A história da Igreja Batista (7dia) e o sábado

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Os batistas do sétimo dia são batistas que observam o sábado, o sétimo dia da semana, como dia santo ao Senhor. Adotam uma teologia comum aos batistas, professam a Bíblia como única regra de fé e prática, realizam o batismo consciente de crentes por imersão e organizam suas igrejas em um governo eclesiástico similarmente congregacional.

Professam uma declaração de fé instituída sobre preceitos fundamentais de crença. Os batistas do sétimo dia repousam no sábado como um sinal de obediência aos mandamentos de Deus e não como uma condição de salvação.[1]

Há inúmeros relatos na história de cristãos que guardavam o sétimo dia da semana como um dia de repouso e adoração a Deus conforme instituído por Deus na criação do mundo, afirmado como quarto mandamento e reafirmado no ensino e exemplo de Jesus e dos apóstolos. Em contraste disso, sabe-se que a maioria dos cristãos e igrejas na história escolheram o repouso no domingo ao invés do sábado. Todavia, há relatos da guarda do sábado em diversas partes do mundo. Os primeiros cristãos que adotaram a doutrina batista e guardaram o sétimo dia remonta meados do século XVII, na Inglaterra.

Constituem-se de igrejas em todo o mundo somando um total de pouco mais de 520 igrejas e aproximadamente 45 mil membros,[2] tendo constante interação entre si através de conferências em cada país e através da Federação Mundial Batista do Sétimo Dia. No geral, mantém boas relações com outras igrejas batistas e denominações protestantes bem como estabelece vínculos com outras instituições e uniões cristãs mundiais. Entre os países lusófonos, há igrejas estruturadas no Brasil e Moçambique.

História #

Os batistas do sétimo dia datam sua origem após o movimento de dissidência do século XVI e XVII na Inglaterra, no qual muitos não viam esperança em reformar mais profundamente a Igreja da Inglaterra e retiraram-se para formar outras congregações. Dentre essas congregações estavam a congregação da cidade de Gainsborough em Lincolnshire cujo líderes eram John Smyth e Thomas Helwys. Em 1607, a congregação deixou a Inglaterra e foram para os Países Baixos onde receberam influências de doutrinas anabatistas através dos menonitas. Logo John Smyth concluiu que crianças não devem ser batizadas pois não há relato bíblico de batismos de crianças e Jesus Cristo ordenou a instrução e somente depois, o batismo.[3] A congregação de Smyth em Amsterdã fundada em 1609, é considerada a primeira igreja batista. Dois anos depois, a igreja dividiu-se e parte retornou junto com Thomas Helwys à Inglaterra, nos arredores de Londres. Dali as práticas e ensinos batistas espalharam-se pelo país.[4]

Apesar de alguns já terem abordado o tema do sétimo dia na história da igreja, a observância do sábado na Inglaterra era trocada pelo primeiro dia da semana, o domingo. Foi após 1617, com Hamlet Jackson e o casal John e Dorothy Traske que considera-se o início da observância do sábado na Inglaterra e a ocorrência de conhecidos debates sobre o assunto. O início aconteceu em Londres, onde o seguidor do pregador J. Traske, chamado Hamlet Jackson, um alfaiate e estudante autodidata da bíblia, o convenceu do repouso do sétimo dia (o sábado). Após um certo período do convencimento do pregador John Traske, o mesmo foi acusado de escrever duas cartas escandalosas ao rei e condenado pelas autoridades à prisão no dia 19 de junho de 1618 por “(…) ambicionar ser líder de uma facção judaica”. Depois de um ano preso, John Traske retratou-se, foi solto e tentou desviar seus seguidores desta e de outras doutrinas que pregava. Todavia, Dorothy Traske não renegou suas convicções e permaneceu 25 anos na prisão.[5]

Após estes, outros grupos também guardavam e declaravam a observância do sábado, o que gerava retaliações pelas autoridades políticas e eclesiásticas da época. Sob o governo republicano da Comunidade da Inglaterra entre 1649-1660 os cristãos das ilhas britânicas desfrutaram de relativa liberdade religiosa e política. O fato proporcionou a busca de uma identidade religiosa e um enfoque maior nas escrituras ao invés de outros elementos como a tradição, com isso surgiu finalmente na história da igreja os primeiros batistas do sétimo dia. Em 1650, James Ockford publicou em Londres o livro The Doctrine of the Fourth Commandment, Deformed by Popery, Reformed & Restored to its Primitive Purity [A doutrina do Quarto Mandamento, deturpado pelo catolicismo, reformado & restaurado à sua pureza inicial], foi os primeiros escritos de um batista defendendo a observância do sábado. O livro gerou tamanho incômodo, que o prefeito de Salisbury – Inglaterra, cidade onde J. Ockford morava, solicitou do Presidente do Parlamento orientações de como tratar a obra, então, junto com uma comissão parlamentar foi determinado que todas as cópias fossem queimadas sem dar a oportunidade de James Ockford defendê-las. Apenas uma cópia escapou, guardada hoje em uma biblioteca na cidade de Oxford.[4]

A primeira Igreja Batista do Sétimo Dia conhecida foi a Igreja de Mill Yard estabelecida em Londres, onde ocorreu o primeiro culto em 1651,[6] realizado pelo conhecido Dr. Peter Chamberlen “o terceiro”. Os primeiros registros de atividades da igreja foi destruído num incêndio, o segundo livro de registros está em posse da atual Seventh Day Baptist Historical Society [Sociedade Histórica dos Batistas do Sétimo Dia]. O primeiro pastor a ser oficialmente considerado responsável pela congregação foi William Saller, que dentre outras atividades, escreveu onze livros e um livreto, além de um apelo aos magistrados relatando preocupação com leis impondo o repouso no domingo.[4] A igreja local continua com suas atividades até hoje, com o nome de Mill Yard Seventh Day Baptist Church [Igreja Batista do Sétimo Dia de Mill Yard].

Haviam assuntos entre os batistas do sétimo dia que eram discutidos além da uniforme concordância do sábado, entre eles a propiciação geral. A maioria dos batistas como também os do sétimo dia eram “batistas gerais” e acreditavam em uma propiciação geral e ilimitada. Entretanto alguns batistas do sétimo dia eram influenciados pela doutrina calvinista e acreditavam na predestinação, na qual a salvação é limitada aos eleitos, sendo os demais predestinados à condenação, portanto eram chamados de “batistas particulares”. Essa diferença parece não ter impedido a comunhão entre os batistas do sétimo dia no seu início, no entanto gerou incômodos maiores a partir do século XVII.[4] Atualmente, as Igrejas Batistas do Sétimo Dia ainda continuam a deixar em aberto essa questão, não tendo nenhuma menção direta em sua declaração de fé ou em outro documento oficial da igreja.[7]

Batistas do Sétimo Dia no Reino Unido #

Em 1660 com o fim do governo republicano e a restauração da monarquia na Inglaterra a relativa liberdade religiosa foi novamente restringida principalmente para os dissidentes ingleses, forçando os batistas do sétimo dia a cada vez mais unirem-se em localidades específicas. Edward Stennett escreveu em 1668 para batistas do sétimo dia da cidade de Newport – EUA que haviam na Inglaterra aproximadamente nove ou dez igrejas que observavam o sábado, além de muitos discípulos espalhados que têm repousado neste grande dia.[4]

O ministro e mestre em Oxford, Francis Bampfield foi também um batista do sétimo dia de destaque, fundou a Igreja Batista do Sétimo Dia de Pinner’s Hall na cidade de Londres em 1676.[8] Foi um dos primeiros a propor uma associação que englobasse as igrejas batistas do sétimo dia da Inglaterra e suas colônias na América do Norte, visando melhor instrução bíblica para as crianças e ministros, bem como estratégias para a conversão dos judeus.[9]

Indivíduos e grupos batistas do sétimo dia seguem aparecendo na história do Reino Unido, todavia não obtiveram muito crescimento se comparado a países da América do Norte. Entre meados do século XVII até 1910, Don A. Sanford elenca entre cinco a dezesseis congregações que existiram no Reino Unido sendo três em Londres, uma na cidade de Colchester e em Braintree e outras que existiram difundidas desde o condado de Norfolk até os condados de Dorsetshire e Gloucestershire.[4]

Atualmente, o Reino Unido conta com pouquíssimas igrejas batistas do sétimo dia, em grande parte frutos da obra missionária da Conferência Batista do Sétimo Dia da Jamaica.

Batistas do Sétimo Dia nos Estados Unidos #

As primeiras imigrações para as colônias britânicas na América do Norte ocorreram por questões políticas, religiosas, econômicas e sociais. O primeiro a ser reconhecido pela história como batista do sétimo dia nas Américas foi Stephen Mumford e sua esposa Anne, os quais eram da Igreja Batista de Tewkesbury – Inglaterra e observavam o sábado. O casal Mumford migrou para as colônias americanas em 1664 mas pouco se conhece sobre suas vidas na Inglaterra.[4]

Após uma oposição inflexível de alguns batistas ao repouso do sábado da Primeira Igreja Batista da colônia de Rhode Island (localizada em Newport), cerca de cinco a cinquenta batistas que guardavam o sábado saíram desta igreja, uniram-se ao casal Mumford e instituíram em 3 de Janeiro de 1672 a Igreja Batista do Sétimo Dia de Newport – Rhode Island, sendo a primeira igreja batista do sétimo dia das Américas.[4][10] Os cultos aconteciam em um prédio em Green End (endereço) mas ficou pequeno com o crescimento da igreja, foi então comprado um terreno na Barney Street [Rua Barney] e erguido o novo templo em 1730.[11]

Com isto, Newport – Rhode Island tornou-se um centro no qual se expandiram a outras colônias americanas, poucos anos depois duas outras importantes igrejas foram estabelecidas no início do século XVIII, nas cidades de Filadélfia – Província da Pensilvânia e Piscataway – Província de Nova Jérsei. Em 1776, somavam-se algumas poucas centenas de membros e doze igrejas instituídas nas Américas, inclusive, dois governadores da Colônia de Rhode Island foram batistas do sétimo dia, Richard Ward e Samuel Ward, e muitos anos depois um senador pela Virgínia Ocidental. Com o passar do tempo os batistas do sétimo dia foram se expandindo, acompanhando o desenvolvimento das colônias.[4]

O rumo da expansão das igrejas batistas do sétimo dia e o aumento da distância territorial entre elas culminou com a organização de uma Conferência Geral. Em 11 de Setembro de 1801 em uma reunião anual de algumas igrejas batistas do sétimo dia em Hopkinton – Rhode Island, Henry Clarke propôs “a união em uma instituição com o propósito de propagar nossa religião nas diferentes partes dos Estados Unidos, enviando missionários de várias igrejas, sob o custeio das mesmas”.[12] A proposta foi aprovada em Setembro de 1802 e foi fundada a Conferência Geral. A conferência serviu para realização de obras missionárias, promoção da união e crescimento no número de membros e localidades, bem como estimulou e ajudou a fundar a Seventh Day Baptist Missionary Society [Sociedade Missionária Batista do Sétimo Dia].[4] A conferência obteve união com as igrejas batistas do sétimo dia do Canadá, passando a nomeação para Seventh Day Baptist General Conference of USA and Canada [Conferência Geral Batista do Sétimo Dia dos EUA & Canadá].

Até 2017, contavam com 81 igrejas incluindo as localizadas no Canadá. Atualmente, as igrejas batistas do sétimo dia estão presentes em todas as regiões dos Estados Unidos, tendo maior presença na região Nordeste e região Sul dos Estados Unidos.

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