O objetivo deste livro é expor sobre a pessoa de Jesus Cristo, filho de Davi. Esclarecer a questão da sua existência como filho de Deus. A cristandade está dividida em duas crenças distintas. Um pequeno grupo vê Jesus como um homem “natural” (nascido de mulher) e outro, a imensa maioria, vê Jesus como um “Deus”, um anjo, um espírito, ou outra espécie de Ser. Pretendemos mostrar através de uma leitura mais fiel do texto bíblico, quem é o Jesus das Escrituras. E responder questões como: Ele existiu antes do seu nascimento “natural” de sua mãe Maria, esposa de José? Ou, Ele foi um Ser preexistente antes da criação do mundo? Estas dúvidas compõem um debate milenar ainda não resolvido, sintetizado na Cristologia.[1]
A ideia de que Jesus existia no princípio do mundo é conhecida como a doutrina da preexistência. Jesus seria o Verbo que encarnou. Do lado contrário deste debate estão aqueles que defendem apenas a existência humana de Jesus. Jesus seria o homem de Nazaré.
O autor assume a posição de que Jesus foi um homem comum. Jesus foi o Messias prometido no Antigo Testamento. Não há para o autor qualquer evidência bíblica que sustente a ideia de um Jesus semelhante a Deus, existente antes da criação do mundo. O que faz aparentar certa biblicidade é uma confusão de sentidos textuais criados por hermeneutas dos primeiros séculos.
A doutrina da preexistência nasceu sob a égide da filosofia grega. Na tentativa de elucidar o texto bíblico, os chamados “Pais da Igreja” aplicaram equivocadamente um entendimento grego a um conceito judaico, o que resultou em mudança de sentido no texto do Evangelho de João 1:1-3. Com isso, passaram a ver Jesus neste texto e consequentemente uma série de outros erros.
O autor não se preocupa discutir os complexos sistemas teológicos em torno do tema. O foco é o confronto das ideias no campo bíblico com o objetivo evidenciar uma verdade simples que está oculta pelas sombras da ignorância, ou da falta de vontade em examinar com um pouco mais de critério as palavras bíblicas. Nosso objetivo, portanto, neste livro é evidenciar o que Jesus é e o que Jesus não é.
Aspectos gerais e fundamentais
Diante da impossibilidade de explicitarmos todas as passagens bíblicas mal interpretadas, vamos nos concentrar em alguns aspectos gerais e fundamentais para o entendimento da verdade. Portanto, o escopo deste estudo alcançará apenas as passagens que julgamos ser suficientes para cercar qualquer tentativa de oposição aos nossos argumentos. Os principais aspectos são: a humanidade de Jesus, o messias no evangelho de João, a pré-ciência de Deus e as semelhanças divinas de Jesus. Quanto às passagens que ficaram fora de nossa análise, fizemos um breve comentário no final do livro. Boa leitura!
E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. (João 17:3)
Capítulo 1 #
Jesus é um homem, não um Deus #
Jesus foi um homem comum, semelhante a outro qualquer. A única diferença foi sua vida sem pecado, (Hb 9:28), além de sua concepção pelo espírito santo, (Lc 1:35). Como homem:
- Nasceu, cresceu e aprendeu
- Sentiu necessidades físicas e espirituais: fome, cansaço, dores, tristeza, angústia, tentação, medo do pecado e da morte.
- Foi o segundo Adão, a imagem de Deus
A leitura natural dos textos que apresentam estas características de Jesus não permite a adição da ideia de que Ele era um Deus em forma humana.
Jesus é um homem que nasceu, cresceu e aprendeu #
Nasceu: A origem de Jesus é outro ser humano , (Lc 1:30-31). Nenhuma passagem bíblica do Antigo Testamento fala dEle como um deus encarnado, um anjo, ou espírito etc. Todas as profecias falam que o Messias seria um homem. É fato que Jesus nasceu homem de uma mulher.
- Gn. 3:15 – Semente de mulher
- Gn. 22:18; Gl. 3:16 – Semente de Abraão
- Hb. 7:9-10 – Assim como Levi estava nos lombos de Abraão, Jesus também esteve nos lombos de Abraão e Davi
- Dt. 18:5; At. 3:22; 7:37 – Profeta semelhante a Moisés
- Hb. 2:17 – Semelhante aos homens
- II Sm. 7:12 – Filho de homem, Davi
- Is. 49:5 – Esteve no ventre de uma mulher
- Sl. 22:10 – No ventre da madre
- Is. 7:14; Lc. 1:32-35; Mt. 1:23 – Foi concebido de uma mulher
- Mq. 5:2 – Sua linhagem humana era muito antiga
- Mt. 1:1,16 – Origem terrena e humana, filho de Abraão, filho de Davi, nasceu de Maria,
- Lc. 3:38 – Descende de Adão
- At. 2:30 – Dos lombos de Davi, filho carnal sob juramento de Deus,
- Gl. 4:4 – Filho de Deus, nascido de mulher
- II Tm. 2:8 – Descendente de Davi,
- Rm. 1:3 – Descendente de Davi segundo a carne
- Mt. 21:9, 15- Hosana ao filho de Davi
- Jo. 7:42 – Cristo vem da descendência de Davi
- Lc. 20:41; Mt. 22:42 – Cristo é filho de Davi.
Cresceu: Jesus, como qualquer outro ser humano, cresceu e fortaleceu sua saúde. Isso aconteceu sob os cuidados de seus pais. Não há nenhuma profecia e nenhuma narrativa bíblica indicando que Ele fosse um Ser especial, com poderes acima do poder de um homem comum. Ele:
- Lc. 2:40 – Era um menino que crescia e se fortalecia
- Lc. 2:42 – Crescia ano a ano
- Lc. 2:48 – Precisou do cuidado dos pais
- Lc. 2:52 – Crescia em estatura.
Aprendeu: Jesus, como qualquer outro ser humano, aprendeu. Ele não nasceu com a ciência dos homens e nem com toda a ciência de Deus. Também não herdou inteligência de uma suposta existência anterior. Ele desenvolveu o seu conhecimento ao longo de sua vida. Mesmo assim, no fim de seu ministério, deixou claro que não sabia todas as coisas, (Mt. 24:36) e que não era perfeito como o Pai (Mt. 19:17). As profecias indicam que Ele aprendeu de Deus. Ele:
- Lc. 2:52 – Crescia em sabedoria
- Is. 50:4 – Aprendeu como todos os homens
- Mt. 12:42 – Superou Salomão em sabedoria.
Jesus é um homem física e espiritualmente #
O fato de Jesus sentir as necessidades humanas indica que Ele era homem. O homem natural sente tristeza por falta de alegria, medo por falta de coragem, fome por falta de alimento etc. Jesus sentiu todas estas coisas porque era um homem normal, não sobrenatural. Ele sentiu necessidades físicas e espirituais: fome, cansaço, dores, tristeza, angústia, tentação, medo do pecado e da morte. Diz a Bíblia que Ele:
- Hb. 2:17 – Era semelhante aos homens
- Jo. 4:6,7 – Teve sede e cansaço
- Jo. 11:33, 35 – Sentiu tristeza, comoção e choro
- Mt. 4:1 – Passou por tentações
- Hb. 5:8 – Sentiu angústia e medo de pecar
- Jo 8:59; 11:53, 54; Lc 4:29,30 – Teve medo da morte.
Jesus é o segundo Adão #
Jesus sempre foi homem, (At 17:31, I Tm 2:5). Ele é o segundo Adão. Ele foi gerado como Filho de Deus, (Sl 2:7). Ele é a imagem de Deus, (Cl 1:15). Ele é um modelo para os demais homens, (I Co 11:1).
Quando Deus pensou em criar o mundo e o primeiro homem, Ele já havia pensado em criar o segundo homem. Deus sabia das limitações pessoais, físicas e mentais do primeiro. Sabia, por isso, da necessidade de um segundo que pudesse superar todas as adversidades da vida humana. O primeiro homem não podia aprender e ser testado em todas as condições adversas que o mundo nos propõe. O segundo, vivendo na plenitude dos tempos, foi testado nas mais complexas situações da vida. O primeiro homem precisava ver um segundo homem conforme a imagem de Deus, (pois Deus não pode ser visto pelo homem natural). Adão, o primeiro homem foi criado adulto num mundo sem pecado. Jesus, o segundo, nasceu e cresceu num mundo cheio de pecado. O primeiro não passou por todas as etapas do desenvolvimento humano e na primeira tentação errou. O segundo enfrentou todas as etapas e todas as provações, mas não se desviou do caminho.
Deus sabia que o primeiro homem vivendo sozinho num mundo sem semelhantes não desenvolveria todas as habilidades de relacionamento. Por isso, gerou seu Filho quando o mundo já estava povoado. Ele precisava de um segundo homem vivendo no meio das multidões, sofrendo todos os tipos de privações, para que pudesse desenvolver as habilidades sociais, sentimentais e emocionais necessárias para o bom convívio entre os homens. Jesus foi o segundo Adão, o novo homem. Foi o homem modelo, à semelhança de Deus para que os demais homens ao “olharem para Ele” pudessem copiar a imagem divina para si.
- Rm. 5: 15-19 – por um homem entrou o pecado
- Rm. 5:15-19 – por um homem saiu o pecado do mundo
- Gn. 1:27-31 – o primeiro homem era perfeito biologicamente
- I Pd. 1:19 – o segundo homem era perfeito espiritualmente
- Jo. 12:32 – quando o Filho do Homem for levantado, todos serão atraídos Ele
- I Co. 11:1 – sede meus imitadores, como eu sou de Cristo
- Jo 14:9 – quem me vê a mim, vê o Pai.
O primeiro homem destruiu a imagem de deus, o segundo reconstruiu. Quando Deus disse: “façamos o homem nossa imagem e semelhança”, Ele terminou esta obra em Jesus. Sabemos que Deus começa tudo pelo fim. Ele começou o homem por Jesus. Deus fez o primeiro homem, mas seu projeto perfeito era o segundo. Quando criou o primeiro sabia que este iria morrer, mas estava em mente gerar o segundo para dar vida.
Deus, antes de criar o mundo e os homens, já havia concebido as regras morais (a lei) para o bom convívio entre eles. Os primeiros homens não sabiam viver em sociedade, por isso mataram uns aos outros. Como explica o apóstolo Paulo, a morte reinou desde Adão até Moisés, (Rm 5:14). Mas Deus mostrou através de um homem que era possível sim viver em paz e harmonia. A justiça de Deus se estabelece nisso: que um homem foi capaz de viver a sua lei. Se fosse um “deus” vivendo a lei, seria injusto da parte de Deus exigir do homem o seu cumprimento, além de não fazer sentido. Seria como o professor responder a prova pelo aluno e ele mesmo aplicar a correção. O exemplo real e verdadeiro vem de um homem, não de um deus, este homem é Jesus. Ele mostrou que é possível sim o homem viver a plenitude da vontade de Deus. Ele é um homem imagem de Deus, não um deus à imagem de Deus. Ele é filho de Deus, não Deus-Filho.
Logos no grego e no hebraico #
Aqui cabe visitar um pouco a história do Logos. Como ele surgiu e como foi empregado no Evangelho de João.
Logos é uma palavra grega, portanto, é um conceito grego. Mas, o fato do logos aparecer no Evangelho de João não quer dizer que na Bíblia ela esteja impregnada com o conceito dos gregos. A salvação vem dos judeus, (João 4:22) e João escreveu de acordo com a cultura judaica. Jamais o apóstolo basearia o plano de salvação na religião grega. Este é um entendimento que os verdadeiros cristãos devem considerar. O conceito judaico para a mesma ideia grega contida no Logos está no vocábulo “davar”. Davar em hebraico representa a palavra criadora de Deus.
Logos no grego tem dois sentidos que lhe são atribuídos. O primeiro no sentido próprio é falar. O segundo sentido é a razão universal, o raciocínio, a mente etc. Mais tarde este segundo sentido recebe uma variação que “transforma” o Logos num Ser, um agente entre o “Deus criador” (entre aspas para indicar Deus no conceito grego) e a matéria, um demiurgo.
A confusão do Verbo com Jesus se estabeleceu porque os pais da Igreja aplicaram o segundo conceito, quando este já havia sofrido a influência de Platão, sendo que o correto seria o primeiro. Vejamos uma definição apresentada na Wikipedia:
O Logos (em grego λόγος, palavra), no grego, significava inicialmente a palavra escrita ou falada — o Verbo passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Verdade e da Beleza.[2]
Basicamente três filósofos foram responsáveis pelo processo histórico que transformou a simples palavra falada (logos) numa pessoa, Hieráclito, Platão e Filon.
Hieráclito assim conceituou o Logos razão universal:
[…] todas as coisas estavam em um determinado curso, e […] nada permanece da mesma maneira. Entretanto, a ordem e o padrão podem ser percebidos em meio ao fluxo e aos refluxos eternos e incessantes das coisas no Logos – o princípio eterno de ordem no universo. [3]
Ele mantinha ainda que:
o Logos, por trás de qualquer mudança duradoura, é que faz com que o mundo se torne um cosmos e um todo ordenado, (LADD, 2009, p. 357.)[4]
Já, Platão disse que:
Deus mantinha ligação com o mundo sensível através do Logos, a razão universal, (2010, p. 51). [5]
Platão, entre outras coisas, explica a relação do Deus transcendental com a matéria através de um agente identificado como “demiurgo”. Diz a explicação da Wikipedia:
[…] A meta perseguida pelo demiurgo platônico é o bem do universo que ele tenta construir.[94] Este bem é recorrentemente descrito em termos de ordem,[95] Platão descreve o demiurgo como uma figura neutra (não-dualista), indiferente ao bem ou ao mal,[96].[6]
E, segundo o estudioso do assunto, Cullmann:
‘esta concepção filosófica do Logos ocupa um lugar essencial na história longa e complicada deste termo, pois influenciou ao menos na forma, as idéias judaicas e pagãs tardias de um Logos mais ou menos personificado’ (2008, p. 330). [7]
Frisando bem a história. Temos o logos que significa palavra. Depois ele recebe um segundo sentido, o de razão universal. E, esta razão se transforma num ser, o demiurgo. E, por fim, esta ideia vai influenciar o judaísmo e o cristianismo. Quem abriu caminho para esta influência grega foi um filósofo judeu chamado Fílon de Alexandria. Suas teses fizeram os “Pais da Igreja” empurrarem o conceito grego do logos para o lugar do conceito judaico davar e então toda a confusão se estabeleceu sobre a pessoa de Jesus.
Para Fílon, o Logos é:
[…] o mesmo que o<<demiurgo>> de Platão”, ou seja, “O princípio de mediação entre Deus e a matéria […], no qual estariam comprimidas todas as idéias das coisas finitas, e que teria criado o mundo material, fazendo estas idéias penetrarem na matéria”, ou ainda, “[…] é a razão divina e universal, a razão imanente, que contém dentro de si mesmo o ideal universal, mas que ao mesmo tempo, é a palavra expressa, que procede da parte de Deus e que se manifesta neste mundo em tudo quanto aqui existe, (CHAMPLIN, 2008, p. 900). [8]
Este pequeno trecho histórico apresenta o motivo que levou os Pais da Igreja a interpretar João 1:1 como sendo uma referência a Jesus. A interpretação deles está baseada no conceito grego de que o termo Logos se refere a um Ser intermediário entre Deus e a matéria. O erro deles foi aplicar este conceito grego a ideia judaica. Isto é, eles misturaram cultura grega com cultura judaica, filosofia com teologia, “fábula” com a Bíblia. Somente por esta razão histórica, Jesus foi transformado em Deus. Na Bíblia, a possibilidade dEle ter existido como Deus no céu no princípio da criação é zero. Se Ele não é Deus, sua preexistência não é verdade. Jesus não é o Logos.
Capítulo 2 #
Jesus é o Messias, Filho de Deus #
Os textos mais difíceis sobre o Messias se encontram no evangelho de João. Nenhum destes textos afirma deidade de Jesus. Mas, a imensa maioria dos teólogos e estudiosos pensa que Ele:
- É o Verbo
- Foi visto por Abraão
- Tinha uma antiga glória
- Subiu ao céu, desceu do céu, veio de cima, estava no céu, foi enviado do céu, estava junto do Pai, era de cima
No princípio era o verbo? #
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. (João 1:1-3)
O objetivo do evangelho de João é provar que Jesus é o Messias, aquele que proclamou a palavra de Deus. Não provar que Ele era Deus em forma de Palavra. Este evangelho tem como tema central a palavra de salvação que chegou aos homens através Jesus. O Verbo é esta palavra de salvação que vem de Deus. Jesus foi o meio pelo qual Deus enviou Sua palavra. Em outras palavras, o Verbo veio por Jesus. O Verbo não é Jesus.
Durante séculos, a compreensão errada de que Jesus é o Verbo, desviou a mente das pessoas do verdadeiro assunto do Evangelho. Os versos 1 a 3 do capítulo 1 não mostram Jesus. Atribuir este texto como uma descrição de Jesus é um grande erro de leitura. A palavra Jesus aparece somente no verso 17. Portanto, Jesus não é a palavra que define o sentido do texto, mas o Logos.
Jesus não é assunto dos versos iniciais. O capítulo 1 do Evangelho de João fala da palavra de salvação. Somente nos versos 16 e 17 ao falar da plenitude da palavra (Verbo), que se completou com a mensagem da graça, é que a figura de Jesus entra em cena. Os teólogos veem Jesus nos versos 1 a 3 por interpretação própria. Introduzem, acrescentam a palavra Jesus num lugar que não foi colocada pelo autor do Evangelho. E não colocou por uma razão simples: ele não falava de Jesus. Ele falava da palavra de Salvação que começou em Moisés e alcançou plenitude através de Jesus. Se as pessoas entenderem a verdade simples de que o Verbo não é Jesus, porque não há menção de Jesus nos versos 1 a 3, entenderão facilmente que nenhum outro texto usado pelos defensores da Trindade e suas variações, diz que Jesus é Deus. Se Jesus fosse o Verbo, Ele seria Deus, porque o Verbo é Deus. Mas Jesus não é o Verbo.
Quem é o Verbo de João 1:1? #
O Verbo é apenas o verbo. Verbo é igual a palavra. O Verbo de João 1:1 tem sentido de “davar” no hebraico. “Davar” é a palavra criadora. Isto é o que está conceituado no verso 3:
Todas as coisas foram feitas por ele [palavra], e sem ele nada do que foi feito se fez. (João 1:3)
Foi a palavra de Deus que tudo criou. Só Deus é criador através do “sopro” que sai de Sua boca:
Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca. Salmos 33:6
Não havia outro Ser junto de Deus, Ele criou tudo sozinho:
Assim diz o Senhor, teu redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o Senhor que faço tudo, que sozinho estendo os céus, e espraio a terra por mim mesmo; (Isaías 44:24)
O próprio Jesus reconhece que Deus é o Criador. Ele nunca reivindicou esta função para Si, o que poderia fazer quando disse:
Porque naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá. (Marcos 13:19)
Respondeu-lhe Jesus: Não tendes lido que o Criador os fez desde o princípio homem e mulher, (Mateus 19:4)
Todas as referências ao Verbo em João capítulo 1 retratam a ação de Deus ao falar. Não retratam uma pessoa chamada Jesus. Jesus não é um Deus-Palavra, mas o homem que falou a palavra de Deus. O Verbo de João 1 é aquilo que Jesus reproduziu em suas pregações, não Ele próprio.
Uma simples troca do termo Verbo no texto de João 1 nos mostra o erro de sentido na perspectiva trinitária: “No princípio era Jesus, e Jesus estava com o Pai, e Jesus era o Pai”. Oras, ele estava com o Pai ou era o Pai? Que tremenda confusão! Outra substituição para confirmar a contradição: “No princípio era o Filho, e o Filho estava com o Pai, e o Filho era o Pai”. Hum?!
Agora veja o texto de forma harmônica baseado em Gn 1:1. “No princípio existia a palavra, e a palavra estava no Altíssimo, e a palavra era divina”.
Compare e veja a singularidade com os versículos que seguem:
Por meio da palavra do Altíssimo foram criados os céus, e todo o exército deles pelo supro da sua boca. (Salmos 33:6)
Pela fé entendemos que os mundos por meio da palavra do Altíssimo foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente. (Hebreus 11:3)
Observe que os textos acima não falam de Jesus, mas sobre a palavra criadora de Deus, que estava com Deus e era Deus.
Jesus representa a palavra de Deus #
Algumas passagens do Novo Testamento parecem indicar que Jesus é a palavra de Deus, mas não fazem isso indicando o sentido de divindade. Falam assim por ser Jesus a “boca’ (representante) de Deus entre os homens, um Mensageiro.
Jesus foi o meio (mensageiro) através do qual Deus falou com Israel. Jesus não é a palavra (Verbo), mas falou a palavra de Deus:
Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. (Atos 10:36) Nosso grifo.
Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. (Deuteronômio 18:18) Nosso grifo.
Veja o que disse o próprio Jesus sobre a palavra de Deus:
Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. (João 12:49)
As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim… (João 14:10)
Jesus é a palavra no sentido de representar Deus. Percebam que Jesus não era literalmente a palavra de Deus lá no céu e nem nasceu palavra de Deus. Ele era o homem que falou a palavra de Deus, ou melhor, Deus falou por Ele. Ele falou a palavra que Deus determinou. Neste sentido, Ele é a palavra que saiu de Deus, isto é, falou a palavra de Deus e foi aprovado:
Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste. (João17:8)
Jesus como Messias saiu de Deus no sentido de aprovação. O texto nada afirma sobre a natureza substancial. Os teólogos acrescentaram o entendimento de que Ele saiu de Deus como sendo parte de Sua substância, ou seja, como se Jesus fosse uma “essência material” de Deus, uma parte de Deus. Os textos apenas falam que Jesus foi enviado, ou seja, aprovado, autorizado por Deus.
O fato é que Jesus foi um homem que só se tornou o Messias depois que Deus o aprovou com obras e sinais. Os sinais são provas de que Ele veio (aprovado) de Deus, não prova de que Ele é Deus. Nicodemos reconhecia que Ele veio de Deus por causa dos sinais:
Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.(João 3:2)
Como Jesus, outros homens também vieram de Deus. Eles foram mensageiros pelos quais Deus falou:
Como falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo; (Lucas 1:70)
E tu lhe falarás, e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca, e com a dele, ensinando-vos o que haveis de fazer. (Êxodo 4:15)
Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, (Hebreus 1:1)
Observe nos textos acima que um profeta é como a palavra de Deus porque Deus está nele para falar. Nenhum profeta e nem Jesus se tornaram um Ser divino por falarem a palavra de Deus. E, ninguém se tornou o Criador, ou parte dEle, porque Deus falou através dele.
Vejamos que o rei não se torna Deus só porque fala como Deus:
Nos lábios do rei se acha a sentença divina; a sua boca não transgride quando julga. (Provérbios 16:10)
De fato, João 1:1 tem como assunto a palavra de Deus que veio aos homens como mensagem de salvação. Jesus, o Messias, é o assunto principal de todo o Evangelho de João. A palavra de salvação é o assunto do capítulo 1. João introduziu seu evangelho com a palavra (Verbo) para depois mostrar que Jesus é o Messias que levou esta palavra aos homens, conforme prometido pelos profetas.
O Verbo não é Jesus. O Verbo é a pura palavra de Deus que tudo criou. Jesus se excluiu como Criador, Ele disse que o Pai é o Criador. Jesus se posicionou como quem falava a palavra de Deus, não como quem era a palavra. Ele mesmo disse que aprendeu de Deus o que devia falar. Outros homens também falaram a palavra de Deus. Moisés e Arão foram exemplos. O Verbo de João 1:1 é simplesmente a palavra criadora de Deus, como definido no verso 3, excluindo Jesus. Como já dissemos, considerar o Verbo de João 1:1 como sendo Jesus só foi possível por um erro filosófico-teológico.
Afirmamos que Jesus não era a palavra de Deus, mas que falava a palavra de Deus como representante dEle. Mais à frente, falaremos da relação de Jesus e a palavra de Deus no sentido de ensino da doutrina divina.
Jesus encarnou? #
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. (João 1:14 )
Apegam-se neste texto os que acham que o Verbo é Jesus. Porque ainda não sabem que não é. A expressão o “verbo se fez carne” é uma maneira semítica de expressar que a palavra de Deus chegou aos homens. Em outras palavras, o que era transcendente se fez acessível aos homens. Os teólogos pensam que João 1:1-3 fala de Jesus, por isso interpretam todas as referências ao Verbo no capítulo 1 como se tratasse dEle. A consequência é a encarnação do Verbo na pessoa de Jesus. Isto é um erro muito simples de leitura (regra geral, ao lermos um texto, os primeiros termos definem o assunto). No caso, o termo Verbo define que o assunto da introdução do Evangelho é simplesmente o Verbo, ou a palavra, nada mais do que isso. Mas o que prevaleceu foi a interpretação filosófica dos Pais da Igreja de que o Verbo é Jesus.
A encarnação do Verbo não é a personalização em Jesus. O Verbo e Jesus sempre foram substantivos separados um do outro. Não faz sentido dizer que o Verbo se tornou uma pessoa. O que o texto mostra é que a palavra de Deus se tornou acessível aos homens. A linguagem divina não é a mesma linguagem humana. Deus não fala diretamente ao homem natural. Por isso, Ele providenciou uma forma de ser conhecido. Isto fez inspirando os profetas a falaram dEle. O verso 11 diz: “Veio para o que era seu [os homens, o mundo], e os seus não o receberam.” Os homens não receberam palavra quando não aceitaram a mensagem de Moisés, dos profetas e de Jesus.
A expressão “se fez carne” nada mais é do que uma figura de linguagem semita para expressar materialização de algo abstrato. “Fazer carne” é tornar humano. De acordo com o site Papocatólico:
o povo semita era simples, intituitivo, com uma linguagem concreta, personificando e encarnando o seu pensamento. Por exemplo, não existe nesta linguagem a expressão “humanidade”. Para expressar a “natureza humana” se usa a expressão “carne”.[9]
Não há motivo algum para usar o verso 14 como uma referência a Jesus, quando ele refere-se apenas ao Verbo. Jesus não é um Deus encarnado, Ele nasceu em carne como qualquer outro homem.
Ajuda contextual #
Vejamos o texto de João capítulo 1:1-18 com a ajuda contextual.
No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus, e a palavra era Deus. Ela [a PALAVRA] estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas (por ela) [pela PALAVRA], e sem (ela) [a PALAVRA] nada do que foi feito se fez. (Nela) [na PALAVRA] estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.
[A PALAVRA] estava no mundo, e o mundo foi feito (por ela) [pela PALAVRA], e o mundo não (a) conheceu [a PALAVRA]. Veio para o que era seu, e os seus não (a) receberam [a PALAVRA]. Mas, a todos quantos (a) receberam [a PALAVRA], deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome {de Deus}; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E a PALAVRA se fez carne {se tornou de conhecimento humano}, e habitou entre nós, e vimos a (sua) glória [da PALAVRA], como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. João testificou (dela) [da PALAVRA], e clamou, dizendo: Esta [PALAVRA] era aquela [PALAVRA] (de quem) [da qual] eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da (sua) plenitude [da PALAVRA], e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. (João 1:1-18)
Jesus era antes de Abraão? #
Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou. (João 8:58)
Talvez, esta seja a passagem depois de João 1:1 mais usada para defender a existência de Jesus antes de seu nascimento de Maria. Mas ela é lida fora de contexto. Isto é, os teólogos leem apenas o versículo e deixam toda história envolvendo o assunto. Temos que ler todo o capítulo para buscar o sentido de João 8:58. Fazer diferente é cortar a verdade pelo meio. E, meia-verdade pode facilmente ser completada com meia-mentira. Sabemos que uma questão lógico-matemática resolvida pela metade é errada. Como meio copo de água com meio copo de veneno, mata tanto quanto um copo inteiro de veneno. Por isso, não me arrisco com meio entendimento do assunto. A verdade é completa.
No contexto temos a história da mulher flagrada em adultério. Foi este fato que desencadeou o enredo que culminou na fala de Jesus “antes de Abraão, eu sou”. O capítulo trata de um debate entre Jesus e os fariseus, seguido de outro debate intenso com os judeus que creram nEle.
Quando Jesus disse: “eu sou a luz do mundo”, (Jo 8:12), Ele se posicionou acima de todos os demais mestres e escribas da terra. Jesus foi questionado por essa afirmação ao ponto dos judeus dizerem que seu testemunho não tinha valor porque falava de Si mesmo. Jesus, porém, respondeu que tinha o testemunho do Pai. De ora em diante, por um lado Jesus se mostra superior, por ser aquele Messias prometido, e por outro lado os judeus tentam minimizar o peso de sua afirmação, até que a discussão se encerra na expressão “antes de Abraão, eu sou”.
Jesus, neste capítulo, depois de não acusar a mulher conforme a lei passou a explicar aos fariseus que Ele era a “luz do mundo”, (Jo 8:12). Em palavras mais claras, Ele era o novo mestre da lei. De ora em diante, Ele seria o professor e todos do mundo seus discípulos. A expressão “luz” no contexto bíblico quer dizer conhecimento. Assim em trevas é igual a sem luz (sem entendimento), e sem luz significa aluno, ou discípulo.
De fato, Jesus se tornara a “luz do mundo”, (Jo 8:12), mestre e professor:
Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (João 8:12)
Os que criam se transformavam em seus alunos:
…Se vós permanecerdes na minha palavra [ensino], verdadeiramente sereis meus discípulos [aluno]; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (João 8:31,32)
O Messias foi prometido para ensinar:
Disse a mulher: “Eu sei que o Messias (chamado Cristo) está para vir. Quando ele vier, explicará tudo para nós”. (João 4:25)
E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. (João 8:2)
Responderam eles, e disseram-lhe: Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós? E expulsaram-no. (João 9:34)
Jesus foi questionado pelos judeus sobre sua autoridade:
És tu maior do que o nosso pai Abraão, que morreu? E também os profetas morreram. Quem te fazes tu ser? (João 8:53)
A resposta de Jesus foi um sonoro SIM com a frase “antes de Abraão, eu sou”, (Jo 8:58). Jesus apenas auto afirmou-Se, dizendo que era maior que Abraão.
Esta afirmação de Jesus não está relacionada a uma suposta existência dEle em tempos anteriores a Abraão, mas à discussão do momento, que era sua autoridade para ensinar. Evidentemente, Jesus era o homem autorizado por Deus para ensinar. O Messias foi prometido para este fim:
Disse a mulher: “Eu sei que o Messias (chamado Cristo) está para vir. Quando ele vier, explicará tudo para nós”. (João 4:25)
A expressão “antes de Abraão, eu sou” não é uma afirmação de existência, é uma resposta aos judeus sobre a superioridade do Mestre em relação a Abraão. O Messias, mesmo antes de Abraão já era conhecido. Os homens já sabiam que um dia Ele iria existir. Enoque profetizou sobre ele, (Jd 1:14).
Mesmo tomando a palavra “antes” como indicativo de tempo, o que Jesus estaria dizendo, de acordo com o contexto, é que Ele já havia sido indicado e autorizado para ser o Messias. Antes de Abraão existir, Jesus já era mais importante que o patriarca. Tentar fazer dessa expressão um indicativo de tempo, somente para aqueles que não leem o contexto. Jesus apenas está dizendo que “eu sou” o Messias antes de Abraão.
Para finalizar esta exposição, os defensores trinitarianos, ou arianos, afirmam que os judeus entenderam que Jesus tinha visto Abraão. Mas não foi isso que Jesus disse, Ele declarou que Abraão viu seu dia, não que Ele viu a Abraão. Se fosse verdade que Jesus viu Abraão, então, obrigatoriamente, Ele deveria ter existido naquele tempo. Mas como a afirmação de Jesus é ao contrário, que foi Abraão que viu seu dia, isto muda todo o sentido. Só não vê quem não quer.
“Ver” significa “entender” em muitos contextos bíblicos. O detalhe importante é que Abraão não viu a pessoa física de Jesus, mas o “dia” dEle. Abraão entendeu como seria a vida e a morte do Messias. Entendeu que Ele seria um filho obediente, um homem sem pecado, morto em sacrifício. Ele viu através da figura de Isaque. O texto não dá base para afirmar que Jesus viu Abraão. Não há motivos para forçar a hermenêutica à procura de uma ideia que não existe no texto. Jesus fisicamente, ou espiritualmente, não existia antes de Abraão. Jesus não era um Ser antes deste patriarca.
Jesus tinha uma glória na mente de Deus #
E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. (João 17:5)
Antes de mais nada, é preciso entender as várias glórias do Messias. Jesus conduziu sua vida de acordo com as profecias. Ele sabia o que iria acontecer em cada momento de sua missão. Quando estava em Caná da Galiléia e faltou vinho, sua mãe o incitou, mas Ele respondeu que sua hora ainda não havia chegado, (Jo 2:4). Mais tarde, porém, Ele disse que era chegado a hora de sua glorificação, (Jo 12:23). Ele sabia o tempo exato que os episódios relacionados à sua missão iriam acontecer. Ele tinha o controle de suas atitudes com base em tudo o que os profetas haviam falado:
E, tomando consigo os doze, disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém, e se cumprirá no Filho do homem tudo o que pelos profetas foi escrito;
Pois há de ser entregue aos gentios, e escarnecido, injuriado e cuspido;
E, havendo-o açoitado, o matarão; e ao terceiro dia ressuscitará. (Lucas 18:31-33)
Quando chegou o dia da sua morte, Ele se entregou, conforme estava escrito. Quando ainda não era o tempo, fugiu como pode da morte:
Então pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim se retirou. (João 8:59)
E, levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem.
Ele, porém, passando pelo meio deles, retirou-se. (Lucas 4:29,30)
Cada passo, decisão e atitude de Jesus eram de acordo com as Escrituras. Ele sabia de tudo o que a profecia havia informado sobre Si. Sua mensagem, sua vida, sua morte, sua ressureição, seu sofrimento, tudo estava escrito nos profetas. Estava escrito também sobre sua glória:
Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele. (João 12:41)
Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. (1 Pedro 1:10,11)
Jesus teve uma glória terrena:
Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele. (João 2:11)
Tem uma glória que há de se manifestar:
E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; (Mateus 25:31)
Mas, há outra glória que já se refletiu durante os dois mil anos de história. A história da humanidade mudou por causa dEle. Esta é a glória que deveria seguir a seus sofrimentos, como alertou o apóstolo Pedro:
…indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. (1 Pedro 1:11b)
Tudo está escrito sobre o Filho do Homem, inclusive sobre sua glória. Está escrito porque Deus informou aos profetas. Jesus sabia que Deus tinha um plano antigo de glorificá-lo, por isso, disse: “a glória que tinha contigo, antes que o mundo existisse”. Quando Jesus orou, pedindo a manifestação da glória, é porque havia chegado o momento. Jesus não havia sido glorificado, (João 7:39), mas, a partir da sua morte, sua glória tornou-se conhecida no mundo, conforme as profecias escritas.
Os teólogos que conceituam a divindade com características trinitarianas pensam que Jesus estava com Deus no princípio. Não! Isto não é verdade. Absolutamente, nada há na passagem de João 17:5 que indica a existência de Jesus em tempos remotos. Apenas a glória dEle estava com Deus.
A glória de Jesus era a pré-ciência de Deus #
O Messias era um plano na mente de Deus. Havia um tempo determinado para o Messias se manifestar. Este tempo estava determinado nas profecias. As profecias são resultados daquilo que Deus pensa fazer no mundo: “Certamente o Senhor DEUS não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas.” (Amós 3:7)
Jesus não existia antes de nascer de Maria. Ele não era um ser. Nasceu homem para cumprir o papel de Messias. Nasceu de acordo com a promessa de Deus: “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne,” (Romanos 1:2,3).
A linguagem divina antecede e antecipa os acontecimentos aos homens. Deus fala daquilo que não existe como se existisse, (Rm 4:17). Deus falou sobre o Messias antes que Ele existisse. O fato de Deus ter este poder e assim falar não fez Jesus existir antes do tempo. Jesus se manifestou como Messias apenas na hora determinada. Jesus disse à sua mãe: “…ainda não é chegada a minha hora.” Jesus não existiu antes de nascer de Maria, nem sua glória existiu literalmente. Ela apenas era um plano divino. Quando chegou o momento, Deus manifestou a glória de Jesus ao mundo.
A graça, o reino e a eleição existiam antes da criação #
Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade. (Isaías 46:10)
Deus conhece todas as coisas antes que elas existam ou aconteçam. Deus cria todas as coisas começando pelo fim. Deus é o único Ser que antecipa o fim através da profecia. Deus antecipou tudo sobre seu reino. Assim como, hoje, sabemos sobre o futuro governo de Cristo, no passado, os profetas sabiam como seria o Messias. Os profetas conheceram antecipadamente as dores e a glória do Messias. As profecias anunciavam que no futuro o Messias viria a existir. Há centenas de profecias neste sentido. Antes do nascimento virginal de Jesus, não havia nenhum Ser junto de Deus que pudesse ser chamado de seu Filho. Tudo o que havia era um plano, um projeto mental de Deus de gerar o Messias. O Messias não veio sem antes Deus prometer e avisar aos seus santos profetas. O Messias era uma pré-ciência de Deus, não um Ser ao lado dEle. Jesus não era um Deus existente antes nascer de Maria. Jesus apenas foi um homem desde Maria.
Vamos aprender mais sobre a pré-ciência de Deus. Vejamos algumas passagens bíblicas:
- Deus é pré-ciente
(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem. (Romanos 4:17)
Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. (Romanos 8:29)
- Deus nos deu a graça antes dos séculos
Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; e que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho. (2 Timóteo 1:9,10)
- Deus nos escolheu antes da fundação do mundo
Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor. (Efésios 1:4)
- Deus designou Cristo antes da fundação do mundo e o manifestou nos últimos tempos
O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós. (1 Pedro 1:20)
E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. (Apocalipse 13:8)
- Deus nos preparou um reino antes da fundação do mundo
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. (Mateus 25:34)
- Deus conhece os homens antes que eles venham existir
Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta. (Jeremias 1:5)
- Deus mostrou a glória e o espírito do Messias antes que Ele existisse
Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele. (João 12:41)
Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. (1 Pedro 1:10,11)
As passagens bíblicas que fazem os trinitarianos e seus correspondentes pensarem que Jesus já existia “antes da fundação do mundo” significam, na verdade, que havia um plano na mente de Deus. É o caso da “glória que tinha contigo, antes que o mundo existisse”, (João 17:5), — explicado acima. Deus havia pensado em tornar seu Filho unigênito um Ser glorioso. As características dessa glória já estavam na mente de Deus, mas seriam manifestas somente na plenitude dos tempos, quando o Filho viesse a existir. O texto fala da glória do Messias, não do Messias propriamente dito. Quem estava com Deus era a glória, não Jesus. Jesus não disse “a glória que eu tinha quando estava contigo”. Deus é pré-ciente de todas as coisas, Ele conhecia a glória que estava destinada a Seu filho, como também as dores. Os profetas e Jesus sabiam disso. O fato de Deus ser pré-ciente, não antecipa acontecimentos. Não há nada na Bíblia que possa indicar que Jesus é anterior a seu nascimento natural. Não devemos forçar o texto e confundir a leitura.
Glória é “Doxa” no grego e equivale a “fama”[10] #
Vejamos nas escrituras hebraicas a origem da palavra “glória”. Ela está ligada há muitas palavras, mas a que mais vezes tem sido traduzida por glória é “dwbk” (Kavodh), a qual basicamente tem o sentido de “peso”, o que dá peso. (Vejamos I Samuel 4.18, onde o adjetivo apresentado é traduzido como pesado, “dbk”). De modo que a glória pode se referir àquilo que faz a pessoa ou a coisa parecer poderosa ou impressionante, tal como a riqueza material, “dwbk”, (Salmos 49:16-17), posição ou reputação, “ydbk”, (Gênesis 45:6).
Esta palavra (kavodh) na Septuaginta (LXX), elaborada a partir do ano 285 A.E.C, foi traduzida para o termo: “doxa”. Neste tempo, doxa significava basicamente duas coisas: opinião e reputação. A primeira dessas ideias (opinião) desapareceu totalmente, tanto na Septuaginta, como no Novo Testamento. No Novo Testamento, glória passou a significar apenas reputação.
Doxa tinha sua própria significação no pensamento grego. Achada em Homero e Heródoto, esta palavra tem fora do grego da Bíblia um sentido básico que reflete sua ligação com “docew-dokéo”, isto é, o que alguém pensa, sua opinião. Este conceito é apresentado em duas formas: a opinião que eu tenho; e a opinião que os outros têm.
Mas, como foi dito, o sentido de “opinião” foi abandonado ao longo do tempo e não apareceu nos escritos neotestamentários, o que prevaleceu foi o sentido de “reputação”. Esta é a definição que vemos no Léxico do Novo Testamento Grego/Português de F. Wilbur Gingrich e Frederik W. Danker que conceitua a palavra “dóxa” como brilho, radiância, esplendor de reis, magnificência, fama, prestígio, louvor como uma exaltação da reputação. O Léxico cita estas passagens bíblicas do seu uso neste sentido: Lucas 9.31, Atos 22:11, I Coríntios 15:40. Glória significando majestade atribuída a Deus e a seres celestiais: Atos 7:2, Romanos 1:23, Tiago 2:1, Apocalipse 5:12 e 15:8. Com conotação de poder Romanos 6:4 e reflexo I Coríntios 11:7.
Glória é resultado da tradução de palavras hebraicas e gregas que apontam o sentido de reputação, fama, peso e valor. Tais palavras nos faz entender que ter glória é ser conhecido, famoso, prestigiado e reputado. Assim, quando Jesus disse “a glória que tinha contigo”, estava dizendo que Ele era e seria conhecido. Ser conhecido não quer dizer existido. Tudo sobre Jesus foi conhecido “antes da fundação do mundo”, mas o próprio Jesus não existia como um Ser. Jesus foi aos poucos sendo conhecido ao longo do tempo. Ele foi plenamente revelado no fim dos séculos. Paulo fala disso como um mistério oculto em Deus, antes dos tempos: “E demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo”, (Efésios 3:9). Geralmente, as pessoas comuns ficam famosas a partir de algum feito extraordinário que realizaram ao longo de suas vidas. Jesus ficou famoso (conhecido) por um feito extraordinário que ainda seria realizado, sua morte e ressureição. Afinal, é para Ele que toda a humanidade devia e deve olhar. O fato de Jesus ter glória (fama) antes de nascer não é prova de sua preexistência como um Ser divino.
Deus havia pensado em tornar seu Filho unigênito um Ser glorioso. As características dessa glória já estavam (ocultas) na mente de Deus, mas seriam manifestas somente na plenitude dos tempos, quando o Filho viesse a existir. O texto fala da glória do Messias, não do Messias propriamente dito. Quem estava com Deus era a glória, não Jesus. Jesus não disse “a glória que eu tinha quando estava contigo”. Ele fala que a glória estava com Deus. Certamente, este texto não mostra que Jesus é Deus. Continua sendo homem.
Jesus desceu à terra e subiu ao céu? #
Jesus não é um Ser divino que desceu do céu para se tornar homem aqui na terra. Isto não aconteceu porque Ele nunca esteve no céu antes de nascer de Maria. Temos a certeza que Ele subiu depois de sua ressureição, porque assim está escrito nas profecias. O contrário não é verdadeiro porque não existe nenhuma escritura profética afirmando que Ele desceria do céu para habitar entre os homens. Jesus é um Ser que nasceu neste mundo e foi arrebatado para Deus e para seu trono, (Ap. 12:5).
Mundo e criação #
Duas palavras têm causado dificuldades para o entendimento do tema existência de Cristo: mundo e criação. Apesar de mundo poder significar criação, a maioria das vezes refere-se a sistemas humanos. Por isso, quando João fala que Deus enviou o Filho ao mundo, não está falando que saiu do céu e desceu à terra. Ele já estava na terra e foi enviado ao mundo (sistema cultural) composto por seres humanos, isto é, reinos, governos, principados, religiões, seitas etc.
A palavra “mundo”, em seus diversos significados, provém de quatro palavras gregas: kosmos = universo; aiõn = tempo, século, eternidade, sistema; oikoumene = mundo habitado; e, gê = terra. Como temos quatro origens no grego para uma mesma palavra no português, descobrir qual o verdadeiro sentido em cada passagem bíblica não é uma tarefa simples. Exige-se compreensão do contexto (hermenêutica). Já a palavra “criação” é mais fácil de lidar. Ela significa a ação de fazer algo aparecer, crescer, desenvolver. Por isso, ao lermos o Evangelho de João, devemos ter o cuidado de compreender o sentido empregado na palavra “mundo”, uma vez que a palavra “criação” quase não aparece neste evangelho.
Vejamos algumas passagens do Evangelho de João que podem estar usando a palavra mundo no sentido de criação:
- O mundo foi feito por ele (1:10): Aqui poderíamos tomar no sentido de criação da terra, mas no mesmo texto é dito que o mundo não o conheceu. Como o mundo não é uma pessoa, então há também o sentido de sistema cultural. E o mais correto a se entender é que se trata da criação dos homens em sociedade.
- Desde o princípio do mundo (9:32): Sentido de criação, a origem temporal e material. Contudo, a palavra grega usada neste texto também significa eterno.
- Vê a luz do mundo (11:9): Este é um texto com significado claro, porém depende do contexto. O mundo aqui é o objeto terra quando lemos somente a frase “luz do mundo”. Mas quando lemos associada à frase “vê a luz”, mundo é sistema cultural.
- Nem no mundo inteiro caberiam livros (21:25): Sentido claro de globo terrestre.
A palavra mundo no sentido de sistema de cultura humana é o usado na imensa maioria das passagens em João. Podemos ver:
- Não sou deste mundo, (8:23);
- Veio ao mundo, (9:39);
- Pai enviou ao mundo, (10:36);
- Filho de Deus que havia de vir ao mundo, (11:27);
- O mundo inteiro vai após ele, (12:19);
- Príncipe deste mundo, (12:31);
- O mundo vos odeia, (15:18);
- Venci o mundo, (16:3);
- Não estou mais no mundo, (17:11);
- Não são do mundo, (17:16);
- Enviarei ao mundo, (17:18);
- Meu reino não é deste mundo, (18:36).
Vamos analisar um caso bíblico:
E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. […] Estando eu com eles no mundo […] Mas agora vou para ti, e digo isto no mundo, […] e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. […] Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. (João 17:11-18)
Aqui se apresentaria uma aparente contradição de sentido se tomássemos a palavra mundo como sendo a criação. Primeiro, porque Jesus diz que não está no mundo, mas na sequencia diz que está, como assim? Depois, fala que os discípulos não são do mundo, como Ele não é. Como assim? Os discípulos não são carne e osso como nós? Por fim, diz que vai enviá-los ao mundo. De novo, como assim? Eles não estavam no mundo? Como não podemos conviver com estas aparentes contradições, óbvio, que se trata do mundo como sistema cultural, social e político.
Compreendendo que o Evangelho de João na maioria das vezes usa a palavra mundo no sentido de sistemas humanos e não somente no sentido da criação física, fica mais fácil entender que Jesus não foi enviado do céu à terra, mas que, estando na terra, foi enviado ao mundo (sistema humano), assim como foram os discípulos e também os profetas, inclusive João Batista.
Jesus não desceu do céu, apenas subiu #
Há um conjunto de passagens que parecem indicar que Jesus estava no céu e desceu ao mundo. Mas, como foi visto acima, o sentido da palavra mundo precisa ser levado em conta na hora da leitura. Quando isso é feito, entendemos que Jesus não veio do céu. Quem veio foi a palavra de Deus (o Verbo).
Algo importante precisa ser esclarecido. Necessário se faz diferenciar a pessoa Jesus da função de Messias. Jesus era o filho de Davi e não era o Messias até que completou 30 anos, foi batizado por João e recebeu a aprovação divina. Messias foi a função (missão) que Jesus desempenhou depois de ser autorizado por Deus. Esta missão era uma ideia na mente de Deus, conceituada como Filho do Homem, Filho de Deus, ou Messias. Esta ideia desceu do céu, isto é, veio de Deus para se realizar/materializar no descendente de Davi, cumprindo uma promessa com juramento, (Atos 2:30).
A função de messias não é uma pessoa. Messias é uma posição que Jesus ocupou. Poderia ser qualquer outro descendente de Davi a ocupá-la, mas foi Jesus quem preencheu os requisitos. Ocupar o lugar de Messias é como ocupar o cargo de prefeito, governador ou presidente. Ninguém nasce sendo a função que desempenha ao longo da vida. Jesus foi preparado ao longo de sua vida para ser o Messias. Ele não seria o Messias se, por exemplo, tivesse pecado. Sendo assim, não foi uma pessoa, ou um “Deus” que se tornou homem. Mas um homem foi aprovado por Deus para ser o Messias.
Várias passagens de João parecem indicar um movimento literal de vinda de Jesus do céu à terra e vice-versa. Somente leituras superficiais permitem tal entendimento. Uma análise mais detida do evangelho indicará a percepção real do sentido destas passagens.
Explicando passagens “difíceis” de João #
Selecionamos algumas passagens difíceis do Evangelho de João para uma breve explicação: Jo 3:13; Jo 3:31; Jo 6:33 e 38; Jo 6:62; Jo 7:29; Jo 8:23, Jo. 17:8. As explicações dadas a estas passagens cobrem qualquer questionamento sobre outros textos não abordados. Estas passagens retratam a autoridade de Jesus como Messias, mas as pessoas pensam que fala dEle como Ser celestial.
João 3:13: “desceu do céu”
Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu. (João 3:13)
Esta passagem retrata o encontro de dois mestres. Cada um representando uma escola de ensino. João, ao escrever, usa o verbo no plural: “…nós dizemos o que sabemos, e testificamos o que vimos…”, (João 3:11) Óbvio que Jesus não está falando somente em seu nome. Jesus e seus discípulos e quem mais que andava com Ele ensinavam algo que aprenderam (“sabemos”) e que tinham se certificado (“vimos”).
Esta doutrina superior (“do alto”, v. 3), o novo nascimento, ainda não era do conhecimento de Nicodemos, (v. 10). Mas era do conhecimento de Jesus. O Mestre havia aprendido de Deus sobre o novo nascimento. Portanto, esta doutrina veio do céu, veio do alto. Ela veio através do ensino de João Batista e Jesus. Porém, Jesus não ascendeu fisicamente ao céu. O que Ele fez foi acessar a mente do Pai através do conhecimento que obteve a cada dia de sua vida, lendo e examinando as Escrituras, (Isaías 50:4), como faz qualquer outro mestre. O sentido da frase “ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu” é encontrado no fato de que o Messias, sendo um plano na mente de Deus, materializado na pessoa de Jesus, agora aprendeu de Deus tudo o que devia ensinar, (Lucas 2:46,47). Era mestre em Israel, assim como Nicodemos.
Alguns exegetas se atropelam com o sentido da frase: que está no céu. Uma explicação é a de que João, ao escrever o evangelho depois da ascensão de Jesus, quis afirmar que naquele momento Jesus estava no céu. Então, não seria uma fala de Jesus. Por outro lado, sendo uma fala de Jesus, melhor é seguir a ideia contextual acima apresentada. Isto é, Jesus declara a Nicodemos que Ele está num nível superior de entendimento das coisas celestiais. Por isso, “ninguém subiu ao céu”, senão Ele que já tinha sua origem na mente divina. Em outras palavras, Jesus foi preparado e capacitado para uma sabedoria relativamente superior aos demais homens, isto é, foi criado perfeito.
Ao falarmos em origem divina ou celestial de Jesus, precisamos entender que Ele foi originado no céu, em termos de concepção. Ele foi o único homem, depois de Adão, que a mente de Deus trabalhou em detalhes especiais até que viesse a existir. Os demais homens surgem a partir da lei biológica preestabelecida por Deus. Nós, homens naturais, somos resultado de uma escolha aleatória e casuística entre milhões de espermatozoides. Jesus não foi assim. A força de Deus atuou diretamente na geminação e geração dEle. Ele não é uma produção aleatória e carnal. Ele é resultado de um cuidado divino. Deus atuou em cada pormenor para que sua existência fosse possível. Apesar dessa origem divina, Jesus é 100% humano. Foi um óvulo de Maria, trazendo o DNA de Davi e Abraão que gerou Jesus. Portanto, a origem divina de Jesus significa que a sua fonte foi o Pai no sentido de planejá-lo, concebê-lo, educá-lo e aprová-lo. Assim, esclarecemos que Jesus é um Mestre, não um Deus.
João 3:31: “vem de cima”, “vem do céu”
Aquele que vem de cima é sobre todos; aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos.(João 3:31)
A leitura imediata faz as pessoas pensarem que Jesus veio do céu. Mas vamos analisar. O contexto mostra que houve uma discussão entre os discípulos de João e os judeus sobre o ato do batismo, porque Jesus já estava batizando mais pessoas do que o próprio João, (v. 25). João procura equalizar a questão explicando a razão do crescimento em número de pessoas que o procuravam Jesus. “João respondeu, e disse: O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu.” (João 3:27)
João está falando que Jesus veio do céu, ou que recebeu algo do céu? Que recebeu. E o que Ele recebeu? A aprovação de Deus para ser o Messias, pois João diz: “Eu não sou o Cristo”, (v. 28). João abnegava ser o Messias, dando honra a quem era devido. De fato, Jesus reuniu todas as características do Messias. O poder de ser o Messias veio dos céus a Ele. Jesus não era o Messias até que completou 30 anos, foi batizado por João e começou a evangelizar. João sabia da aprovação vinda dos céus, por isso disse: “Aquele que vem de cima…”, isto é, em outras palavras, aquele que é autorizado por Deus.
A autoridade não é um ser, mas um conceito, abstrato. “Aquele que vem de cima”, não era um ser, mas um conceito definido na expressão Filho do Homem. O Filho do homem era um plano, um mistério escondido em Deus desde a fundação do mundo, (Ef. 3:9), por isso é celestial. Por ser celestial, vem de cima e é “sobre todos”.
Em suma, este texto não é uma indicação de que Jesus veio do céu. É a constatação de que Jesus havia sido aprovado por Deus, demonstrado pelo crescente número de pessoas batizadas. João era apenas o anjo enviado antes do Senhor (v. 28) para preparar o caminho. Feito isso, a tendência era dar espaço para Jesus. Por isso, disse: “É necessário que ele cresça e eu diminua”, (João 3:30) A declaração de João de que os homens prosperam em suas atividades se Deus permitir, não pode ser transformada numa declaração de que Jesus veio em pessoa do céu. São coisas muito distantes entre si para errarmos tanto na interpretação.
João 6:33, 38, 62: “aquele que desce do céu”, “desci do céu”, “onde primeiro estava”
Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. (João 6:33)
Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. (João 6:38)
Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava? (João 6:62)
Dificilmente um leitor comum, sem examinar o contexto, não vá imaginar que Jesus esteve no céu. A primeira coisa a se saber sobre este tema é que não existe nenhuma frase (pelos menos nas traduções que já li) afirmando que a pessoa Jesus esteve no céu. Todas as passagens falam apenas sobre o Filho do Homem. Esta é uma expressão conceitual. Isto é muito significativo, pois a expressão Filho do Homem refere-se à missão de Jesus como um todo, seu papel de Messias, e não particularmente e especificamente a Ele, o homem natural.
Assim como a passagem de João 8:58, que explicamos acima, estas três passagens do capítulo 6 também merecem uma ampla contextualização, caso contrário, não encontraremos seu sentido. Mas não faremos isto, agora, por falta de espaço. Daremos uma rápida explicação.[11]
Seria muito fácil entender se as pessoas simplesmente aceitassem a figura de linguagem empregada no discurso de Jesus. Jesus como bom pregador sempre usou parábolas, figuras e os elementos que O cercavam para exemplificar os grandes princípios que ensinava. Geralmente, usava elementos da natureza, como os lírios do campo, as sementes à beira do caminho, as folhas e os frutos das árvores etc. Mas também usava dos acontecimentos, como a queda da Torre de Siloé, destruição de Sodoma e Gomorra entre outros. Aqui em João 6, Ele se utilizou do fenômeno da multiplicação dos pães para ilustrar seu discurso. Seria, então, o caso de entender que Jesus não era uma medida de trigo misturado com fermento. Ou seja, Jesus não é um pão literalmente falando e não era uma estrada porque disse “eu sou o caminho”, não era um rio porque disse ser a “água da vida”. O que se passa aqui em João 6 é o emprego de uma linguagem figurada, uma ilustração. Usa-se algo material para elucidar algo espiritual. E se não traduzirmos corretamente a figura para o real, a nossa compreensão do texto é comprometida.
O “pão do céu”, em João 6, é a palavra de Deus. Não é Jesus especificamente. Jesus era o canal da palavra de Deus. Ou seja, Deus falava através dEle. Como diz em Hebreus 1, antigamente, Deus falou pelos profetas, agora, fala pelo Filho. Aarão falava como Deus na presença de Faraó, Jesus falava como Deus ao povo. Então, Jesus podia ser considerado como a palavra viva de Deus, mas isso não quer dizer que Ele é a Palavra substancialmente. Assim, como um diplomata, que representa um país diante de um governo, e deve falar como seu governo deseja, Jesus era representante de Deus e falava a palavra de Deus diante do mundo de acordo com o que o Pai ordenou. Para isso, Jesus foi selado por Deus, verso 27 [Selar era uma forma de um rei confirmar a palavra de um enviado seu]. Assim, no sentido representativo, Ele era a palavra, portanto, era o “pão do céu”.
Há um paradoxo a ser desvendado. O Messias além de ser real na pessoa de Jesus era também uma antiga promessa (palavra) de Deus. O Messias estava conceitualmente nos planos de Deus e quando Jesus, aos 30 anos, começou a pregar a palavra de Deus, Ele materializou a promessa. A promessa era de que o Messias viria na figura de um grande profeta para ensinar toda a palavra de Deus, conforme disse Moisés (Deut. 18:15) e alentado em João 4:25. Este profeta foi Jesus.
Há, portanto, uma fusão entre o conceito divino de Messias (Filho do Homem, Filho de Deus) e a pessoa humana Jesus (filho de José, filho de Maria). A palavra desce do céu e realiza, eleva, Jesus como Messias. O pão desceu do céu, não a pessoa Jesus. Jesus estava na terra e recebeu a palavra. E, tendo o selo de Deus, falou em nome de Deus.
O verso 38, “porque eu desci do céu, [como representante] não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou…” demonstra que Jesus está subordinado a alguém superior a Ele, o qual o enviou e lhe deu uma tarefa (vontade) a ser realizada. “Desci do céu” é uma referência de onde vem a autoridade de Jesus como Messias. A confirmação, o selo, desta autoridade foi grafada nos sinais que Jesus realizou, como disse o mestre Nicodemos, (João 3:2).
Agora, a resposta à pergunta fica mais fácil. Jesus a pessoa, o ser, não existia antes de nascer de Maria. O máximo que podemos falar sobre sua anterioridade é que Ele estava nos lombos de Davi, seu Pai: “Sendo, pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono,” (Atos 2:30). Como poderia Jesus estar no céu se a promessa divina, com juramento — vale destacar —, era de que Ele sairia da carne de Davi? Uma das duas é a verdade: o entendimento teológico dos Pais da Igreja de que Jesus estava em Deus, ou a palavra de Deus que Ele estava nos lombos de Davi.
O verso 62 parece modificar o pensamento acima, porque diz: “Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?” Mas, devemos prestar muita atenção, pois as expressões que dizem algo no sentido de subir, descer e estar no céu, ou estar, vir de junto do Pai etc., nunca aparecem associadas a Jesus, mas somente associadas a expressão Filho do Homem, ou Filho de Deus, porque a pessoa ou o Ser Jesus não estava e nunca esteve pessoalmente no céu antes de nascer de Maria.
Como dissemos acima, conceitualmente, o Filho do Homem, estava no céu, ou junto de Deus, porque era parte dos planos divinos. Então, o Filho do Homem, ou Filho de Deus, era primeiramente um conceito na mente do Criador. Antes que o mundo existisse, Deus havia conceituado o Cordeiro como morto para tirar o pecado do homem que ainda iria criar. O conceito Filho do Homem existiu primeiro no céu, como plano, como promessa. Esta mesma promessa também continha a informação de que o Messias seria arrebatado para o céu, (Salmos 110:1, Apocalipse 12:5). Deus realizou esta outra parte da promessa. Assim, o Messias passou a existir no céu na condição de Senhor, mas conservando as características de Filho do homem, o novo homem, (I Tim. 2:5).
Outra explicação, não menos contextual, dada à frase “subir para onde primeiro estava” é a de que Jesus se refere à sua morte e ressureição. Neste capítulo, Jesus desenvolvia um discurso em torno da ideia de dar a sua carne, o verdadeiro pão que descia do céu. Se o pão que desceu do céu era sua carne e seu sangue descendo à sepultura, sua ressureição era o movimento de “subir para onde primeiro estava”. Nada mais simples.
Enfim, Jesus não estava falando que Ele pessoalmente estava no céu. Ele apenas traçou um discurso baseado no episódio da multiplicação dos pães para ilustrar que vinha do céu um alimento muito poderoso para dar vida. Este alimento era a palavra de salvação vinda de Deus. Era um plano elaborado por Deus no céu que consistia na morte de um homem justo por todos os injustos, como depreendemos do ensino geral das Escrituras. Quem acreditasse (isto é, aceitasse, entendesse, ou, “comesse”) que Ele morreria para dar vida, receberia a vida em si mesmo, porque Suas palavras eram espírito e vida. Mas, se o fato dEle morrer pelos outros escandalizava seus ouvintes, quanto mais se vissem o Filho do homem voltar da sepultura, ou subir para o céu. Nada mais simples, apenas uma maneira figurada de falar.
João 7: 28, 29: “de onde sou”, “não vim de mim mesmo”, “aquele que me enviou”, “dele sou”, “ele me enviou
Clamava, pois, Jesus no templo, ensinando, e dizendo: Vós conheceis-me, e sabeis de onde sou; e eu não vim de mim mesmo, mas aquele que me enviou é verdadeiro, o qual vós não conheceis. Mas eu conheço-o, porque dele sou e ele me enviou. (João 7:28,29)
Várias vezes certas expressões parecem indicar que Jesus estava no céu, junto do Pai, tais como: “de onde sou”, “não vim de mesmo”, “aquele que me enviou”, “dele sou” e “ele me enviou”. Aqueles que não olham para o contexto com profundidade são levados pela concretude da ideia contida na frase, mas, na verdade, o sentido é abstrato.
Estas passagens retratam a origem da autoridade de Jesus, não sua origem como Ser. No contexto, vemos que Jesus estava ensinando no templo, atividade que não era permitida aos comuns do povo, mas somente aos escribas e mestres. Os judeus sabiam disso, e ao verem Jesus ensinando livremente questionam, não a sua origem pessoal, mas sua autoridade. A resposta de Jesus é elaborada com frases como as mencionadas acima. Vejamos o contexto.
Em João 7, depois de Jesus subir à festa dos Tabernáculos em Jerusalém, se coloca em pé no meio do povo, ao lado do templo, e começa a ensinar, (v.14). Alguns questionam seu ensino porque ele não havia estudado as letras, (v.15). Jesus responde que não é uma doutrina dele, mas daquele que o enviou, e, por isso, não falava de Si mesmo, (v. 16,17). Ele era verdadeiro porque dava os créditos do ensino àquele que o enviou, (v. 18).
Depois de uma discussão sobre a lei de Moisés, alguns de Jerusalém ficam preocupados com o fato dEle estar falando abertamente, e perguntam entre si se as autoridades haviam reconhecido que Ele era o Cristo, ou seja, haviam autorizado. Para os judeus, o Messias seria alguém desconhecido, de procedência incerta. Agora, Jesus eles conheciam sua origem, (v. 26, 27). Então, o Mestre levanta um clamor para defender a fonte de sua autoridade, (v. 28,29). Por fim, queriam prendê-lo por estar fazendo algo ilegal, mas ainda não era a hora, (v.30). Porém, à medida que seus ensinos evoluíam e as pessoas passavam a acreditar nEle, por causa do volume de obras realizadas, as autoridades enviaram a guarda para o prenderem, (v. 31-32). Trazendo para um exemplo de nossos dias, seria como o camelô vendendo produtos ilegais na praça, as autoridades competentes irão proibi-lo.
Quando os guardas se aproximam para executar a tarefa designada, Jesus faz uma importante declaração: Disse-lhes, pois, Jesus: “Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou. Vós me buscareis, e não me achareis; e onde eu estou, vós não podeis vir”. (João 7:33,34) O que isto significa?
Dentro amplo contexto do capítulo 7, se trata da origem e destino de Jesus. Os futuros acontecimentos com a pessoa de Jesus significava a autenticidade de seus ensinos. Mas, porque Jesus dizia isso? Fazendo um adendo ao contexto, porque as Escrituras afirmam que o Messias seria arrebatado para o pai, (Salmos 110:1): “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés”. Por ouro lado, não há nenhuma profecia dizendo que Jesus desceria do céu como Deus encarnado. Enfim, os judeus ficaram desorientados sobre o destino de Jesus, como também sobre a origem de sua autoridade para ensinar (v. 35, 36). Acreditavam numa autoridade que vinha das letras, enquanto a autoridade do Messias vinha de Deus.
Os versos 37 a 44 mostram que Jesus aumenta o tom de seu discurso, aumentando a dissensão entre os judeus sobre sua autoridade a ponto de novamente desejarem prendê-lo. Uns acreditavam que Ele era o Messias, outros sabendo que Ele viera da Galiléia e não de Belém, descendência de Davi, não poderia ser o Cristo. Dos versos 45 até o 53 a discussão se deu entre as autoridades que haviam mandado os servidores para prendê-lo. Mas, mesmo entre eles havia dissensão, os servidores não obedeceram à ordem e um deles, Nicodemos, se posicionou a favor de Jesus, apelando para a lei. A parte mais indignada disse que da Galileia não poderia vir o Messias. E, cada um volta para sua casa, terminando a reunião sem o sucesso em prendê-lo.
O que este contexto nos revela? Que a questão aqui não é concreta, isto é, sobre a origem pessoal de Jesus, mas é uma questão abstrata, sobre a sua autoridade para ensinar o povo. De onde originou sua autoridade? Claro que não era das letras, muito menos da Galiléia, mas de Deus. Foi Deus quem ensinou Jesus desde sua meninice até que fase adulta se tornou o Messias aprovado por obras.
Portanto, João 7:28 e 29, que contém as expressões que numa primeira leitura parecem dizer que Jesus estava no céu, na verdade, querem dizer que sua autoridade vem do céu, não sua pessoa física.
João 7: 28, 29: “de onde sou”, “não vim de mim mesmo”, “aquele que me enviou”, “dele sou”, “ele me enviou
Clamava, pois, Jesus no templo, ensinando, e dizendo: Vós conheceis-me, e sabeis de onde sou; e eu não vim de mim mesmo, mas aquele que me enviou é verdadeiro, o qual vós não conheceis. Mas eu conheço-o, porque dele sou e ele me enviou. (João 7:28,29)
Várias vezes certas expressões parecem indicar que Jesus estava no céu, junto do Pai, tais como: “de onde sou”, “não vim de mesmo”, “aquele que me enviou”, “dele sou” e “ele me enviou”. Aqueles que não olham para o contexto com profundidade são levados pela concretude da ideia contida na frase, mas, na verdade, o sentido é abstrato.
Estas passagens retratam a origem da autoridade de Jesus, não sua origem como Ser. No contexto, vemos que Jesus estava ensinando no templo, atividade que não era permitida aos comuns do povo, mas somente aos escribas e mestres. Os judeus sabiam disso, e ao verem Jesus ensinando livremente questionam, não a sua origem pessoal, mas sua autoridade. A resposta de Jesus é elaborada com frases como as mencionadas acima. Vejamos o contexto.
Em João 7, depois de Jesus subir à festa dos Tabernáculos em Jerusalém, se coloca em pé no meio do povo, ao lado do templo, e começa a ensinar, (v.14). Alguns questionam seu ensino porque ele não havia estudado as letras, (v.15). Jesus responde que não é uma doutrina dele, mas daquele que o enviou, e, por isso, não falava de Si mesmo, (v. 16,17). Ele era verdadeiro porque dava os créditos do ensino àquele que o enviou, (v. 18).
Depois de uma discussão sobre a lei de Moisés, alguns de Jerusalém ficam preocupados com o fato dEle estar falando abertamente, e perguntam entre si se as autoridades haviam reconhecido que Ele era o Cristo, ou seja, haviam autorizado. Para os judeus, o Messias seria alguém desconhecido, de procedência incerta. Agora, Jesus eles conheciam sua origem, (v. 26, 27). Então, o Mestre levanta um clamor para defender a fonte de sua autoridade, (v. 28,29). Por fim, queriam prendê-lo por estar fazendo algo ilegal, mas ainda não era a hora, (v.30). Porém, à medida que seus ensinos evoluíam e as pessoas passavam a acreditar nEle, por causa do volume de obras realizadas, as autoridades enviaram a guarda para o prenderem, (v. 31-32). Trazendo para um exemplo de nossos dias, seria como o camelô vendendo produtos ilegais na praça, as autoridades competentes irão proibi-lo.
Quando os guardas se aproximam para executar a tarefa designada, Jesus faz uma importante declaração: Disse-lhes, pois, Jesus: “Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou. Vós me buscareis, e não me achareis; e onde eu estou, vós não podeis vir”. (João 7:33,34) O que isto significa?
Dentro amplo contexto do capítulo 7, se trata da origem e destino de Jesus. Os futuros acontecimentos com a pessoa de Jesus significava a autenticidade de seus ensinos. Mas, porque Jesus dizia isso? Fazendo um adendo ao contexto, porque as Escrituras afirmam que o Messias seria arrebatado para o pai, (Salmos 110:1): “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés”. Por ouro lado, não há nenhuma profecia dizendo que Jesus desceria do céu como Deus encarnado. Enfim, os judeus ficaram desorientados sobre o destino de Jesus, como também sobre a origem de sua autoridade para ensinar (v. 35, 36). Acreditavam numa autoridade que vinha das letras, enquanto a autoridade do Messias vinha de Deus.
Os versos 37 a 44 mostram que Jesus aumenta o tom de seu discurso, aumentando a dissensão entre os judeus sobre sua autoridade a ponto de novamente desejarem prendê-lo. Uns acreditavam que Ele era o Messias, outros sabendo que Ele viera da Galiléia e não de Belém, descendência de Davi, não poderia ser o Cristo. Dos versos 45 até o 53 a discussão se deu entre as autoridades que haviam mandado os servidores para prendê-lo. Mas, mesmo entre eles havia dissensão, os servidores não obedeceram à ordem e um deles, Nicodemos, se posicionou a favor de Jesus, apelando para a lei. A parte mais indignada disse que da Galileia não poderia vir o Messias. E, cada um volta para sua casa, terminando a reunião sem o sucesso em prendê-lo.
O que este contexto nos revela? Que a questão aqui não é concreta, isto é, sobre a origem pessoal de Jesus, mas é uma questão abstrata, sobre a sua autoridade para ensinar o povo. De onde originou sua autoridade? Claro que não era das letras, muito menos da Galiléia, mas de Deus. Foi Deus quem ensinou Jesus desde sua meninice até que fase adulta se tornou o Messias aprovado por obras.
Portanto, João 7:28 e 29, que contém as expressões que numa primeira leitura parecem dizer que Jesus estava no céu, na verdade, querem dizer que sua autoridade vem do céu, não sua pessoa física.
Jo. 17:8: ”saí de ti”
Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste. (João 17:8)
Esta é mais uma passagem usada fora de contexto. Não vamos nos delongar com ela porque o processo de entendimento é o mesmo do aplicado no entendimento de João 7 e 8, explicados anteriormente, isto é, esclarecer seu sentido no contexto. Assim, como em João 7, ou em qualquer outra parte do Evangelho de João, se trata da autoridade de Jesus para ser o Messias, aqui Jesus ora por aqueles que reconheceram esta autoridade.
Jesus começa esta oração com a seguinte declaração: “Assim como lhe deste poder sobre toda a carne”, (João 17:2). Só esta declaração inicial orienta o texto de João 17 para a questão da autoridade (“poder”). Autoridade esta que seria agora reconhecida através da glorificação que o Pai iria conceder. Neste texto aparecem 4 vezes a palavra “nome”. Nome é representação de autoridade. Então, quando Jesus diz “manifestei o teu nome” é mesmo que dizer demonstrei seu poder. Agora, chegava a hora do Pai demonstrar a autoridade do Filho. Esta demonstração da autoridade já estava planejada por Deus “antes da fundação do mundo”, (v. 17:5). Quando o Pai glorificasse Jesus, isto é, desse maior peso, valor, fama e conhecimento do seu nome, as pessoas iriam ter maior certeza de que Ele era o Messias. Que sua autoridade havia se originado em Deus.
Jesus explica neste verso como foi o processo de reconhecimento de sua autoridade messiânica. Primeiro, “dei as palavras que tu me deste”, Jesus ensinou o povo conforme Deus lhe havia ensinado; segundo, “eles a receberam”, as pessoas receberam o ensino; terceiro, “saí de ti”, elas reconheceram que o Messias (isto é, seu ensino) vinha de Deus; quarto, “creram que me enviaste”, creram que Jesus era o Messias. Este processo, sintetizado nas palavras de Jesus, nada mais é do que tudo o que aconteceu no capítulo 7 de João.
Jesus segue expondo que a sua glorificação (reconhecimento) se dará através daqueles que nEle creram, (v. 10). Ou seja, através da batalha que seus seguidores irão travar contra o mundo. Esta maravilhosa oração de Jesus é um pedido de proteção do Pai a favor deles. Jesus diz que se santificou por eles, (v. 19) para lhes trazer mais força na guerra contra o mundo. Assim, crer em Jesus é reconhecer sua autoridade, glorificando seu nome, aceitando ser enviado ao mundo, como Jesus foi enviado pelo Pai, (v. 18). Pois, alguém só pode enviar outros em missão se estiver outorgado de autoridade para assim proceder. Ainda, os versos 21, 23 e 25 repetem a expressão “tu me enviaste”, ampliando o sentido de que o assunto é o reconhecimento da fonte de poder que autorizou, ou enviou, Jesus a pregar. Seus discípulos, ao aceitarem a missão de pregar o evangelho, reconhecem em Jesus, autoridade divina. A atitude deles ao avançar com a mensagem de Jesus glorificou seu nome e, consequentemente, o nome de Deus.
Portanto, “saí de ti”, em João 17:8, não se trata de Jesus ter saído de Deus em forma física, ou essência, como dizem os teólogos trinitarianos. Se trata sim, da condição de autoridade que Jesus se encontrava para enviar seus discípulos em missão contra o mundo. A autoridade de Jesus veio de Deus, portanto, Ele podia enviar aqueles que creram na Sua palavra.
Jesus é o homem que fez descer (ensinou) a palavra do céu #
Os três evangelhos sinóticos contam a história do homem Jesus, que nasceu, cresceu, aprendeu, cumpriu sua missão e morreu, tudo conforme as Escrituras. O Evangelho de João é por natureza diferente. Ele não narra a história linear da vida de Jesus, é um livro estrutural, ou seja, posiciona a narrativa de acordo com uma relevância. João se preocupa em provar que Jesus é o Messias prometido e aprovado por Deus, que deveria ensinar todas as coisas, (João 4:25). Prestem atenção na palavra “aprovado”, porque em muitas passagens Jesus apenas está dizendo que sua aprovação vem do céu, assim como Ele perguntou se o batismo de João era do céu ou da terra. Sabemos que o batismo de João era do céu por aprovação divina. Com tal objetivo, a narrativa joanina aborda três aspectos importantes: 1) a palavra de Deus; 2) o ensino; e, 3) a crença. Vamos entender.
João procura mostrar que a palavra de Deus que estava no céu com Deus e era parte integrante de Deus veio à terra através do ensino de Jesus. Ele faz isso através de uma série de histórias cuidadosamente selecionadas. Estas histórias estão estruturadas de tal forma que sempre vemos nelas alguns destes três aspectos acima mencionados: a palavra, o ensino e a crença.
Na história de Nicodemos temos que ele cria que Jesus era o Filho de Deus e ouviu a mensagem do alto. Os três aspectos aí se apresentam: a palavra do céu (do alto), o ensino de Jesus e a crença de Nicodemos. A mulher samaritana sabia que o Messias iria ensinar todas as coisas e creu em Jesus. No caso da mulher adúltera, Jesus testemunhou que Ele era o Messias que tinha autoridade de Deus para ensinar e muita gente creu nEle. Se examinamos todas as histórias de João, veremos esta estrutura sempre presente. A palavra do céu sendo ensinada por Jesus e os homens crendo. Por isso, que João diz na introdução de seu evangelho que o Verbo “se fez carne” i.e., a palavra (doutrina) de Deus que estava no céu chegou aos homens através do ensino de Jesus.
A história real que o Evangelho de João conta é que Jesus foi o Messias que pregou a palavra de Deus e as pessoas creram:
Dizendo ele estas coisas, muitos creram nele. (João 8:30)
E muitos mais creram nele, por causa da sua palavra. (João 4:41)
Porque lhes dei as palavras que tu me deste; […] e creram que me enviaste. (João17:8)
Jesus aprendeu a doutrina de Deus #
Toda a palavra que Jesus pregou veio do céu, de Deus. Mas, como já dissemos, anteriormente, Jesus precisou aprender tudo. As profecias afirmam que o Messias iria aprender:
O Senhor DEUS me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer a seu tempo uma boa palavra ao que está cansado. Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem. O Senhor DEUS me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde; não me retirei para trás. (Isaías 50:4,5)
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem. (Isaías 7:15)
O mesmo Jesus disse que aprendeu de Deus [nossos grifos]:
Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis que EU SOU, e que nada faço por mim mesmo; mas isto falo como meu Pai me ensinou. (João 8:58)
Muito tenho que dizer e julgar de vós, mas aquele que me enviou é verdadeiro; e o que dele tenho ouvido, isso falo ao mundo.(João 8:26)
Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. (João 7:17)
Jesus cresceu em conhecimento:
E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens. (Lucas 2:52)
Jesus adquiriu do céu seu conhecimento. O que Ele ensinou veio de lá. Jesus não era um ser no céu. A palavra era do céu. O texto de João 1:1-3 fala sobre o Verbo (a palavra). Este Verbo é a palavra de salvação que Jesus ensinou, nada mais do que isso. O texto continua dizendo a mesma coisa de sempre: que a palavra de Deus veio (foi pregada) aos homens, mas os homens não aceitaram. O texto não diz que Deus encarnou. Foi o erro teológico-filosófico dos chamados Pais da Igreja que transformou o sentido deste texto, dando a ideia de que o Verbo é Jesus.
O Messias não é uma concepção humana, é celestial. Foi elaborada por Deus e transmitida aos profetas. Quando Jesus ensinava sobre o Messias (que por acaso era Ele mesmo) dizia com verdade que veio do céu. Mas referia-se à sua missão, não à sua pessoa. Jesus conhecia todas as profecias sobre o Messias e usou este conhecimento para orientar suas ações e ensinar o povo. Por ser um plano da parte de Deus, Ele usava expressões como “desceu do céu”, “veio de cima”, “estava junto do Pai”, “saí de ti” etc, mas estas dizem respeito a missão, a ideia, o conceito, o plano, o pensamento, a promessa de Deus que estava em sua mente/palavra de fazer surgir o Messias na terra. Não se tratava de Jesus ter descido do céu em pessoa.
Deus já fez muitas outras promessas que ainda vão se cumprir, a principal é a promessa do reino. Esta promessa ainda faz parte dos seus planos e se encontra com Ele e nEle, em sua mente, desde antes da fundação do mundo. Este reino virá do céu, não em sua literalidade, mas em ideal. O reino ideal está no céu, mas o reino na prática será na terra. Nosso corpo glorioso, Paulo fala que está reservado no céu, está com Deus. Este corpo está na imaginação de Deus. Outro exemplo, a Nova Jerusalém, ela está no céu, nos planos de Deus, ainda descerá na terra. Da mesma forma, a ideia de gerar um Messias estava escondida em Deus e desceu à terra. Mas o Jesus em carne e osso veio de Maria. Ele nasceu, cresceu naturalmente como qualquer outro homem e quando chegou o tempo dEle começar seu ministério, se tornou o Messias, recebendo do céu, em Si, o plano de Deus. Missão que cumpriu com sua morte.
Conclusão #
Absolutamente, nada nas expressões “saí de ti”, “desceu do céu”, “vindo de Deus” etc., indica alguma substancialidade divina em Jesus. E nenhuma das passagens que falam desceu do céu, veio de cima, onde estava, foi o enviado, saiu de Deus, junto de Deus, sou de cima se referem a Jesus como pessoa, mas ao Messias em autoridade como uma promessa, ou ideia, que estava guardada em Deus e veio dos céus, isto é, de Deus.
O Verbo que encarnou é a palavra de salvação fluindo pela boca de Jesus, o Messias. Jesus foi o homem que assumiu a função do Messias. Neste evangelho, Jesus não é um Deus-Palavra que virou homem, mas o homem/Messias que ensinou a palavra de Deus. Não há idas ao céu, nem vindas à terra de Jesus. O que veio do céu foi a Palavra de Deus. Ela veio através da pregação de Jesus, não veio como Jesus. A Palavra de Deus veio para revelar que Jesus cumpriu a missão de ser o Messias e Jesus revelou o Pai através da palavra que pregou. Em si, Jesus não é o Verbo. O Verbo, ou a palavra, continha o conceito sobre o Messias. O verbo não era o Messias, muito menos Jesus.
Capítulo 3 #
Jesus é o mais importante rei da nova criação #
O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; (Colossenses 1:15)
E ao anjo da igreja de Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: (Apocalipse 3:14)
Estas duas passagens retratam a superioridade de Jesus em relação a todas as coisas do mundo. Mas, o trinitarianismo e outras teologias aplicam aqui o sentido de tempo. O vocábulo “primogênito” no sentido denotativo representa o primeiro gerado, mas em sentido conotativo ele significa o mais importante. Primogênito no texto de Colossenses 1:15 está no sentido de importante, superior. Jesus é o mais importante da nova criação de Deus, a igreja e o seu reino. Isto é, decifrado pelo contexto. Vejamos os versos 13 e 16 a 18 que indicam que Ele é superior.
- Dele é um reino
O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor; Colossenses 1:13
- Como rei, tudo está centralizado nEle
Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Colossenses 1:16-18
Quanto à expressão “princípio da criação de Deus” em Apocalipse 3:14, se enquadra na mesma situação. Apesar da exegese da palavra “princípio” indicar tempo em sua acepção imediata, o contexto sugere sentido de superior. Aqui se trata de pessoas que abandonaram o seu líder e se acham ricos, mas são pobres. Pensam que são importantes, mas são insignificantes. Pensam que não tem falta de nada, mas lhes faltam tudo. Somente aqueles que seguirem as determinações do líder é que serão convidados para um lugar sublime, o trono do Rei.
Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono. Apocalipse 3:21
O contexto é tão claro que uma tradução inglesa verte o sentido para líder, chefe, cabeça:
“And to the angel of the church in Laodicea say: These things says the true and certain witness, the head of God’s new order:” (Apocalipse 3:14 ).
A expressão “the head of God’s new order” quer dizer diretamente “cabeça de Deus da nova ordem”.
Tanto Colossenses quanto em Apocalipse o contexto demonstra que se trata de um reino. Reino tem rei, líder, chefe, príncipe, soberano, que sempre é alguém importante, alguém superior aos demais. Reinos envolvem tronos, soberanias, principados e dominações. Esta é a referencia do texto de Colossenses. Não se trata de criação natural, mas da criação espiritual, da qual Jesus é “a cabeça” (líder). Jesus foi designado para reinar sobre todas as nações da terra. Neste sentido, “tudo foi criado por Ele e para Ele”. Além do mais, o texto é claro em dizer que até entre os salvos Ele é preeminente.
Para finalizar, o conceito de superior, atentemos que tanto a Carta aos Colossenses como a carta à Laodicéia são dirigidas a duas comunidades com o mesmo tipo problema: rejeitavam a soberania de Cristo. Colossos e Laodicéia eram cidades próximas e Laodicéia era fruto da evangelização promovida pelos colossenses. Portanto, natural que a elas fossem dirigidas as mesmas recomendações.
E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodicéia lede-a vós também.
(Colossenses 4:16)
A argumentação levantada pelos trinitarianistas, arianistas e outros com base nestas passagens não faz sentido. Além de que há contradição entre eles neste ponto. Trinitarianos dizem que aqui é uma prova de que Jesus é criador. Mas como poderia ser criador e a primeira obra ao mesmo tempo? Já os preexistencialistas explicam de duas formas diferentes. Aqueles que admitem Jesus como sendo Deus, são dualistas, definem o “primogênito” com sentido de superior. Isto concorda com a explicação dada por nós. Mas contradiz a Bíblia que não define Jesus como Deus. Outros, os arianistas, que não admitem que Jesus é Deus, para concordarem com as Escrituras, entendem que Ele é a primeira criação de Deus. A contradição agora é com Provérbios 8 que sugere a sabedoria como a primeira criação de Deus. Então, quem seria de fato a primeira criação de Deus? A Sabedoria ou Jesus Cristo?
Em suma, o verdadeiro conceito de superior nestas passagens apaga o errôneo conceito de anterior levantado pelos preexistencialistas. Aqui não existe prova da existência anterior de Jesus. A não ser que uma interpretação forçada seja adotada. Jesus continua sendo o homem que foi elevado à condição de Senhor e Rei.
Jesus está em forma de Deus #
Alguns textos parecem indicar que Jesus é Deus. Quando analisados criteriosamente, vemos que nada pode ser usado destes textos como prova de sua suposta divindade. São apenas textos glorificando a Jesus por causa da posição de Rei. As principais afirmações neste sentido são:
- Forma de Deus
- Teu trono, ó Deus
- Nosso Deus e Salvador
- Senhor meu, Deus meu
- Fazendo-se igual a Deus
Forma de Deus #
Talvez, o texto de Filipenses poderia ser considerado a prova mais contundente de que Jesus é Deus. Porém, isto não é possível. Não é possível porque o texto não afirma que Jesus é Deus, pelo contrário, afirma que Jesus é homem. Apenas impressões, ou concepções antecipadas podem fazer as pessoas verem Jesus como Deus neste texto.
Nunca devemos ler um texto fora de seu contexto. Para cumprir com tal regra devemos subordinar a ideia que fazemos ao ler um texto à ideia imediatamente anterior. Assim, o texto de Filipenses 2:5-8 não deve fugir do tema proposto nos versos 1 a 5.
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.(Filipenses 2:5-8)
Os adeptos da cristologia tradicional afirmam que este texto está mostrando que Jesus deixou o seu status de Deus junto ao Pai e se tornou um homem. Não é isso! O texto, quando lemos na versão da Sociedade Bíblica Britânica, diz: “o qual, subsistindo em forma de Deus, (Filipenses 2:6). As versões tendenciosas para a Trindade chegam a dizer “sendo Deus”. Isto está completamente fora do contexto. Para não dizer que tais tradutores estão achando que os críticos não percebem tal afronta contra a hermenêutica. Neste texto, que devemos ler desde o verso 1, o contexto mostra Jesus como um homem, que subsistia na “forma de Deus”, não que existia como Deus. Aqui se trata de um homem semelhante a um Deus, não um Deus se tornando homem.
De acordo com a teologia trinitariana, seria um Deus assumindo a substância humana. Porém, o texto não aponta para um homem, aponta, mas para o comportamento de um servo: “que, sendo em forma de Deus… …esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo”. Isso está muito longe da prova que pretendem. Uma coisa é um Deus em substância humana, outra coisa é um homem em função de servo. O texto mostra que Jesus tinha uma condição superior aos demais homens, não por ser Deus, mas por seus qualificativos, tais como: Messias, Filho de Deus, Senhor, Salvador, Rei de Israel etc. O texto diz que Jesus, o homem, diante de sublime condição, se comportou como servo. Não fala que era Deus e virou homem.
Como ilustração do que estamos dizendo, podemos fazer uma comparação. Um rei de uma nação não é um homem comum. Ele é senhor sobre o povo. Para tal rei ser equiparado ao que Paulo falou sobre Jesus, ele deve: primeiro, abdicar da glória de seu trono e do cetro de seu poder; segundo, como comum do povo, deve obedecer a uma causa até perder sua própria vida.
A afirmação simples do texto é a de que Jesus na forma (posição) de homem tinha condições para agir na forma (posição) de Deus, porém, agiu na forma (posição) de servo. Esta humildade vista em Jesus que Paulo esperava dos irmãos de Filipos. Vejamos:
Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, (Filipenses 2:2-5).
O texto não vai além disso. Não é uma dissertação sobre a deidade de Jesus, mas sobre sua humildade. Alguns outros versículos em Filipenses ajudam na compreensão. No capítulo 1, versos 15 a 18:
Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade; uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda. (Filipenses 1:15-18)
As intrigas geradas entre os irmãos que queriam ser mais que os outros, motivou o Apóstolo Paulo a ilustrar a humildade no comportamento de Jesus.
Portanto, a “forma de Deus” não se trata de afirmar que Jesus é Deus, mas de mostrar que Jesus, um homem com qualidades divinas, preferiu se comportar com qualidades de servo. Não seria lógico Paulo usar a humildade de um Deus para exemplificar a humildade dos homens. São dimensões completamente diferentes e incomparáveis. Este texto não prova que Jesus é Deus, mas que Ele é homem.
O emprego da palavra grega morphé #
Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação o ser igual a Deus: Mas despojou-se a si mesmo [fez-se de nenhuma reputação],tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens”. E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte e morte de cruz. (Filipenses 2:6-8)
A palavra-chave para se entender esta passagem é a grega “morphé”. Argumenta-se que “sendo em forma de Deus” significa que Cristo tinha a natureza de Deus antes de seu nascimento e foi isso que Ele sacrificou ao vir à Terra para viver como um ser humano. Inclusive, argumenta-se, também, que Cristo teve o direito de ser tratado como Deus aqui na terra, direito do qual abriu mão para morrer como “servo”. Naturalmente, para isso ser possível, despojou do seu direito à divindade com todos os seus atributos. Mas, morphé, geralmente traduzido como “forma” no grego koiné, refere-se a estado na vida, posição representativa ou posição de alguém. Não se trata de essência. Pois, é eidos, e não morphé o termo grego que transmite a idéia de “natureza essencial”. Como explica Liddell e Scott no seu léxico: morphé significa, figura, forma, aparência, opõe-se ao “eidos” que significa “forma verdadeira”.
O contexto imediato ajuda-nos a entender como Paulo usa a palavra morphé. No verso 7, ele diz que Cristo tomou a “forma de servo”. Ser um servo, escravo, criado não é algo definido pela natureza material do ser. Ninguém nasce servo. Nós nos posicionamos como servos, muitas vezes pela força das circunstâncias ao longo da vida. O termo servo não denota essência. O emprego da grega morphé não sugere uma espécie de natureza essencial, que o constituiria num servo obediente até a morte, mas sugere uma posição, um estado, ocupado pela pessoa. O contexto não apoia qualquer outro sentido. A palavra forma (morphé) usada neste contexto deve, portanto, referir-se a posição, aparência, comportamento de um escravo como a característica distintiva. Assim, como quando fala em “forma de Deus” se refere a posição, aparência e comportamento de Deus. O que Jesus resignou-se em agir.
O estado de Cristo como Deus é contrastado com seu estado de servo. Traduzir ou entender morphé como “natureza essencial” neste texto, realmente não se encaixa no contexto. Cristo como um homem na terra funcionava no estado ou posição de Deus, ou seja, posição representativa.
Isto não é difícil entender, pois no passado houve um precedente histórico igual a este. Quando Deus chamou Moisés para ser seu agente para trazer o povo de Israel do Egito, lhe disse: “Eis que te tenho posto por Deus sobre Faraó, e Arão teu irmão será o teu profeta”. (Ex. 7:1). O texto no hebraico ainda é mais claro, porque a palavra “por” não está no texto hebraico original. O que daria o seguinte sentido na declaração de Moisés: Te tenho posto para ser deus sobre Faraó. Em Êxodo 4:16, Deus já havia dito a Moisés que ele seria deus para Arão. Isto significa que Moisés agiu como se fosse Deus na terra. Ele era o líder designado para atuar como Deus, possuindo a autoridade para levar o próprio nome ou título de Deus.
Morphé ocorre apenas num outro lugar no Novo Testamento, Marcos 16:12. Aqui claramente não significa “natureza essencial”. Jesus apareceu “em outra forma”, mas isso não poderia se referir a uma mudança de sua natureza, pois a razão pela qual parecia ser de outra forma era porque seus olhos estavam fechados, conforme Lucas 24:16 e 31. E no versículo 39 de Lucas 24, Jesus afirma: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; tocai e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos como vedes que eu tenho”.
Ser e continuar a ser forma de Deus #
Outra e importante questão a ser analisada neste texto de Filipenses 2 é a palavra grega huparchõn. Esta palavra significa ser, ou existir. Jesus, desde seu nascimento, nunca deixou de ser, existir e estar sob a forma de Deus, em aparência e comportamento moral. Ele habitualmente exemplificou o caráter do Pai. Sempre esteve na forma de Deus. Porém, nunca se apropriou dessa condição para se engrandecer.
Vamos observar o uso de “huparchon” noutras passagens bíblicas e tirarmos algumas conclusões. Atos 2:30, diz:
“Sendo (huparchon), pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono”.
Assim, “sendo” um profeta não significa que antes de nascer, ele era um profeta, mas que depois de nascer, se tornou um profeta e continua sendo um profeta enquanto recebia a promessa.
Outra passagem, I Coríntios. 11:7:
“O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é (huparchon) a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem”.
O homem é “a imagem e glória de Deus”. Esta expressão não está necessariamente dizendo que era a imagem antes do homem existir, mas ser e continuar a ser a imagem de Deus enquanto existe.
Também, Gálatas 2:14: “Se tu sendo (huparchon) judeu” não significa ser originalmente antes de seu nascimento como um judeu, mas desde o nascimento é judeu e continua a ser um judeu enquanto vive.
Portanto, Jesus “sendo forma de Deus”, não quer dizer que era Deus antes de nascer de Maria, mas que durante sua vida era e continuava sendo forma de Deus. Não ser uma forma física igual a Deus, mas ser uma forma moral de Deus. Era um homem cuja ética, moral, santidade, justiça, misericórdia, amor etc., era da mesma forma de Deus. Podemos dizer que Jesus é a imagem (imagem é uma forma) espiritual de Deus. E isto não o transforma em Deus, pelo contrário, necessário se faz que não seja Deus para hyparchõn forma de Deus.
A teoria do esvaziamento #
“Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas despojou-se [kenoo] a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens”.
O verbo “esvaziar” ou “despojar” que aqui aparece é “kenoo” em grego, do qual alguns trinitarianos têm desenvolvido uma doutrina chamada “A teoria Kenosis”. Segundo esta doutrina o “Cristo preexistente” se despojou da manifestação de alguns de seus atributos da divindade a fim de fazer-se homem. Sem entrar nos vários aspectos desta teoria, podemos dizer que todos eles usam o termo “kenosis” para apoiar a ideia da preexistência pessoal de Cristo.
Contudo, pelo contrário, este texto de Filipenses sugere que o Messias pôs de lado qualquer tentação humana para se exaltar. Ele não deixou dentro de si mesmo nenhum espaço para o orgulho, a arrogância e nenhum plano feito sem a submissão total à vontade de Deus, (Hebreus 10:7-10; Sal. 40:7-9).
Esta passagem é reconhecida geralmente por ser uma má tradução. Mas, vejamos certas versões. A RSV diz o seguinte: “Ele não contou a igualdade com Deus, como uma coisa que devesse ser aproveitada”. A KJV traduz assim: “fez a si mesmo de nenhuma reputação”. Uma referência óbvia ao período de seu ministério humano. Paulo fala em Filipenses do Jesus histórico, não de uma pessoa que era um ser antes de nascer para depois fazer-se Cristo. É esta pessoa histórica que se esvaziou.
Como pessoa histórica, Jesus tinha certas posições adquiridas. Ele era o Messias e Rei de Israel. Como Filho de Deus tinha a aparência, a forma, a posição de Deus. Porém, Ele não se utilizou destas prerrogativas divinas. Seu comportamento mostrou que abdicou de tudo o que tinha para obedecer de forma servil. Não foi de uma posição celestial, um status de Deus, que Ele se esvaziou para supostamente descer à terra. Ele derramou sua alma (sangue) para provar com morte de cruz sua submissão e humildade. Jesus é o homem modelo, não um Deus modelo.
Jesus é um deus sentado num trono #
Teu trono, ó Deus #
Outro texto bastante usado pelos defensores da ideia que Jesus é Deus, ou preexistente, é Hebreus 1:8. Contudo, este texto só prova que Jesus é um rei, nada mais. Vejamos:
Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. (Hebreus 1:8)
Aqui não há prova alguma de que Jesus é Deus. O objetivo de Hebreus é mostrar a superioridade do sacerdócio de Jesus em relação ao sacerdócio levita. Para indicar isso, no capítulo 1, o autor usou várias citações do Antigo Testamento, cujas figuras e tipologias reforçam o fato de Jesus estar exaltado acima dos anjos.
Uma destas citações é o texto de Salmos 45. Quem lê este salmo desde o primeiro verso percebe que se trata de uma crônica dirigida a um excelso rei, que por figura e em forma de profecia retrata Jesus em Hebreus. Nada há nesta citação dos Salmos e em todo o capítulo 1 de Hebreus que prove Jesus ser Deus. Vejamos o texto de Salmos 45:
O meu coração ferve com palavras boas, falo do que tenho feito no tocante ao Rei. A minha língua é a pena de um destro escritor. Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre. Cinge a tua espada à coxa, ó valente, com a tua glória e a tua majestade. E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis. As tuas flechas são agudas no coração dos inimigos do rei, e por elas os povos caíram debaixo de ti. O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de eqüidade. Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros. (Salmos 45:1-7)
O texto é um elogio ao rei. O Deus Eterno engrandeceu este rei, que é comparado a um “Deus”, assim como foram muitos outros reis na antiguidade. O próprio Herodes foi elogiado por falar como um Deus:
E num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal e lhes fez uma prática. E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem. (Atos 12:21,22)
Outras passagens indicam que homens especiais são equiparados a deuses:
Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta. (Êxodo 7:1)
Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses. (Salmos 82:1)
Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo. (Salmos 82:6)
Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? (João 10:34)
Dois textos ajudam esclarecer a posição de Jesus antes e depois de sua ascensão aos céus. O primeiro diz que o homem mortal é menor que os anjos:
Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. (Salmos 8:4,5)
O segundo texto diz que Jesus também é menor que os anjos:
Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. (Hebreus 2:9)
Mas um outro texto diz que Ele é maior:
Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hebreus 1:4)
Como assim? Um texto diz que Ele é menor do que os anjos e outro diz que é maior? Isto acontece porque é a verdadeira história de Jesus. No plano da matéria, Ele foi e é um homem como nós, porém, no plano das coisas espirituais, Ele foi elevado acima dos anjos. Hoje, como homem, está à destra de Deus, posição que nem aos anjos Deus estendeu convite. Portanto, nada há na passagem de Hebreus 1:8 que prova ser Jesus Deus. Só prova que Ele é um grande Rei, portanto, homem.
Nosso Deus e Salvador #
Algumas passagens parecem afirmar que Jesus é Deus e salvador. Estas são usadas pelos defensores trinitários. O argumento é o de que somente Deus é Salvador, portanto, Jesus seria Deus. É um argumento válido? Vejamos:
Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo; (Tito 2:13)
Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo: (2 Pedro 1:1)
Estas são as duas passagens comumente usadas. Mas elas não apontam Jesus como Deus. O que elas afirmam é que Deus é Deus e Jesus é Senhor ou Salvador, duas pessoas separadas. O que une as duas pessoas, Pai e Filho, nestas frases são os termos em comum. No caso de Tito, a “glória”. O que Tito diz é que vai aparecer a “glória” deles. São duas pessoas que partilham uma mesma glória. Em Pedro, o comum entre Eles é a “justiça”. A justiça é de Deus e é a mesma do Senhor Jesus. Estas passagens só afirmam que existem qualidades compartilhadas entre duas pessoas. Portanto, não podemos tirar daí uma compreensão de que Jesus é Deus.
Já, nas duas passagens que seguem a graça, a misericórdia, a paz e o mandado são também compartilhados pelo Pai e pelo Filho. Mas claramente Deus e Jesus são apresentados como pessoas separadas.
A Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: Graça, misericórdia, e paz da parte de Deus Pai, e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador. (Tito 1:4)
Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandado de Deus, nosso Salvador, e do Senhor Jesus Cristo, esperança nossa, (1 Timóteo 1:1)
Existem outras passagens como estas que parecem indicar que Jesus é Deus. Isto é apenas uma questão de estilo redacional. Em algumas passagens, os autores, ou, às vezes os tradutores, apresentaram a informação de forma que a distinção entre Deus e Jesus não ficou tão aparente. Contudo, nenhum problema, pois em outras a separação está bem explícita. Devemos olhar para todo o conjunto da obra para entender cada autor.
Para finalizar, assim como a glória, a justiça, a paz e a misericórdia foram usadas no texto de maneira comum entre Deus e Jesus, também, o termo salvação, ou salvador. Afinal, a obra de Deus e de Jesus é a mesma. Tentar provar uma ideia com tal compreensão do texto é forçar por demais o sentido. São aqueles a quem Pedro diz que torcem as Escrituras para sua própria perdição.
Senhor meu e Deus meu #
E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu! (João 20:28)
Pelo contexto, esta passagem denota uma expressão de assombro. Tomé que só cria vendo, quando viu, ficou impressionado. Num momento singular, expressou algo que poderia significar o conceito de Deus direcionado a Jesus. No entanto, não é possível que assim seja, porque nada na sua fala esta direcionado a Jesus. Foi somente uma expressão de espanto. Uma impressão pessoal não é prova material.
Fazendo-se igual a Deus #
Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus. (João 5:18)
Um grande equívoco de leitura é cometido neste texto. Usar a acusação que os judeus incrédulos faziam a Jesus como prova de que Jesus é Deus beira o abismo do entendimento. Se isso fosse verdade, então Jesus seria um transgressor dos mandamentos, pois os judeus também o acusaram de violar o sábado. As duas acusações devem ser verdades. Não podemos apoiar apenas naquela que interessa ao argumento. Este tipo de argumentação pouco contribui para os defensores da deidade de Jesus.
O contexto apenas aponta para a ideia de que Deus fazia as boas obras no sábado. Jesus sabia disso, pois ao ordenar ao homem para pegar sua cama e andar, tinha a certeza de que Deus executaria a cura. Sendo assim, Jesus não se eximia de curar nos sábados, pois sabia que o Pai o apoiava. Este texto não é prova de que Jesus é Deus, ou um Ser preexistente.
E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. (João 5:17)
Capítulo 4 #
Textos mal interpretados #
Algumas passagens ou expressões como pedra espiritual, anjo, espírito de Cristo, Filho de Deus, Filho do homem e Messias são mal interpretadas. Os teólogos veem em algumas destas declarações certas teofanias e, por isso, prova da existência de Cristo na antiguidade. Não é possível analisar profundamente todas as ocorrências porque o espaço não permite. Verificaremos apenas alguns exemplos.
Abaixo, uma citação que servirá para identificar a estrutura da crença:
Notemos o que Paulo escreveu em 1 Coríntios 10:1-4: “… os nossos antepassados … foram protegidos pela nuvem e passaram pelo mar Vermelho. Como seguidores de Moisés, eles foram batizados na nuvem e no mar. Todos comeram da mesma comida espiritual e beberam da mesma bebida espiritual. Pois bebiam daquela Rocha espiritual que ia com eles; e a Rocha era Cristo” (BLH).
Jesus foi quem falou com Moisés e lhe disse para voltar ao Egito e libertar os israelitas. Jesus Era o Senhor (YHWH) que fez com que as pragas viessem sobre o Egito. Ele foi o Deus que conduziu os israelitas para fora do Egito na jornada (pelo deserto) de quarenta anos. Foi Ele quem deu as leis a Moisés e falava constantemente com ele. Ele foi o Senhor que lidou com Israel ao longo de sua história como nação.
Sim, por incrível que pareça, Jesus Cristo é o Senhor (YHWH), que, muitas vezes, é mencionado no Antigo Testamento.
Seria verdade que a rocha representa a existência literal de Cristo na antiguidade? Se não, porque muitos insistem em ver Jesus como Deus neste tipo de texto?
Pedra #
A passagem da citação acima mencionada afirma que a Pedra era Cristo. Mas o contexto diz que era uma figura, não a realidade.
E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. (1 Coríntios 10:6)
Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. (1 Coríntios 10:11)
Anjo #
Então o Senhor fez chover enxofre e fogo, do Senhor desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra. (Gênesis 19:24)
Alguns usam este texto para provar que existiam dois senhores. Um era o Senhor (Jesus) aqui na terra fazendo descer fogo do Senhor (o Pai) que estava no céu. Mas isso é apenas uma questão de versão:
Então o Senhor, da sua parte, fez chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. (Gênesis 19:24)
Outra passagem:
E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia. E Moisés disse: Agora me virarei para lá, e verei esta grande visão, porque a sarça não se queima. E vendo o Senhor que se virava para ver, bradou Deus a ele do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés. Respondeu ele: Eis-me aqui. (Êxodo 3:2-4)
Um anjo no meio da sarça representando Deus. Os trinitarianos dizem que é Jesus, mesmo diante da ausência de uma indicação mais concreta. Quando Deus se manifesta, geralmente o faz por meio de anjos.
E ele lhe disse: Também eu sou profeta como tu, e um anjo me falou por ordem do Senhor, dizendo: Faze-o voltar contigo à tua casa, para que coma pão e beba água (porém mentiu-lhe).(1 Reis 13:18)
No caso do profeta Daniel, um anjo na forma de homem, sob a ordem de Deus:
E aconteceu que, havendo eu, Daniel, tido a visão, procurei o significado, e eis que se apresentou diante de mim como que uma semelhança de homem. E ouvi uma voz de homem entre as margens do Ulai, a qual gritou, e disse: Gabriel, dá a entender a este a visão. (Daniel 8:15,16)
Muitos chegam ao cúmulo de afirmar que o anjo Gabriel aqui é o próprio Jesus. Referências a Jesus no Antigo Testamento são apenas referências proféticas. Não indicam a existência real. E Jesus não é anjo. Ele foi feito menor que os anjos e depois elevado acima deles, como Senhor, mas continua sendo homem. Nunca foi anjo.
Espírito de Cristo #
Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. (1 Pedro 1:10,11)
Muitos acham que se trata de uma manifestação de Jesus. Aqui não é a segunda pessoa da Trindade, é apenas a inspiração divina atuando nos profetas. Desde os tempos de Moisés, os judeus tem no centro de seus pensamentos a ideia de que o Messias viria libertá-los. Os profetas viviam sob o domínio deste pensamento. Por isso, inquiriam sobre tudo o que deveria acontecer ao Messias. Investigavam o tempo em que as coisas deveriam acontecer. Isto foi mais precisamente relatado ao profeta Daniel na profecia das setenta semanas. Mas nem tudo foi relatado para Ele. O anjo disse, entre outras coisas: “Vai, Daniel, porque estas palavras estão fechadas e seladas até ao tempo do fim.” (Daniel 12:9)
Este espírito de Cristo era a atuação do próprio espírito santo, pois é dito por Pedro:
Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:21)
O espírito santo é o real motivador das profecias. Quando Pedro fala sobre as coisas concernentes a Cristo, ele utiliza a expressão “espírito de Cristo” apenas para delimitar o escopo do conceito. O espírito de Deus recebe nomes diferentes conforme as diferentes atuações e contextos. “Espírito de sabedoria”, (Ex 28: 3; Deut 34: 9; Efésios 1:17). Quando é associada à graça, é chamado de “espírito de graça”, (Zac 12: 10; Heb 10:29). Quando está relacionado à glória, é chamado de “espírito de glória”, (1 Pedro 4:14). É chamado de “espírito de adoção”, quando está associado à nossa vida eterna, (Romanos 8:15, que é traduzido como “espírito de filiação” em algumas versões). É chamado “o espírito da verdade”, quando está associado com a verdade que aprendemos pela revelação, (João 14:17; 16:13). E é chamado “espírito de Cristo”, por estar circunscrito a Cristo. Nada há nesta expressão que materialize a existência de Cristo em tempos passados. Apenas pura especulação. Jesus continua sendo o homem que nasceu de Maria.
Filho de Deus, Filho do homem ou Messias #
As expressões Filho do Homem, Messias e Filho de Deus tem o mesmo sentido. Há alguma confusão sobre estas expressões, principalmente a frase Filho de Deus. Mesmo teólogos, que são pessoas bastante instruídas, confundem os termos. Todas estas frases expressam o caráter oficial da obra de Jesus. Apenas são empregadas em contextos diferentes.
Filho do Homem é um título messiânico, remete a Daniel 7:13, identifica Jesus como sendo o Messias. A expressão Filho de Deus cumpre a mesma tarefa, também identifica Jesus como Messias. Esta expressão é a mais confundida na mente dos defensores da Trindade. Contudo, ela apenas diz que Jesus é o Filho de Deus, não diz que é Deus. Há uma diferença abismal entre uma e outra afirmação. Se os trinitarianos e outros lessem exatamente o que ela diz, não a usariam para defender seus dogmas, porque ela reza que Jesus não é Deus, e não tem força para dizer que Jesus existia antes. Jesus é filho de Deus, não Deus. Os homens que fazem a vontade de Deus, também são filhos de Deus. Então, Jesus não é Deus, Ele é homem.
A Bíblia afirma que Filhos de Deus são todos aqueles gerados de Deus:
Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido.
Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. (1 João 5:1,2)
Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus.(Romanos 8:14)
Jesus afirmou que Ele era Filho de Deus, não Deus:
Mas ele calou-se, e nada respondeu. O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito? E Jesus disse-lhe: Eu o sou… (Marcos 14: 61,62)
Jesus foi declarado Filho de Deus depois de sua ressureição:
Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor, (Romanos 1:4)
Não há razão nenhuma para um trinitariano, nem um preexistencialista, usar esta expressão como prova de que Jesus é Deus. A expressão Filho de Deus não deveria ser motivo de confusão. Basta aceitar exatamente o que ela diz. Filho de Deus é filho de Deus, não Deus. As outras duas expressões Filho do homem e Messias não são alvos de conflitos.
Unigênito de Deus #
Há apenas cinco textos que falam do unigênito de Deus. Um deles fala do Verbo e os outros quatro do Messias. Vamos entender.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. João 1:14
Este texto diz que vimos a glória do Verbo como a glória de um filho unigênito. Não é uma afirmação de que o Verbo é o Filho unigênito, mas que sua glória é “como” (comparação) a glória de um filho único.
Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. João 1:18
Sabemos que Jesus, quando cumpriu sua missão de Messias, revelou o Pai. Os versos abaixo mostram que Ele é Filho unigênito.
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3:16
Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. João 3:18
Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. 1 João 4:9
Fica entendido, então, que Jesus, em sua missão, é o Filho unigênito. Mas que o verso de João 1:14, refere-se somente ao Verbo, não a Jesus. Enfim, temos visto que nenhum texto bíblico é uma prova contundente de que seja Deus. Pelo contrário, Ele continua sendo o homem.
Outras passagens mal interpretadas #
Algumas passagens e expressões bíblicas merecem uma pequena análise. São periféricas ao assunto, mas comumente são usadas como última tentativa de se ver a Trindade na Bíblia ou a manifestação de Cristo no tempo do Antigo Testamento.
Citamos aqui algumas passagens para consulta:
- Gn. 19.24 (Senhor mandou fogo da parte do Senhor)
- Estão presentes dois tipos de personagens: anjos e Deus. Anjos são espíritos ministradores a serviço de Deus e dos homens, (Hb. 1:7,14). Eles retiraram Ló e Deus enviou fogo sobre as cidades.
- Ex. 3:2 (O anjo do Senhor apareceu)
- O anjo representa Deus. Deus é invisível (Cl. 1:15;I Tm 1:17 e não pode ser visto por ninguém, (Jo 1:18).
- Is. 6.5 (“Isaías viu a Glória dele”)
- Uma profecia sobre Jesus, não a presença de Jesus. Era uma visão de Isaías. A glória do Senhor, que Isaías viu, seguiu-se à morte de Jesus, (Jo 7:39; 12:23; I Pd 1:11,21).
- Is. 9.6 (Deus Forte e Pai da Eternidade)
- Significado do nome de Jesus. Não uma afirmação sobre sua suposta existência eterna.
- Is. 43.11,12 (Fora de mim não há salvador)
- De fato, só Deus é o Salvador. A salvação Ele nos trouxe através de Jesus, quem foi elevado para esta condição, (At. 5:31).
- Zc. 11.12, 13 (Quem foi avaliado, o Senhor ou Jesus?)
- Trinitarianos pensam que Deus foi avaliado. O contexto mostra que a avaliação é do trabalho do pastor. Esta foi uma tipologia profética usada para referir a Judas.
- Zc. 12.10 (Quem foi o traspassado?)
- Foi Jesus. Algumas traduções dão a entender que fala de Deus. O correto é “olharão para aquele”, ao invés de: “olharão para mim”.
- Mc. 2.6 (Quem pode perdoar pecados, senão Deus?)
- Jesus tem poder para agir segundo o que Deus Lhe conferiu, (Jo 5:30, 10:18, Ap. 2:21, Mt. 9:8).
- Mt. 9.4 (A onisciência de Jesus)
- Somente Deus é onisciente, (Mc 13:32, At. 1:7).
- Mt. 28.18 (A onipotência de Jesus)
- Jesus não é o Todo-poderoso, (At. 1:7), Ele está sujeito ao Pai (I 15:27, 28). O mesmo verso 18 diz que o poder lhe foi dado.
- Jo. 1.1 (O Verbo era Deus)
- De fato, o Verbo era Deus. Nunca foi Jesus. É um erro de interpretação que transformou o Verbo em Jesus. Assunto discutido no item 2.
- Jo. 1.2,3 (As coisas foram feitas por ele)
- Realmente, o Verbo que é Deus e não é Jesus fez tudo.
- Jo. 8.58 (EU SOU)
- Esta expressão, devidamente lida no contexto, mostra que Jesus é maior que os profetas e Abraão, (Jo. 853). Mostra também que Ele é a luz, (Jo 8:12). Que Ele é o Filho do Homem, (Jo 8:28). Não mostra que é Deus.
- Jo. 10.30 (Eu e o Pai somos um)
- Um em obras, (Jo: 10:37, 38).
- Jo. 14.9 (Quem me vê a mim vê o Pai)
- Jesus é a imagem de Deus, expressão de Deus, (Hb. 1:3). Imagem não é o real.
- Jo. 20.27,28 (Senhor meu, e Deus meu)
- Expressão que denota surpresa diante da pouca fé de Tomé.
- At. 20.28 (Igreja de Deus que ele resgatou com seu próprio sangue)
- Não é sangue de Deus. Se refere ao sangue de Cristo, (Ap. 5:9).
- Rm. 9.5 (Deus bendito eternamente, amém)
- É apenas uma saudação invocando Deus indicada pela palavra amém no final. Não uma afirmação de que Jesus é Deus.
- II Co. 5.18,19 (Deus estava em Cristo)
- Não diz que Deus era o Cristo, mas que estava nEle. Assim como nós estamos em Cristo, (I Jo 2:5), e como Cristo está em Deus, (Jo:10:38).
- Fp. 2.5,6 (Forma de Deus, não ter por usurpação ser igual a Deus)
- Forma diz respeito a posição, não a substanciação. O texto apenas trata da humildade de Cristo como um exemplo para nós. Nada pode ser usado como afirmação de que Ele é Deus e preexistente. Se textos como estes forem usados para defender a preexistência, tal uso obriga afirmar que Jesus é Deus, contrariando I Co.8:6.
- Cl. 2.8,9 (a plenitude da divindade)
- Deus quem fez habitar nEle a divindade, (Cl. 1:19). Nós também temos a divindade em nós, (II Pd. 1:4).
- Tt. 2.13 (Deus e salvador Jesus Cristo)
- Muita divergência nas traduções. Mas, em suma, o texto trata da glória de Deus manifestada pela volta de Jesus.
- Hb. 1.8 (Teu trono ó Deus)
- Jesus não é Deus, mas um rei comparado a um deus, conforme leitura completa de Salmos 45.
- Hb. 7.3 (Jesus sem início ou fim de dias. Eterno?)
- Aqui apenas se trata da ausência de registro da genealogia de Melquisedeque, (Hb 7:6).
- Hb. 13.8 (Ontem, hoje e eternamente. Será Jesus eterno?)
- Ontem e hoje são expressões temporais. Jó disse que somos homens de ontem, (Jó 8:9) e isso não quer dizer que somos eternos. Jesus é eterno porque não morre mais, (Rm 6:9).
- II Pd. 1.1 (Deus e salvador Jesus Cristo)
- Se trata da justiça de Deus através de Cristo. Como no caso de Tito 2:13, problema de tradução apenas. O verso seguinte (v.2) já mostra que Deus e Jesus são distintos.
- I Jo. 5.20 (Este é o verdadeiro Deus)
- Não há como dizer que Jesus é Deus neste texto. Pois o próprio texto diz que Ele nos fez conhecer o verdadeiro Deus. Seria uma contradição dizer que um veio testemunhar de outro, sendo que é ele mesmo. O texto diz que através de Jesus conhecemos a Deus e estaremos em Deus, estando em Jesus, (I JO 4:15). Em outra passagem Jesus disse que somente Deus (o Pai) é o verdadeiro Deus.
- Jd. v.4 (Deus, nosso único dominador e Senhor, Jesus Cristo)
- Algumas traduções confundem as informações graça de nosso Deus e soberania de nosso Senhor Jesus. Só ler em várias versões para o mal entendido ser desfeito.
- Ap. 1.11 (Alfa e Ômega)
A atribuição feita a Jesus é equivocada. Ela se refere a Deus. Esta expressão no verso 11 do capítulo 1 é uma inserção errada feita pela versão King James. Não existe nos manuscritos mais antigos..
- Ap. 21.7 (Eu serei seu Deus)
- Alguns pensam se tratar de Jesus. O contexto mostra que se trata de Deus. A cidade santa desce da parte de Deus para Jesus, (Ap. 21:2).
Conclusão #
Chegamos à conclusão de que afirmar a existência de Jesus antes de seu nascimento é o maior erro teológico do cristianismo. As razões são as seguintes:
- A Bíblia conta uma história real e verdadeira sobre Jesus. Nesta história ela O apresenta como homem, nascido de mulher, descendente de Abraão e de Davi. Um homem que viveu debaixo das mesmas condições humanas: teve fome, dor, cansaço, sede, agonia, angústia e medo.
- A Bíblia também fala dEle em linguagem profética. Todas as profecias apresentam Jesus como homem, rei, profeta, servo. Não existe nenhuma profecia apresentando Ele como Deus, anjo, espírito, ou qualquer outra espécie de Ser.
- A Bíblia fala dEle pós-morte. Da mesma forma, a Bíblia continua apresentando Ele como um homem, cujo corpo (carne e osso) saiu do sepulcro, que foi elevado à condição de Senhor. Nenhuma passagem bíblica afirma que Ele voltou ocupar uma posição que possuía anteriormente. Pelo contrário, foi convidado por Deus a assentar à Sua direita. Este convite foi uma honra para Ele. Como poderia ser se Ele já havia ocupado esta posição antes?
- A passagem bíblica mais utilizada para afirmar que Ele preexistia é João 1:1. Mas nesta passagem não aparece a palavra Jesus. Isto indica que Jesus não é o assunto do verso 1. A ideia de que se trata de Jesus é uma inferência feita pelos falsos teólogos. Foram os “pais da igreja” que seguindo um raciocínio filosófico grego atribuíram ao Logos o sentido de Jesus. O Logos deste verso tem sentido hebraico de palavra criadora, não o sentido grego de um ser intermediário entre Deus e a matéria. O apóstolo João era judeu e escreveu como judeu, não como um grego.
- A questão do “encarnou” nada mais é do que uma expressão idiomática. Era uma forma semítica de dizer humanidade. Achar que Deus se tornou humano, provém da leitura errada sobre o Logos, que leva a outra leitura errada sobre o “encarnou”.
- “Antes de Abraão eu sou”, quando lido no contexto, nota-se que o assunto é a importância do Messias. O Messias foi prometido desde da fundação do mundo. Ele era mais importante que Abraão. Então, quando Abraão existiu, queria saber, ou ver, quem era o Messias. Abraão viu (isto é, entendeu) através das tipologias que apontavam para Ele. Principalmente quando Deus lhe apresentou o cordeiro para o sacrifício em lugar de seu filho Isaque.
- Jesus não fala que teve uma existência gloriosa em tempo anterior à criação do mundo. Sua oração é um pedido para que o Pai cumpra a promessa de glorificá-lo. A ideia de como seria a glória do Messias já estava nos planos divinos antes do Messias existir, mesmo antes do mundo ser criado. A graça divina também estava na mente de Deus antes do mundo existir, mas só foi revelada na plenitude dos tempos.
- Muitas passagens do Evangelho de João parecem indicar que Jesus desceu do céu ao mundo e subiu do mundo aos céus. A mente dos leitores dominados pela ideia da Trindade, sem conhecer o sentido da palavra mundo empregado por João no seu evangelho, confunde a maioria destas passagens como uma visita física de Jesus. Nada mais errado. João na maioria das vezes utiliza a palavra mundo no sentido de sistema cultural humano, apenas umas duas ou três vezes no sentido literal. Conclusões muito erradas são tiradas a partir deste desconhecimento.
- Deus é pré-ciente. Ele sabe todas as coisas antes que aconteçam. Muitas passagens da Bíblia apenas estão afirmando a presciência de Deus. A graça, a salvação, as obras santas, o reino, a morte do cordeiro etc. são mencionadas como se existissem em tempos primórdios. Se pensarmos como um preexistencialista, então a graça é uma pessoa que existia antigamente. Não há razão para assim ser. Passagens que supostamente afirmam a existência de Jesus são, na verdade, afirmações provindas da presciência de Deus.
- Alguns textos parecem apresentar Jesus como tendo existido “antes da fundação do mundo” e como o próprio criador do mundo. É fácil entender que estes textos não tratam da criação do mundo literal (terra, água, planetas etc), mas do mundo espiritual (tronos, reinos, potestades, impérios e da própria igreja, da qual Jesus é a cabeça). Deus é quem criou tudo, tanto o mundo material como o espiritual. Mas o espiritual Deus criou para Jesus. Como diz o Salmos 2, as nações foram criadas por Deus e dadas a Jesus. Jesus é o motivo (“por Ele” e “para Ele”) pela qual foram criadas as nações. Não que Ele é o criador das nações. Jesus é o líder das nações, por isso, é “antes”, isto é, o mais importante.
- Muitas passagens parecem afirmar que Jesus é Deus. Quando lidas isoladamente, parece impossível não tomá-las como tal. Mas, estas passagens estão atribuindo um adjetivo a Jesus (afinal, reis eram assim qualificados). Elas não estão afirmando substantivamente que Ele é Deus. Apenas engrandecendo-O.
- Parece que Jesus teria sido indicado como Deus unigênito. Na verdade, trinitarianos leem errado por achar que o Verbo é Jesus. Uma vez que o Verbo não é Jesus, Jesus não é o Deus unigênito. Não faz sentido tal argumentação.
- Fora estas questões mais gerais, há dezenas de textos que são lidos aleatoriamente e fora de contexto numa tentativa desesperada de encontrar Jesus no Antigo Testamento ou na forma de Deus no Novo Testamento. Cada uma dessas passagens são explicadas em seus contextos. Além de que, passagens isoladas não formam doutrinas consistentes.
Para concluir, esta doutrina da preexistência é uma doutrina romana. Ela sustenta a Trindade. A preexistência foi um dos passos necessários no caminho para igualar Jesus a Deus, o Pai. O primeiro passo foi a ideia gnóstica de que Cristo “não veio em carne”, combatida pelo apóstolo João. O último passo foi transformar o espírito santo em pessoa. Sem estes passos não existiria a doutrina da Trindade e não estaríamos falando em preexistência de Cristo.
Este estudo foi estruturado num formato geral. Aqui não contém toda a discussão. De forma específica, existem muitos temas que deverão ser analisados à parte. Contudo, o que foi aqui discutido é suficiente para lançar luz sobre outras questões. E qualquer dúvida sobre passagens específicas estará subordinada às explicações aqui apresentadas.
Fim
Breve nova versão deste livreto / Teremos também a versão Histórica
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