Apocalipse 13

A besta que sobe do mar #

E vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia. (Ap. 13:1)

Os símbolos desta profecia são: mar, besta, cabeças, chifres, diademas e um nome de blasfêmia. Antes de fazer a interpretação geral, vamos entender os conceitos particulares que envolvem esta trama. “Mar” tem significado de nações como em Apocalipse 17:15. “Besta” representa um poder político em específico, um império, por exemplo, (Dn. 7:17). “Cabeças”, também representam reinos menores, ou governos, (Ap. 7:9-10). “Chifres” são simbologias de reis, ou pequenos estados, (Ap. 17:12). “Diademas” é uma simbologia de que o poder está sendo exercido no momento. Ao contrário, quando não se tem a coroa é porque o poder real não é exercido no momento. Isto aconteceu quando Nabucodonosor invadiu Judá (Ez. 21:26). “Nome de blasfêmia” transmite a ideia de que uma autoridade age contra a verdade, justiça etc. O significado de “nome” como poder está no evento de Mateus 28:18-19, quando Jesus disse: todo o poder é me dado […], portanto, ide […] batizando em meu nome. “Blasfêmia” é falar contra uma autoridade digna, contra o poder de Deus, exemplificando. Isto vemos em Marcos 3:29: “Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo”.

Deste primeiro levantamento de significados, podemos traduzir a besta que sobe do mar, com sete cabeças, dez chifres com dez diademas e sobre suas cabeças um nome de blasfêmia para uma afirmação literal nas seguintes palavras: sete povos deram origem a um império dividido em dez nações, cujos reis exerciam poder. Retraduzindo para uma forma histórica, podemos dizer que: o Império Romano existiu de 168 a.C até 476 d.C, com base em sete reinos que o antecederam Babilônia (Nabucodonozor), 606 a.C a 538 a.C, Média-Pérsia (Ciro e Dario), 538 a.C a 323 a.C, e Grécia (Ptolomeu, Seleuco, Cassandro e Lisímaco), 323 a.C a 168 a.C, agora, em 476 d.C até 554 d.C, sob domínio de dez povos bárbaros, os Anglo-Saxões, Burgúndios, Francos, Hérulos, Hunos, Lombardos, Ostrogodos, Visigodos, Vândalos e Suevos.

O fim do domínio de Roma se dá quando os Hérulos, o último deles, através de seu comandante Odoacro, exterminaram o poder romano: “Em 476, Orestes recusou-se a conceder aos Hérulos, liderados por Odoacro, o status de federati. Odoacro então saqueou Roma e mandou a insígnia imperial para Constantinopla, se instalando como rei sobre a Itália. Embora alguns pontos isolados do governo romano continuassem até depois de 476, a cidade de Roma em si estava sob o comando dos bárbaros, e o controle de Roma sobre o Ocidente havia efetivamente acabado.” [1]

A queda do Império Romano foi causada por uma série de fatores que o fragilizaram, facilitaram as invasões bárbaras e causaram a derrubada final do Estado. Em geral, a expressão ‘queda do Império Romano’ refere-se ao fim do Império Romano do Ocidente, ocorrido em 476 d.C., com a tomada de Roma pelos hérulos, uma vez que a parte oriental do Império, que posteriormente os historiadores denominariam Império Bizantino, continuou a existir por quase mil anos, até 1453, quando ocorreu a Queda de Constantinopla.”[2]

Para concretizar esta interpretação, podemos associar esta profecia com as profecias de Daniel. Se somarmos as cabeças existentes nos quatro animais do capítulo 7, totalizamos sete cabeças: 1 da Babilônia + 1 da Média Pérsia + 4 da Grécia + 1 de Roma. Isto indica que esta besta do Apocalipse se refere à mesma quarta besta de Daniel 7.

No Apocalipse 13, porém, a besta tem dez chifres com diademas. Este simbolismo indica que estamos falando do poderio dos reinos bárbaros. Os dez povos bárbaros assumiram o governo de Roma em substituição a qualquer outro tipo de domínio anterior. A indicação simbólica das coroas nos dez chifres é o de que o cumprimento desta profecia se dá a partir do ano 476, se estendendo até 554 d.C, quando o últimos destes povos sucumbiu ante os avanços bélicos de Justiniano. Diante destes detalhes, podemos aceitar, sem restrições, o ano 476 d.C como ponto de partida para o cumprimento da profecia sobre a besta que sobe do mar. Isto é importante para o encaixe dos próximos eventos históricos.  

A última característica apresentada neste texto sobre a besta é o “nome de blasfêmia” sobre suas cabeças. A palavra “nome”, geralmente, está atrelada ao sentido de autoridade no Apocalipse. Isto indica que a autoridade e o poder exercidos pelo ente tem uma procedência contrária à vontade divina. Os nomes de blasfêmia se referem às características dadas a este império que só podiam ser atribuídas a Deus, ou a Jesus. Por exemplo, o imperador ser considerado o Pontífice Máximo. Os tratos e destratos que este imperador tinha com a religião cristã entre outras coisas.   

E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande poderio. (Ap. 13:2)

Outras características são apresentadas. O quarto reino, Império Romano, é o último reino humano antes do reino de Deus. Este reino herdou as características culturais de seus antecessores. A profecia retrata este processo histórico identificando esta besta com as características dos animais anteriores, conforme disposto nas profecias do livro de Daniel. Historicamente, Império Romano carregou consigo as características gregas, persas e babilônicas. Em linhas gerais, poderíamos destacar do Império Grego a velocidade das conquistas (leopardo), do Império Medo-Persa a capacidade militar (pés de urso) e o do Império Babilônico o estilo de governo (boca de leão). Daí que o Império Romano é a síntese dos impérios anteriores. Ele representava a evolução política, social e cultural da civilização humana até o momento.

“Roma Antiga é o nome dado à civilização que se desenvolveu na península Itálica durante o século VIII a.C. a partir da cidade de Roma. Durante os seus doze séculos de existência, a civilização romana transitou da monarquia para uma república oligárquica até se tornar num vasto império que dominou a Europa Ocidental e ao redor de todo o mar Mediterrâneo através da conquista e assimilação cultural.”[1]

Um detalhe importante que devemos evidenciar é a expressão “boca de leão”. Leão, na linguagem popular é o rei da selva devido a força de seu rugido. Os animais estremecem diante de tal imposição vocal deste feroz animal. O Império Romano de Justiniano carrega este simbolismo, que é caracterizado por sua capacidade de impor a ordem civil através daquilo que ficou conhecido como Corpus Juris Civillis, o novo Código Civil elaborado pelos melhores juristas do Império. Descrevendo o que foi este código, diz Becker:

“O jus naturale era considerado divino e achava-se, portanto, acima dos decretos humanos: conceito que haveria de difundir-se largamente, mais tarde, na filosofia medieval do Ocidente.  Os juristas de Justiniano tendiam a atribuir-lhe os direitos de único e onipotente legislador, como se o povo tivesse delegado todos os seus poderes na pessoa do imperador. ‘Em outras palavras, o direito clássico romano estava sendo revisado, a fim de atender às necessidades do monarca oriental, cuja soberania só se limitava pela lei de Deus’”. Foi “o esforço mais extraordinário jamais feito para organizar uma sociedade segundo regras fixas e eqüitativas”.[2]

Foi debaixo deste Código que toda a sociedade romana adorou a besta, como veremos mais adiante.

A profecia fala que a besta recebeu do dragão o “seu trono” e o “seu poder”. Decifrar a realidade por trás destas representações é muito importante. A compreensão da história da humanidade através da profecia, talvez, tenha aqui um de seus pontos mais formidáveis, porque nos dá uma luz sobre o que foi a civilização ocidental sob a égide da cultura romana.

Na profecia, o dragão é identificado como um Ser que tem o propósito de enganar, seduzir, desviar. Em Apocalipse 12:9, lemos: “Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.” Em Apocalipse 20:3a, falando dele, diz: “E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações…” O dragão é o poder que comanda as nações. Em termos históricos, poderíamos falar que a cultura dos povos é a realidade por trás deste símbolo. Podemos, então, fazer uma previsão do poder da besta, uma vez que Satanás deu a ela o seu reino e um “grande poderio”.

A partir da queda de Roma o domínio imperial mudou definitivamente para o Oriente. A “besta” vai agir de Constantinopla sob influência do “dragão”. Foi o Império Bizantino que solidificou e sustentou o poder romano por mais alguns séculos. A parte ocidental, Roma, agora estava sob domínio dos povos Bárbaros e só recuperaria parte de sua influência séculos mais tarde com Carlos Magno.  

A besta que sobe do mar em Apocalipse 13 é o Império Romano Bizantino. Esta profecia apresenta como se constituiu o poder mais severo contra aqueles que faziam a vontade de Deus. 

A chaga mortal #

E vi uma das suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta. (Ap. 13:3)

A besta tem uma cabeça ferida. Mas sua chaga mortal foi curada e, com isso, toda a terra seguiu a besta. Já sabemos quem é a besta e quem são suas cabeças. Precisamos descobrir o que significa “chaga” no contexto profético. No sentido real é perda de influência política e social. Vejamos alguns textos bíblicos.

“Portanto lhes dirás esta palavra: Os meus olhos derramem lágrimas de noite e de dia, e não cessem; porque a virgem, filha do meu povo, está gravemente ferida, de chaga mui dolorosa”. (Jeremias 14:17) “Porque te restaurarei a saúde, e te curarei as tuas chagas, diz o SENHOR; porquanto te chamaram a repudiada, dizendo: É Sião, já ninguém pergunta por ela. Assim diz o SENHOR: Eis que farei voltar do cativeiro as tendas de Jacó, e apiedar-me-ei das suas moradas; e a cidade será reedificada sobre o seu montão, e o palácio permanecerá como habitualmente”. (Jeremias 30:17-18)  Estes textos do profeta Jeremias estão retratando a situação da cidade de Jerusalém quando ela não era mais uma cidade gloriosa, mas repudiada, que ninguém se interessava. Então, quando uma cidade, ou país, perde sua influência, sua glória, ela é considera como que tendo uma chaga, ou seja, está doente no sentido politico e social. Podemos, então, entender qual o sentido da “chaga mortal” mortal numa das cabeças da besta.

A cabeça ferida para morte é Roma. Em 476, o Império Romano do Ocidente caiu, deixando de ter expressão política. Contudo, esta ausência de poder político em Roma foi remediada pela presença do imperador Justiniano em Constantinopla. Ele tomou uma série de medidas que garantiram a vida do Império Romano por muitos séculos. A principal delas e mais conhecida foi a elaboração de um novo código de leis. “Em seu governo, foi redigido o Código Justiniano, um sistema de leis básico que afirmava o poder ilimitado do imperador e, ao mesmo tempo, garantia a submissão dos escravos e colonos a seus senhores. Em seu governo, o regime político do império pode ser caracterizado como autocrático e burocrático. Autocrático, porque o imperador controlava todo o sistema político e religioso. Burocrático, porque uma vasta camada de funcionários públicos, dependentes e obedientes ao imperador, vigiava e controlava todos os aspectos da vida dos habitantes do império.” “Para garantir a centralização administrativa, Justiniano combateu o poder local dos grandes proprietários de terra e estabeleceu leis sólidas e eficazes, cujo cumprimento era rigorosamente fiscalizado pela burocracia, que contava com os militares.”[3]

O imperador Justiniano, com estas medidas, garantiu, de certa forma, uma sobrevida para Roma. Assim, como diz a profecia, “toda terra se maravilhou após a besta”. Isso também expressa a totalidade de seu governo como afirma a citação acima: “uma vasta camada de funcionários públicos, […], vigiava e controlava todos os aspectos da vida dos habitantes do império”.

Isto posto, conclui-se que este verso refere-se ao que aconteceu com Roma na primeira metade do século VI, quando, depois de sofrer uma abalo político no ano de 476, a cidade recompôs sua influência sobre a população do Império.

Adoração à besta #

E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela? (Ap. 13:4).

São duas adorações: ao dragão e à besta. O povo romano iria se submeter à influência de dois entes espirituais que comungavam seus poderes. O poder do dragão, ou diabo, se estende a todas as nações da terra, pois segundo o texto bíblico, elas foram entregues a ele, (Lucas 4:5, 6). A adoração ao dragão pode ser entendida como a influência cultural das diversas nações dentro das fronteiras romanas e a adoração à besta é a obediência às novas leis do novo Estado Romano.

Desdobrando ainda mais esta simbologia, sobre o dragão é dito que se refere a satanás, como visto em Apocalipse 12:9. O elemento da realidade retratado pelo dragão é a cultura humana. Dragão, serpente, leviatã, monstro marinho são elementos utilizados pelos povos para representar a cultura estrangeira. No caso do Império Romano, dissemos acima, que ele absorveu as principais características dos impérios anteriores. O povo romano viveu sob o patrocínio de modos e costumes estranhos à sua cultura. Neste sentido, eles adoram o dragão porque ele trouxe tudo o que havia de outras civilizações para dentro das fronteiras romanas. Roma se fortaleceu se tornando a “urbs” do mundo. O Império Romano era um caldeirão cultural composto por diversas nações. Ele tinha força político-militar para obrigar o mundo a viver debaixo de seu comando. Neste sentido, o dragão deu à besta o seu poder. Respeitar as leis e ordens romanas era adoração ao dragão e, consequentemente, adoração à besta. Esta adoração se estabeleceu principalmente devido a uma nova organização do Direito Romano, da religião e da política e a consequente ampliação dos territórios ao longo do Mediterrâneo. Vejamos os fatos históricos.

“Justiniano tinha grande interesse pelas questões teológicas. Faltava apenas unificar a crença, transformar a Igreja em um instrumento homogêneo de domínio. Seu objetivo maior era unir o Oriente com o Ocidente por meio da religião. Seu programa político pode ser sintetizado numa breve fórmula: ´Um Estado, uma Lei, uma Igreja´. Justiniano procurou solidificar o monofisismo (doutrina elaborada por Eutiques, segundo a qual só havia uma natureza, a divina, em Cristo) […] Ao lado da religião, o direito romano ajudou a manter a unidade e a ordem imperial. Justiniano percebeu a importância de salvaguardar a herança do direito romano e, aproveitando a prosperidade econômica e comercial que lhe proporcionavam as novas conquistas, empreendeu um importante trabalho legislativo e de recompilação jurídica. A recompilação e reorganização das leis romanas tornou-se um dos marcos mais notáveis de sua administração, confiado a um colégio de dez juristas dirigido por Triboniano, cujos trabalhos duraram dez anos. Essa obra ficou conhecida como Corpus Iuris Civilis, sendo composta de quatro partes.”[4]

Esta simbologia do dragão entregando o seu poder à besta revela um momento histórico quando o Império Romano recompõe suas forças militares, políticas, jurídicas, sociais e territoriais depois de algumas décadas sofrendo ataques à sua estrutura social. O Império sob o comando de Justiniano estava novamente fortalecido para dominar mais uma vez um vasto território.    

Quem é semelhante à besta? #

Foram os empenhos militar e administrativo de Justiniano que transformaram um Império quase exterminado numa nova potência. O Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, adquiriu força política, militar, administrativa e territorial de forma que não havia quem pudesse insurgir contra ele. Justiniano conquistou a Itália, norte da África e sul da Espanha, elaborou leis que submetia todos os cidadãos de seu domínio. Cumpria-se a palavra profética: “Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?” Vejamos um pouco mais desta história sobre a ampliação da força de Constantinopla.   

Em primeiro de agosto de 527 d.C., sobe ao trono do Império Romano do Oriente, na cidade de Constantinopla, Justiniano, que inicia obra militar e legislativa. Pouco depois de assumir o poder, nomeia comissão de dez membros para compilar as constituições imperiais vigentes. […] Para garantir a centralização administrativa, Justiniano combateu o poder local dos grandes proprietários de terra e estabeleceu leis sólidas e eficazes, cujo cumprimento era rigorosamente fiscalizado pela burocracia, que contava com os militares. Em seu governo, foi redigido o Corpus Juris Civilis, um sistema de leis básico que afirmava o poder ilimitado do imperador e, ao mesmo tempo, garantia a submissão dos escravos e colonos a seus senhores. Em seu governo, o regime político do império pode ser caracterizado como autocrático e burocrático. Autocrático, porque o imperador controlava todo o sistema político e religioso. Burocrático, porque uma vasta camada de funcionários públicos, dependentes e obedientes ao imperador, vigiava e controlava todos os aspectos da vida dos habitantes do império. Esse poder não chegava a ser totalitário, porque o império era vasto e composto por povos de naturalidades e línguas diferentes, que conseguiam escapar do controle das autoridades imperiais e manter certas tradições culturais particulares.[5] […] No plano externo, a política de Justiniano teve como objetivo fundamental a tentativa de reconstrução do fragmentado Império Romano do Ocidente, que, desde 450, era vítima dos ataques dos bárbaros germânicos, e que havia sucumbido em 476. Ao sentido político e social dessa empreitada juntava-se o fator religioso, pois, para Justiniano, Roma continuava sendo o centro do mundo católico.[6] […] Justiniano empreendeu a recuperação do Ocidente. Seu primeiro objetivo foi acabar com os vândalos, no norte da África (533-534), onde acabara de surgir o clarão fulgurante de Santo Agostinho. O general Belisário dirigiu as campanhas com eficiência, conquistando Cartago, a Sicília, as ilhas Baleares e parte da costa levantina peninsular. Justiniano ordenou ao general Belisário que se lançasse à conquista da península Itálica, onde Teodorico, o Grande havia estabelecido o Reino Ostrogodo. Belisário dirigiu-se à Itália com o mesmo ânimo e rapidez das campanhas anteriores. Conquistou Roma (539) com relativa dificuldade devido à resistência ostrogoda e Ravena um ano mais tarde. Por um momento pareceu que as glórias do Império Romano poderiam reviver.[7] […] Com a ocupação de um amplo setor do sul da Espanha pelas tropas imperiais, em 554, o Mediterrâneo voltou a ficar sob o controle dos romanos – desta vez, porém, do Império do Oriente. O império alcançou sua máxima extensão.[8]

Estava consolidado o poder do Império Romano Oriental sob a liderança de Justiniano. Havia se tornado um reino forte, submetendo tudo e todos debaixo de seu poderio. Profeticamente, ninguém podia “batalhar contra ela”, a besta.

A boca da besta #

E foi-lhe dada uma boca, para proferir grandes coisas e blasfêmias; e deu-se-lhe poder para agir por quarenta e dois meses. (Apocalispe 13:5)

O que é esta “boca” que a besta recebe? Já sabemos que a besta se trata do Império Romano Oriental, ou Bizantino. Identificar a boca importa primeiro saber o que ela significa em termos proféticos. A figura profética da boca aparece 18 vezes no Apocalipse. Em síntese, podemos destacar a boca do dragão, da besta e do falso profeta (16:13), boca da terra (12:16), dos 144 mil (14:5), das duas testemunhas (11:5), do cavaleiro branco (19:15). Estas passagens estão relacionadas com mensagens, doutrinas, ordens emitidas pelos entes representados. Quem tem uma boca, tem poder de falar, comandar, dar ordens, ditar leis.

A “boca” recebida pela besta foi o poder concedido ao Império Romano para proferir leis, no caso, leis religiosas. Este episódio profético teve seu cumprimento com o Decreto de Justiniano. Tal decreto colocava o bispo de Roma acima dos demais bispos do Império e o único capaz de corrigir quaisquer desvios nas pratica religiosa, dizia: “O Papa de Roma será o cabeça de todas as igrejas e corretor de hereges.”

A ordem estava contida no Corpus Juris Civilis, promulgado no ano 538. A partir de então, o poder dos bispos de Roma aumentou paulatinamente a ponto de séculos mais tarde se tornarem chefes de Estado, ditando toda espécie de normas e leis, que vieram através de diversos documentos oficiais, como:  Carta Encíclica ou Encíclica, Encíclicas Epístolas, Constituição Apostólica, Exortação Apostólica, Breve apostólico, Carta Apostólica e a famosa Bula. Até os dias atuais, este sistema de promulgação de normas papais funciona no seio da Igreja Romana.

Esta atitude do imperador Justiniano foi o cumprimento histórico da “boca” dada à besta. A boca recebeu poder “para proferir grandes coisas e blasfêmias”. Historicamente foi o poder dado aos bispos de Roma para ditar normas sobre a cristandade. [Logo a seguir, nos comentários sobre o verso 6, falaremos mais detalhadamente sobre esta profecia. Por ora, vamos entender “o poder para agir por quarenta e dois meses”.]

Quarenta e dois meses #

A simbologia dos quarenta e dois meses aparece várias vezes na Bíblia, mas de diferentes formas. No Apocalipse aparece no capítulo 12: 6 e 14: ”…para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias”; “…onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente.” Em Daniel 7:25: “…e eles serão entregues na sua mão, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo”; em 12:7: “…seria para um tempo, tempos e metade do tempo”. E a passagem em foco: “…quarenta e dois meses”. Todas estas passagens, embora tenham linguagem diferente, referem-se a um mesmo período de tempo. Todas elas são equivalentes a 1260 dias proféticos.

Aqui pode ser aplicado um princípio de interpretação que transforma esses dias em anos, daí teríamos 1260 anos literais. Vejamos como isso é possível. A própria linguagem bíblica nos autoriza a pensar assim. Em Números 14:34, diz: “Segundo o número dos dias em que espiastes esta terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, levareis sobre vós as vossas iniqüidades quarenta anos, e conhecereis o meu afastamento. Em Ezequiel 4:6: “E, quando tiveres cumprido estes dias, tornar-te-ás a deitar sobre o teu lado direito, e levarás a iniqüidade da casa de Judá quarenta dias; um dia te dei para cada ano.” Portanto, se tomamos a expressão “quarenta e dois meses” e aplicamos este princípio, teremos: 42 meses X 30 dias = 1.260 dias. Se aplicamos à expressão de Daniel e Apocalipse, “tempo, tempos e metade de tempo”, temos que “tempo” é igual a 1 ano, ou 12 meses, “tempos’ é igual a 2 anos, ou 24 meses, e “metade de tempo” meio ano, ou 6 meses, chegamos à mesma contagem de 42 meses, consequentemente aos mesmos 1.260 dias de Apocalipse 12. Em suma, estes “quarenta e dois meses” proféticos se referem a 1.260 anos históricos.

A contagem deve começar a partir do ano em que Justiniano promulgou o Corpus Iuris Civilis. Então, somando os 1260 anos literais, chegamos a 1798, quando o poder do Papa em ditar normas à sociedade sofre um profundo abalo com a sua prisão pelo general napoleônico Berthier. Este foi o período determinado na profecia em que a “boca” (leis papais) de Roma foi capaz de governar até mesmo os imperadores e reis. A partir de 1798 o poder papal ficou restrito ao mundo clerical.

E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu. (Apocalipse 13:6)

Este verso retrata as atitudes da besta ao abrir sua “boca” durante os 42 meses. A entidade romana, o papado, agiu determinando as normas de comportamento aos homens. Contudo, essas normas e leis não eram favoráveis a Deus. Na verdade, os homens agiram em nome de Deus, mas ensinando suas próprias doutrinas. Usaram da igreja de Deus para arregimentar pessoas sob o seu comando.

Blasfemar é falar contra, insultar a divindade, opor-se a Deus e à sua lei. Em termos práticos, trocar o sentido verdadeiro de um conceito divino por um falso, trocar a verdade pela mentira. Em Marcos 3:29 é dito: “Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo… não tem perdão”. Em Lucas 12:10 : “E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á perdoada, mas ao que blasfemar contra o Espírito Santo não lhe será perdoado.” Isso disse Jesus sobre os judeus que creditavam ao poder dos demônios as curas miraculosas pore Ele realizadas e não de Deus como fazia Jesus. Blasfêmia é, portanto, uma mensagem contrária à verdade.

A besta abriu a boca em blasfêmias contra Deus, menosprezando o nome de Deus, o tabernáculo e os que habitam no céu. Isto está, obviamente, em sentido figurado. Esta expressão é apenas um símbolo de uma realidade no mundo secular. No sentido literal, seria o mesmo que dizer que o Império Romano agiu contra Deus. Em resumo, ele agiu contra o poder de Deus, contra a sua igreja e contra as pessoas verdadeiras.  

Quando compreendemos a história das doutrinas cristãs, perceberemos como se deu este processo contra Deus, seu nome, sua igreja e seu povo por parte do Império. São inúmeras mudanças em diversos ensinos, que a princípio pareciam inofensivas, mas que ao longo da história se tornaram marcas profundas contra a verdade de Deus. Foram mudanças na lei de Deus, na adoração, na oração, no batismo, entre outras. A que mais teve peso é a que estabeleceu um novo conceito da divindade. Este conceito se tornou o símbolo da religião que se levantou de Roma. Por exemplo, no Concílio de Calcedônia em 556, no qual havia muita ingerência de Justiniano, foram declarados 14 canônes cristológicos, dos quais, alguns são uma tentativa de reconceituar Cristo. Vejamos algumas:

  1. “Se alguém não reconhece a única natureza ou substância (oysia) do Pai, Filho e Espírito Santo, sua única virtude e poder, uma Trindade consubstancial, uma só divindade adorada em três pessoas (hypostáseis) ou caracteres (prósôpa), seja anátema. Porque existe um só Deus e Pai, do qual procedem todas as coisas, e um só Senhor Jesus Cristo, através do qual são todas as coisas, e um só Espírito Santo, no qual estão todas as coisas.”
  2. “Se alguém não confessar que aquele que foi crucificado na carne, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o verdadeiro Deus e Senhor da glória, parte da santa Trindade, seja anátema.”
  3. “Se alguém disser que existiu um Deus-Verbo, que fez os milagres, e um Outro Cristo, que sofreu, ou que Deus, o Verbo, estava com Cristo quando nasceu de uma mulher, ou que estava nele como uma pessoa em outra, e que ele não era um só e o mesmo Senhor Jesus Cristo, encarnado e feito homem, e que os milagres e os sofrimentos que ele suportou voluntariamente na carne não pertenciam à mesma pessoa, seja anátema.”[9]

Estes três canônes são um pequeno exemplo do agir da boca da besta contra Deus, contra seu tabernáculo e seus fiéis. Ela trocou o conceito da divindade entre outros ensinos. As novas concepções sobre as mais diversas ordenanças divinas se tornavam a norma hegemônica e aqueles que se ousassem se opor eram alvos das mais sangrentas perseguições.

Guerra aos santos #

7 E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação.

Antes de mais nada, dois aspectos desta profecia devem ser observados: primeiro, a guerra contra os santos e a vitória da besta; segundo, poder sobre toda nação. A “guerra aos santos” e o “poder sobre toda a língua, e poder, e nação” se cumprem durante a Idade Média com a supremacia papal e as guerras religiosas. Desde 476 d.C, o bispo de Roma gradativamente adquiriu influência sobre a sociedade romana, culminando na origem ao papado com o decreto de Justiniano, este influenciou a sociedade, até mesmo os reis foram subjugados. O poder do papado aumentou a ponto de obrigar que todos se convertessem a única religião aceita dentro das portas do Império.

A guerra aos santos, ou as perseguições religiosas, foi um aspecto da história cristã marcado por vários momentos de lutas entre a religião predominante e aqueles considerados hereges. Aqui nestes estudo tratamos do período entre os anos 538 a 1798 d.C. Período em que a besta, “Sacro Império”, instigado por sua “boca” (bispos de Roma), perseguiu e matou aqueles considerados dissidentes da religião estatal.   

Já nos tempos de Justiniano, o seu código degradou os judeus a cidadãos de segunda classe. A partir daqui a religião judaica deixaria de ser legítima. Alguns exemplos: Relações sexuais entre judeus e cristãos eram proibidas, sob pena de castigo severo; judeus deixaram de poder obter cargos públicos; alguém que ousasse construir uma sinagoga perderia os seus bens e seria punido com a morte.[10]

Séculos posteriores foram marcados por perseguições religiosas. As mais famosas são as Cruzadas que duraram mais de dois séculos. As Cruzadas foram movimentos militares, de caráter parcialmente cristão, que partiram da Europa Ocidental e cujo objetivo era colocar a Terra Santa (nome pelo qual os cristãos denominavam a Palestina) e a cidade de Jerusalém sob a soberania dos cristãos. Estes movimentos estenderam-se entre os séculos XI e XIII, época em que a Palestina estava sob controle dos turcos muçulmanos.[11] No médio oriente, as cruzadas foram chamadas de invasões francas: os povos locais viam estas peregrinações armadas como invasões; por outro lado, a maioria dos cruzados vinha dos antigos territórios do Império Carolíngio e ainda se auto-denominavam francos.[12]

As cruzadas foram batalhas contra inimigos externos. Mas, também houveram batalhas contra os inimigos internos, considerados hereges pela religião oficial. Esta luta interna foi denominada de Santas Inquisições. “O condenado era muitas vezes responsabilizado por uma “crise da fé”, pestesterremotosdoenças e miséria social, sendo entregue às autoridades do Estado, para que fosse punido. As penas variavam desde confisco de bens e perda de liberdade, até a pena de morte, muitas vezes na fogueira, método que se tornou famoso, embora existissem outras formas de aplicar a pena.[13]

“A Inquisição medieval, da qual derivam todas as demais, foi fundada em 1184 no Languedoc (sul da França) para combater a heresia dos cátaros ou albigenses. Em 1249, implantou-se também no reino de Aragão, como a primeira Inquisição estatal) e, já na Idade Moderna, com a união de Aragão e Castela, transformou-se na Inquisição espanhola (1478 – 1821), sob controle direto da monarquia hispânica, estendendo posteriormente sua atuação à América. A Inquisição portuguesa foi criada em 1536 e existiu até 1821). A Inquisição romana ou “Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício” existiu entre 1542 e 1965.”[14]  

O momento mais indelével das Inquisições foi a famosa noite de São Bartolomeu. A. E. KNIGHT diz que “quando o sino deu sinal, todos os campanários de Paris responderam imediatamente, e a carnificina começou. Em todas as ruas ouvia-se agora o fogo dos mosqueteiros. Os huguenotes atacados de surpresa, não podiam oferecer resistência, e quando rompeu a manhã podiam se ver os cadáveres aos montes por toda a parte. O sangue enchia as ruas, e o rio Sena corria avermelhado. A manhã não fêz cessar aquela medonha obra, cena de carnificina. Isto durou quatro dias, e ao fim dêles os assassinos pararam por puro cansaço, tendo sido assassinados uns quinhentos protestantes nobres… e uns cinco a dez mil huguenotes. Mas a mortandade não acabou aqui. Estendeu-se pelas províncias, sendo dadas ordens a vários governadores magistrados para que exterminassem os hereges sem piedade. Disse um bispo católico: A quem mandam assassinar pertence ao meu rebanho. Eu não vejo no Evangelho que o pastor possa permitir que o sangue das suas ovelhas seja derramado… A carnificina nas províncias continuou por seis semanas, e o número de vítimas é diversamente calculado em cinqüenta, setenta e cem mil.”[15]

Estes depoimentos tipificam a história das perseguições religiosas ao longo dos 1260 anos de predomínio do cristianismo estatal de Roma. Durante este período, a besta fez guerra e venceu diversos povos considerados opositores, ou hereges, das doutrinas romanas.

Poder sobre toda nação, #

A profecia ainda fala que a besta tinha poder “sobre toda a tribo, e língua, e nação”. O Império Romano havia perdido sua influência no Ocidente desde sua queda em 476 d.C. A sociedade ocidental não tinha um representante imperial. Os cidadãos romanos tinham que recorrer ao imperador oriental, do Império Bizantino. Roma estava vazia social e politicamente. Com o espaço político deixado em Roma, os bispos começaram a cumprir com funções estatais, pois era para lá que recorriam todas as pessoas necessitadas de algum tipo de ajuda em questões civis. Com o decreto de Justiniano e suas conquistas territoriais, o poder do Império Bizantino se estendeu para o Ocidente. Em Roma, os bispos, se tornaram uma espécie de representantes imperiais. Na Alta Idade Média, principalmente, após a coroação pelo papa de Carlos Magno como novo imperador do Ocidente, resultando na constituição daquele que veio a ser conhecido com Sacro Império Romano, o poder da besta realmente alcançou domínio sobre “toda a língua, e povo, e nação”.

Como falamos acima, o sistema papal (a boca da besta) gradativamente aumentou sua influência no Ocidente ao ponto de assumir uma postura superior até mesmo dos próprios reis. Esta influência sobre a sociedade alcançou seu auge entre os séculos XI e XII, momento marcado por uma grande disputa entre soberanos e papas, conhecida como querela das investiduras. Entende-se por querela, discussão, conflito, queixa.

A querela das investiduras foi um movimento no qual a Igreja protestava contra a nomeação de bispos e papas pelo Imperador. Na França, a Igreja manifestou-se exigindo maior autonomia, ela queria tomar o poder de escolha de seus membros. Para isso, em 1058 foi criado o Colégio dos Cardeais. O papa Nicolau II, seu criador, tinha como prioridade dar aos clérigos o direito soberano de escolha dos líderes religiosos. Em 1073, Gregório VII foi eleito pelo Colégio dos Cardeais para administrar a Igreja. Sua primeira ação foi reafirmar o voto de castidade entre os clérigos e proibir a Monarquia de indicar cargos religiosos.

Os conflitos entre reis e papas aumentaram. Henrique VII se revoltou contra o papa Gregório VII, este se opôs, depôs e excomungou o rei. Acuado, Henrique voltou atrás e pediu desculpas ao papa. Mais tarde, organizou seu exército para derrubar o pontífice, que enfraquecido, exilou-se na França. Esta luta foi resolvida em 1122 na Concordata de Worms. A partir de então, o imperador teria poder de nomear bispos com autoridade secular, mas não com autoridade sagrada. Ou seja, poderia nomear, mas não realizar a cerimônia religiosa. As práticas religiosas e as nomeações de cargos religiosos, no entanto, eram exclusivamente do papa.[16] Deste momento em diante, os papas exerceram poder cada vez maior durante mais ou menos três séculos, até que começou seu declínio no século XIV. Este período de poder dos papas ficou conhecido como supremacia papal.

Durante a supremacia papal, podemos destacar a influência de um dos papas mais importantes da igreja medieval, Inocêncio III. A história de sua relação com os povos europeus representa muito bem o que diz a profecia referente ao “poder sobre toda tribo, e língua, e nação”. Uma passagem rápida por sua biografia nos dará uma ideia bem clara de como esta profecia se cumpriu literalmente.

Inocêncio III elaborou uma obra de Teologia Política. Para ele, o papa está acima de todos os homens, apenas abaixo de Deus, e goza da ‘plenitude de poderes’ para o governo da Igreja, pois ele é o Vigário de Cristo. Assim,o papa exerce poder direto sobre os estados papais e sobre aqueles que prestam vassalagem e indireto sobre clérigos e a cristandade, até mesmo sobre reis e imperadores, permitindo interferir em assuntos políticos, podendo depor reis, príncipes e imperadores. Seu pontificado funcionou como última instância ética da Europa.

Inocêncio criou uma alegoria para explicar a ascendência do poder papal sobre o poder dos reis. Ele comparou o sol ao poder papal e a lua ao poder dos reis. Disse que assim como a lua recebe luz do sol, os reis recebem a luz do papa. E, quanto mais os reis aceitam a autoridade pontifícia, mas são ornados da luz maior.

Assim, já no sermão de Inocêncio no dia de sua coroação como papa, ele declarou: Quem sou eu e qual minha linhagem para que eu aceite um lugar acima dos reis? Pois para mim disseram os profetas: “Ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares”. E para mim disseram os apóstolos: “Eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo desligares na terra será desligado no céu”. O sucessor de São Pedro é o Vigário de Cristo, ele foi estabelecido como mediador entre Deus e o homem, abaixo de Deus e acima do homem, menor do que Deus, porém maior que o homem, julgando todos e não sendo julgado por ninguém, a não ser pelo Senhor.

Inocêncio possuía uma ideia muito “particular sobre o Sacro Império Romano-Germânico, sobre o qual considerava, justamente fundado pelo poder indireto da Igreja e do papa no século IX, que criou o Império para defender a fé católica, e, assim, para se tornar Imperador, que o líder do império dependia da aprovação, unção e coroação do papa”. A coroação dos imperadores pelos papas “gerou duas interpretações diferentes sobre o poder do imperador e do papa. Para os imperadores, especialmente da dinastia Hohenstaufen, era apenas uma benção, e não tinha nenhum valor jurídico. Já, para a Igreja e o papado, implicava que o candidato só se tornava imperador caso fosse ungido e coroado pelo papa. Inocêncio será um defensor dessa última posição.[17] É esta linha de pensamento que irá conduzir a sua atitude em relação aos reinos europeus.

O auge do poder do sacro imperador romano foi constituído em Henrique VI. Com sua morte um vácuo de poder foi deixado e o papa Inocêncio III aproveitou para reconstruir os estados papais, assumir o controle de Roma, e depois de longas batalhas contra os nobres alemães, recuperar a Sicília. De ora em diante, Inocêncio III passa a interferir no comando do Sacro Império que estava diante de uma disputa interna de poder.

Inocêncio III se mostrou neutro num primeiro momento, mas depois se manifestou a favor de Otão IV. Filipe da Suábia protestou energicamente contra o papa, mas a resposta veio por meio do decreto Venerabilem. Nesse decreto, Inocêncio reconhecia que o direito de eleger o líder do Sacro Império pertencia aos príncipes e senhores eleitores, por costume. Porém essa eleição tornaria o líder apenas rei da Germânia, é somente sua unção e coroação em seguida pelo papa que o torna verdadeiramente imperador. Inocêncio também defende que é direito do papa, como consagrador do rei, examinar a pessoa eleita e invalidar a eleição, se necessário. Do mesmo modo, defendeu que, em caso de dupla eleição imperial, após certo tempo, o papa poderia favorecer um candidato, Inocêncio justificou esse direito por considerar a Igreja a fundadora do Sacro Império. Ao fim de muitas disputas entre os soberanos e o papa, o reino ficou com Frederico II, que “devido a sua educação e proximidade com Inocêncio, é considerado o elo capital de uma nova ordem social que dissolveu as querelas entre o Sacro Império e o papado, e especialmente entre a dinastia Hohenstaufen e os papas”. Assim, Inocêncio se tornou o grande vitorioso e o artífice dessa nova ordem, mostrando seu poder sob o mais importante estado da Europa.[18]

Inocêncio teve um papel fundamental na política do Reino da Inglaterra, que se tornou um feudo papal. Depois de uma disputa entre o Rei João sobre a eleição do arcebispo de Cantuária, o papa ameaça o rei João de excomunhão, e o Reino da Inglaterra com um interdito. Inocêncio convoca Filipe II da França para invadir a Inglaterra, mas o Rei João se arrependeu e se tornou vassalo do Papa, que adquiriu poder para interferir no governo inglês.

Sobre a França, Inocêncio III promoveu um interdito. A razão para tal foi o divórcio do Rei Felipe II. Também, promoveu um aliado seu como reitor da Universidade de Paris.

Península Ibérica era dividida em cinco estados. Haviam muitas uniões matrimoniais entre os monarcas ibéricos, o que a lei canônica da igreja proibia. Estes abusos matrimoniais existentes foram duramente punidos por Inocêncio, que interveio nos reinos de Aragão e Leão. Pedro II desejando ser coroado pelo papa, partiu para Roma, jurou fidelidade a Igreja, depositou no altar da Basílica de São Pedro o cetro e a coroa. Ali, Pedro entregou o Reino de Aragão a Inocêncio e seus sucessores, declarando-se vassalo do papa e comprometendo-se a pagar uma renda de 250 masmodines (moeda espanhola).

Sobre outros reinos europeus, Inocêncio também interferiu política e religiosamente de forma muito mais frequente e eficaz que seus antecessores ou sucessores. Ele criou uma verdadeira “feudalidade papal” e se tornando suserano da Inglaterra, Portugal, Aragão, Dinamarca, Polônia, Hungria, Dalmácia e de vários outros territórios.[19]

A história da relação entre o papado e as nações europeias não se resume a estes poucos episódios. Contudo, este casos aqui comentados são suficientes para expressar a força do pontífice de Roma. A influência papal se estendeu sobre toda a terra, quando no período das Grandes Navegações, a igreja avança com seu domínio espiritual sobre o novo mundo, domínio que continua até nossos dias.

Notadamente, a profecia se cumpriu conforme falado em Apocalipse 13:7. Durante um período de mais de 1.000 anos, os papas, muitas vezes humilharam os reis. Exemplo, o episódio de Canossa, quando, em pleno inverno europeu, durante três dias, diante da casa do papa, o rei Henrique IV se humilhou para pedir perdão ao pontífice romano.

De fato, a besta (Império Romano) alçou poder sobre toda a terra com apoio da boca (papal) que recebeu para ditar leis e normas aos homens. Ela fez guerra aos santos e os venceu por um período de 42 meses proféticos, ou seja, 1260 anos literais entre os séculos V ao XVIII.

Adoração à besta (v. 8) #

E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. (Ap. 13:8)

Este é um ponto importante da profecia. Praticamente todos os cristãos não estão atualizados com as informações contidas neste trecho profético. Esta profecia afeta diretamente nossas vidas até os dias de hoje.

O foco desta parte da profecia é a “adoração” à besta. Os adoradores não são todas as pessoas, mas somente aquelas cujo nomes não estão “no livro da vida do Cordeiro”. A palavra-chave desta profecia é “adoração”. Compreender seu sentido simbólico e profético é de suma importância para o entendimento de muitas outras profecias sobre a besta. Os cristãos em geral tem lido esta palavra somente no seu sentido imediato, que significa prestar louvor. Mas, “adoração” em Apocalipse 13:8 está num ambiente profético, totalmente simbólico, e, por isso, esta palavra não pode funcionar em seu sentido primário. Há um campo semântico a ser encontrado. Necessário, então, uma breve exploração do seu sentido na linguagem bíblica.

A palavra “adoração” na Bíblia está associada a atitude de inclinar-se. Vejamos Salmos 95:6: “Ó, vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Eterno que nos criou.” Aqui ela está no seu sentido imediato para a época, não simbólico. Em outra passagem bíblica, Jesus falou sobre adoração: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens”, (Mateus 15:9). Entende-se que doutrinar é uma forma de regrar o comportamento. Assim, podemos entender que ensinar a doutrina humana inutiliza a verdadeira adoração a Deus.

Num outro momento, quando Jesus foi tentado pelo diabo, este pediu que o adorasse: “E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”, Mateus 4:9. Prostrar-se diante de alguém que reconhecemos maior, implica entender que tal autoridade tem poder sobre nós para impor regras. Era assim que procediam os homens na antiguidade quando se viam diante de um rei. O diabo queria este reconhecimento, mas Jesus não lhe obedeceu. Se acaso tivesse feito isso, o diabo seria seu senhor, e mesmo que Jesus não o reverenciasse naquele momento, mas pecasse em outro, a soberania de satanás sobre Jesus seria estabelecida, porque teria se dobrado diante da vontade do inimigo.

No tempo de Isaías, os judeus desobedeciam as regras de Deus, não o reconheciam como Soberano sobre suas vidas, mesmo assim se apresentavam para O adorar. Deus condenou todo o sistema de culto, ofertas, sacrifícios, sábados, luas novas e reunião solene. Isso era abominação e Deus pediu mudança de atitude:  “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas”, (Isaías 1:16,17). Portanto, adorar a Deus em verdade, significa obedecer a Ele, deixando o mal e fazendo o bem ao próximo.

Depreendemos disso uma relação direta entre adoração a Deus e a obediência à sua lei. No caso de reverência a um homem, respeito e obediência àquele que reconhecemos como superior. No caso de adoração à besta, respeito e obediência a ela. Mediante o exposto, a palavra “adoração” no contexto do Apocalipse tem uma conotação diferente de apenas prestação de louvor. Ela representa a obediência civil (às leis) que a sociedade romana prestou ao Império Bizantino.

Indo para a história, sabemos que a sociedade romana ocidental estava há muito tempo sem um chefe civil. Desde 476 quando foi deposto o último imperador, não havia alguém a quem se pudesse recorrer na busca de soluções para os problemas sociais. O sistema judiciário não funcionava com a ausência de governo. Mas, o panorama mudou com a reorganização do Código Civil de Justiniano. Este código de leis permitiu uma nova estrutura civil ao Império Bizantino, como também, à sociedade do decaído Império Romano Ocidental. Com o estabelecimento do domínio bizantino sobre a parte ocidental do Império, contando, principalmente, com apoio do sistema religioso católico, que a este tempo se encontrava muito bem estabelecido em Roma, as leis justinianas foram implantadas no ocidente, obrigando toda a sociedade romana a se curvar diante de seus éditos. Assim, eles adoraram a besta ao seguir as determinações imperiais.

Foi exatamente assim que aconteceu. De “350 a.C. 500, os bispos, ou papas, de Roma, aumentavam constantemente sua autoridade através da intervenção consistente em apoio aos líderes ortodoxos nas disputas teológicas, o que incentivava apelos a eles. O imperador Justiniano, que nas áreas sob seu controle estabeleceu definitivamente uma forma de cesaropapismo, na qual ‘ele tinha o direito e o dever de regulamentar por suas leis os mínimos detalhes de culto e disciplina, e também de ditar as opiniões teológicas para restabelecer o poder imperial sobre Roma e outras partes do Ocidente, iniciando o período denominado papado bizantino (537-752), durante o qual os bispos de Roma, ou papas, exigiam a aprovação do imperador em Constantinopla ou de seu representante em Ravena para a consagração, e a maioria era selecionada pelo imperador por seus súditos de língua grega…”[20]

O verso 3 de Apocalipse 12 fala de uma “cabeça ferida de morte” e esta foi a queda de Roma. Tanto no verso 3, como no verso 8, temos expressões idênticas mostrando quem é que se submeteu à besta. No verso 3 diz que “toda a terra se maravilhou após a besta”, aqui no verso 8 diz “todos os que habitam sobre a terra”. A expressão do verso 3 está no contexto político. A expressão do verso 8 num contexto religioso. Isto é, no primeiro caso, o Império Bizantino (a besta) atuou por seu sistema político para requerer a obediência civil e, no segundo caso, através de seu sistema religioso (a boca da besta), a igreja universal. De fato, o apoio católico neste processo de aceitação do domínio bizantino sobre os territórios do antigo Império Ocidental foi fundamental.

Sem dúvida, segundo o que podemos ver através da história, o mais importante “legado do Império Romano do Ocidente é a Igreja Católica Romana. A Igreja vagarosamente começou a substituir as instituições romanas no Ocidente, até ajudando na segurança de Roma no final do século V. Quando Roma foi invadida pelas tribos Germânicas, muitos bárbaros assimilaram o cristianismo, e no meio do período medieval (século IX e século X), as partes central, norte e ocidental da Europa já haviam largamente aceitado a fé Católica Romana e aceitavam o Papa como o Vigário de Cristo.”[21]

A história também nos mostra que houve, em certo grau, um casamento perfeito entre o poder civil do Império e o poder eclesiástico da igreja. De um lado, o Império impondo sua força e, por outro lado, a igreja validando o uso deste poder. O imperador aprovava os bispos e estes os imperadores. Diante de tal conjuntura, não somente a “chaga mortal” da besta foi curada, como também “todos que habitam” e “toda a terra” a adorou. E, apesar desta profecia ter seu cumprimento entre os séculos VI e X, esta “adoração” (obediência civil) se estendeu pelo futuro da sociedade européia e depois mundial através destes dois legados: a Igreja Católica e o Direito Romano. Até os dias de hoje, há um “adoração”, um respeito, pelos códigos jurídicos e religiosos advindos desta duas instituições. Do Direito Romano, a inspiração para o Direito Moderno. Já, a Igreja Católica, apesar de seu recrudescimento com o fim da Era Imperial, ainda detém muita influência sobre o mundo religioso. Continuam controlando aqueles “cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.

Se alguém tem ouvidos, ouça. Se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá; se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto. Aqui está a paciência e a fé dos santos. (Ap. 13:9,10)

Estes versos marcam o desfecho desta profecia sobre a besta que sobe do mar. Não há muito o que desvendar desta parte, mas ainda podemos extrair algumas informações. Primeiramente, um pedido de atenção e entendimento para aqueles que “tem ouvidos” para ouvir. Depois, a justiça que virá sobre a besta, “se alguém leva em cativeiro” necessário que também seja levado; “se matar à espada” o mesmo juízo virá. Por último, uma informação sobre a existência daqueles que se mantém fiéis.

A tradução destas três informações para uma linguagem mais próxima de nosso entendimento, pode ser feita nas seguintes palavras: que tenhamos a capacidade de entender que a justiça será feita contra a besta, assim como ela combateu e destruiu os fiéis através das muitas guerras (“espada”), pela guerra ela seria destruída, e mesmo diante de tantos ataques contra os verdadeiros servos de Deus, eles não seriam destruídos, permaneceriam pacientes, fiéis e persistentes. A verdadeira fé não acabou porque a besta perseguiu o povo de Deus. Mas, a besta que “subiu do mar” acabou em 1806 com a queda de seu último bastião, o Sacro Império Romano Germânico.  

Antes de tudo, é importante saber que a profecia do Apocalipse refere-se às características mais notórias da história. Sendo assim, quando procuramos na bibliografia os fatos históricos, nos preocupamos com os acontecimentos mais relevantes para determinado período. Isto é mais do que suficiente para encontrarmos a explicação substancial de qualquer profecia.

Como vamos estudar apenas a besta que sobe da terra (Apocalipse 13:11-18), de antemão, é bom saber que os versos anteriores, Apocalipse 13:1-10, retratam aspectos do Antigo Império Romano. Então, considerado a seqüencia da narrativa profética, temos que buscar a explicação dos versos 11 a 18, na história imediatamente posterior à queda do Império Romano. A interpretação tem que casar a seqüencia da narrativa profética com a seqüência da narrativa histórica. Não devemos, a bel prazer associarmos com qualquer outro momento da história. Outra forma que não siga esta condição básica é torcer a interpretação. Assim, se os versos 1 a 10 falam do Império Romano, os versos de 11 a 18 falam do Sacro Império Romano. Ele é o reino que se seguiu ao Império Romano. Esta é a seqüencia da história e também a seqüência da profecia. Como ficará comprovado.

A besta que sobe da terra  #

E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão. (Verso 11)

A besta. Significa um reino, uma nação, um povo, conforme Daniel 7:17.[22] Está em evidência o Sacro Império Romano (800-1806).[23] O Sacro Império Romano teve duas fases: primeiro como Império Franco (800-911), iniciado em Carlos Magno e depois como Império Germânico (962-1806), iniciado em Oto I.[24] Ele surgiu como restauração do Antigo Império Romano (168 a.C – 476.d.C), que havia caído sob as levantes bárbaras.[25]

Na citação que segue, confirma que o surgimento do Império Franco foi a restauração do Antigo Império Romano. “Não é de surpreender, por conseguinte, que o Papa Leão II (795-816), grande devedor de Carlos Magno, em virtude da proteção por este concedida contra as ameaças dos nobres romanos, houvesse colocado sobre a fronte do rei dos francos a coroa imperial romana, na igreja de São Pedro, no dia de Natal de 800. Tanto para o povo romano que presenciara a cerimônia como para o Ocidente em geral, era a restauração do império do Ocidente, o qual durante séculos estivera sob o poder do governante sediado em Constantinopla. O ato colocou Carlos Magno na grande linha sucessória que remontava a Augusto. Atribuiu também ao império caráter teocrático. Inesperadamente – e, na época, não muito ao gosto de Carlos Magno – era a encarnação visível de um grande ideal. O Império Romano, imaginava-se nunca morrera, e agora a sagração havia sido concedida da parte de Deus, pelas mãos do seu representante, a um imperador ocidental.” (Walker, p. 267).

Subiu da terra. Porque ocupou o território da outra besta, o Antigo Império Romano. Descarta-se a, então, possibilidade de ser os Estados Unidos, Israel e qualquer outra nação.

Tinha dois chifres de cordeiro. Os chifres representam poderes. Veja Daniel 7:24. Neste caso, os poderes espirituais e temporais exercidos pelos imperadores, que se consideravam representantes de Deus na terra. Os imperadores agiam ao mesmo tempo como reis e sacerdotes. Eles submetiam a Igreja a seu domínio. Mais tarde, o papado assumiu estas características e passou a submeter os imperadores à sua vontade. Esta passagem, também pode ser entendida, sem prejuízo nenhum, como o poder dos imperadores e o poder dos papas separadamente. A característica de “cordeiro” é pelo fato de ser um reino cristianizado.

A História mostra o imperador como um sacerdote-rei, portanto, com poderes temporais e espirituais. “Durante o reinado de Carlos Magno, a igreja esteve submetida ao poder imperial, pois Carlos Magno considerava-se ao mesmo tempo rei e sacerdote” (Arruda). “O monarca encarava o seu novo papel como algo bem diferente daquele dos antigos romanos, pois via-se não apenas como imperador, mas como um imperador cristão.” (Banfiel, p. 69) “Raras vezes um homem teve tanto poder, seja espiritual ou temporal, ou conseguira realizar tantos feitos.” (Banfiel, p. 75)

E falava como dragão. Várias vezes aparecem no Apocalipse expressões como “boca”, “vozes”, “falar” etc. sempre ligados com uma mensagem. Os quatro animais falaram (Apoc. 6:1), os “trovões” falaram (Apoc. 10:4), a primeira “besta” recebeu uma boca para falar (Apo. 13:5).  “Falar” é a condição para se emitir uma ordem. Então, “falar” é uma figura de ordenar, ou de legislar. “Dragão” é a cultura das nações (Apoc. 12:9, 13:1). Apesar de se considerar cristão, o Sacro Império Romano elaborou muitas leis com base na cultura pagã e impunha aos homens como se elas fossem divinas. O grande mérito de Magno foi o de legislador e dedicou-se imensamente a codificar as leis de diversos povos e a compor sermões, nos quais exortava o povo à obediência das leis da igreja. O papado também emitiu muitas ordenanças, principalmente religiosas, que misturavam os ensinamentos pagãos com os cristãos. Por essas características históricas é que a besta “falava como dragão”.

O imperador legislou com base na cultura pagã e ensinou o povo a obediência a Igreja. A História comprova que o Império Franco é a besta de chifres semelhantes ao de cordeiro, mas que falavam como dragão. “O grande mérito de Carlos Magno foi sobretudo o do legislador.” (Pierrard, p. 72). “Dedicou-se intensamente à codificação e ao esclarecimento das leis dos diferentes povos sobre os quais reinava, para que tais leis pudessem ser interpretadas com mais facilidade.” No final de sua vida “passou a dedicar a energia que lhe restava à composição de longos sermões, nos quais exortava seu povo à humildade e também à obediência das leis da Igreja.” (Banfiel, p. 70)

Ficou claro. Estas passagens retratam o surgimento do Império Franco, com seu rei Carlos Magno. Ele era o sacerdote-rei de um reino teocrático e legislava tanto no aspecto temporal como no espiritual. Profecia cumprida.
 

E exerce todo o poder da primeira besta na sua presença, e faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada.(Verso 12)

Todo poder da primeira besta na sua presença. Significa governar com a mesma autoridade e no mesmo território do Antigo Império Romano e na mesma linhagem de poder. Não podia governar através do mar onde Roma nunca tinha governado. Novamente, descarta-se qualquer outra nação que não esteja em território europeu, principalmente os Estados Unidos, como algumas interpretações sugerem. A coroação de Carlos Magno como imperador romano é o restabelecimento da linha sucessória dos césares. Como disse Walker, “o ato colocou Carlos Magno na grande linha sucessória que remontava a Augusto.” Portanto, “todo poder da primeira besta”.

Adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada. “Chaga” significa ausência de poder político, ou falta de influência de qualquer ordem. Veja Jeremias 30:17. O fato é que não existia imperador em Roma desde o final do século V, somente em Constantinopla, no Oriente. Roma não tinha influência política. A coroação de Carlos Magno fez renascer a sucessão de imperadores no ocidente, curando a “chaga mortal”, da cabeça ferida para morte da primeira besta. A sociedade européia da Idade Média, que há muito tempo não tinha um imperador, voltava a ser governada como no tempo dos césares, reabilitando o poder de Roma, mesmo que este governo não era sediado na cidade, mas era em “na sua presença”.

Longa vida e vitória a Carlos Augusto, coroado por Deus, poderoso imperador dos romanos e amante da paz! (…) Era o renascimento de uma antiga tradição de acordo com a qual se sagrava o imperador de Roma. Desde o assassinato de Oreste em 476, mais de trezentos anos antes, isso não acontecia. Mas naquele momento Roma escolhia um novo imperador. Nascia, assim, o Sacro Império Romano.” (Banfiel, p. 65)

Voltemos à citação de Walker acima que comprova a restauração de Roma. “Tanto para o povo romano que presenciara a cerimônia como para o Ocidente em geral, era a restauração do império do Ocidente, o qual durante séculos estivera sob o poder do governante sediado em Constantinopla. O ato colocou Carlos Magno na grande linha sucessória que remontava a Augusto.”

Não há dúvida, o Sacro Império Romano era igual ao império dos césares, com a mesma autoridade e no mesmo território. Na verdade, “trazia” de volta aos romanos o Antigo Império, que deveras nunca morrera do coração dos latinos. A “chaga mortal” era curada.

E faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. (Verso 13)

E faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. “Grandes sinais” são grandes acontecimentos históricos. Muitos estudiosos entendem que são curas milagrosas realizadas por seres humanos e que desce fogo literal do céu. Isto não pode ser, pois a besta é um reino, não uma pessoa. Portanto, estes sinais não são curas humanas, ou qualquer coisa do gênero, se referem a outra coisa. Devemos buscar o sentido. Estes sinais foram reformas religiosas e culturais lideradas por Carlos Magno e principalmente pelas abadias de Cluny, Cister e Clairvaux. Pois, os “sinais” estão relacionados com “fogo”.

Então, a palavra-chave a ser entendida é “fogo”. Em muitos lugares da Bíblia a palavra é empregada no sentido de conhecimento e sabedoria. Veja estas passagens em sua bíblia: Daniel 12:3; Mateus 5:14; 13:43; Atos 13:47; João 1:9; II Coríntios 4:6; Mateus 3:11; Lucas 12:49; Salmos 39:3. O fogo literal produz a luz, o brilho. A evolução da cultura é um fenômeno do espírito do conhecimento humano e também é retratada literalmente como luz, brilho etc. Os sinais operados pela besta de 2 chifres são as reformas culturais e ascéticas que o imperadores e abades promoveram em contraposição ao mundo de trevas que reinava. Basta entendermos os significado do “fogo” para concordarmos com a história. É muito fácil entender os motivos destas reformas. As invasões bárbaras trouxeram a decadência da cultura romana, dando origem à Idade das Trevas. Poucos homens, naquele tempo, sabiam ler ou escrever, inclusive o próprio imperador Carlos Magno. As trevas se amontoavam sobre o cristianismo. Também, a Igreja estava totalmente corrompida por causa do comportamento de seus clérigos. Muitos bispos eram instituídos por dinheiro, a chamada simonia, e outros com casamentos irregulares, o nicolaísmo. As reformas vieram para corrigir este estado de ignorância do povo e podridão religiosa. A efervescência cultural e religiosa que se espalhou por toda a Europa por volta do ano 1000 é o cumprimento dos “grandes sinais” operados pela besta que até “fogo” fez descer do “céu”.

As trevas que se amontoavam sobre o cristianismo iam-se tornando cada vez mais espessas à proporção que os anos iam passando, e no princípio do século sétimo a ignorância do clero e a superstição do povo eram extraordinárias. O decreto de Gregório o Grande, pelo qual se impedia a continuação dos estudos profanos, produziu este resultado deplorável, cuja importância se podia avaliar pelo fato de que muitos padres nem sabiam escrever seus próprios nomes. A língua grega estava quase esquecida; até a Bíblia pouco se lia.” (Knigth, p. 90).

Embora fosse um homem de ação e de comportamento rude, Carlos dava muita importância ao desenvolvimento intelectual e ao enriquecimento da alma. (…) Ansioso por difundir o conhecimento, fundou uma escola no palácio para a qual convidou os sábios de todo o reino (…) e usou a própria escola do palácio para treinar professores, que iram se estabelecer nas escolas fundadas nas muitas abadias que havia pelo reino. Essas abadias, residência e lugar de oração dos monges, eram também centros de cultura e conhecimento.” (Banfiel, p. 51)

Já é suficiente para entender que este “fogo” é o conhecimento disseminado pelo Sacro Império Romano. Mas, veja estas citações em que o próprio historiador coloca a cultura como um brilho. Os destaques são nossos.

Quando Carlos Magno subiu ao trono, as escolas mais importantes da Europa ocidental eram ligadas aos mosteiros das Ilhas Britânicas. Foi na Inglaterra que o genial monarca mandou buscar o seu principal assistente intelectual e literário. Alcuíno (735?-804), que havia estudado em York, onde provavelmente nasceu. De 781 até a data de sua morte, excetuados breves períodos de interrupção, foi o principal auxiliar de Carlos Magno na obra de promoção de um verdadeiro renascimento da cultura clássica e bíblica, a qual atribuiu ao reinado um brilho jamais visto antes, e elevou a vida intelectual do Estado Franco.” (Walker, p. 268)

Carlos Magno reinou durante uma época que, devido à decadência acentuada na educação, nas artes e na ciência, ficou conhecida na História como Idade das Trevas. Mas, naquela longa noite de barbarismo, seu reino fulgurou com uma tocha incandescente, iluminando a escuridão. O incentivo à difusão do conhecimento, da ciência e da literatura, os esforços para tornar a Igreja um centro de unidade e cultura, a consolidação das leis e dos hábitos diferentes culturas existentes no seu império, tudo isso deixou uma marca indelével nas gerações que o sucederam”. (Banfiel, p. 77) “No entanto, na medida em que se tornava mais evidente a derrocada do império de Carlos Magno, desvaneciam-se não só essas controvérsias, como também a vida intelectual da qual haviam brotado. Por volta de 900, um novo barbarismo extinguiu quase que por completo a luz que brilhara um século antes.” (Walker. p. 271)

Mas havia algo a mais neste “fogo”. Ele descia do “céu”. E o que isto acrescenta? Que este “fogo” está relacionado com o celestial, com coisas divinas. Neste caso, especificamente, o ensino da teologia bíblica, e de certa forma, também com a vida ascética dos monges. O ensino da teologia nas abadias e catedrais fez surgir um movimento chamado escolasticismo, que foi um método de estudo da Bíblia com base nas filosofias platônicas. O escolasticismo é o “fogo” que desceu do “céu”.

Era um método de pesquisa filosófica e teológica que objetivava uma melhor compreensão dos preceitos cristãos pelo processo da definição e da argumentação sistemática (…) Os escritos de Aristóteles (traduzidos do grego para o latim por Boécio) e de Santo Agostinho tiveram papel de destaque no desenvolvimento do pensamento escolástico.” (Nova Enciclopédia Ilustrada Folha, v. 1, p. 306)

Vamos ver algumas passagens da história que comprovam isso. “A preocupação [de Carlos Magno] com a educação dos francos se devia em grande parte à importância que dava ao bem estar espiritual e moral, e um dos principais objetivos das escolas que fundara era divulgar a leitura da Bíblia.” (Banfiel, p. 54) Mais tarde, “por volta dos primeiros anos do século X, iniciava-se um verdadeiro reavivamento ascético da religião. Durante mais de dois séculos esse reavivamento haveria de crescer em força. Seu primeiro exemplo eminente foi a fundação, em 910, do mosteiro de Cluny.” (Walker, p. 283) Por volta do século XIII, “seguindo o espírito geral da época, as escolas em vários lugares se associaram: formaram professores e alunos uma corporação, com o nome de universidades. A primeira de todas, e mais célebre, foi a de Paris, que chegou a ter muitas centenas de alunos, procedentes de diversos países. (…) Começadas no fim do século XII, as universidades logo se multiplicaram: em menos de dois séculos contavam-se na Europa cerca de cinqüenta…” (Silva. p. 215) “E com este aumento, iniciou-se a aplicação dos métodos da lógica ou da dialética na discussão dos problemas teológicos, o que resultou em novo e fértil desenvolvimento intelectual”. (Walker, p. 232)

Entre discórdias e diversos pontos de vista teológicos, a filosofia neoplatônica foi aplicada ao estudo da Bíblia. “Uma combinação do uso moderado do método dialético com intenso misticismo neoplatônico se encontra na obra de Hugo de S. Vitor (1097-1141)”. O método filosófico do estudo de Deus tomou conta em São Tomás de Aquino. “Segundo Aquino, com quem o escolasticismo alcançou o apogeu, o alvo de toda investigação teológica é proporcionar conhecimento de Deus e da origem e destino do homem. Esse conhecimento se obtém, ao menos em parte, pela razão – teologia natural. Entanto essa conquista da razão não é completa. É necessária que seja ampliada pela revelação. Esta se encontra nas Escrituras, que são a única autoridade final. São elas, porém, entendidas à luz da interpretação dos concílios e dos Pais.” (Walker, p. 343)

Os “grandes sinais” operados pela besta são as reformas culturais no Santo Império Romano. Sendo grandes, são notáveis na história. Estes sinais são as reformas carolíngia e cluniense que a História registra como os feitos mais fabulosos ocorridos no seio do Sacro Império. Ela fez “fogo” descer do “céu à terra, à vista dos homens”, significando que eles seriam iluminados por conhecimentos relacionados com o divino, porém, mas estes não se baseavam unicamente na Bíblia, mas em filosofia humana.


 

FIM

E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. 2 Pedro 1:19


[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_Romano_do_Ocidente

[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Queda_do_imp%C3%A9rio_romano

[3]http://pt.wikipedia.org/wiki/Justiniano_I

[4] https://www.trabalhosfeitos.com/ensaios/. Acessado em 06/02/2021.

[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Justiniano. Acessado em 06/02/2021.

[6] Idem.

[7] Idem.

[8] Idem.

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Segundo_Concílio_de_Constantinopla. Acessado em 20 fev, 2021.

[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Corpus_Juris_Civilis. Acessado em 27 fev, 2021,

[11 https://www.sohistoria.com.br. Acessado em 27, fev 2021.

[12] https://pt.wikipedia.org/wiki/Cruzada. Acessado em 27 fev, 2021.

[13] http://pt.wikipedia.org/wiki/Inquisição. Acessado em 27 fev, 2021.

[14] https://portalcafebrasil.com.br. Acessado em 27 fev, 2021.

[15] Knight, A. E.; Anglin, Willian. História do cristianismo. Terezópolis, 1995, p. 270, 271.

[16] Wikipedia.

[17] PAPA INOCÊNCIO III. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: Acesso em: 8 nov. 2020.

[18] PAPA INOCÊNCIO III. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: Acesso em: 8 nov. 2020.

[19] PAPA INOCÊNCIO III. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: Acesso em: 8 nov. 2020.

[20] https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Católica. Acessado em 03 de abr de 2021.

[21] https://pt.wikipedia.org/wiki/Império_Romano_do_Ocidente. Acessado em 03 abr de 2021

[22] Para melhor entender as profecias, conheça o estudo: Símbolos em profecia.

[23] Conheça a versão ampliada do estudo A besta de 2 chifres. Nele você terá contato com mais argumentos e depoimentos da história.

[24] Para melhor entender, conheça o estudo: A besta de Apocalipse 17.

[25] Conheça o estudo: As bestas de Daniel e Apocalipse.

  

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