A discussão cristológica e a concepção de Jesus como o Verbo

Vimos anteriormente a origem e o desenvolvimento histórico do conceito do logos. Agora, vamos nos concentrar na história do uso deste termo dentro do cristianismo. A discussão cristológica foi...
Vimos anteriormente a origem e o desenvolvimento histórico do conceito do logos. Agora, vamos nos concentrar na história do uso deste termo dentro do cristianismo. A discussão cristológica foi o processo pelo qual o conceito grego do logos foi aplicado ao texto evangélico de João 1:1 e atingiu a pessoa central, Jesus. Os chamados “Pais da Igreja” erraram ao escolher como sentido filosófico grego (logos = razão = agente) em detrimento da concepção judaica (logos [davar] = palavra = ação = criação). Daí gerou-se um amontoado de ideias que tentaram explicar a relação de Deus com o homem. Nada refletiu a verdade.  Vamos ver como isto aconteceu e decifrarmos as estruturas conceituais que daí surgiram. Para isso, avançaremos nosso conhecimento sobre a história cristã do logos e sobre Filo de Alexandria, dado sua influência na formulação da doutrina do logos. Algumas partes extraídas da Wikipedia serão suficientes para compor a visão. Também usamos um texto de igrejadedeussaopaulo.org que sintetiza a história de Filo de uma forma simples e completa para nosso propósito no momento.  Somado a outro texto do site Brasil Escola, nossa compreensão sobre a filosofia de Filo será suficiente para esclarecer a razão de tremenda confusão dentro do cristianismo. Os textos seguem em destaque itálico.

Um pouco mais sobre Filo de Alexandria

Filo de Alexandria, também conhecido como Filon, o judeu, foi, provavelmente, o maior judeu escritor da diáspora, do primeiro século E.C. Foi o representante mais notável do judaísmo helenístico de Alexandria. Pouco se sabe da vida de Filo. Ele nasceu aproximadamente em 20 a.E.C., numa rica e influente família judaica em Alexandria, no Egito, na época, ficava a maior comunidade de judeus fora da Palestina (cerca de um milhão de judeus podem ter vivido lá). Ele foi educado em todos os aspectos da cultura grega na cidade de Alexandria, onde morou até o fim de sua vida. Ele morreu aproximadamente em 50 E.C., talvez na época em que Paulo estava escrevendo a sua primeira carta aos Tessalonicenses, o primeiro livro escrito para a nova aliança.

Apologética Judeu/Alexandrina

Como filósofo, Filo, tinha um profundo conhecimento da cultura grega, mas a maioria de suas obras (todas escritas em grego) tem a ver com a interpretação das escrituras hebraicas. Filo era muito respeitado na sua época, e seus escritos tiveram grande influência sobre vários escritores cristãos dos primeiros séculos. Na sua teologia, a fim de explicar a Bíblia, Filo recorria ao método alegórico, que alguns pagãos aplicavam a Homero e à mitologia, cujo objetivo era desvendar, no texto sagrado, sob seu sentido literal, um sentido oculto, profundo e espiritual, em que residia a essência da revelação. À luz dessa interpretação, os episódios e personagens da história bíblica, assim como as prescrições da Lei convertiam-se na expressão simbólica de verdades metafísicas ou morais. Ao que parece, a alegoria foi característica de todo o judaísmo alexandrino, Filo transformou-a em princípio básico de sua exegese. Filo elaborou baseado nas Escrituras um sistema lógico e filosófico, que, embora manifeste bem claramente a influência de diversas escolas pagãs, possui uma estrutura essencialmente platônica. Nele se encontra a mesma oposição entre mundo sensível e mundo inteligível. Entre Deus e o Universo material, Filo concebia uma completa hierarquia de seres intermediários, assimilados ora às ideias platônicas, ora às coortes angélicas, criaturas ou emanações de Deus conforme a crença judaica, que receberam a designação de Potências ou Lógoi. No vértice dessa pirâmide de entes celestes, situa-se o Logos, entendido simultaneamente como um dos lógoi individuais – o mais próximo de Deus – e como uma espécie de ser coletivo, fonte e instrumento da criação, que, sem, contudo ser igual a Deus participa da natureza divina. As interpretações alegóricas de Filo foram fortemente influenciadas pela filosofia de Platão (platonismo). Por maior que se afigure a distância entre a corrente principal do pensamento judeu na Palestina e esse tipo de especulação, em que não há quase lugar para aspirações propriamente nacionalistas e messiânicas, não se encontrava isolado por completo no interior do judaísmo. Verificam-se paralelos em alguns escritos da literatura sapiencial, canônicos ou deuterocanônicos (Provérbios, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico), nos quais a Sabedoria divina personificada apresenta analogias bem precisas com as hipóstases de Filo. A posterior Cabala judaica revela também certas afinidades com as concepções Filonianas. Mas foi principalmente sobre a igreja em formação (cristianismo) que se exerceu a influência do Alexandrino: Filo abriu caminho à teologia cristã. Em grande parte, a popularidade de que Filo gozou entre os cristãos explica o silêncio total que os rabinos mantiveram em torno de seu nome.

Filo e a nova aliança

O pensamento de Filo apresenta afinidades demasiado precisas com certos escritos da nova aliança para serem fortuitas (casual ou por acaso). Está nesse caso o prólogo do quarto evangelho (João) e sua doutrina do VERBO – o LOGOS grego. Diversos traços atributos do LOGO de Filo encontram-se presentes no LOGO joanino. Aqui, a originalidade essencial do cristianismo, manifesta-se nessa identificação do LOGOS na pessoa de “Jesus”. Não é menos evidente, sem dúvida, que a ideia de explicar “Jesus” em termos de LOGOS (VERBO) ocorreu apenas porque a palavra e o conceito se haviam popularizado no judaísmo alexandrino por intermédio de Filo. Filo, influenciado pela filosofia grega, usa a palavra LOGOS para descrever que um Ser – o mais próximo de Deus – preexistente, foi a fonte e instrumento de toda a criação. A palavra LOGOS (geralmente traduzida por VERBO ou por PALAVRA) é usada da mesma forma no evangelho de João (anos depois da morte de Filo), com um desdobramento considerável ao LOGOS de Filo: no prólogo joanino (João1: 1-14) aqui o LOGOS, do quarto evangelho, ele não apenas participa da criação, como ele é o próprio Deus Criador que se fez carne e habitou entre nós. Um conceito que foi extraído da filosofia grega, conforme veremos na teologia ensinada pelos apologistas ou polemistas dos séculos II e III, e que não há nenhum respaldo nas escrituras hebraicas. Por outro lado, o pensamento filoniano só poderia ter ascendência sobre um cristianismo em vias de helenização, e que, por fim, seu pensamento filosófico e platônico contribuiu decisivamente para configurar a teologia da igreja, notadamente sobre a doutrina da Preexistência/Divindade e Encarnação do Verbo (o LOGOS grego). Em síntese, a apologética judeu/alexandrina, através de Filo, comprovadamente, influenciou e abriu caminho aos apologistas do século II. É o que veremos, resumidamente, apenas alguns deles, onde nas suas doutrinas (teologias), observa-se o amplo emprego de conceitos extraídos da filosofia grega, notadamente sobre a doutrina da Encarnação do Verbo, o LOGOS grego. [1]

A conciliação entre fé e razão para Fílon de Alexandria

Fílon de Alexandria aproxima a filosofia grega do judaísmo a partir da conciliação entre fé e razão que influenciará a filosofia cristã. As bases da filosofia cristã A difusão do cristianismo, a partir do século I, é o pano de fundo para discussão entre fé e razão que mobilizou muitos filósofos a partir de então. Temos que considerar dois fatores que nos ajudam a entender esse processo: 1) Universalidade do cristianismo. A religião cristã, diferente de outras expressões religiosas, tinha o propósito de se tornar universal. Enquanto as religiões costumavam se referir a um povo e a uma cultura, o cristianismo queria converter todos os povos. Esse propósito tem sua expressão nas pregações de Paulo, como podemos notar em Gálatas 3, 28: “Desse modo não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus.” 2) Cosmopolitismo de Alexandria. É em Alexandria, no século I a.C., que encontramos uma aproximação entre o judaísmo e a cultura grega que dará origem a uma filosofia cristã. Romanos, egípcios, judeus e gregos conviviam com tolerância religiosa.

Fílon de Alexandria

É Alexandria que nasceu Fílon, conhecido como “Fílon, o judeu”, que faz uma primeira aproximação entre a filosofia grega e o judaísmo. Tudo o que se sabe sobre sua vida é aquilo que foi trazido pela obra do historiador Josefo. Embora não saibamos muito sobre sua vida, além de que era possivelmente integrante de uma rica família judaica, a obra de Fílon, cerca de quarenta tratados, trouxeram uma grande contribuição para o pensamento dos cristãos posteriores.

Aproximação entre judaísmo e filosofia grega.

Em seus comentários sobre o Pentateuco (os cinco livros iniciais do Antigo Testamento), há uma tentativa de aproximação entre judaísmo e filosofia grega a partir de uma influência que ele considera, mas nunca comprovada por documentos históricos, ter sido exercida pelo Antigo Testamento e pela tradição mosaica sobre os filósofos. Ele não via distinção entre as preocupações filosóficas com o ser e a physis da Revelação cultivada pela tradição judaica. O historiador Werner Jaeger salienta que não era o objetivo de Fílon converter os gregos da importância da tradição mosaica. Ele se dirigia aos judeus mostrando a importância do pensamento filosófico. Vejamos: “Para nós, Fílon de Alexandria é, evidentemente, o protótipo do filósofo judeu que absorveu toda a tradição grega e se serve do seu rico vocabulário conceptual e dos seus meios literários para provar o seu ponto de vista, não aos gregos, mas aos seus próprios compatriotas judeus. Isso é importante, visto que demonstra que toda a compreensão, mesmo entre gente não-grega, precisava do meio intelectual do pensamento grego e das suas categorias”( JAEGER, 1991, p. 47-48).

Fé e Razão

Percebemos, a partir desse fragmento, que para Fílon já havia um esboço da tentativa de conciliar fé e razão. Para ele, a Teologia era superior à filosofia, mas a filosofia era indispensável para que não se interpretasse as escrituras de forma literal. A respeito da Bíblia, ele recorre à noção de alegoria: para Fílon, as Escrituras teriam um sentido literal e um sentido oculto. Os personagens e situações que são compreendidos por uma leitura mais superficial escondem significados filosóficos em vários níveis. Para estar apto para essa leitura alegórica das Escrituras, a filosofia era indispensável. Por isso, Fílon considera os filósofos como inferiores aos profetas: para ele, a filosofia não consegue alcançar a perfeição de Moisés e, assim, não optava por uma filosofia em detrimento da outra, pois todas as doutrinas tendiam à imperfeição. Ele diz: “Como as ciências sobre as quais se baseia a cultura geral contribuem para o aprendizado da filosofia, assim também a filosofia contribui para a aquisição da sapiência. De fato, a filosofia é o esforço para alcançar a sapiência, e a sapiência é a ciência das coisas divinas e humanas e das causas destas. Portanto, como a cultura geral é serva da filosofia, assim também a filosofia é serva da sapiência” (FILON, De congressu eruditionis gratia. Apud. REALE. G., História da Filosofia Grega e Romana, p. 232).

Logos de Deus

Podemos perceber que, para Fílon, há uma distinção entre a atividade de filosofar e a “sapiência”, noção que talvez ele tenha desenvolvido a partir de Aristóteles. A sabedoria, para ele, procede do Logos Divino. O Logos, um princípio a partir do qual Deus opera no mundo, pode ser entendido como: * Uma realidade incorpórea; *Tem um aspecto imanente, pois o mundo sensível é criado a partir dele; * Pode ser entendido como tendo a função de reunir os poderes de Deus, inúmeras expressões da sua atividade; * Também pode ser entendido como a fonte dos poderes ilimitados de Deus; (Fílon cita dois: O poder criativo e o poder régio); * Tem o sentido de “Palavra de Deus”, no sentido criador que aparece no Evangelho de João. Nesse sentido, foi apropriado pelos primeiros cristãos como uma prefiguração de Cristo, ou seja, Cristo seria o Logos de Deus; * Tem um sentido ético como “Palavra de Deus que guia para o bem”; * Por fim, ele entende o Logos como um cosmo inteligível que Deus cria em sua mente para, a partir dela, criar a matéria, ou seja, o mundo físico. Nesse sentido, ele concilia a noção de “mundo das ideias” de Platão ao pensamento religioso: aquilo que Platão se referiu como “ideias”, para Filon correspondia a pensamentos de Deus.

Antropologia de Fílon

Novamente, em sua concepção de humano, Fílon concilia o pensamento platônico ao pensamento religioso: se para Platão havia a distinção entre corpo, Fílon acrescenta uma terceira dimensão ao humano, a dimensão espiritual. A alma humana corresponderia ao intelecto, material, terreno e corruptível. A alma humana não era imortal nessa concepção, como era Platão. Imortal é o Espírito (pneuma), conferido por Deus e que representa, portanto, o vínculo entre o humano e o divino. A partir dessa divisão, compreende-se que a vida humana teria três possibilidades: uma dimensão física/animal, referente ao corpo; uma dimensão racional, referente à capacidade de pensar da alma-intelecto; uma dimensão espiritual, referente à possibilidade de a alma humana viver segundo o Espírito. Com essa terceira dimensão, a Espiritual, Fílon introduz a moral como parte da filosofia e da religião. A vida feliz, para ele, pode ser pensada a partir da figura de Abraão durante seu exílio: a ideia da realização humana está vinculada a uma espécie de “itinerário para Deus”, ideia que será desenvolvida por Santo Agostinho. O homem precisa, nesse sentido, transcender a si mesmo para se dedicar a Deus, fonte de tudo o que possui.[2] Notadamente, Filo é o ponto de flexão na teologia cristã. Sua filosofia guinou o entendimento dos Pais da Igreja no II e III século. Sem ele, o cristianismo seria outro, dado seu peso, influência e dependência de suas ideias para a teologia. A aplicação de sua filosofia na interpretação de João capítulo 1 desvirtuou o sentido do texto evangélico. O cristianismo com base em Filo e Platão não é o cristianismo bíblico. E o que existe é altamente dependente dele. O que é a Cristologia? Cristologia é o estudo sobre Cristo; é uma parte da teologia cristã que estuda e define a natureza de Jesus, a doutrina da pessoa e da obra de Jesus Cristo, com uma particular atenção à relação com Deus, às origens, ao modo de vida de Jesus de Nazaré, visto que estas origens e o papel dentro da doutrina de salvação tem sido objeto de estudo e discussão desde os primórdios do cristianismo.[3]

Eixo central da Cristologia

A Cristologia tem sido debatida incansavelmente durante séculos, em várias nações, dentro de várias correntes cristãs, com pontos de vista semelhantes, divergentes e mesmo com algumas controvérsias. Alguns aspectos deste assunto muito debatidos no eixo central da cristologia no decurso da história do cristianismo são: A Natureza divino-humana de Jesus (União hipostática; A Divindade de Jesus; A Humanidade de Jesus; A Encarnação; […][4] etc, Entre outros.

Dois lados de um conflito

Talvez a disputa mais antiga dentro do cristianismo centrou-se sobre se Jesus era Deus. Esta longa discussão iniciou-se com duas posições bem distintas: Jesus homem versus Jesus Deus. Um número de cristãos primitivos acreditavam que Jesus não era divino, mas fora simplesmente o Messias humano prometido no Antigo Testamento, tal como o vê os fariseus contrariamente à vista mais geral dos outros judaico-cristãos. E: Uma explanação alternativa é que eram uma oposição às doutrinas dos Cristãos Gnósticos que afirmavam que Jesus Cristo teve somente a ilusão de um corpo humano e, assim, nenhuma ancestralidade humana, como o via o docetismo. A disputa iniciou-se nessa divergência, mas logo foi abandonada para centrar-se na definição da natureza de Jesus. Apenas parte da cristandade se ateve a ideia da humanidade de Jesus. Rapidamente, esta parte foi considerada como herética pelos demais que se “consideravam” de acordo com os apóstolos. A opinião de que Jesus era somente humano, como afirmava o adopcionismo, foi oposta por líderes da igreja tais como São Paulo, e veio eventualmente a serem aceitas somente por seitas como a dos ebionitas e (de acordo com São Jerônimo) dos nazarenos, mas logo subjugadas pelas igrejas ortodoxas de uma forma ou outra. A partir de então, a discussão já não estava mais centrada na divergência de naturezas de Cristo (homem ou Deus), mas sobre qual era a sua natureza como Deus e como poderia ser explicado a relação homem-deus/deus-homem. Porém, é bom ter em mente que isto se deu entre as chamadas igrejas ortodoxas e ficaram de fora aquelas que defendiam a natureza humana. O assunto Jesus homem não fez parte da disputa cristológica, por isso, pode ser definido de antemão que nenhum dos conceitos obtidos são ativos de verdade.

Natureza de Cristo

A partir da ideia de que o logos (palavra) de João 1:1 é um agente entre Deus e a matéria, conforme elaborado por Filo, surgiram vários pensamentos e conceitos. Vamos destacá-los de forma lógica, ou seja, as ideias em progressão, partindo da humanidade até a divindade de Jesus. Ebionismo: crê em Jesus como um profeta, nascido de Maria e José, que teria se tornado Cristo no ato do batismo. Elcasaismo: recusam a divindade de Cristo, consideram-no o último dos profetas e chamam-lhe anjo Jesus. Monofisismo: segundo o qual Cristo teria uma única natureza composta da união de elementos divinos e elementos humanos. Miafisismo: defende que em Jesus Cristo há a natureza humana e a natureza divina, mas que estas duas naturezas se unem natural e completamente para formar uma única e unificada Natureza de Cristo. Nestorianismo: segundo a qual Jesus Cristo é, na verdade, duas entidades vivendo no mesmo corpo: uma humana (Jesus) e uma divina (Cristo). Docetismo: defende que Jesus era um mensageiro dos céus e que seu corpo era “carnal” apenas na aparência e sua crucificação teria sido uma ilusão. Arianismo: crê que Jesus, apesar de um ser superior, seja inferior ao Pai sendo uma criatura sua. Sabelianismo: defende que Jesus e Deus não eram pessoas distintas, mas sim “aspectos” ou “modos” diferentes do trato da Divindade com a humanidade. Trinitarianismo: crê em Jesus como a segunda pessoa da Trindade divina.

As principais cristologias

Óbvio que os descritos acima não representam a totalidade dos pensamentos que surgiram sobre a pessoa do Cristo. Muitos ficaram de fora, principalmente aqueles que refletiam a verdade. Acima estão apenas aqueles que por circunstâncias históricas obtiveram destaque. Depois de certo tempo, estes pensamentos se reúnem em torno de três escolas que obtiveram supremacia: ortodoxa, monofisita e ariana. Sendo que posteriormente, prevalece a ortodoxa, com a proclamação de anátema sobre as demais.

Ortodoxa

A Cristologia ortodoxa, defendida pelas Igrejas CatólicaOrtodoxas e protestantes, tem por base o Concílio de Calcedônia (em 451 d.C., o qual estabelece as bases desta corrente, na qual o Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem (união hipostática) e se apresenta em duas naturezas sem distinção, indivisíveis e inseparáveis, de tal forma que as propriedades de cada uma permanecem ainda mais firmes quando unidas numa só pessoa. Para os defensores desta cristologia, o termo “Filho de Deus” aplicado a Jesus deve ser interpretado com a natureza de Deus, gerado já desde o início de tudo e, portanto co-eterno.

Monofisita

Discordando da Cristologia Ortodoxa, os miafisitas afastaram-se para compor as Igrejas ortodoxas orientais da Síria, da Armênia, do Egito, da Etiópia e da Índia do Sul. Para eles a natureza divina em Jesus era muito mais forte e preponderante daquela natureza humana. Mas, estas mesmas Igrejas dissidentes rejeitam o rótulo de monofisita, porque elas afirmam que defendem na verdade o miafisismo, que é a crença de que em Jesus há a natureza humana e a natureza divina, mas que estas duas naturezas se unem para formar uma única e unificada Natureza de Cristo. Estas Igrejas afirmam que o miafisismo é diferente do monofisismo, mas esta doutrina cristológica igualmente se diverge da doutrina ortodoxa da união hipostática.

Ariana

arianismo, que recebeu este nome por ser derivado da doutrina de Ário, apresenta uma distinção clara entre o Cristo e o Logos como razão divina. O Cristo é apresentado como uma criatura pré-temporal, super-humana, a primeira das criaturas, não Deus, porém mais que homem. “O logos é a própria razão divina a qual Deus pai admitiu sair de si mesmo sem a diminuição do seu próprio ser.” (Justino Martir)

Credos

Dois são os conceitos sobre Jesus: o apostólico, aquele que está na Bíblia, e o cristológico, resultado do longo debate. O debate cristológico culminou em dois momentos que fixaram o conceito da divindade de Cristo, suprimindo os demais pensamentos e condenando-os ao anátema. O primeiro foi Niceia, 325, e o segundo Constantinopla, 389.

Apostólico

O conceito apostólico sobre a pessoa de Jesus é encontrado ao ler as páginas bíblicas. Não é intenção defini-lo por completo aqui porque será amplamente debatido na próxima parte. Por ora: Jesus é o Filho do homem, prometido por Deus através dos profetas, descendente de Davi, Rei de Israel, nasceu de Maria, aprendeu a obediência, viveu sem pecar, morreu pelos pecados do mundo, ressuscitou ao terceiro dia, ascendeu aos céus e está à direita de Deus, como homem e Senhor.

Niceno

O conceito niceno reza que Jesus é: o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por quem foram feitas todas as coisas que estão no céu ou na terra. O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem.[5] Como se vê, esta definição se apresenta radicalmente diferente ao exposto logo acima. Mais do que isso, havia uma forte ameaça a quem se prontificasse definir Cristo em outros termos. E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica.[6]

Constantinopla

A partir de Constantinopla, crê-se: Em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por quem, foram feitas todas as coisas. O qual por nós homens e para a nossa salvação, desceu dos céus: se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem.[7]

Conclusão

Em resumo, a Cristologia, foi o amplo debate que envolveu, entre outras coisas, a natureza de Jesus. Começou após a passagem dos apóstolos e a aplicação pelos Pais da Igreja do conceito filosófico de Filo de Alexandria, que rezava ser o logos (grego) comparável ao davar (hebraico) ao texto de João 1:1. A ideia cristã de que Jesus é preexistente depende profundamente de Filo. O debate se estendeu por vários séculos. Iniciado no dilema entre Jesus homem e Jesus Deus teve rápida ascenção para o tema: a substância de sua natureza divina. Vários pensamentos surgiram, entre eles, Jesus é apresentado como profeta, anjo, mensageiro, como possuindo uma ou duas naturezas (humana e divina), duas entidades, superior aos anjos, criado por Deus, modo da manifestação de Deus, e, por fim, a tese vencedora, Jesus como segunda pessoa da Trindade. Deste emaranhado de conceitos, três escolas se firmaram na luta pela definição da natureza de Cristo: ortodoxa, monofisita e ariana. A ortodoxa, como o próprio nome diz, sobressaiu e foi marcada por dois momentos, Niceia e Constantinopla, que definiram a sua natureza com base no conceito do logos. Jesus obteve natureza divina, da mesma substância do Pai e tão eterno como Ele. Jesus passou a ser preexistente contrapondo à Bíblia que o apresenta apenas como o homem, nascido de mulher. Esta parte teve como objetivo mapear a história do debate teológico mais importante do cristianismo. Depois de conhecermos um pouco da história do conceito do logos, vamos ao debate bíblico propriamente dito e ver que este conceito de logos não se encaixa no texto. Foram os “Pais da Igreja” que introduziram o conceito grego para definir a natureza de Jesus. Não é bíblica a ideia de que Jesus existia antes do seu nascimento de Maria. Isso ficará comprovado na Terceira Parte. [1] http://www.igrejadedeusemsaopaulo.org.br/filodealexandria.htm [2] SANTOS, Wigvan Junior Pereira dos. “A conciliação entre fé e razão para Fílon de Alexandria”; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/a-conciliacao-entre-fe-razao-para-filon-alexandria.htm>. Acesso em 29 de setembro de 2018. [3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Cristologia. Acessado em: 16 de Nov. 2017 [4] Idem. [5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.  Acessado em: 18 nov. 2017. [6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.  Acessado em: 18 nov. 2017. [7] Idem.
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Preexistência de Cristo

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