rede é dependente das tecnologias da informação. Por isso, vou deixar que as palavras de Castells falem por si só e seguirei com o meu objetivo.

As tecnologias da informação causaram transformações no mundo das empresas. Por isso, as empresas da economia informacional revelam substancialmente a dependência que a sociedade em rede tem das tecnologias da informação. São elas as fomentadoras do uso das tecnologias da informação. Como nenhuma outra organização social dependem basicamente da capacidade de gerar, processar e aplicar a informação. Na busca de satisfazerem suas necessidades patrocinam e incentivam a disseminação das tecnologias da informação, seja como meio técnico de produção em rede, seja como o próprio produto de consumo, tanto para as próprias empresas como para as pessoas. A sociedade em rede se torna cada vez mais dependente das tecnologias à medida que cada vez mais há o interesse comercial em expandir o uso da tecnologia.

As tecnologias da informação são, em grande parte, responsáveis pelo estabelecimento do sistema de gerenciamento flexível da produção em rede. As empresas reestruturam sua organização interna e externa em forma de rede, graças ao apoio de computadores interligados entre si, e estabelecem novas metas de produção, como também novo tipo de produzir, uma produção flexível, além de flexibilizar o produto de acordo com a diversidade do mercado. Ao analisar as empresas, Castells detecta a presença marcante destas tecnologias. Neste particular, ele cita Boyett e Conn: “A capacidade de reconfiguração das grandes empresas norte-americanas, de parecerem pequenos negócios e agirem como tal pode, pelo menos em parte, ser atribuída ao desenvolvimento da nova tecnologia, que torna desnecessárias camadas inteiras de gerentes e funcionários”.[21]

Esta nova lógica da produção baseada nas tecnologias da informação descentraliza a administração, individualiza o trabalho e personaliza os mercados. As tarefas são executadas e coordenadas em uma rede interativa de comunicação em tempo real entre continentes ou entre andares de um mesmo edifício. Isto permite a subcontratação, terceirização, redução de quadro funcional e produção sob encomenda. O modelo da nova forma de produção é o de uma força de trabalho permanente formada por administradores que atuam com base na informação e por uma força de trabalho disponível que pode ser automatizada, ou contratada/demitida/enviada para o exterior. O que interessa para as empresas é a condição de poder acessar a mão-de-obra e bens quando necessário.[22]

O processo de trabalho foi modificado com o advento da tecnologia da informação. Segundo Castells, durante a década de 80 a microeletrônica se difundiu pela indústria, e somente na década de 90 os computadores chegaram às atividades relacionadas a processamento da informação. Baseado em pesquisas sociológicas, afirma que a tecnologia não é a responsável pela organização do trabalho, e que para entender a organização social do trabalho de nosso tempo é preciso considerar uma intrincada teia de relações tecida pela interatividade histórica entre transformação tecnológica, política das relações industriais e ação social conflituosa. Em suma,

Apesar dos enormes obstáculos da administração autoritária e do capitalismo explorador, as tecnologias da informação exigem maior liberdade para trabalhadores mais esclarecidos atingirem o pleno potencial da produtividade prometida. O trabalhador atuante na rede é o agente necessário à empresa em rede, possibilitada pelas novas tecnologias da informação.[23]

A difusão das tecnologias da informação produziu efeitos bastante similares em fábricas, escritórios e organizações de serviços. O principal efeito é desaparecimento das tarefas rotineiras, repetitivas que podem ser pré-codificadas e programadas para que máquinas executem.

Não deveria surpreender que as tecnologias da informação fizessem exatamente isto: substituir o trabalho que possa ser codificado em uma seqüência programável e melhorar o trabalho o trabalho que requer capacidade de análise, decisão e reprogramação em tempo real, em um nível que apenas o cérebro humano pode dominar. Todas as outras atividades, dado o baixo preço, são potencialmente suscetíveis de automação e, portanto, o trabalho nelas envolvido é dispensável.[24]

Como conclusão do exposto acima, pode-se dizer que Castells apresenta a teoria da sociedade em rede que tem como base de sua organização as tecnologias da informação. A rede é formada por fluxos de informação, poder e riqueza. Estes fluxos conectam vários pontos nodais em todo o mundo desde que possua uma infra-estrutura tecnológica em telecomunicações mínima e uma lógica semelhante. Estes pontos de conexão são chamados de espaços de fluxos e apresentam três níveis: circuitos eletrônicos, nós e centros de comunicação e a organização espacial da elite dominante. Os três principais pólos econômicos que estruturam a rede são EUA, Japão e Europa. A rede é altamente complexa devido sua lógica estrutural hierárquica e sua lógica relacional de fluxos. Em suas principais características tem uma arquitetura assimétrica variável dotada de flexibilidade e seletividade. Por isso, conecta e desconecta o Ser. 

A dependência da sociedade em rede das tecnologias da informação se estabelece porque ela transfere para os circuitos eletrônicos as suas práticas sociais. O advento da Revolução Tecnológica da Informação intensificou as praticas sociais e as integrou em uma rede global de interatividade informacional. A rede é um conglomerado que agrupa sistemas eletrônicos de telecomunicações em nível mundial baseado em processamento das informações via computador e possibilita mudanças em duas grandes dimensões da vida humana: o espaço e o tempo. Com isto, juntou no espaço de fluxos e na sua intemporalidade o melhor de todas as áreas da atividade humana (profissionais e empresas de finanças, comunicações, marketing etc), possibilitando que suas atividades fossem executadas em tempo real. A sociedade em rede, cuja arquitetura tem uma geometria assimétrica e variável e que os seus nós se conectam entre si por intercâmbios de fluxos de informações, riqueza e poder, cria uma dependência recíproca ao estabelecer uma economia de pontos nodais em rede. Neste tipo de economia, o processo de produção é fragmentado para diversos pontos da rede e depois reorganizado em forma de produto final com o controle preciso dos sistemas de gerenciamento flexível da produção apoiado pelos sistemas eletrônicos de telecomunicações. Assim, enquanto um ponto nodal estruturalmente em posição hierárquica mais relevante da rede é responsável pelo planejamento, gerenciamento e marketing, outro ponto cumpre as obrigações da produção e outro da distribuição. Um nó não pode se desvincular do outro.

Em paralelo, a crise da produção em massa dos anos 70 causou a reestruturação do capitalismo, que vis-a-vis a revolução da tecnologia da informação, intensificou ainda mais as praticas sociais capitalistas e concomitantemente a dependência da tecnologia num círculo virtuoso. Temos, então, um mercado global unificado funcionando em tempo real. O capital é gerenciado vinte quatro horas por dia nos mercados financeiros globalmente também integrados. A sociedade em rede, cujas características principais são diversificação, segmentação e fragmentação social e econômica, opera na lógica de fluxos via circuitos eletrônicos que possibilita a localização dispersa pelo globo e com isso atua por seletividade em função da capacidade do Ser em receber e emitir fluxos de conhecimento e informação. Em outras palavras, a sociedade em rede não funciona fora dos circuitos eletrônicos.

Acredito que esta breve análise da economia em rede é suficiente para demonstrar a dependência das tecnologias da informação. A relação de dependência sociedade/tecnologia estabelece na economia em rede um padrão de interação: interação/integração. Este padrão é visto quando uma economia integra mercados, nos fluxos de capitais que integram investidores em qualquer parte do mundo, na empresas em rede que integram-se em alianças estratégicas e na Internet que integra indivíduos, e daí por diante. O aprofundamento desta dependência é nítido porque todos os processos sociais dependem de um aspecto fundamental da existência humana: a comunicação. Como o sistema eletrônico facilita e agiliza a comunicação, boa parte das atividades da elite dominante e quase todas as dimensões da vida social estão na rede em forma de fluxos circulando na autopista da informação. À medida que cada vez mais a tecnologia se infiltra no cotidiano, mais e mais o Ser interage com a Rede e mais estabelece a dependência. Ao transformarem os processos de processamento da informação, as novas tecnologias da informação agem sobre todos os domínios da atividade humana e possibilitam o estabelecimento de conexões infinitas entre os diferentes domínios. Quanto mais o Ser se encontra com a lógica eletrônica dos fluxos, mais ele se integra nos fluxos globais da rede. Não é possível remover um, sem demover outro. A tecnologia finca vínculos inextirpáveis na sociedade em rede.

PARTE II —  A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE NA SOCIEDADE EM REDE

O objetivo desta parte é entender como se dá a construção da identidade na sociedade em rede. Vejamos o que Castells expõe por identidade: “processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais) prevalece(m) sobre outras fontes de significado”.[25] A construção da identidade “vale-se da matéria-prima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso”.[26] Identidades são fontes de significado e organizam significados. Neste caso, significado é a identificação simbólica e o significado se organiza em torno de uma identidade primária. Castells propõe três tipologias no estudo da construção de identidades. A tipologia legitimadora[d] que dá origem à sociedade civil, a tipologia destinada à resistência[e] que leva à formação de comunas, e a tipologia de projeto[f] que leva à formação de sujeitos.[g] Identidades são fontes de significado e organizam significados.

Castells dá ênfase à identidade de resistência e a de projetos em detrimento da identidade legitimadora. Quanto à identidade de projetos, diz ele, nasce como prolongamento da identidade de resistência. Quanto à construção de identidades de resistência está fundamentada no prolongamento da resistência comunal. Mas, como se dá a construção da identidade na sociedade em rede? A resposta só pode ser encontrada no contexto bem específico, a sociedade em rede, que trás à tona processos de construção da identidade que induzem a novas formas de transformação social.

A minha análise seguirá a idéia geral proposta por Castells de que a construção da identidade na sociedade em rede é a representação que o sujeito faz de si mesmo em torno de uma identidade primária, colhendo os elementos de sua representação em sua especificidade social, histórica e geográfica em interação com as redes de fluxos globais.

Para compreender como se processa a construção da identidade na sociedade em rede, selecionei os principais aspectos da análise de Castells. Como o objetivo é conhecer os pontos relevantes, desconsiderei os esquemas interpretativos secundários embutidos na obra, como o de Alain Touraine, até por questão de alcance deste trabalho. Também dei uma ênfase maior nos quatro primeiros capítulos por se tratarem diretamente dos atores sociais em construção de identidade. Os aspectos selecionados são: oposição a um inimigo, ou adversário declarado; compartilhamento de algumas fontes de identidade e auto-representação com a organização de significados em torno de uma comunidade primária; organização em redes; utilização da mídia como meio de expressão e aumento de poder; uma meta societal a alcançar; diversidade como conseqüência de suas especificidades históricas, geográficas e cultural.

1. A principal forma de construção da identidade na sociedade em rede é por uma oposição[h] a um inimigo, ou adversário declarado. A maior parte das ações sociais organiza-se ao redor da oposição entre fluxos não identificados e identidades segregadas. Os atores sociais “reagem contra a globalização e seus agentes políticos”, que atuam com base em “um processo contínuo de informacionalização”.[27] A discussão sobre a identidade é marcada por uma oposição entre o global e o local, a rede e a identidade, homogeneização e heterogeneização, ações processadas na rede e reações à rede, e fluxos versus entrincheiramento. 

Partindo para nossos exemplos, o fundamentalismo islâmico tem como inimigos o Estado-Nação, o nacionalismo, o socialismo e o processo de globalização. Para o fundamentalismo islâmico “os atores sociais devem se desconstruir como sujeitos, sejam eles indivíduos, membros de um grupo étnico ou cidadãos de uma nação”, e se reconstruir através da umma, pois “somente por meio da umma poderá o indivíduo ser plenamente ele próprio, como parte da comunidade dos fiéis, um mecanismo básico de equalização que oferece apoio mútuo, solidariedade e significados compartilhados”.[28]  “Desse modo, a identidade islâmica é (re)construída pelos fundamentalistas por oposição ao capitalismo, ao socialismo e ao nacionalismo, árabe ou de qualquer outra origem, que, em sua visão, são todas ideologias fracassadas provenientes da ordem pós-colonial”.[29]   

Os cristãos norte-americanos têm como inimigos a crise do patriarcalismo, os movimentos gay e lesbiano e a globalização. Trata-se de um movimento reativo, voltado à construção da identidade social e pessoal.[30] Um dos “temas recorrentes do fundamentalismo cristão nos Estados Unidos durante a década de 90 é a oposição ao controle do país exercido por um ‘governo mundial’, com autoridade sobre o governo federal dos EUA”.[31] A construção da identidade do fundamentalismo cristão norte-americano “parece ser uma tentativa de reafirmação do controle sobre vida e sobre o país, uma reação direta ao processo desenfreado de globalização que se faz cada vez mais presente na economia e na mídia”.[32]

O nacionalismo tem por oposição o estrangeiro. Quando se desmembrou a URSS o “princípio de nacionalidade territorial concentrou nas repúblicas recém-independentes dezenas de milhões de pessoas que, do dia para a noite, se tornaram ‘cidadãos nacionais estrangeiros’”.[33]

Os zapatistas, a milícia norte-americana e a Verdade Suprema[i] têm como adversário: a nova ordem global, personificada de forma diferente de acordo com a visão de cada um dos movimentos. Para o zapatista é a união do imperialismo norte–americano com o governo corrupto do PRI.[j] Para as milícias são as instituições internacionais mais o governo federal dos Estados Unidos. Para a Verdade Suprema é a ameaça global proveniente de um governo mundial representante dos interesses das multinacionais, do imperialismo norte-americano e da polícia japonesa.[34] Os “três movimentos são basicamente organizados em torno de uma oposição a um adversário que, grosso modo, é o mesmo: os agentes da nova ordem global, que procuram estabelecer um governo mundial que irá subjugar a soberania de todos os países e de todos os povos”. [35]

Os inimigos declarados dos movimentos urbanos são o capitalismo, estatismo e informacionalismo. Diante destes processos homogeneizadores e globalizantes não restou outra alternativa aos movimentos urbanos senão renderem-se ou reagirem com base na fonte mais imediata de auto-reconhecimento e organização autônoma: seu próprio território. Estas “consistem em reações defensivas contra as condições impostas pela desordem global e pelas transformações, incontroláveis e em ritmo acelerado. Elas constroem abrigos, mas não paraísos”.[36]

Os movimentos ambientalistas têm como adversário declarado o nacionalismo de Estado, manifesto em processos como o “desenvolvimento não controlado e os órgãos governamentais ineficientes, como o Departamento Norte-americano de Beneficiamento de Terras, que não tem tomado as devidas providências para proteger a natureza”.[37] 

Em oposição aos fundamentalistas cristãos norte-americanos, os movimentos feminista, lesbiano e gay têm como inimigo o patriarcalismo. No Sudeste asiático “o modelo da autoridade patriarcal estendeu-se dos lares para as fábricas graças a acordos entre gerentes de fábrica e pais de família”.[38] Diante destas e de outras situações, o movimento feminista em suas diferentes manifestações tem-se colocado em oposição direta ao patriarcalismo na busca de por fim ou pelo menos reestruturar este modelo de dominação. Castells elaborou um quadro com as várias tipologias do movimento feminista e seus adversários, são: a tipologia direitos da mulher, adversário Estado patriarcal e/ou capitalismo patriarcal; a tipologia feminismo cultural, adversário instituições e valores patriarcais; a tipologia feminismo essencialista, adversário modo feminino de ser; a tipologia feminismo lesbiano, adversário heterossexualidade patriarcal; a tipologia identidades femininas específicas, adversário dominação cultural; e, por fim, a tipologia feminismo pragmático, adversário capitalismo patriarcal.[39] Os movimentos gay e lesbiano vêem no patriarcalismo e na heterossexualidade a fonte de opressão. Em Taipé, “o movimento anti-AIDS criado por feministas, lésbicas e gays desafiou fundamentalmente a estrutura patriarcal de dominação sexual”.[40]      

2. A construção da identidade passa por um processo de compartilhamento de fontes de identidade e organização de significados em torno de uma comunidade primária, seja o compartilhamento de significados, territórios ou objetivos.  Como pode ser notada no caso da Catalunya, a fonte de significado é sua história e sua língua. Além de compartilhar a língua, a Catalunya é uma comunidade dentro de uma rede mais ampla que compartilha poder e território e está perfeitamente integrada ao sistema da sociedade em rede:

Por não buscarem um novo Estado, mas lutarem pela preservação de sua nação, é bastante provável que os catalães tenham-se identificado completamente com suas origens como um povo de tradições comerciais sem fronteiras, identidade lingüístico-cultural e instituições governamentais flexíveis, características essas que parecem caracterizar a era da informação.[41] 

Por mais de mil anos os catalães preservaram diante de vários contextos a sua unidade em torno da língua. Na construção da identidade no nacionalismo existe “uma história e um projeto compartilhados, e as narrativas históricas… uma experiência diversificada nos aspectos social, étnico, territorial e de gênero”.[42] A identidade catalã é construída de forma flexível e adaptada ao contexto histórico/territorial, isto graças à sua pouca exigência de preservação de atributos culturais sobre outras fontes de significados. A Catalunya não busca um Estado para si, mas convive passivamente com o Estado espanhol. É uma comunidade de território compartilhado. Está perfeitamente se entendendo com a lógica das redes dos fluxos globais.

Na ex-URSS, ao vazio ideológico criado pelo fracasso do marxismo-leninismo, a identidade foi organizada em torno de uma única fonte de significado mantida na memória coletiva depois da queda do regime: a identidade nacional.[43] Todavia, é praticamente impossível desemaranhar o entrelaçamento da identidade nacional das repúblicas da Comunidade do Estados Independentes, daí surge a noção de Comunidade de Estados Inseparáveis, isto é, “uma rede de instituições suficientemente dinâmicas e flexíveis para articular a autonomia da identidade nacional e uma instrumentalização política compartilhada no contexto da economia global”.[44]

Sobre os movimentos sociais, é dito que as pessoas se socializam e interagem em seu ambiente local, seja ele a vila, a cidade, o subúrbio, formando redes sociais entre seus vizinhos. E que “as pessoas resistem ao processo de individualização e atomização, tendendo a agrupar-se em organizações comunitárias que, ao longo do tempo, geram um sentimento de pertença e, em última análise, em muitos casos, uma identidade cultural, comunal”. Para que isso aconteça faz-se necessário um processo de mobilização social pelos quais são revelados e defendidos interesses comuns, a vida é compartilhada e um novo significado pode ser produzido. Três metas definem os movimentos sociais em termos de compartilhamento de significados, território e objetivos: necessidades urbanas de consumo coletivo e condições de vida; identidade cultural local; e conquista da autonomia política local e participação na qualidade de cidadãos.[45]

A identidade territorial tem como fonte de significado e identidade a vizinhança, a comunidade, a cidade, a escola, a praia, a capela. É em torno destas fontes compartilhadas que os símbolos comunais territoriais são organizados.

Os movimentos ambientalistas “inspiraram a criação de uma nova identidade, uma identidade biológica, uma cultura da espécie humana como componente da natureza”. A organização desta identidade pode ser facilmente “superposta a tradições históricas e multifacetadas, idiomas e símbolos culturais, mas dificilmente poderá coexistir com a identidade do estado nacionalista”.[46] Trata-se de uma identidade global compartilhada com “todos os seres humanos, independente de vínculos sociais históricos ou de gênero, ou de credo religioso”.[47] Organizada em torno de princípios universais em oposição ao nacionalismo.  

A identidade fundamentalista islâmica parece estar expandindo nos anos 90 em uma série de contextos sociais e institucionais distintos, sempre relacionados à dinâmica de exclusão e/ou à crise do Estado-Nação, transferindo e organizando significado em torno de um mundo divino e comunal.[48] Surge uma nova identidade islâmica através de “um processo avassalador de transferência do islamismo radical diretamente para as áreas socialmente excluídas de sociedades capitalistas avançadas”.[49] Islâmicos fundamentalistas de várias partes do mundo compartilham e organizam seus significados em torno da umma.

A construção da identidade fundamentalista cristã se dá por um “renascer” pessoal, “toda a personalidade passa por um processo de reconstrução, tornando-se ‘o ponto de partida para a construção de uma noção não só de autonomia e identidade, mas de ordem social e objetivo político’”.[50] Recorrendo a Clyde wilcox, Castells os apresenta como sendo evangélicos doutrinários, parece que possuem um nível de escolaridade mais baixo, são mais pobres, têm maior influência entre as donas de casa, em geral residem no sul do país, são bem mais religiosos, e 100% deles consideram a Bíblia um livro infalível.[51] A esmagadora maioria de seus membros é branca, cristã e predominantemente masculina. Com amplo espectro ideológico, abarcam quase todos os desafetos contra o governo federal. Existe também “uma poderosa mitologia fundada em concepções apocalípticas do mundo e nas profecias do Fim dos Tempos”. Constroem significados amparados na Bíblia.

A etnia é uma importante fonte de significado e identidade. Todavia, apesar de ser compartilhada por uma comunidade, ela é cooptada por outras comunas culturais, como a religião e o nacionalismo, quando extraída de seu contexto histórico e geográfico. Um exemplo são os negros americanos que, além de possuírem uma etnia africana, são culturalmente americanos. Ao analisar a etnia dos afro-americanos como fonte de significado e identidade, é necessário levar em conta a raça e a classe. E, estes fatores afetam o modo de percepção dos agentes sociais na construção da identidade.[52] Daí que conjugados com a cultura americana, os negros de classe média reinventaram uma identidade afro-americana “que revive os temas do passado, africano ou norte-americano, e se cala diante do peso do presente”.[53] Já a classe de baixa renda, mesmo ciente do racismo, continua acreditando no sonho americano, e constrói, paralelamente, “uma nova cultura, composta de aflições, raiva e reação individual contra a exclusão coletiva, em que a negritude importa menos que as situações de exclusão […] o rap, e não o jazz, é o produto dessa nova cultura […] expressa uma nova identidade […] Mas de forma alguma se trata da mesma identidade formada pela classe média afro-americana…”.[54] Porém, mesmo diante de tais dificuldades, a sociedade negra emergiu com profundo sentimento coletivo, traduzida em uma extraordinária capacidade nas artes, na música e na literatura, e em um movimento político multifacetado personificado em Martin Luther King Jr.[55] Os negros americanos são “culturalmente organizados com base em princípios de auto-identificação, não de cunho étnico, mas religioso”.[56] Enfim, a etnia como fonte de significados para a construção da identidade negra nos Estados Unidos: 

Não fornece as bases para os paraísos comunais da sociedade em rede por estar fundamentada nos vínculos primários que perdem o sentido, quando extraídos de seu contexto histórico, como base para reconstrução do significado de um mundo de fluxos e redes, de novas combinações de imagens e novas atribuições de sentidos. As matérias-primas étnicas estão integradas nas comunas culturais que são mais fortes e possuem uma definição mais ampla que a etnia, tais como a religião e o nacionalismo, na qualidade de expressões de autonomia cultural em um mundo de símbolos.[57]   

A Verdade Suprema se vê como uma identidade individual em que os corpos são compartilhados uns aos outros na mente do guru (uma combinação de individualidade física e comunidade espiritual reconstruída) através do uso da tecnologia.[58] Ela prega uma mensagem sobre um apocalipse eminente do qual nós devemos buscar a salvação. Esta salvação consiste, segundo Osawa, citado por Castells em “dissolver a integridade do corpo como indivíduo para superar a limitação física do organismo”.[59]

Os movimentos feminista, gay e lesbiano também compartilham e organizam a identidade em torno de um princípio comum. As feministas negam a identidade dada pelos homens e venerada pela família patriarcal. Diversos movimentos feministas “construíram para si uma identidade nova e coletiva”. Segundo Nancy Whittier, citado por Castells, o “que torna essas organizações, redes e indivíduos parte de um movimento de um movimento social é a sua fidelidade compartilhada a uma série de convicções, práticas e formas de identificação que constituem a identidade feminista coletiva”.[60] Como já mencionei acima, Castells elaborou um quadro com a tipologia do movimento feminista e suas fontes de identidade compartilhada, são: a tipologia direitos da mulher, identidade mulheres como ser humano; a tipologia feminismo cultural, identidade comunidade  feminina; a tipologia feminismo essencialista, identidade modo feminino de ser; a tipologia feminismo lesbiano, identidade irmandade sexual/cultural; a tipologia identidades femininas específicas, identidade autoconstruída; e, a tipologia feminismo pragmático, identidade donas de casa/mulheres/exploradas/agredidas. O movimento feminista está se fragmentando e criando diversas identidades, mas sempre concorrendo para a desconstrução da identidade como definida pelo modelo patriarcal baseada no gênero.[61] O feminismo:

Dilui a dicotomia patriarcal homem/mulher na maneira como se manifesta, de formas diferentes e por caminhos diversos, nas instituições e práticas sociais. Agindo assim, o feminismo constrói não uma, mas muitas identidades, e cada uma delas, em suas existências autônomas, apodera-se de micropoderes na teia universal tecida pelas experiências adquiridas no decorrer da vida.[62] 

Gays e lésbicas que compartilham a opressão exercida pela “homofobia” se unem “em torno da defesa da liberação sexual e na crítica contra a família heterossexual e patriarcal”.[63] O homossexualismo, tanto feminino como masculino, são fundamentalmente opções por identidade que são politicamente construídas.[64] Algumas expressões culturais compartilhadas em torno das quais estão organizados os significados do movimento gay sadomasoquista de São Francisco, que criticam os demais movimentos gays por tentarem definir as normas do “socialmente aceitável” na mesma lógica da dominação que oprimiu gays e lésbicas, mostram o apelo à identidade cujos valores se opõe a toda a forma de opressão da sociedade heterossexual são: “violência controlada, aceitação da humilhação, leilões de escravos, prazer pela dor, roupas de couro, emblemas nazistas, correntes e chicotes são mais que estímulos sexuais”.[65] 

Um outro princípio em torno do qual as pessoas estão organizando a identidade é o corpo. Assumir o corpo “como princípio de identidade, longe das instituições do patriarcalismo, a multiplicidade de expressões sexuais capacita o indivíduo para a árdua (re)construção de sua personalidade”.[66]

3. A construção da identidade ou a luta para a afirmação da identidade também se dá na forma de rede. Alguns exemplos claros deste processo de construção de identidade são: o nacionalismo na Catalunya e na ex-União Soviética, o Greenpeace, o movimento feminista principalmente. A Catalunya seria:  

Um Estado de geometria variável, capaz de conciliar o respeito pelo Estado espanhol herdado historicamente, a autonomia crescente das instituições catalãs na administração das questões públicas e a integração tanto da Espanha como da Catalunya numa entidade maior, a Europa, que se traduz não somente na União européia, mas em diversas redes de governos regionais e municipais, bem como em associações cívicas, que multiplicam relações horizontais por toda a Europa sob a proteção tênue dos Estados-Nação modernos.[67]

A construção da identidade nacionalista na ex-União Soviética é um exemplo da combinação de uma rede de estrutura flexível e adaptável. Num mapa em que a população está fragmentada por todo o território e as fontes geográficas da construção da identidade estão baseadas numa economia interdependente há uma certa ambigüidade causando uma incapacidade de produzir nações independentes. A identidade nacional para as nações da ex-União Soviética é uma identidade de “Estados Inseparáveis”, para não dizer, “Estados Impossíveis”. Isto porque o que ocorreu no Estado soviético foi um entrelaçamento de diversas nacionalidades e identidades nas atuais fronteiras dos estados independentes. Há uma mistura incrível de nacionalidades que torna praticamente impossível estabelecer um Estado totalmente autônomo dentro do ex-Estado soviético, principalmente porque a interpenetração das economias, bem como a infra-estrutura compartilhada, tornam a desarticulação dos territórios muito dispendiosa, ainda mais em um processo de integração multilateral na economia global que requer vínculos inter-regionais para funcionar eficientemente.[68] Lá deverá funcionar um tipo de nações em rede.

Os movimentos ambientalistas são orientados à formação de redes. O Greenpeace é ao mesmo tempo uma organização altamente centralizada e “uma rede mundialmente descentralizada, controlada por um conselho de representantes do país, um pequeno conselho executivo, e responsáveis regionais para a América do Norte, América Latina, Europa e Região do Pacífico”.[69] Os grupos ambientalistas também estabelecem redes com outros tipos de movimentos. Sem dúvida, “grupos ambientalistas têm-se multiplicado, aliando-se a grupos de direitos humanos, de mulheres e a organizações não-governamentais, resultando em poderosas coalizões que suplanta a política institucional, sem ignorá-la”.[70]  

O movimento feminista por causa de sua diversidade e flexibilidade se organizou em forma de rede. O movimento gay, principalmente na região de São Francisco, contou com o apoio de redes para organizar suas manifestações, e contou com redes de voluntários, apoio e solidariedade para lutar contra a AIDS.[71] 

4. A construção da identidade se dá pelo uso constante da mídia. A tecnologia da informação é de substancial importância para a construção da identidade dos movimentos sociais, como da Verdade Suprema, dos zapatistas e das milícias. As “novas tecnologias de comunicação são fundamentais à existência desses movimentos: na realidade, cumprem o papel de infra-estrutura organizacional dos movimentos”. Sem ela a milícia e os patriotas não seriam redes tão influentes, mas simples reações desarticuladas. Estes grupos também se utilizam o rádio e TV para divulgarem suas mensagens. A Internet estabelece interconexão entre os diversos grupos por todo o país. Sem a tecnologia, os zapatistas não teriam emitido fluxos de informação via Internet estabelecendo redes de grupos de apoio, colocando a sociedade mundial a seu favor e contra o governo mexicano e impossibilitando-o de fazer uso da repressão em larga escala ao mostrarem a possibilidade de todos serem sacrificados.[72] A Verdade Suprema até incorporou a tecnologia em seu conjunto de representações como meio de conexão entre os corpos.

Por isso, o “uso de armas constitui elemento essencial nos três movimentos, não como um objetivo, mas como sinal de liberdade e recursos que provocam acontecimentos, chamando a atenção da mídia”.[73] Neste contexto de “guerras informacionais”, a informação é mais destrutiva e poderosa do que balas, diz Martinez Torres, citado por Castells. Esses movimentos reduzem suas mensagens a símbolos informacionais para emitir fluxos através da mídia.

Com isso, as idéias ecológicas se espalharam rapidamente pelo mundo. O greenpeace maior organização mundial em defesa da natureza, é “provavelmente a principal responsável pela popularização de questões ambientais globais, por meio de ações diretas, sem uso da violência, e orientadas à mídia”.[74] As mensagens alcançaram o mundo com alta velocidade porque tem consonância com a sociedade em rede: composta por fluxos de informações. A lógica das ações do grupo “está totalmente orientada à criação de eventos que mobilizem a opinião pública em torno de questões específicas no intuito de exercer pressão sobre o poder instituído, seja ele qual for”.[75]   

No final da década de 80, vários grupos feministas em Taiwan “tais como associações de mulheres divorciadas, donas de casa, grupos para tirar jovens da prostituição e outros tantos se formaram em um movimento espontâneo. A mídia começou a divulgar as atividades desses grupos, aumentando sua visibilidade e atraindo um número crescente de mulheres em Taipé”.[76] Também gays e lésbicas de Taiwan tem feito usufruto da Internet e BBSs como:

Forma de contato, comunicação e integração. Criaram, também, ‘meios de comunicação alternativos’, tais como estações de rádio piratas gays/lesbianas. Além disso, em 1996, dois programas gays/lesbianos foram levados ao ar por estações de rádio tradicionais de Taipé.[77]                                                                                                                                           

5. A construção da identidade está vinculada a um objetivo ou meta societal, isto é, a vontade de deter o controle de seu próprio destino. Terceiro ponto da tipologia de Touraine, a meta societal “refere-se sobre a visão do movimento ou organização social que almeja no horizonte histórico da ação coletiva que promove”.[78] Sendo assim, os zapatistas querem justiça social e democracia para todos os mexicanos. A Verdade Suprema quer libertação espiritual e transcendência em relação ao mundo. Alguns movimentos de comunidades locais procuram estabelecer o controle sobre o meio ambiente. 

A milícia norte-americana quer liberdade individual e recusa à dominação do governo para todos os cidadãos norte-americanos. As milícias são constituídas de facções autônomas e clandestinas que estabelecem suas próprias metas de acordo com as visões predominantes no movimento. Quatro bandeiras são levantadas por estes grupos: luta pela liberdade, luta contra a nova ordem mundial, luta contra feministas e homossexuais, e luta a favor dos valores cristãos.[79]

A grande diversificação do movimento de mulheres está ligada com os diferentes objetivos a serem alcançados por cada grupo. Façamos uso do quadro elaborado por Castells sobre as várias tipologias do movimento feminista e seus respectivos objetivos, que mencionei acima. são: a tipologia movimento direitos da mulher, meta direitos iguais; a tipologia feminismo cultural, meta autonomia cultural; a tipologia feminismo essencialista, liberdade matriarcal; a tipologia feminismo lesbiano, abolição do gênero pelo separatismo; a tipologia identidades femininas específicas, meta multiculturalismo destituído de gênero; a tipologia feminismo pragmático, meta sobrevivência/dignidade.[80]

6. A diversidade é conseqüência das especificidades histórica, geográfica e cultural de cada movimento social. Os contextos afetam de forma diferente cada um dos grupos. Os zapatistas têm um projeto político articulado. As milícias uma paranóia apocalíptica que se distingue da lógica apocalíptica da Verdade Suprema. Mas o movimento que mais caracterizado pela diversidade é o feminismo. O feminismo, talvez a maior expressão mundial em termos de movimento social, diversifica-se em termos de organização interna e em termos de “gerações políticas” dentro do movimento, segundo Whittier, citado por Castells.[81] Castells complementa ao dizer que:   

Outras tensões internas no movimento feminista surgem precisamente na sua expansão por toda gama de classes sociais e grupos étnicos dos Estados Unidos. Enquanto as pioneiras que redescobriam o feminismo nos anos 60 eram, em sua esmagadora maioria, brancas, de classe média e alto nível educacional, nas três décadas seguintes os temas feministas focalizaram as lutas das mulheres afro-americanas, latinas e de outras minorias étnicas em suas respectivas comunidades […] O resultado foi uma diversificação cada vez maior do movimento feminista”.[82]

O feminismo é global? O movimento é bastante espalhado, distinto e multifacetado, consegue trabalhar uma grande variedade de temas feministas, com mulheres participando em mais de uma organização. É esse “entrelaçamento de indivíduos, organizações e campanhas atuando em rede que caracteriza um movimento feminista vital, flexível, e diversificado”.[83] O movimento feminista apresenta formas e orientações muito diferentes, dependendo dos contextos culturais, institucionais e políticos. Assim, o feminismo britânico foi debilitado pelo thatcherismo, o espanhol marcado pelo contexto político na época do movimento democrático contra a ditadura, o italiano possuía forte influência nos sindicatos trabalhistas.[84] O feminismo é tão diversificado que torna uma tarefa não muito simples encontrar o núcleo de oposição essencial compartilhado pelos vários movimentos. Usando, então, a tipologia de Touraine, como já tenho referido acima, Castells apresenta seis tipos: o feminismo que luta pelos direitos da mulher, o feminismo cultural, o feminismo essencialista, o feminismo lesbiano, identidades feministas específica, e feminismo pragmático.

O feminismo tem um “esforço histórico, individual ou coletivo, formal ou informal, no sentido de redefinir o gênero feminino em oposição direta ao patriarcalismo”.[85] É exatamente o patriarcalismo, o principal adversário do feminismo, junto com o capitalismo informacional e os movimentos sociais feministas e de identidade sexual que tem reprocessado a família. Daí que a família passa por uma transformação rumo a uma profunda diversificação. A freqüência cada vez maior de separações com pouco tempo de vida conjugal e novos casamentos dentro de poucos anos, número alto de coabitação sem casamentos têm contribuído para criar um perfil cada vez mais diverso de vidas em família. A família de núcleo patriarcal tende para o desaparecimento, mas não está surgindo um novo tipo, a regra é a diversidade.[86]  

Castells apresenta, nos quatro primeiros capítulos do volume II, a construção da identidade na sociedade em rede como o aparecimento de fontes de poder alternativo; no capítulo 5, ele trata do Estado destituído de poder; e, no capítulo 6, sobre a política informacional e a crise da democracia. Temos, então, em termos de conclusão antecipada, um Estado sendo destituído de poder em prol do “poder da identidade”. Como disse antes, priorizei os quatro primeiros capítulos, porque julguei estar neles a explicação sobre a construção da identidade. Agora, apesar de ser em termos mais gerais, levantarei dos pontos mais importantes do capítulo 5 e 6, que servirão para contrapormos com os aspectos já levantados acima, e, assim, lançarmos mais luz à análise.

O Estado está perdendo seu poder. E isto, “parece advir da incapacidade de o Estado-Nação moderno navegar por águas tempestuosas e desconhecidas entre o poder das redes globais e o desafio imposto por identidades singulares”.[87] Os principais processos que tem destituído o poder do Estado são a globalização das principais atividades econômicas, a globalização da mídia e da comunicação e a globalização do crime.

Os Estados-Nação estão num processo de “dependência crescente dos governos em relação aos mercados de capital globais”.[88] O Estado do bem-estar social está sendo liquidado, pois está cada vez mais difícil para as empresas atuarem em “mercados globalizados e integrados, tendo de arcar com grandes diferenciais de custo em termos de benefícios sociais, bem como trabalhar com diferentes níveis de regulamentação que variam de país a país”.[89] No campo das comunicações e controle de informações, o Estado moderno está perdendo a batalha. Tentar controlar as informações que circulam nas redes de telecomunicações interconectadas de forma global é uma batalha inglória. Outra batalha que o Estado também não tem mais condições de vencer é contra o crime organizado.[90] 

Outros aspectos relevantes ligados à derrocada do Estado. são: ao nível do Estado, a multilateralidade que impede que um Estado nacional possa tomar decisões independentemente; num nível acima, a supranacionalidade, única fonte capaz de exercer algum controle sobre fluxos globais, esta tem arrastado para sua esfera parte das decisões que eram tomadas no âmbito do Estado nacional; um nível abaixo, estão os governos locais e demais organizações que tem desconstruído o poder do Estado, devido o processo de descentralização administrativa. Daí cabe perguntar: o que é o Estado? Onde está o Estado? Ou, qual a identificação do Estado? O fato é que a transferência de poder do Estado para governos locais e regionais como também para os blocos supranacionais faz com que desapareça a figura do Estado. À medida que isto acontece, o Estado se torna uma estrutura vazia destituída de sentido.[91] Citando Castells:

Assim, a atual dança da morte entre identidades, nações e Estados deixa, de um lado, Estados-Nação historicamente esvaziados, vagando nos mares dos fluxos globais de poder, e de outro, identidades fundamentais, retraídas em suas comunidades ou mobilizadas na captura incondicional de um Estado-Nação cercado por todos os lados; em meio a essa turbulência, o Estado-Nação local luta com todas as forças para reconstruir sua legitimação e instrumentalidade, navegando em redes transnacionais e integrando sociedades civis locais.[92]

Dois exemplos demonstram a tendência falível do poder do Estado: o caso do governo do PRI no México e o governo federal dos EUA. Nos dois casos, depois de transformações acontecidas no interior de cada um, a conclusão é a de que o povo se coloca contra o Estado. Apesar disso, o Estado não está chegando a seu fim, como poderíamos pensar, mas “o que parece estar surgindo atualmente […] é a descentralização do Estado-Nação numa esfera de soberania compartilhada que caracteriza o cenário político do mundo de hoje”.[93] Castells diz que o Estado exercerá um novo papel e que:

Além da complexa relação com as mais variadas formas de expressão de poder/representação política, o Estado-Nação vem sendo cada vez mais submetido a uma concorrência mais sutil e problemática de fontes de poder indefinidas e, às vezes, indefiníveis. Trata-se de redes de capital, produção, comunicação, crime, instituições internacionais, aparatos militares supranacionais, organizações não governamentais, religiões transnacionais e movimentos de opinião pública. Em um nível abaixo do Estado, há as comunidades, tribos, localidades, cultos e gangues. Assim, embora os Estados-Nação freqüentemente continuem a existir, dentro de um futuro previsível, eles são, e cada vez mais serão, nós de uma rede de poder mais abrangente. Os Estados-Nação freqüentemente terão de confrontar-se com outros fluxos de poder na rede, que se contrapõem diretamente ao exercício de sua autoridade. [94] [Grifos do autor]

Esta é a situação do Estado. Se ele se encontra assim, como vai uma de suas formas de exercer o poder, a democracia? A democracia está em crise? Se ela está em crise, o que isso implica para a construção da identidade?

A ausência de um centro de poder bem-definido dilui o controle social e pulveriza os desafios a serem enfrentados pela política. O avanço do comunalismo, em suas diferentes formas, debilita o princípio de representatividade política no qual está baseada a política democrática. A crescente incapacidade de o Estado exercer controle sobre os fluxos de capital e de garantir a lei e a ordem compromete sua importância para o cidadão médio. O enfoque nas instituições locais de governo amplia a distância entre mecanismos de controle político e administração de problemas globais.[95] 

Este é o cenário político apresentado por Castells, que acrescido da interação com as novas tecnologias da informação, vai desembocar na “política informacional”. Para ele, a política e todo o sistema partidário tem passado por transformações profundas na sociedade em rede. A mídia tem se tornado o novo espaço da política. Porque:

Sem a presença ativa da mídia, as propostas políticas ou os candidatos não têm qualquer chance de obter uma ampla base de apoio. A política da mídia não se aplica a todas as formas de fazer política, mas todas as formas de política têm necessariamente de passar pela mídia para influenciar o processo decisório. Deste modo, a política está essencialmente inserida, em termos de substância, organização, processo e liderança, na lógica inerente do sistema dos veículos de comunicação, especialmente na nova mídia eletrônica.[96] [grifos do autor]

O fato é que a política se tornou essencialmente dependente da mídia e, isto transformou a própria forma da política. Castells, depois de passar por análises da interação da política informacional em três culturas diferentes norte-americana, latino-americana e européia e também pela exposição de como funciona a “política do escândalo” como arma política na arena da mídia, vai analisar a crise da democracia. É exatamente a situação da democracia que interessa para minha análise.      

Numa reflexão em conjunto com as linhas de argumentação apresentadas referentes à destituição do poder do Estado-Nação e as transformações do sistema político, Castells diz que o sistema:

Capturado na arena da mídia, reduzido a lideranças personalizadas, dependente de sofisticados recursos manipulação tecnológica, induzido a práticas ilícitas para obtenção de fundos de campanha, conduzido pela política do escândalo, o sistema partidário vem perdendo seu apelo e confiabilidade e, para todos os efeitos, é considerado um resquício burocrático destituído de fé pública.[97]

O povo norte-americano, por exemplo, já não acredita que o governo represente os seus interesses. A democracia está em crise. E, como conclui Castells:

Seja qual for o futuro, o que a observação do presente parece indicar é que, sob diversas formas, e por uma série de processos […] temos testemunhado a fragmentação do Estado, a imprevisibilidade do sistema político e a singularização da política. É provável que a liberdade política ainda possa existir, uma vez que as pessoas continuarão a lutar por ela. No entanto, a democracia política, nos moldes das revoluções liberais do século XVIII e do modo como foi fundida em todo o mundo no século XX, transformou-se num vazio. Não que tenha sido apenas uma ‘democracia formal’: a democracia vive justamente com base nessas ‘formas’, tais como o sufrágio universal e secreto e o respeito às liberdades civis. Porém, as novas condições institucionais, culturais e tecnológicas do exercício democrático tornaram obsoletos o sistema partidário existente e o atual regime de concorrência política como mecanismos adequados de representatividade política na sociedade em rede.[98] [Grifos meus]

O Estado está sem poder e a democracia em crise. Acima do Estado, processos globais que independem da vontade dos governos para funcionar e, abaixo, reações locais que emergem por iniciativa própria têm transformado o Estado e suas instituições democráticas num lugar sem sentido. Este quadro explica porque florescem tantas expressões de identidade e poder na sociedade em rede. As instituições que por muito tempo serviram como fontes de representatividade e poder deram lugar ao poder da identidade. E, usando as palavras de Castells, o esvaziamento do contrato social “envia todos de volta para casa para lutar por seus interesses individuais, dependendo para isso única e exclusivamente de suas próprias forças”.[99]   

Enfim, a minha análise não teve a pretensão de conseguir precisão sobre o modo como Castells explica a construção da identidade na sociedade em rede. Mas, acredito que este levantamento geral de informações nos permite ter uma boa idéia dos aspectos relevantes. Daí, podemos entender que a construção da identidade acontece por uma oposição a um inimigo declarado. Que os sujeitos coletivos compartilham uma comuna primária de resistência em torno da qual organizam significados. Os sujeitos se organizam em redes na luta por sua auto-afirmação diante dos desafios que lhes são impostos. A mídia é uma poderosa ferramenta de expressão da identidade que os atores têm usado para aumentar seu poder ante seus adversários. Os sujeitos coletivos são formados tendo em vista uma meta ou objetivo societal a ser alcançada. Os diversos contextos sociais em que está inserido cada ser coletivo, dão origem a movimentos específicos. Tudo isso, levando-se em conta a fraqueza do Estado e a crise da democracia, tem propiciado terreno fértil para o aparecimento de múltiplas identidades na sociedade em rede.

No geral, a construção da identidade é fruto da reação dos sujeitos coletivos específicos aos sistemas de relações totalizantes, como patriarcalismo, homossexualismo, nacionalismo, globalismo, imperialismo, Estado e governo mundial. Estes sistemas são fontes de opressão sobre os grupos divergentes. A oposição principal de toda comunidade primária a um adversário é contra os fluxos não identificados da sociedade em rede global/informacional. Como comentei na introdução, há uma interação/oposição entre a Rede e o Ser. Todavia, a oposição não acontece somente em relação à Rede, mas também contra outros sujeitos coletivos. Por exemplo, os fundamentalistas cristãos norte-americanos estão em oposição ao movimento gay e lesbiano porque há contraposição sobre um valor específico da sociedade patriarcal, o conceito de família. Enquanto os fundamentalistas cristãos entendem que a família deve ser organizada em torno da figura do pai com base num casamento heterosssexual, gays e lésbicas apregoam uma família diversificada e flexível organizada em torno apenas do “poder do amor” de casamentos homossexuais. O que estamos presenciando é uma interação/oposição entre o Ser e a rede e entre um e outro Ser.

Este aspecto se configura porque os sujeitos coletivos compartilham uma comuna primária de resistência em torno da qual o significado é organizado, seu deus, sua religião, sua cidade. Os princípios de cada comuna sobrepõem-se a outros princípios. No caso do fundamentalismo islâmico, os homens devem abdicar dos valores do Estado-Nação modernos e se submeter aos valores da umma. O princípio da religião é mais importante que o princípio do Estado. Isto significa que em tal sociedade a luta para resistir às pressões exercidas a estes valores, será fortalecida por uma massiva transferência de significados advindos da história e tradição da religião em apoio à comuna de resistência, levando há um esvaziamento da política. Na minha visão, esta comuna de resistência parece funcionar como centro de gravidade em torno da qual todas as coisas se movimentam. Sendo assim, retomando o núcleo da teoria de Castells, o que estamos presenciando é a formação de um nó. Daí resta entender qual é a sua relação com a sociedade em rede.     

Uma condição essencial para que exista uma sociedade em rede é exatamente seu caráter fragmentado e diversificado. Os sujeitos coletivos específicos (nós) se organizam em redes na luta por sua auto-afirmação diante dos desafios que lhes são impostos pelas transformações sociais advindas da sociedade informacional. Um exemplo patente é o movimento ambientalista e em sua maior expressão o Greenpeace. O Greenpeace, como referi acima, é um movimento ao mesmo tempo centralizado e descentralizado já orientado para o funcionamento em rede, não só do ponto de vista do movimento em si, mas também na sua relação com outras organizações, formando redes que chegam suplantar em poder as instituições políticas. O movimento feminista também é estruturado em rede, tanto internamente, devido aos diferentes tipos de movimentos que lutam contra diferentes adversários, e em geral compartilhando o objetivo de melhores condições para as mulheres, como externamente, ao fazer o movimento anti-AIDS em Taipé em aliança com os movimentos de gays e lésbicas. Eis, aí, a formação de redes dentro do já intrincado mundo de redes apresentado na teoria de Castells.

E, rede é uma configuração social que acontece independentemente desta tecnologias dos sistemas eletrônicos de telecomunicações. Mas com o seu advento, os processos sociais foram intensificados, como argumentei anteriormente, devido à capacidade de se levar informações em tempo real para o mundo todo, dotando as redes com poder. A mídia eletrônica é uma poderosa ferramenta de expressão da identidade. O uso da tecnologia da informação foi fundamental na estruturação e organização dos movimentos. Sem ela, a maioria deles não passaria de reações desarticuladas. Como exemplos, os zapatistas usaram para aumentar seu poder diante do governo mexicano, o Greenpeace para produzir eventos orientados à divulgação na mídia. As armas que estão nas mãos de muitas milícias não são para disparar contra o inimigo, mas para ocuparem espaço na mídia numa guerra informacional, porque informações são mais destrutivas do que balas. Esses movimentos reduzem suas mensagens a símbolos informacionais para disparar fluxos letais de informação. O que percebemos com esta interação dos movimentos com a mídia, é sua inserção na rede global informacional. Os movimentos sociais, como nós, conectam-se em alguns instantes à rede para aumentar seu poder. 

Os sujeitos coletivos são formados tendo em vista uma meta societal, ou seja, o controle de suas próprias vidas. Os zapatistas querem justiça social e democracia para todos os mexicanos em detrimento da aliança do governo mexicano com a ALCA. A Verdade Suprema quer libertação espiritual e transcendência em relação ao mundo como meio de salvação de suas almas diante da imposição do governo mundial que será estabelecido pelos Estados Unidos com apoio da polícia japonesa. Assim, cada sujeito está relacionado a um objetivo específico. Porém, generalizando, nas palavras de Castells, “quando o mundo se torna grande demais para ser controlado, os atores sociais passam a ter como objetivo fazê-lo retornar ao tamanho compatível com o que podem conceber”.[100] A meta societal dos movimentos sociais na construção de sua identidade é exatamente isso, controlar suas próprias vidas, ou melhor, seu espaço no mundo, justamente o espaço que vem sendo transformado pelos fluxos informacionais da sociedade em rede. E, quanto mais reagem, mais a sociedade se fragmenta e se diversifica.

Daí que, os diversos contextos sociais em que está inserido cada ser coletivo, dão origem a movimentos específicos, de acordo com sua história e geografia. A título de exemplo, as milícias norte-americanas possuem uma paranóia apocalíptica que se distingue da lógica apocalíptica da Verdade Suprema no Japão. O movimento feminista é altamente diversificado porque incorpora classes sociais, culturas e etnias diferentes. Além do fato de grupos e pessoas se entrelaçarem ao atuar em rede, reforçando seu aspecto flexível e diversificado. E, se não bastasse, o Estado parece fugir de seu papel e a democracia é reprocessada pela mídia, que a devolve como um showbizz.

Se resumirmos numa sentença a discussão sobre construção da identidade aqui apresentada, podemos dizer que: a construção da identidade na sociedade em rede é a recomposição da representação em torno do princípio de resistência em oposição a um adversário global e mais poderoso com o objetivo de estabelecer uma conquista social utilizando-se de todos os meios que ampliem o poder e a visibilidade do sujeito coletivo específico.  

Neste ponto da análise, podemos perceber que a construção da identidade, quando analisada de acordo com a teoria da sociedade em rede, é a formação de nós específicos (grupos, movimentos, processos) em oposição à rede informacional. Estes nós (sujeitos coletivos) são construções identitárias que apelam ao princípio da resistência. Uma comuna cultural em torno da qual estão gravitando os símbolos. Podemos perceber também que estes nós interagem entre si, formando uma rede subjacente à rede global. A estruturação em morfologia de rede e o uso das redes de telecomunicações são fundamentais para expandir o poder do Ser. Poder que necessitam para alcançar um objetivo específico, sua auto-representação. O que surge é um universo de identidades, e cada identidade como expressão das diversas lutas por um pouco mais de poder. O poder de Deus, o poder da nação, o poder da cidade, o poder do pai, o poder da mulher, o poder do indivíduo, o poder do amor. Enfim, o poder da identidade.

PARTE III — A INTERPRETAÇÃO DO FIM DE MILÊNIO

A intenção da análise contida nesta parte é entender como Castells interpreta o “fim de milênio”. Na primeira parte, estudamos a teoria da sociedade em rede e sua dependência das tecnologias da informação e entendemos que há na sociedade formada pela rede global informacional uma interação/integração. Na segunda parte, estudamos como se dá a construção da identidade na sociedade em rede e entendemos que a identidade é construída através de uma interação/oposição. Percebe-se, então que há uma polarização simétrica inversa na sociedade em rede. De um lado, a sociedade global informacional, homogeneizada, padronizada funcionando em tempo real graças aos sistemas eletrônicos de tecnologia da informação e baseada em espaços de fluxos. De outro, uma sociedade local desarticulada, fragmentada, diversificada com pouca base informacional, heterogênea, de temporalidade específica e baseada em espaço de lugares. É a partir desta visão polarizada entre dois extremos e com uso mais completo da teoria que se encontra a interpretação macrossocial e macropolítica de fim de milênio de Manuel Castells no terceiro volume de sua trilogia. 

Nesta parte, minha análise vai circular em torno do objeto, seguindo os mesmos caminhos trilhados pelo autor. Claro, não vou reconstruir sua análise, mas levantar os pontos que me permita uma reflexão sobre a teoria da sociedade em rede. Talvez o meu texto parecerá desarticulado, mas, apesar de seu caráter fragmentário, creio que me possibilitará apresentar os dados pertinentes para depois, ao lado da teoria, dar sentido à análise na conclusão. Sendo assim, prosseguirei por ordem: o capítulo 1, a “crise do estatismo industrial e o colapso da União Soviética”; depois o capítulo 2, “o surgimento do Quarto Mundo: capitalismo informacional, pobreza e exclusão social”; o capitulo 3, “a conexão perversa: a economia do crime global”; o capítulo 4, “desenvolvimento e crise na região do Pacífico: a globalização e o Estado”; e, por fim, o capítulo 5, “a unificação da Europa: globalização, identidade e o Estado em rede”.

1. Crise do estatismo industrial e o colapso da União Soviética. O aspecto da análise conjuntural sobre a União Soviética se refere à dificuldade que a potência tinha em fazer a transição para o informacionalismo. Um sistema burocrático centralizado e altamente hierarquizado, controlando os fluxos de informações, se contrapunha ao sistema da sociedade em rede em que as informações são frutos de um processamento livre pela sociedade. No cenário da análise estão participando o estatismo soviético com uma lógica incompatível com a lógica flexível da sociedade em rede e em oposição ao nacionalismo como fonte de identidade primária e uma sociedade civil em busca de democracia. 

Aqui é defendida a idéia de que a derrocada da União Soviética foi a conseqüência da “incapacidade estrutural do estatismo[k] e da versão soviética do industrialismo[l] de assegurar a transição para a sociedade da informação”.[101] Apesar do crescimento da economia soviética durante as décadas de 50 e 60 ser mais acelerada do que a verificada nos restante do mundo, dois problemas estruturais pareciam impedir o sistema de promover a sua reestruturação por volta dos anos 80. Primeiro, o esgotamento do modelo extensivo de crescimento econômico implicava a necessidade de mudança para um novo equacionamento da produção. Segundo, a excessiva burocratização do sistema de administração econômica. Em ambas as frentes — modernização tecnológica e regeneração da máquina administrativa — os obstáculos eram tremendos.[102]

A questão da tecnologia foi significativa para a União Soviética. Ela ficou na contramão da história justamente no momento em que os demais países convergiam para a assimilação das tecnologias da informação. A economia não conseguiu convergir do sistema extensivo para o intensivo, a União Soviética não conseguiu participar da concorrência econômica mundial, e a população com alto nível de conhecimentos ficou cercada por um sistema tecnológico inferior ao usado na maioria dos países industriais. A aplicação de computadores a um sistema burocrático e a uma economia de comando aumentou a rigidez do sistema. E, por fim, a defasagem do aparato militar em relação a indústria bélica de seus concorrentes. Em essência, “o estatismo soviético negou a si mesmo a difusão de tecnologias da informação no sistema social”. Com isto, “impossibilitando o processo de inovação espontânea pelo uso e interação em rede que caracterizam o paradigma da tecnologia da informação”.[103]   

O estatismo enfrentou uma tarefa bastante difícil no gerenciamento de sua relação com a economia e a sociedade no contexto histórico da transição para o informacionalismo, isto porque:

A interação simbiótica entre processamento de informações socialmente determinado e a produção, revelaram-se incompatíveis com o monopólio sobre as informações exercido pelo Estado e com o confinamento da tecnologia dentro dos limites da indústria bélica. Em nível organizacional, a lógica estrutural das burocracias verticalizadas tornou-se obsoleta por causa da tendência do informacionalismo que aponta para a formação de redes flexíveis, bem à maneira do que se passou no Ocidente. Ao contrário do Ocidente, no entanto, a cadeia de comando verticalizada estava bem no coração do sistema, o que causou dificuldades muito maiores para a transformação de grandes empresas nas novas formas de organizações empresariais integradas em rede. Vale lembrar que os administradores e burocratas soviéticos tomaram contato com a flexibilidade e a formação de redes sob o aspecto de um princípio organizacional.[104]

E:

A sociedade da informação não é a superestrutura de um novo paradigma tecnológico. Está baseada na tensão histórica entre o poder material de processamento de informações abstratas e a busca da sociedade por uma identidade cultural que seja imbuída de significado. Em ambos os casos, o estatismo parece ser incapaz de assimilar essa nova história. O estatismo não apenas asfixia a capacidade inovação tecnológica, mas também apropria-se de identidades historicamente arraigadas e as redefine com o propósito de dissolvê-las no processo de concentração de poder, elemento de suma importância para o sistema. Em última análise, o estatismo fica destituído de poder em um mundo em que a capacidade de a sociedade renovar as informações de maneira constante, aliadas às tecnologias que as incorporam, constituem as principais fontes de poder econômico e militar. Além disso, o estatismo é enfraquecido e, finalmente, destituído por sua incapacidade de produzir legitimidade, tendo por base a identidade.[105]

Quanto o afastamento da identidade e crise do federalismo soviético, é afirmado que “a criação de um novo povo soviético (sovetskii narod) como entidade com cultura distinta e cada uma das nacionalidades historicamente construídas era ainda muito frágil para resistir ao ataque das sociedades civis contra o Estado soviético”. Por se permitir “ao povo uma autodefinição com base em sua identidade étnica/nacional primária, o vazio ideológico gerado pelo fracasso do marxismo-leninismo reduziu os termos do debate cultural à oposição entre o ceticismo subjugado e a redescoberta do nacionalismo”.[106] Este nacionalismo não foi expressão apenas da etnia coletiva, mas uma forma predominantemente assumida pelo movimento democrático. A desconfiança dos movimentos sóciopolíticos nas ideologias formalizadas fez com que:

Estes se reestruturassem de uma forma bem mais flexível, em torno de dois símbolos de identidade: de um lado, a negação do comunismo soviético sob qualquer forma, reestruturado ou não; do outro, a afirmação de uma identidade coletiva primária, cuja expressão mais ampla era a identidade nacional.[107]

Estes acontecimentos desarticularam o PC (Partido Comunista) e fragmentaram a União Soviética. Enfim, “o legado mais duradouro do estatismo soviético será a destruição da sociedade civil, após décadas de negação sistemática de sua existência”. A União Soviética foi reduzida a redes de identidade primária.

Olhando da perspectiva teórica colocada em evidência ao longo deste estudo, poderíamos traçar um panorama em que a interação entre processos globais de formação de redes no topo, processos locais de formação de identidades na base, com o estatismo em nível intermediário, tornou o Estado soviético insignificante. A União Soviética com estrutura social engessada pelo estatismo se viu incapaz de lidar com o informacionalismo. A dinâmica da tecnologia da informação e a dinâmica da interação entre diversas identidades nacionais teceu uma rede horizontalizada e flexível fora do controle do Estado. O nacionalismo se opôs ao estatismo e a economia global conectou seletivamente segmentos relevantes do antigo bloco. A lógica do estatismo não combinou com a lógica das redes. 

2. O surgimento do Quarto Mundo: capitalismo informacional, pobreza e exclusão social. O Quarto Mundo é compreendido por várias regiões e segmentos sociais caracterizadas por desigualdade, pobreza e exclusão social. A exposição é articulada em torno de dois processos de distinção social, de um lado as relações distribuição/consumo e de outro as relações de produção. Mas, como disse antes, meu interesse se concentra nos pontos relevantes da obra de Castells, sendo assim, vou dispensar as questões que julguei secundárias e destacar as partes que se relacionam mais diretamente com a teoria. Neste momento, referindo-me ao Quarto Mundo, vou procurar entender como acontecem as interações entre os atores sociais e a sociedade em rede que levam a desigualdade, a pobreza e a exclusão social, ou seja, a desconexão do Ser. Três elementos formam a base empírica: a exclusão social da África subsaariana, o avanço da pobreza nos Estados Unidos e uma visão sobre os processos de desenvolvimento e subdesenvolvimento: a visão das crianças.         

Sobre a exclusão social na África Subsaariana, a análise percorre a complexa interação entre a economia, tecnologia, sociedade e política no desenvolvimento de um processo que nega a humanidade ao povo africano. A hipótese é que este processo coincide com a formação do capitalismo informacional/global, e vê que esta região do mundo sofreu um processo de marginalização e integração seletiva na economia informacional/global. As razões disso são pontos de intenso debate, mas três fatores são apontados: “meio institucional pouco confiável; falta de infra-estrutura de produção e comunicações, bem como de capital humano; e políticas econômicas incorretas”.[108] Mas ela não está totalmente excluída, existem nichos de riqueza que propiciam que uma elite do continente se conecte com as redes globais de riqueza, poder, informação e comunicações. A África não está alheia, mas, em vez disso:

Encontra-se desarticulada por sua incorporação fragmentada à economia global por meio de relações seletivas, tais como quantidade limitada de exportações, apropriação especulativa de recursos de alto valor, transferências de numerário para o exterior e consumo parasitário de bens importados.[109]

Quanto à tecnologia da informação, “por ora, a África está excluída da revolução da tecnologia da informação, à exceção de alguns nós de gerenciamento financeiro e internacional diretamente relacionados a redes globais que, ao mesmo tempo, desprezam as economias e sociedade de onde se originam”.[110] O nível de conectividade da África está afetado por sua infra-estrutura incipiente, atrasando o principal processo do uso de computadores na era da informação, a formação de redes. Por isso, há uma espiral descendente na competitividade africana a cada avanço da tecnologia da informação. A cada momento a África se distancia mais e mais da economia informacional/global.[111]

Em relação ao poder, há uma política predatorial que esvazia os Estados africanos. As conseqüências são que as riquezas que chegam ao país são tratadas de acordo com a lógica pessoal de acumulação de riqueza, o acesso ao poder equivale ao acesso à riqueza, e apoio político obtém-se por meio do clientelismo. “Uma complicada combinação de critérios, compreendendo etnia, territorialidade e economia, contribui para a formação de redes de geometria variável, que constituem a realidade da política na maior parte da África”. Dois casos exemplificam o tipo de exploração do Estado que acontece na África: Zaire e Nigéria. No Zaire, a política predatória promovida por Mobutu desintegrou completamente o Estado. Na Nigéria, confrontos políticos fragmentaram a sociedade, e o novo governo ditador afastou-a dos fluxos monetários da economia internacional. No geral, os “Estados-nação da maior parte do continente africano tornaram-se, em grande medida, predadores de sua própria economia”. Para todos os efeitos práticos, no desaparecimento do Estado-nação.[112]  

Identidade étnica, globalização econômica e a formação dos Estados na África redundam numa complexa relação que tem definido o modo como as pessoas têm acesso ao poder e a riqueza. A construção identitária não está baseada na cultura, mas na política. O poder é distribuído segundo uma lógica de um Estado bifurcado, herança dos tempos coloniais, onde, de um lado, o Estado legal, e, de outro, as estruturas de poder nativas. Neste tipo de estrutura, o poder e recursos eram destinados às etnias mais bem representadas perante o Estado judicialmente instituído. O que gera a necessidade de pertencer a uma etnia para se ter acesso aos canais de riqueza. É o Estado e suas elites que criam e recriam as identidades étnicas e não ao contrário.[113] Enfim, há uma complexa relação “cultural/étnico/histórico/geográfico/econômico”  com um nacionalismo insuficiente para agregar as etnias, e com isto uma desarticulação total da economia do continente. Contudo, há uma esperança para o continente através de uma conexão com o sistema global via África do Sul. Esta nação encontra-se em bom nível de conexão à economia global/informacional. Para concluir:

Esse sistema político pervertido vem sendo produzido ao longo da história, e sua estrutura é mantida pelas potências européias e os Estados Unidos e pela assimilação fragmentada da África às redes do capitalismo global. É justamente essa articulação seletiva de elites e de bens de valor, com exclusão social da maioria das pessoas e a desvalorização econômica da maior parte dos recursos naturais, que é o diferencial da mais recente manifestação da tragédia africana.[114]

A exclusão social nas cidades norte-americanas. Os Estados Unidos foi a primeira sociedade a vivenciar as transformações estruturais e organizacionais características da sociedade em rede. Contudo, mesmo assim, houve um crescente aumento da desigualdade, pobreza, polarização e miséria nos EUA. Isto está vinculado a quatro processos inter-relacionados: desindustrialização, individualização e integração em rede do processo de trabalho, incorporação da mulher no mercado de trabalho remunerado na economia informacional.[115] É a tendência predominante entre capitalismo informacional, desigualdade social e pobreza que leva ao processo de exclusão social, sintetizada nos guetos dos centros das cidades norte-americanas. As tragédias diárias nestes locais têm sido um dos problemas mais antigos dos Estados Unidos. Estes guetos são áreas segregadas por raça, classe e etnia. “A estrutura espacial interage de forma decisiva com os processos econômicos, sociais e culturais… A segregação urbana é reforçada pela separação crescente entre lógica do espaço de fluxos e a do espaço de lugares”.[116] O surgimento do espaço de fluxos que utiliza a tecnologia para efetuar conexões de lugares distantes entre si faz com que lugares indesejáveis sejam deixados ao longe.  

A superexploração e a exclusão das crianças. A mão-de-obra infantil cresceu muito principalmente nos Estados Unidos. As principais atividades que envolvem as crianças são aquelas que necessitam de mão-de-obra barata e flexível, em especial o turismo. A forma em rede da economia, com as empresas funcionando através da subcontratação, facilita a incorporação das crianças temporariamente.[117] Acompanhando a exploração da mão-de-obra infantil, vem a exploração sexual. Facilitada pela tecnologia, basicamente a Internet, instaurou-se “uma rede global de pornografia, distribuída de forma totalmente descentralizada e com chances mínimas de sujeitar-se às penas cabíveis, determinadas pela lei”.[118] Do lado da oferta, “a pobreza e a crise da instituição familiar fornecem a matéria-prima. A ligação entre oferta e a procura normalmente é efetuada pelas redes da economia do crime global”.[119] Para ser mais específico, “as redes de prostituição infantil no Sudeste Asiático compram crianças nas áreas rurais mais empobrecidas da Tailândia, Camboja, Filipinas e outros países da região para atender à demanda de suas redes de distribuição na Ásia.[120] A sociedade em rede devora as crianças. Para resumir, as causas disso estão na desintegração das sociedades tradicionais, nas lojas de departamento, no turismo global, na pornografia infantil eletrônica em rede, na desintegração do patriarcalismo, na fragilização das instituições de defesa dos direitos da criança, na pobreza.[121] O desperdício das crianças reside no fato de que “na Era da Informação, as tendências sociais são extraordinariamente amplificadas pela nova capacidade tecnológica/organizacional da sociedade, ao mesmo tempo em que as instituições de controle social são sobrepujadas pelas redes globais de informação e capital”.[122]

Enfim, as relações entre as características do capitalismo informacional e o aumento da desigualdade, polarização social, pobreza e miséria dão origem “a uma profunda divisão entre pessoas e locais considerados valiosos. A globalização atua de forma seletiva, incluindo e excluindo segmentos de economias e sociedades das redes de informação, riqueza e poder”.[123] Em geral, “a exclusão social é expressa em termos espaciais. O confinamento territorial de populações sem valor, do ponto de vista sistêmico, desconectadas de redes de funções e pessoas valorizadas, sem dúvida representa uma das características mais importantes da lógica espacial da sociedade em rede”. Os eventos que desconectam as pessoas e regiões podem ser:

Representados por um ditador ganancioso, como no Zaire; por ruma decisão da polícia de deixar certos bairros à mercê de traficantes de drogas; por práticas discriminatórias de restrição ao financiamento imobiliário com base em critérios étnicos ou raciais; ou, ainda, pela exaustão de áreas de mineração ou desvalorização de produtos agrícolas que até então constituíam a principal atividade econômica de uma determinada região.[124]

O Quarto Mundo é criado pela desconexão de diversas regiões do planeta da África a Europa, passando por cidades americanas e regiões ricas do Sudeste Asiático. O Segundo Mundo se desintegrou, o Terceiro Mundo desapareceu, mas o Quarto Mundo vem aumentando à medida que o capitalismo informacional atua seletivamente. A África está desarticulada e boa parte dela não pertence mais ao mundo da economia em rede. Vítima de exclusão social, exclusão tecnológica, exclusão das redes financeiras, somente convivendo com uma política predatória de seus líderes, não há outra opção de vida aos indivíduos, além de pertencer a uma etnia e, assim, ter acesso ao que resta de poder e esperança diante dos ditames da globalização. E não é porque estamos falando de uma região sem a infra-estrutura mínima que permita a conexão com a rede global informacional. A exclusão social acontece também e de forma mais agressiva no centro das grandes cidades do mundo. Nas cidades informacionais surgem verdadeiros guetos distribuídos por raça, classe e etnia. Quanto mais um centro urbano é relevante para a economia global, mas é polarizada socialmente, juntando em espaços segregados miséria e pobreza numa desigualdade sem igual. Eis o terreno para que as crianças se tornem mão-de-obra barata e alvo de exploração sexual capturadas pela economia do crime e distribuídas pelas redes de prostituição, seja como pornografia na Internet ou mesmo entrega à domicílio para consumidores de diversas partes do mundo. O Quarto Mundo é a expressão mais clara da desconexão provocada pela rede.

3. A conexão perversa: a economia do crime global. O “crime global, a formação de redes entre poderosas organizações criminosas e seus associados, com atividades compartilhadas em todo o planeta, constitui um novo fenômeno que afeta profundamente a economia no âmbito internacional e nacional, a política, a segurança e, em última análise, as sociedades em geral”.[125] Estas organizações ultrapassam fronteiras e unem grupos criminosos locais e regionais numa ampla rede global e diversificada que estabelece vínculos de todos os tipos e opera com tudo o que se atribui valor agregado, desde drogas a obra de arte. Os resultados financeiros obtidos por estas organizações contaminam o sistema financeiro mundial e afetam de forma profunda as economias de muitos países. A flexibilidade da conexão dessas atividades criminosas por meio de redes internacionais constitui uma das características fundamentais da nova economia global.[126]

O crime organizado se globalizou. Semelhante ao modelo das estruturas organizacionais da empresa em rede, o crime organizado estabelece “alianças estratégicas para cooperar com as transações pertinentes a cada organização, em vez de lutar entre si, mediante acordos de subcontratação e joint ventures”.[127] A chave do sucesso das operações do crime organizado encontra-se na flexibilidade e versatilidade de sua organização em redes. Cada organização não tem condições de se tornar ela só global, sob pena de invadir o espaço de outra organização. Por isso que, “sob a lógica estritamente empresarial, as organizações criminosas estabelecem uma relação de respeito mútuo e encontram pontos de convergência que ultrapassam fronteiras e grupos nacionais”. [128] É “essa combinação entre flexibilidade na formação de redes entre grupos locais, fundados na tradição e na identidade em um ambiente institucional favorável, e o poder de ação global proporcionado por alianças estratégicas que explica a força organizacional do crime global”.[129] 

O exemplo da Rússia ajuda a entender a atuação dessas redes. A transição caótica da União Soviética para economia de mercado propiciou as condições para a atuação do crime organizado nas atividades empresariais. As “organizações criminosas associaram-se a centenas de redes das mafiyas pós-soviéticas, muitas delas organizadas em torno de determinadas etnias”. O “objetivo era a lavagem de dinheiro, adquirir propriedades de valor e assumir o controle de negócios lucrativos, tanto legais quanto ilegais”.[130] Sob a condição de caos institucional, “protocapitalistas e criminosos passaram a ter trânsito livre pelas repúblicas, selecionando os ambientes mais favoráveis para realizar seus negócios, efetuando operações em toda a extensão da extinta União Soviética”.[131] Além disso, as redes mafiyas russas locais assumiram o controle do Estado e ingressaram na Era da Informação muito mais rapidamente do que o governo russo. Por fim, um mecanismo que propiciou a formação destas redes criminosas de acumulação capitalista foi o processo de privatização não tão transparente, pois “poucos meses depois do fim da União Soviética, impérios financeiros gigantescos, com uma carteira amplamente diversificada, surgiram na economia russa”.[132] Enfim, não é a atuação do crime organizado que explica a situação de caos na ex-União Soviética, mas a maneira equivocada que Gorbachev desarticulou o império, deixando-o sem um sistema que o substituísse, e também a maneira apressada que os democratas russos conduziram a transição para a economia de mercado sem um controle institucional e social que propiciou a apropriação indébita. E, assim que são gerados os lucros, vão parar nas redes financeiras globais. O crime organizado russo está imerso nos fluxos globais de riqueza e poder.[133]

O narcotráfico na América Latina. Especificamente na Colômbia:

Poderosas redes criminosas, formadas a partir do tráfico de drogas, outras atividades criminosas (mais especificamente, lavagem de dinheiro, contrabando, tráfico de armas, tráfico de imigrantes, prostituição internacional e seqüestro) vêm sendo organizadas, constituindo, portanto, um mundo criminoso vasto e complexo, cuja estrutura altamente descentralizada permeia todas as sociedades latino-americanas e nelas imprime sua marca.[134]

São várias as características da indústria do narcotráfico: está orientada à demanda e à exportação; a indústria é totalmente internacionalizada, com uma divisão bastante rigorosa da mão-de-obra entre os diferentes locais do processo produtivo; o componente essencial de toda a indústria da droga é o sistema de lavagem de dinheiro; a indústria da droga precisa da corrupção e da penetração em seu meio institucional para poder funcionar, em todas as etapas do sistema.[135] 

Existe uma importância da identidade cultural na constituição, funcionamento e estratégia das redes criminosas. O apego dos traficantes de droga colombianos pelo país vão além de um cálculo meramente estratégico. A razão está numa:

Combinação singular entre redes latentes de tráfico de drogas que estabeleceram ligação com os Estados Unidos, uma classe empreendedora marginalizada pelo fracasso da industrialização da América Latina e o sólido enraizamento dos contrabandistas relativamente escolarizados e em fase de ascensão social às suas culturas e sociedades locais.[136]

Além do fato da Colômbia ser um ambiente institucional bastante favorável, é impotente diante da guerrilha comunista, da oligarquia estreita e profundamente corrompida e dos traficantes de drogas. No final do milênio é um Estado que ainda não controla todo o seu território. Isto parece confirmar a hipótese de que se a fragilidade do Estado facilita a instalação de núcleos de comandos e controle das redes criminosas globais, é provável que o poder de tais núcleos criminosos arrebatem ainda mais o controle desses Estados.[137]

Há um profundo impacto do crime organizado sobre a economia, política e cultura. A “lavagem de dinheiro e seus derivados tornaram-se um componente significativo e bastante problemático dos mercados de ações e fluxos financeiros”.[138] Além do volume de dinheiro sujo que circula pela rede, a mobilidade é outro fator importante, pois a constante circulação é promovida para dificultar a identificação de sua origem. O movimento deste dinheiro tem sido fonte de desestabilização das finanças e mercados de capital internacionais. O impacto sobre a política é ainda maior. A “soberania do Estado, já desgastada pelos processos de globalização e identidade, vem sofrendo ameaças diretas de redes criminosas altamente flexíveis, que se esquivam dos mecanismos de controle e assumem um grau de risco que nenhum outro tipo de organização é capaz de absorver”.[139] A tecnologia e a organização em rede vem atribuindo mais poder ao crime organizado, e com isto, ele foge das regulamentações nacionais. A flexibilidade da rede lhe permite mudar suas bases operacionais. A influência do crime também atinge a esfera cultural. A “identidade cultural alimenta a maior parte dessas redes criminosas, fornecendo os códigos e as formas de comprometimento que criam a confiança e garantem a comunicação no âmbito de cada rede”.[140] Também induz a uma nova cultura em que criminosos bem-sucedidos são admirados por jovens pobres que não vêem perspectivas de melhorar de vida e são levados a viver intensamente o presente numa “cultura da urgência”. Tudo isso, além da difusão da cultura do crime organizado pela mídia na vida cotidiana.[141]

Nem toda conexão com a rede é favorável. O crime organizado está estruturado em rede e utilizando uma lógica semelhante da empresa dotada de flexibilidade e versatilidade conseguida com as tecnologias da informação. Entremeado de identidade e política, o crime organizado se aproveita de um Estado depauperado de suas instituições para fazer prevalecer sua vontade. O narcotráfico se estrutura em redes descentralizadas e tem suas atividades voltadas para mercados afluentes. A identidade cultural é uma característica marcante nas redes de tráfico. Há um apreço por estas organizações em estabelecer seus centros de controles em suas próprias sociedades. As atividades destas redes, com certeza, tem impacto profundo sobre a economia mundial. Os fluxos produzidos por estas redes distorcem a realidade e não podemos medir suas conseqüências. O alcance delas se estende do trabalhador nos campos de coca da Colômbia a protocapitalistas na Rússia, além de envolver um turbilhão de dólares nas redes financeiras globais. Eis, um tipo de rede que consegue estabelecer os mais diferentes tipos de vínculos, em sua maioria perversos. 

4. Desenvolvimento e crise na região do Pacífico: a globalização e o Estado. A região do Pacífico asiático serve para demonstrar como acontece a relação entre Estado e globalização. Seis países são analisados: Japão, Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan, Hong Kong e China.

Esta região se destacou como uma das mais prósperas regiões em desenvolvimento no último quarto do século XX, com um fluxo de capital estimado em torno de US$ 420 bilhões na primeira metade da década e 90. Mas em poucos meses nos anos de 1997 e 1998 economias inteiras entraram em colapso e a região quase foi a bancarrota. Qual a causa? O que ocasionou a crise foi a brutal inversão no fluxo de capital. A razão está na maneira como o Estado se relacionou com a sociedade e com o capital mundial durante as décadas de franco crescimento. A crise tem duas fontes: de um lado está ligada à dinâmica dos mercados financeiros globais, de outro, com a diversidade econômica e a especificidade institucional que levou a resultados muito diferentes em cada Estado.

Os fluxos financeiros globais haviam penetrado nas economias de maneira tão profunda que elas ficaram dependentes de empréstimos maciços de curto prazo. E tal prática tornou essas economias muito vulneráveis a qualquer inversão repentina dos fluxos de investimentos”. Os fluxos financeiros tiveram um papel esmagador sobre a economia asiática e isto está ligado a dois fatores: primeiro, “o sucesso dessas economias e suas perspectivas de grande crescimento econômico”; segundo, “a fragilidade de suas instituições financeiras, sob total dependência do Estado”.[142] E, por que estas instituições eram tão frágeis? A razão está no fato de que durante o período de crescimento os governos protegiam as empresas, mas à medida que isto acontecia, elas tornavam-se participantes globais nos setores de comércio e investimentos. Daí:

Quando a escala dessas economias, o porte das empresas e suas interligação com as redes capitalistas globais levaram a uma integração bilateral na economia global, os Estados não puderam mais proteger ou controlar os movimentos de capital, bens e serviços. Desse modo, eles foram ignorados pelos fluxos econômicos globais e não tiveram condições de regulamentar ou comandar suas economias com as normas preexistentes, tornadas obsoletas pelo próprio sucesso. Sem nenhuma proteção do Estado, as empresas e os mercados financeiros asiáticos foram tomados pelos fluxos de capital global que obteve lucros substanciais e depois deixou esses mercados, quando sua falta de transparência os tornou muito arriscado.[143]

O desenvolvimento e a crise da região do Pacífico asiático tem um conjunto bem específico de relações entre o Estado, a economia e a sociedade. Então, é na interação entre a dinâmica social interna e os fluxos financeiros externos, mediados pela ação do Estado, que está a explicação do porque cada economia se desenvolveu, sofreu (ou não) a crise e por que a crise afetou, em vários graus, países com condições muito diferentes.

O Japão. O Japão é o exemplo de um nacionalismo que “ressurgiu sob a forma de projeto de desenvolvimento econômico promovido pelo Estado e voltado para a concorrência pacífica na economia internacional”. Os burocratas do Estado “têm orientado e coordenado as empresas japonesas, organizadas em rede… ajudando-as com política de comércio, tecnologia e crédito para competirem com sucesso na economia mundial”. O bom desempenho econômico “contou com estabilidade social e alta produtividade da força de trabalho por meio da cooperação entre a gerência e os trabalhadores, possibilitada pela estabilidade no emprego e pela promoção da força de trabalho permanente com base no tempo de serviço”. [144] No conjunto:

A estabilidade social baseava-se em três fatores principais: (a) comprometimento do povo para reconstruir o Japão; (b) acesso ao consumo e melhoria substancial dos padrões de vida; e (c) família patriarcal forte e estável que reproduzia os valores tradicionais, induzia a ética do trabalho e proporcionava segurança pessoal a seus membros, à custa da manutenção da submissão feminina.[145]

O modelo de desenvolvimento japonês é uma combinação de cultura política; eficácia das empresas em rede; cooperação entre gerentes e trabalhadores, possibilitando o espírito comunal de trabalho em equipe; a participação das mulheres, propiciando o trabalho flexível; participação do Estado na reprodução da cultura, principalmente do Ministério da Educação cujos programas educacionais definem a profissão do cidadão japonês muito cedo; e, grande estabilidade política.

Mas este modelo japonês entrou em crise no final da década de 80. Partindo de uma crise financeira, devido a inabilidade das instituições financeiras japonesas em lidar com a exposição aos mercados financeiros globais, a política de acesso fácil ao crédito, “redução da capacidade do governo japonês para cobrir as perdas das instituições financeiras”, tudo isto somado às transformações provocadas pela globalização causou o rompimento da interação sistêmica entre o Estado desenvolvimentista e as redes multinacionais japonesas e agravada pela crise do sistema político. A política japonesa sofreu um processo de fragmentação partidária e diversificação dos interesses nacionais. Enfim, a sociedade da informação japonesa estava em choque com sua própria obra, porque sociedade da informação não é aquela que utiliza a tecnologia da informação, mas uma estrutura social específica.[146]    

Os quatro tigres asiáticos. A análise dos quatro tigres asiáticos (Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong) ajuda elucidar o processo de desenvolvimento da região do Sul o Pacífico. O modo diferente que os tigres reagiram permite uma compreensão da natureza da crise em si. Ao analisar os quatro países, Castells vai além de entender os processos de desenvolvimento e a crise, procura “interpretar as contradições sociais e políticas desencadeadas por esses processos, motivando a transição para as sociedades informacionais e sua integração na economia global”. É na interação entre crise, desenvolvimento, Estado e a sociedade que poderemos encontrar a explicação para as diferentes formas dessa incorporação. Castells reconstrói o complexo conjunto de relações entre Estado, a sociedade e a economia na região do Pacífico, do qual vou levantar alguns pontos.  

Cingapura: No caso de Cingapura, a construção da identidade nacional se deu pelo Estado via empresas transnacionais. O fator crucial foi a entrada maciça de capital oriundas de fontes externas e da poupança. Era o governo quem controlava esta poupança e investia em infra-estrutura social e física e um pouco em empresas públicas. “O fator central do processo de desenvolvimento foi o papel do governo, fornecendo os incentivos necessários para atrair capital estrangeiro e conseguir investidores”. O governo também exerceu papel fundamental na diversificação industrial. O “rápido crescimento das economias na região ajudou Cingapura a subir a escada do informacionalismo e a tornar-se um dos centros da economia global”. Ela se tornou o local preferido pelas empresas multinacionais para localizar a administração e investimento na região econômica mais dinâmica do planeta. Cingapura se tornou “vitrine do novo processo de desenvolvimento, construindo identidade nacional com base em investimentos multinacional, atraído e protegido por uma cidade-estado desenvolvimentista”.[147] 

Coréia do Sul: A Coréia do Sul foi também muitíssima auxiliada pelo governo que criou um capitalismo estatal oligopolista. Com apoio militar, político e financeiro dos Estados Unidos e influenciado pelo modelo japonês, o governo criou uma estrutura baseada em grandes empresas com o mercado protegido. Porém, como este mercado interno era muito pequeno, o governo criou uma estratégia voltada para a exportação. Havia, ainda, um Conselho de Planejamento Econômico que planejou, orientou e implantou vários planos qüinqüenais. Muitas vezes estes planos falharam, mas o governo estava lá para socorrer as empresas. Fora isso, o Estado desempenhou papel crucial de atrair capital e controlar e mobilizar os trabalhadores. Todavia, foi somente na década de 70, quando a economia estava solidificada, que o governo procurou investimentos estrangeiros. O Estado também promoveu a incorporação submissa da mão-de-obra na nova economia industrial. Esta incorporação, contudo, foi mais repressora do que em outras sociedades. Finalmente, “a ênfase em ciência e tecnologia aliada à melhoria dos produtos e processos na indústria coreana têm sido a obsessão da Coréia do Sul desde a década de 60”. Em apenas três décadas, um Estado com um projeto nacionalista desenvolvimentista saiu das cinzas e se ingressou na economia mundial.[148]

Taiwan: Já Taiwan foi um Estado de capitalismo flexível sob a égide de um Estado inflexível. A produção flexível e adaptável às condições da economia mundial estava sob controle de um Estado forte. Duas características são cruciais para o entendimento do processo que se passou: o Estado do Kuomintang ocupava o centro da estrutura; a estrutura é uma rede formada por relações entre as empresas e o mercado mundial por intermédio de companhias trading e intermediários comerciais. O núcleo da estrutura industrial taiwanesa era constituído de grande número de empresas de pequeno porte, fundadas com poupança familiar e redes cooperativas de poupança e ajudadas com crédito de banco público. “As empresas estrangeiras eram ligadas, por meio de sistemas de subcontratação, a uma ampla rede de pequenas empresas que formavam uma base significativa para a produção industrial”. A economia taiwanesa não implica o controle por multinacionais como em Cingapura, nem por conglomerados de grandes empresas como na Coréia do Sul. “O Estado foi o principal agente na orientação e coordenação do processo de industrialização, na montagem da infra-estrutura, na conquista do capital estrangeiro, na escolha das prioridades para investimentos estratégicos e na imposição de suas condições”.[149]

Hong Kong: Hong Kong apresenta um modelo que contempla empresas de pequeno porte numa economia mundial, com uma intervenção mais moderada do Estado em relação aos outros países. Flexibilidade das indústrias e preços relativamente baixos foram os principais fatores para a explicação do seu crescimento. A estrutura “industrial básica de Hong Kong consistia de redes de pequenas empresas, operando em rede e subcontratando entre si para tarefas específicas”. Mas a pergunta é: como essas empresas se ingressaram no mercado mundial? Para isso, houve participação decisiva do governo organizando as exportações e criando várias centrais de informação e treinamento com escritórios no mundo todo. Mas, o papel decisivo do governo foi na estimulação do consumo. Também o Estado do bem-estar social colonial foi fundamental em duas outras funções: pela manutenção a paz na indústria por longo período, e pela criação de uma rede de segurança para empreendimentos de baixo risco. A partir de 1984, após a assinatura do acordo de transferência da soberania, Hong Kong adotou um novo modelo que contou com três iniciativas estratégicas: empenhou-se ainda mais na indústria da exportação; expandiu seu papel de centro internacional de negócios; e, tornou-se a conexão para a China.[150] 

A comparação entre os quatro tigres mostrando suas semelhanças e diferenças. A diferença mais considerável é a estrutura industrial de cada país. Cingapura caracteriza-se pela conexão direta entre as empresas multinacionais e o Estado. A Coréia do Sul é concentrada nas redes apoiadas e orientadas pelo Estado. Taiwan combina uma estrutura flexível de redes de empresas nacionais de pequeno porte e empresas estrangeiras de grande porte. Hong Kong teve seu crescimento, até meados dos anos 80, planejado e executado pelas indústrias locais. Não há, portanto, nenhuma relação entre uma estrutura e outra.[151]

Alguns fatores comuns são, primeiro, a existência de uma situação de emergência na sociedade. Segundo, a orientação da economia voltada para o exterior. Terceiro, a ausência de uma classe de proprietários rurais. Quarto, a disponibilidade de mão-de-obra instruída, capaz de se requalificar durante o processo de melhoria do nível industrial. Quinto, a capacidade de adaptação dessas economias ao paradigma informacional e ao padrão da economia global em constante mudança.

O Estado desenvolvimentista no Leste Asiático nasceu da necessidade de sobrevivência e depois se tornou base de um projeto nacionalista para afirmar sua identidade/política no cenário mundial. “Desse modo, sob formas diferentes específicas a cada sociedade, o Estado desenvolvimentista nos países recém-industrializados da Ásia parece ter sido o instrumento dos processos de construção (ou reconstrução) da nação (ou cidade), desenvolvidos por atores políticos em grande parte independentes de suas sociedades”.[152]

Por que os Estados desenvolvimentistas tiveram tanto sucesso? Três questões ajudam a responder: a relação entre os Estados desenvolvimentistas asiáticos e outros Estados no sistema internacional; a lógica interna dos Estados desenvolvimentistas; e a relação entre os Estados desenvolvimentistas e as respectivas sociedades. Na primeira questão, os Estados desenvolvimentistas foram muito favorecidos pelo contexto geopolítico da Guerra Fria. Na segunda, foi a construção de um aparato estatal tecnocrático eficiente. Na terceira, a capacidade política para impor e incorporar sua lógica à sociedade.[153]

Os quatro tigres asiáticos seguiram um caminho bem divergente durante a crise de 1997. No caso de Hong Kong e Cingapura a divergência destas duas cidades-estado está na maneira como cada governo atuou no mercado imobiliário. Em Hong Kong houve uma hipervalorização dos imóveis e o governo passou atuar como especulador, e quando a crise chegou os preços caíram substancialmente, e a cidade-estado foi à bancarrota. Já Cingapura manteve os valores dos imóveis sob controle, o governo não entrou no mercado da especulação e continuou a confiar nos fluxos financeiros.

Coréia do Sul e Taiwan são diferentes. A Coréia tem uma economia baseada em grandes empresas, enquanto a economia de Taiwan é baseada em redes de pequenas empresas. Ambos dependem da competitividade de seus setores industriais. A crise da Coréia do Sul começou com a falência de uma grande chaebol. A participação do Estado desenvolvimentista sul-coreano na economia era forte, mas este tinha limitações advindas da sociedade democrática. Já em Taiwan a participação do governo na crescente competitividade era secundária. Havia redes dessas empresas em Taiwan, na Ásia e nos Estados Unidos que na hora da crise contra-balancearam o choque. Enfim, não há um padrão nas fontes da crise entre os quatro tigres asiáticos.[154]

Na década de 90 houve uma mudança substancial na relação entre Estado, sociedade e economia. Na Coréia do Sul surgiu um movimento social impondo restrições ao Estado desenvolvimentista. O centro da política mudou de uma ditadura militar para uma democracia popular. Em Taiwan a busca por identidade mudava, cada vez mais, do público para o privado, da nação para a família e o individual. Hong Kong tem um futuro incerto, mas sua identidade não o é. Esse povo é “um componente essencial da nova China, uma China feita de redes transnacionais de empresas e sociedades regionais, administradas por uma complexa teia de governos naiconais/provinciais/locais e com ela interagindo”. Cingapura sem uma sociedade civil “representa a fusão do Estado revolucionário e do Estado desenvolvimentista na construção da legitimidade, no controle da sociedade e na condução da economia”.[155]

China. Há a idéia de que a “modernização e a abertura internacional da China é (e era) uma política estatal deliberada, elaborada e controlada até agora pelos líderes do Partido Comunista”.[156] O partido “era uma poderosa máquina política descentralizada, presente em cada aldeia, bairro e unidade de produção de todo o país, formando uma imensa rede hierárquica que, pela primeira vez na história, realmente controlou a China até em seus menores recantos”.[157] O Comitê Central do partido tinha por objetivo inserir a China na economia global e no paradigma informacional. A idéia de:

Um processo de desenvolvimento econômico e tecnológico totalmente maduro — sem ceder à pressões da sociedade civil e com a segura manutenção da capacidade de manobra na arena global nas mão do Estado — agrada bastante a um partido cuja raison d´etre é, em última análise, a afirmação da China como potência mundial, preservando a mitologia comunista, se possível. [158] 

A integração da China na economia global teve uma tentativa frustrada no início da década de 80. A partir de uma leitura equivocada da “nova divisão internacional da teoria do trabalho” se propuseram a construir quatro Zonas Econômicas Especiais que, isoladas do restante do país, iriam funcionar como meio de exportação dos produtos chineses e importação de know-how. A tentativa era atrair as multinacionais, mas o que elas queriam eram o mercado chinês e a liberdade de poderem criar suas próprias redes de fornecedores de distribuidores. As empresas multinacionais restringiram investimentos e retiveram tecnologia, e não representaram as principais conexões da China com o mercado mundial. Então, por outra via, a China tem uma conexão étnica com o mercado mundial através de “redes de empresas chinesas” que operam no exterior e os governos locais e províncias da China”.[159] Uma vez estabelecidas estas redes o capital flui de várias partes do mundo provenientes das comunidades chinesas. 

Há uma importante relação entre os Estados desenvolvimentistas regionais chineses e os empresários burocráticos. O governo central chinês, na busca de desenvolvimento econômico, promoveu uma política de reforma para cada localidade de acordo com as características específicas. Os governos regionais ganharam, então, autonomia para exercer suas políticas econômicas. Com isto, os governos regionais “investiram em novas empresas voltadas para o mercado, muitas vezes em joint ventures com investidores estrangeiros”. Contudo, à medida que a economia de mercado ia se expandindo, ficou cada vez mais difícil exercer o controle político sem criar o caos, devido a três motivos:

Primeiro, porque os centros de acumulação de capital estavam em grande parte nas mãos de uma constelação de empresas provinciais/locais, diretamente ligadas a fontes financeiras e mercados externos. O segundo motivo refere-se ao rápido crescimento de milhares de gumin (“especuladores fanáticos por ações”) que, utilizando-se da tecnologia da informação para operar nas bolsas de valores de Pequim, Xangai e Shenzhen a partir de qualquer ponto da China, canalizavam recursos de poupança e driblavam os controles governamentais. E o terceiro motivo é fundamental: o novo equilíbrio do poder na China tomara a forma de um padrão complexo de interdependência entre o governo central e as regiões, interconectados pelo partido e pelo exército.[160]

Mas como foi a relação da China com a crise de 1997? A China resistiu á violência dos fluxos financeiros e foi a única economia na região que continuou crescendo a uma taxa elevada e teve ainda condições de socorrer Hong Kong. Dois fatores explicam a resistência da China: primeiro sua integração limitada à economia mundial; segundo, a administração do ritmo de sua integração no comércio mundial pelo governo.[161] 

Alguns observadores pensam que o desenvolvimento na China está associado à democracia. Mas não é bem assim. A “rede de organizações do Partido Comunista mantém controle firme da maioria das associações e expressões voluntárias da vida cívica”. Há uma abertura e diversidade na mídia, mas dentro dos limites da correção política. No fim do milênio a China tem de enfrentar vários problemas, mas nenhum deles relacionados com a democracia. O mais importante deles se refere à viabilidade do “modelo cingapuriano” que líderes chineses parecem querer implementar. Portanto, ao que parece demonstrar, a inserção da China na economia mundial será feita somente mediante controle rígido do Estado desenvolvimentista. É bem capaz que diante de qualquer ameaça de instabilidade, o Estado chinês procure perpetuar-se sob forma de nacionalismo inflexível.[162]

A região do Pacífico Asiático, que na primeira metade da década de 90 recebeu um fluxo formidável de capital, no ano de 97 sofre uma inversão substancial neste fluxo. O impacto foi profundo, mas com conseqüências diferentes para cada país. A razão está no modo como cada sociedade, através do Estado, lidou com a economia durante o período de desenvolvimento. O Japão foi um projeto nacionalista promovido pelo Estado. O modelo de desenvolvimento japonês está baseado na empresa em rede, na flexibilidade do mercado de trabalho, porém havia pouca habilidade em lidar com a exposição aos mercados financeiros globais. Cingapura um Estado praticamente sem sociedade civil, criou uma identidade nacional promovida pelo governo através de empresas multinacionais. O governo tinha bom controle dos movimentos financeiros. A Coréia do Sul caracterizada por um capitalismo oligopolista formado por grandes empresas, tinha uma economia voltada à exportação. Taiwan um capitalismo flexível baseado em empresas de pequeno porte, sem a presença maciça de multinacionais. Hong Kong uma economia baseada em empresas de pequeno porte, mas com pouca intervenção estatal, o principal papel do governo foi a estimulação do consumo. Na China, o processo de modernização foi e é controlado pela deliberação do Estado, apesar de alguns erros na implementação dos programas, resistiu firme à violência dos fluxos de capitais.

5. A unificação da Europa: globalização, identidade e o Estado em rede. Tomando a União Européia como objeto de análise, é possível entender a relação entre a globalização, identidade e o Estado em rede. A formação da União Européia é conseqüência de três reações contra três ameaças observadas nas décadas de 50, 80 e 90. Nos três casos, o “objetivo era sobretudo político, e os meios para alcançar esse objetivo eram acima de tudo medidas econômicas”. Em 1948 líderes europeus se reuniram em Haia para discutir a integração européia. Desta data até 1957 foram criadas a Comunidade Européia do Carvão e do Aço (CECA), em 1951, a Euratom e a Comunidade Econômica Européia (CEE), em 1957. Em 1987, o Ato único Europeu estabeleceu os passos rumo à constituição do mercado comum europeu que vigoraria em 1992. Em 1991, foi assinado o Tratado de Maastricht que assumiu o compromisso da unificação total da economia européia.[163] Esse processo de unificação européia criou supranacionalidade de um lado e respeitou as diferenças de outro, ou seja, permitiu:

diferentes níveis de integração dependendo dos países e dos problemas. Essa ‘geometria variável’ de construção européia, apesar de toda incoerência, é um instrumento essencial da construção em si, uma vez que evita conflitos frontais entre os principais parceiros e, simultaneamente, permite que as instituições européias enfrentem os desafios apresentados pelos dois processos que promovem a integração e, ao mesmo tempo, se opõem a ela: a globalização econômica e a identidade cultural.[164]     

A integração européia é uma reação ao processo de globalização, é também prova de que:

A economia global não é um sistema indistinto constituído de empresas e fluxos de capital, mas uma estrutura regionalizada em que as velhas instituições nacionais e as novas entidades supranacionais ainda desempenham um papel importante na organização da concorrência econômica e na obtenção, ou desperdício, de seus benefícios. [165]  

Quatro dimensões da globalização afetam a integração européia. A principal delas é a que se refere aos mercados financeiros e mercados monetários. A criação do euro é a tentativa de manter um equilíbrio monetário e financeiro nas economias européias. A segunda dimensão é a tecnologia da informação, elemento essencial da capacidade produtiva das economias e do poder militar dos Estados. “A tecnologia da informação agora está globalizada de forma assimétrica, e a pertinência das empresas e mercados europeus garantem a profunda integração da Europa nas redes tecnológicas predominantes”.[166] Outras duas dimensões importantes são a globalização e interdependência dos meios de comunicação e o desenvolvimento de uma economia do crime global. Ambas conduzem a Europa para uma “‘terra-de-ninguém’ onde crime, poder e dinheiro se interligam”.[167] Estas dimensões da globalização trazem grandes conseqüências para as sociedades européias, e a principal é o desmantelamento do Estado de bem-estar social.

A globalização está motivando reações defensivas baseadas no princípio de identidade territorial e nacional. Partes significativas da população da Europa tendem a afirmar suas nações contra a supranacionalidade da União Européia. A base dessa afirmação é a desconfiança contra as instituições sobre a possibilidade real de se manter a identidade nacional. Tal insegurança é alimentada pela multietnia e multiculturalismo crescentes nas sociedades européias. Outra fonte de desconfiança é aquilo que veio ser rotulado como “déficit democrático”, ou seja, as decisões sobre o rumo da unificação européia são tomadas sem a participação de suas respectivas sociedades. O fato é que é o nacionalismo e não o federalismo que está construindo a evolução da integração européia. E se isso acontece, surgirá uma questão: qual nação irá servir de base para essa integração? Talvez, venha existir uma integração em torno da articulação social e institucional de dois princípios: o político (modelo francês) e o Volk, em torno da língua, (modelo alemão). Enfim, a “busca pela identidade como antídoto à globalização econômica e à privação de direitos políticos também permeia abaixo do Estado-nação”.[168]

Ao “refletirmos sobre as visões e os interesses contraditórios que envolvem a unificação da Europa e analisarmos a falta de entusiasmo entre os cidadãos da maioria dos países, parece milagre que o processo de integração esteja em estágio tão avançado”.[169] Parte da explicação está no fato da União Européia não suplantar os Estados-nação, mas ser instrumento para a sua sobrevivência sob a condição de transferência de soberania em troca de uma voz mais ativa em assuntos internacionais e domésticos. Porém, esta explicação precisa de uma expressão institucional e isso foi encontrada na “geometria complexa e variável de instituições européias que agrega o controle do processo decisório pelos governos nacionais”. É esta complexidade que permite a acomodação de vários interesses e políticas. Questões como moeda única, defesa militar, polícia, gastos públicos, comércio, residência, política externa, meio ambiente, tributos e imigração constituem esta complexidade que é resolvida graças à liberdade gerada pela flexibilidade das organizações, permitindo que cada Estado possa decidir a nível nacional como irá interagir com a União Européia. O elemento principal para estabelecer a legitimidade da União Européia é exatamente a capacidade por parte de suas instituições de ligar-se a níveis subnacionais de governo.[170]

O processo real de relegitimação da Europa parece estar ocorrendo no surgimento de iniciativas locais e regionais, no desenvolvimento econômico, bem como nas expressões culturais e nos direitos sociais que estabelecem uma ligação horizontal entre si, ao mesmo tempo em que aderem a programas europeus de forma direta ou por intermédio dos respectivos governos nacionais. [171]

A unificação européia é um processo que constrói o Estado em rede. Este Estado é caracterizado pelo compartilhamento de autoridade em rede. Rede tem nós, e não centro. “Nós podem ser de tamanhos diferentes e estar ligados por relações assimétricas na rede, de tal forma que o Estado em rede não impede a existência de desigualdades políticas entre seus membros”. Não obstante essas assimetrias, “os vários nós do Estado em rede europeu são interdependentes, de forma que nenhum nó, nem o mais poderoso, pode ignorar os outros, nem mesmo os menores, no processo decisório. Se alguns nós políticos o fizerem, todo o sistema é questionado”.[172]   

Enfim, o que existe? Identidade européia ou projeto europeu? É pouco provável a aceitação da unificação aconteça fundamentando-se apenas nos interesses instrumentais de administrar a globalização. E, se for ligado à identidade e esta ficar somente a nível nacional, regional e local, talvez a unificação européia não passe de um mercado comum igual a outros existentes pelo mundo. A longo prazo, esta união requer identidade européia, mas esta não existe e não é fácil construí-la. Todavia, pode ser construída não em oposição, mas como forma de complementar as identidades nacionais, regionais e locais.

Para finalizar, a unificação européia é fruto de reações a processos no cenário global. O primeiro objetivo era se livrar da guerra, mas à medida que a globalização se ampliou, estas reações procuram, através do compartilhamento de poder, criar um campo de proteção em volta da Europa, mesmo que internamente aja muita divergência, principalmente porque cada Estado é historicamente moldado por um nacionalismo específico. Devido a isto, e também às condições econômicas de cada país, níveis diferentes de integração criam uma geometria variável na União Européia, formando o que pode ser considerado de Estados em rede. As principais dimensões destes Estados são a implementação de uma moeda única, elevado grau no uso da tecnologia da informação, e globalização e interdependência dos meios de comunicação.

Depois desta leitura do volume III, acredito que posso apontar quais são os principais aspectos da teoria de Castells presentes na sua interpretação sobre o fim de milênio. Para definir melhor o que pretendo dizer, vale lembrar que no volume I Castells apresenta a sociedade em rede estruturada pelas tecnologias da informação que conectam, ou desconectam, de indivíduos a países inteiros e no volume II apresenta o poder da identidade presente nos sujeitos coletivos, ou não, como expressão de uma reação a um adversário. Os dois primeiros volumes dão conta de apresentar uma sociedade em rede polarizada por dois conjuntos de sujeitos coletivos que negam-se um ao outro. O que é, então, a interpretação de fim de milênio? É uma interpretação macrossocial e macropolítica valendo-se da combinação da análise da sociedade em rede (volume I) com a análise das identidades (volume II). Castells apresenta na sua interpretação de fim de milênio a combinação entre a transformação causada pelo informacionalismo e a transformação causada pelo poder da identidade.

Assim, a análise sobre a crise do estatismo e o colapso da União Soviética revela a relação entre globalização, rede informacional, nacionalismo e etnias de um lado, e estatismo, comunismo, Partido Comunista e burocracia de outro. Mostra a interação entre estes sujeitos até que a queda do sistema deixou um vazio ideológico e institucional, preenchido pela rede global informacional que conectou seletivamente os nós relevantes para os fluxos globais de riqueza e poder, os novos capitalistas, e deixou também uma combinação de Estados nacionais interligados em vários aspectos infra-estruturais, formando uma rede inextrincável. Houve uma corrosão por dentro e a fragmentação do Estatismo.

A análise sobre o surgimento do quarto mundo revela a relação entre a rede global e as massas de pobres e miseráveis. A rede desconectou uma grande população do mundo que vai de imensas regiões da África a guetos dentro da cidade de Nova Iorque, bem no coração do capitalismo. A desconexão também é seletiva por raça, classe e etnia. O quarto mundo é o pólo frágil. Tão frágil que não mais pertence à rede, somente é afetado por ela.

A análise sobre o crime global revelou a formação de uma rede permeada de conexões das mais variadas possíveis e com um poder sem precedentes. Nenhuma rede do crime organizado é global, mas tem conexões globais com outras redes criminosas, e com isto, amplia seu poder para atuar em todo a superfície do planeta através de alianças estratégicas. O narcotráfico, por exemplo, estabelece a sua base de operações e controle num Estado fragilizado institucionalmente como a Colômbia e se conecta globalmente com a máfia italiana e com as redes de crime organizado na Rússia e nos Estados Unidos, além de conectar alguns indivíduos de sua própria sociedade no trabalho de cultivo da coca e desconectar outros através de assassinatos na lutas pelo comando do tráfico. O crime organizado se conecta também com os poderes institucionalizado do Estado e é altamente favorecido pela identidade étnica, territorial e cultural em sua forma de funcionamento. É um tipo de sujeito social que soube muito bem se adaptar às características da sociedade informacional, como a formação de redes e o uso de tecnologias. O crime organizado cria os mais diversos vínculos porque é capaz de inserir na sua rede desde o mais simples cidadão a um político, ou empresário, de alto renome nacional.  

A análise da região do Pacífico asiático revelou a relação entre os Estados desenvolvimentistas e a globalização. Este é o pólo forte da rede. A geometria assimétrica e variável da rede é conseqüência da forma específica de interação de cada uma destas sociedades asiáticas com a rede informacional global. Na região do Pacífico cada governo comandou a transição para o informacionalismo à sua maneira. Daí surgiram economias mais e menos flexíveis e que sofreram mais ou menos o impacto da crise de 1997. As conseqüências para cada uma dependeram do grau de conectividade de cada nação ao sistema global de circulação de capital. O nacionalismo, o comunalismo e o sistema político foram fatores determinantes para a direção tomada para cada nação.     

A análise sobre a União Européia revela uma intrigante possibilidade da formação de um sistema de Estados em rede. Os cinqüenta e poucos anos de história do processo de formação da União Européia tá apontando para um convívio pacífico entre as diversas nações, Estados, culturas e etnias graças à capacidade de integração em diferentes níveis dos sujeitos envolvidos. A Europa, cuja história é marcada por violentas guerras entre suas nações, é hoje protagonista de um processo que combina multiculturas, multietnias, Estados, comunidades, nações, cidades numa relação multinível, em que ora os sujeitos se entrincheiram atrás do nacionalismo, ora se predispõe a cooperar com aquilo que talvez seja a mais complexa forma de convivência entre nações, graças ao alto grau de flexibilidade nas conexões entre os seus nós. Ou seja, entre as instituições supranacionais da União Européia e os governos locais, sem a interferência do governo nacional.    

Enfim, redes, nós, fluxos, conexão, desconexão, adaptabilidade, flexibilidade, seletividade, fragmentação e segmentação, nacionalismo, culturalismo, comunalismo, raça, etnia, classe e Estado, entre outros, percorrem todos os pontos de sua teoria na análise do fim de milênio. Acredito que é ora de uma síntese final sobre a teoria da sociedade em rede como meio de certificação da proposta inicial: a intelecção da teoria da sociedade em rede de Manuel Castells. 

CONCLUSÃO

A teoria da sociedade em rede de Manuel Castells é, com certeza, atual e hipercomplexa. Por isso, é necessário cuidado para não transformá-la numa “esquizofrenia sociológica”, isto é, num emaranhado de conceitos e relações desorientados e sem sentido. Vou arriscar uma conclusão que consiga agrupar os principais aspectos da teoria e, assim, tornar este texto ponto de partida para uma compreensão mais específica e mais elaborada.

O aspecto geral apresentado pela teoria é sua estruturação em redes, nas lógicas hierárquica e relacional de fluxos. Redes são compostas por nós entrecortados por curvas. A dinâmica básica da rede é uma polarização que impulsiona para o topo da hierarquia os elementos mais relevantes e pressiona para baixo aqueles de menor valor de acordo com os valores pertinentes da rede. Há uma oposição entre a rede abstrata (global e informacional) formada pelas relações (fluxos) dos sujeitos dominantes e os sujeitos de matéria viva. No arcabouço teórico apresentado por Castells, são várias redes. No topo da hierarquia, a principal, a rede global funcionando em tempo real. Na base, existem redes subjacentes à rede global. Entre o topo e a base outras redes estão posicionadas em diferentes níveis. Estas redes ora operam com uma lógica integradora, ora opõem-se.

No topo, a rede global informacional baseada na capacidade integradora das tecnologias da informação/comunicação. Sua matéria-prima principal são fluxos de informação, poder e riqueza. A rede é flexível, adaptável e seletiva. A rede global informacional se forma a partir de fluxos intercâmbiados emitidos por centros de controle (“espaços de fluxos”, nós) espalhados em diversos pontos do planeta. Estes fluxos conectam os mais diversos nós, desde que possuam a mesma lógica, numa estrutura aberta ao infinito, permitindo uma ação integrada a nível mundial em tempo real. A maneira como as sociedades interagem com a Revolução da Tecnologia da informação, facilitando ou dificultando a penetração desta tecnologia na economia e em outros aspectos da vida social, formata a rede numa geometria variável. E, como exemplo, a economia global informacional é estruturada de forma assimétrica em três pólos principais (EUA, Europa e Japão). Esta informacionalidade construída pelas redes eletrônicas modificou completamente a forma dos homens agirem em todos os sentidos da vida, principalmente padronizando e intensificando a ação humana, e isto tornou sociedade em rede altamente dependente das tecnologias da informação. E a forma de conexão vai depender da cultura, política, tradições, instituições e especificidade histórica de cada sociedade. Este é um aspecto do conceito geral da rede.

Na base, em oposição à rede global informacional, existem várias redes sociais baseada no entrincheiramento do Ser em torno de comunidades primárias. São redes fundamentalistas, movimentos sociais, movimento ambientalista, movimento feminista e milícias compartilhando significados a partir de alguns princípios como a religião, o território, a natureza, a nação e a língua. Os diversos contextos sociais em que está inserido cada ser coletivo dão origem a movimentos específicos de acordo com sua história e geografia. Todos possuem um objetivo social a ser alcançado e um inimigo a ser derrotado contra o qual resistem com todas as suas forças. A globalização está entre os principais. Estas redes fazem uso da tecnologia da informação/comunicação para ampliar seu poder. A mídia eletrônica é uma poderosa ferramenta de expressão da identidade. Tudo isso, levando-se em conta a fraqueza do Estado e a crise da democracia, tem propiciado terreno fértil para o aparecimento de múltiplas identidades na sociedade em rede. A construção da identidade quando analisada de acordo com a teoria é a construção de nós específicos (grupos, movimentos, processos) que interagem com a rede global. Existe uma composição de redes subjacentes à rede global. Esta é imagem que se apresenta na construção da identidade.

No intermédio, diversas redes com as mais diferentes características completam a complexa sociedade informacional. O informacionalismo potencializa as redes e sua lógica afeta todo o planeta. Sociedades como a União Soviética podem não entender a lógica informacional da rede global. Regiões pobres (não considerando somente a riqueza material, mas cultural também) de várias partes do mundo podem ser excluídas do mapa informacional. Ao contrário, outras regiões em desenvolvimento se conectam à rede global, de acordo com as mais variadas lógicas sociais, expandindo a arquitetura e mudando a geometria da rede. Também regiões ricas como a Europa, que é um poderoso nó, se configura em rede para contornar obstáculos tanto internos como externos. Mas a potencialidade das redes depende das atividades que exercem. Daí que redes de narcotraficantes e redes de crime organizado possuem mais energia diante de Estados frágeis, como a Colômbia. Estas redes dinamizam seu funcionamento ao acessar mercados poderosos, graças a conexões ao modelo da empresa em rede. Enfim, cultura, instituições, Estado, etnia constroem os mais diferentes vínculos e influenciam a configuração das redes. Esta é a idéia passada pela interpretação de fim de milênio.

Como últimas palavras, quero fazer a referência final ao trabalho de Castells para complementar os parágrafos acima e este trabalho como um todo.

As redes organizam as posições nas sociedades e nas economias. A relevância social está condicionada por sua presença ou ausência nas redes específicas. A ausência na rede dominante leva a uma estrutura irrelevante. Somente viver nas redes permite ter acesso à existência social de acordo com os valores e interesses estruturalmente dominantes. Pelo fato de serem formadas em sociedades desiguais, segmentos da sociedade, grupos sociais e individuais, a distinção social mais importante se refere á posição dada em uma rede.[173]

Há também importantes diferenças dentro das redes e entre elas em termos da importância estrutural dos fluxos gerados em tais redes (ou em algumas posições das redes) por alguns objetivos dados ao sistema. A hierarquia estrutural entre redes e a hierarquia entre posições dentro dos fluxos das redes determinam a habilidade para influenciar a lógica social total desde uma postura particular.[174] 

Este trabalho, cujo tema é a intelecção da teoria da sociedade em rede de Manuel Castells, permite uma compreensão bastante razoável sobre a aplicação de uma teoria sociológica na pesquisa sócio-científica. E, também, acredito que transmite uma visão bem completa e bons conhecimentos sobre esta relevante teoria.


[a]  Ao aplicar o conceito de rede, faço de forma abstrata, sem a preocupação de precisar seu contexto social. Há de se entender que geralmente Castells aplica o conceito especificando qual é o tipo de rede que se refere.

[b] Castells se refere ao trabalho de Claude Fischer.

[c] CMC: comunicação mediada por computador.

[d] Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais, tema este que está no cerne da teoria de autoridade e dominação de Sennett, e se aplica a diversas teorias do nacionalismo. (CASTELLS, 2000. V. II, p. 24)

[e] Identidade de resistência: “criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos, conforme propõe Calhoun ao explicar o surgimento da política de identidade”. (CASTELLS, 2000. V. II, p. 24).

[f] Identidade de projetos: “quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação  [ sic ] de toda a estrutura social. Esse é o caso, por exemplo, do feminismo que abandona as trincheiras de resistência da identidade e dos direitos da mulher para fazer frente ao patriarcalismo, à família patriarcal e, assim, a toda a estrutura de produção, reprodução, sexualidade e personalidade sobre a qual as sociedades historicamente se estabelecem”. (Idem).

[g] Castells, baseado em Alain Touraine, define sujeito não como indivíduos, são atores sociais coletivos pelos quais os indivíduos atingem o significado holístico em sua experiência.

[h] No intuito de tornar mais clara a exposição, preferi usar o termo “oposição” a ter que aplicar “entrincheiramento”. 

[i] Uma passagem rápida pela história da seita nos ajuda a entender melhor. Asahara, seu líder, nasceu cego e construiu sua reputação dizendo à mídia que tinha poderes sobrenaturais. Enveredou-se pela área dos efeitos especiais visuais. Tentou ingressar na política com propósitos de transformar a sociedade. Frente ao fracasso, se voltou contra o governo. Tomando a linha apocalíptica, anunciou uma guerra nuclear na qual morreria 90% da população. Montou, então, uma empresa e passou a fabricar armas biológicas e químicas. Importou um helicóptero e tanques do mercado negro russo e passou a se dedicar em projetos de construção de armas tecnológicas, inclusive a laser teleguiadas. Diante de tudo isso, ele sua seita fundaram um Estado paralelo.[i] (CASTELLS, 2000, p. 125 e 126)

[j] PRI: Partido Revolucionário Institucional.

[k] Estatismo: sistema social organizado em torno da apropriação do excedente econômico produzido na sociedade pelos detentores do poder no aparato do Estado. (CASTELLS, V. III, p. 26)

[l] Industrialismo: mecanismo de desenvolvimento em que as principais fontes de produtividade consistem no aumento quantitativo dos fatores de produção (capital, trabalho e recursos naturais), juntamente com a utilização de novas fontes de energia. (CASTELLS, V. III, p. 27)


REFERÊNCIAS

[1] CASTELLS, 2000. V. I, p. 498.

[2] CASTELLS, 1996, p. 23.

[3] CASTELLS, 2000. V. I. p. 436.

[4] Idem, p. 437—439.

[5] Idem, p. 498.

[6] CASTELLS, 2000.

[7] Idem, p. 189.

[8] CASTELLS, 2000.

[9] Idem, p. 123.

[10] CASTELLS, 2000.

[11] Idem, p. 354.

[12] Idem, p. 386 e 387.

[13] Idem, p. 387.

[14] Idem, p. 466.

[15] Idem, p. 111.

[16] CASTELLS, 2000.

[17] Idem, p. 405.

[18] Idem, p. 412.

[19] Idem, p. 87 e 88.

[20] Idem, p. 110 e 111.

[21] Idem, p. 189.

[22] CASTELLS, 2000.

[23] Idem, p. 263.

[24] Idem, p. 264.

[25] CASTELLS, 2000. V. II, p. 22.

[26] Idem, p. 23

[27] Idem, p. 135.

[28] Idem, p.32.

[29] Idem, p. 33.

[30] CASTELLS, 2000.

[31] Idem, p. 42.

[32] Idem, p. 43.

[33] Idem, p. 53.

[34] CASTELLS, 2000.

[35] Idem, p. 132.

[36] Idem, p. 84.

[37] Idem, p. 145.

[38] Idem, p. 203.

[39] CASTELLS, 2000.

[40] Idem, p. 246.

[41] Idem.

[42] Idem, p. 46.

[43] CASTELLS, 2000.

[44] Idem, p. 59 e 60.

[45] CASTELLS, 2000.

[46] Idem, p. 159.

[47] Idem, p. 160.

[48] CASTELLS, 2000.

[49] Idem.

[50] Idem, p. 39.

[51] CASTELLS, 2000.

[52] Idem.

[53] Idem, p. 75.

[54] Idem, p. 76.

[55] CASTELLS, 2000.

[56] Idem.

[57] Idem, p. 78.

[58] CASTELLS, 2000.

[59] Idem, p., p. 127.

[60] Idem, p., p. 220.

[61] CASTELLS, 2000.

[62] Idem, p. 237 e 238.

[63] Idem, p. 219.

[64] CASTELLS, 2000.

[65] Idem, p. 255.

[66] Idem, p, 275.

[67] Idem, p. 68.

[68] CASTELLS, 2000.

[69] Idem, p. 150.

[70] Idem, p. 166.

[71] CASTELLS, 2000.

[72] Idem.

[73] Idem, p. 133 e 134.

[74] Idem, p. 150.

[75] Idem, p. 161.

[76] Idem, p. 243.

[77] Idem, p. 245.

[78] Idem, p. 96.

[79] CASTELLS, 2000.

[80] Idem.

[81] Idem.

[82] Idem, p. 219.

[83] Idem, p. 220 e 222.

[84] CASTELLS, 2000.

[85] Idem, p. 211.

[86] CASTELLS, 2000.

[87] Idem, p. 287.

[88] Idem, p. 293.

[89] Idem, p. 396.

[90] CASTELLS, 2000.

[91] Idem.

[92] Idem, p. 321.

[93] Idem, p. 353.

[94] Idem, p. 353.

[95] Idem, p. 365 e 366.

[96] Idem, p. 374.

[97] Idem, p. 402.

[98] Idem, p. 408.

[99] Idem, p. 366.

[100] Idem, p. 65.

[101] Idem. V. II, p. 26.

[102] CASTELLS, 2000.

[103] Idem, p. 56 e 57.

[104] Idem, p. 86.

[105] Idem.

[106] Idem, p. 66.

[107] Idem, p. 77.

[108] Idem, p. 115.

[109] Idem, p. 116.

[110] Idem, p. 117.

[111] CASTELLS, 2000.

[112] Idem.

[113] Idem.

[114] Idem, p. 154.

[115] CASTELLS, 2000.

[116] Idem, p. 172.

[117] CASTELLS, 2000.

[118] Idem, p. 185.

[119] Idem, p. 186.

[120] CASTELLS, 2000.

[121] Idem.

[122] Idem, p. 191.

[123] Idem.

[124] Idem, p. 194.

[125] Idem, p. 203.

[126] CASTELLS, 2000.

[127] Idem, p. 205.

[128] Idem, p. 217.

[129] Idem.

[130] Idem, p. 218.

[131] Idem, p. 222.

[132] Idem, p. 223.

[133] CASTELLS, 2000.

[134] Idem, p. 227.

[135] CASTELLS, 2000.

[136] Idem, p. 238.

[137] CASTELLS, 2000.

[138] Idem, p. 239.

[139] Idem, p. 240.

[140] Idem, p. 223.

[141] CASTELLS, 2000.

[142] Idem, p. 256.

[143] Idem, p. 257.

[144] Idem, p. 260 e 261.

[145] Idem, p. 262.

[146] CASTELLS, 2000.

[147] Idem, p. 296—300.

[148] CASTELLS, 2000.

[149] Idem, p. 304—308.

[150] CASTELLS, 2000.

[151] Idem.

[152] Idem, p. 328.

[153] CASTELLS, 2000.

[154] Idem.

[155] Idem, p. 340—347.

[156] Idem, p. 349.

[157] Idem, p. 350.

[158] Idem, p. 353.

[159] Idem, p. 354—358.

[160] Idem, p. 361.

[161] CASTELLS, 2000.

[162] Idem.

[163] Idem.

[164] Idem, p. 392.

[165] Idem, p. 395.

[166] Idem, p. 396.

[167] Idem, p. 399.

[168] Idem, p. 401—404.

[169] Idem, p. 405.

[170] CASTELLS, 2000.

[171] Idem, p. 406.

[172] Idem, p. 407.

[173] CASTELLS, 1996, p. 23 e 24.

[174] Idem.

BIBLIOGRAFIA

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: a era da informação: economia, sociedade e cultura. Vol. I, 4ª ed. São Paulo : Paz e Terra, 2000.

CASTELLS, Manuel. Fluxos, redes e identidades: uma teoria crítica da sociedade informacional. In : Novas perspectivas críticas em educação. Porto Alegre : Artes Médicas, 1996.

IANNI, Otávio. Teorias da globalização. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1997.

VIEIRA, Liszt. Cidadania e globalização. Record : Rio de Janeiro, 1997.

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