A preexistência de Cristo

Introdução #

Este estudo não tem como meta exaurir todas as questões envolvendo o tão discutido tema: a preexistência de Cristo, historicamente parte essencial da Cristologia (Estudo de Cristo), haja vista que desde os primórdios do cristianismo este assunto tem sido frequentemente questionado sem que seus interlocutores chegassem a uma conclusão clara e definitiva. Pelo contrário, tem-se criado cada vez mais controvérsias insolúveis. Ao longo desse debate, gerou-se uma imensa quantidade de material que torna a dissecação do assunto quase impraticável. Mesmo diante de tal dificuldade, aqui serão analisadas todas as principais questões envolvidas, pois a intenção é catalogar os fatos e ideias de tal forma que seja suficiente para a compreensão do assunto. Além do que já existe de conhecimento sobre o assunto, também avançaremos por novas abordagens do tema com intuito de trazer a discussão para centro da verdade, restaurando o desvio teológico que ocorreu ao longo da história. Verdade essa, que podemos sintetizar com a seguinte afirmação: Jesus não existiu como pessoa, anjo, ou Deus antes de seu nascimento de Maria. Ele sempre foi homem.

O deslocamento da verdade sobre Jesus foi propiciado por três fenômenos históricos conectados entre si por uma falsa relação lógica:  1) as ideias filosóficas gregas de Heráclito e Platão sobre o logos; 2) pela contribuição equivocada de Filo de Alexandria para uma filosofia grega/judaica sobre o Logos que contempla-se o pensamento judaico sobre Deus; e, 3) pela aplicação da ideia grega sobre o Logos ao texto de João 1:1 realizada pelos Pais da Igreja.

Os resultados deste processo foram que, primeiro, o platonismo criou um ser, um agente, entre Deus e a matéria; segundo, Filo disse que esse agente era a Palavra de Deus; e, terceiro, os Pais da Igreja disseram que a Palavra de Deus era Jesus. Este processo foi o suficiente para ofuscar a verdade sobre Jesus por esses longos séculos do cristianismo.

De tudo isso, resultou que Jesus era preexistente. Esta ideia da preexistência se assenta em três afirmações que os defensores pensam encontrar base bíblica: 1) Jesus é Deus; 2) Jesus estava com o Pai no céu; 3) Jesus existia antes da fundação do mundo.

A origem destas três afirmações se encontra num único texto bíblico: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (João 1:1). Comparando: 1) O “Verbo era Deus” é igual a dizer Jesus é Deus; 2) O “Verbo estava com Deus” é igual a dizer que Jesus estava com o Pai no céu; 3) “No princípio era o Verbo” é dizer que Jesus existia antes da fundação do mundo. O que levou os Pais da Igreja a chegar a tais afirmações foi associar a “Palavra” (Verbo, ou Logos, no grego) de João 1:1 a Jesus. Mas isso é falso. Jesus não é a Palavra de João 1:1.

Uma breve análise lógica deste texto de João 1:1, a título introdutório (pois será ampliada na terceira parte do estudo), mostra que Jesus é Deus, de acordo com o pensamento predominante no cristianismo: No princípio era o Verbo [Jesus], e o Verbo [Jesus] estava com Deus e o Verbo [Jesus]era Deus. Mas não basta ser lógico, precisa ser verdadeiro. Um argumento lógico pode ser falso ou verdadeiro. Neste caso, é falso porque foi introduzido um elemento extra-bíblico ao texto, o conceito grego do logos e desprezado o conceito judaico. Além de ter sido desprezado seu contexto.

Numa leitura desatenta do texto bíblico parece ser lógico, mas é insuficiente. Esta insuficiência do argumento reside no fato de que basta mostrar que Jesus não é Deus para destruir também as outras duas afirmativas. Menos do que isso, basta apenas mostrar que Jesus não é o Verbo para destruir ao mesmo tempo todas estas três afirmativas sobre Jesus e restaurar a verdade cristológica para seu devido lugar.

Esta afirmação de que Jesus é o Verbo só interessa para os trinitarianos, binitarianos e unitarianos. As ideias de que Deus é composto de três pessoas, que Deus é composto de duas pessoas e o espírito é o agente que deles emana, que Deus é uma pessoa com três manifestações diferentes dependem da falsa ideia de que Jesus é o Verbo. Se Jesus não for o Verbo, nenhuma destas afirmações é verdade.

A verdade apresentada nas Escrituras é que existe uma só pessoa chamada Deus, que criou sozinho todas as coisas pela Sua palavra, inclusive o próprio Filho (Jesus). A palavra de Deus, ou verbo, é a expressão da vontade (planos) e força ativa de Deus na criação. Que Jesus é um homem gerado pela própria palavra de Deus, portanto distinto dEle e de sua Palavra. Jesus não é Deus e Jesus não é a Palavra de Deus. Deus enviou sua Palavra aos homens através de Jesus. Jesus apenas ensinou a Palavra de Deus. Jesus não é Deus e não estava com Deus no princípio.

O desafio que se propõe neste estudo é esclarecer a relação entre a Palavra de Deus, o conceito de Messias (plano divino) e o homem Jesus. O mundo cristão influenciado pela falsa doutrina da Trindade tem dificuldades para distinguir e estabelecer as relações corretas entre estes elementos. Uma coisa é a (1) Palavra [Logos] de Deus que criou todas as coisas. Outra, o (2) conceito do Messias [Cristo], o plano, ou promessa de Deus, oculto nEle, antes da fundação do mundo, para salvar o homem que Ele iria criar. Por fim, é um elemento totalmente à parte, o próprio homem (3) Jesus, gerado por Deus para cumprir o plano divino de levar a Sua palavra ao mundo.

A relação correta entre estes três elementos pode ser simplificadamente assim exposta: Deus, antes de todos os tempos, por Sua (1) palavra criou o mundo e (2) prometeu a Salvação (Cristo). A palavra salvadora de Deus chegou à humanidade na plenitude dos tempos através da pregação do homem (3) Jesus. Esta afirmação não confunde os elementos entre si e expõem a verdade que está na palavra escrita de Deus.

Para trazer tudo isso à luz das Escrituras, dividimos este estudo em três partes, que representam as três argumentações necessárias para destruir o pensamento de Jesus preexistente. A primeira parte, Anterior à Cristologia, trata do surgimento do conceito de logos no mundo helênico. A ideia do logos criado pelos gregos não é em si relacionada com o pensamento judaico e cristão. Ela foi importada por Filo ao mundo judaico e, posteriormente, pelos Pais da Igreja ao Cristianismo. De forma que, sem o movimento desta ideia rumo ao pensamento cristão, não se falaria no cristianismo de Jesus Deus, ou preexistente. Nesta primeira parte, falaremos da origem do logos.

Na segunda parte, A Cristologia, procura-se conhecer as principais ideias cristológicas e seus interlocutores relacionados à preexistência. A discussão cristológica começou com a disputa teológica sobre a substância de Jesus: era Deus, ou era homem? Nesta parte, veremos como a ideia de que Jesus é Deus “suplantou” a afirmação bíblica de que Jesus é um homem ainda nos primeiros séculos da igreja.

A terceira parte, a “preexistência” de Jesus na Bíblia.  Esta parte procura esclarecer biblicamente o erro cristológico sobre a “preexistência” de Jesus. Sua proposta será combater as três principais afirmações cristológicas: Jesus é Deus, Jesus estava com Deus, e, Jesus estava no princípio com Deus. Isto será feito simplesmente argumentando que Jesus não é a Palavra.

O entendimento destas três partes dará clareza, tanto histórica, teológica e bíblica sobre o assunto. Assim, estamos diante de três argumentações que combatem a ideia de Jesus preexistente: 1) o argumento histórico: o conceito da preexistência de Jesus foi elaborado fora da Palavra de Deus; 2) o argumento teológico: os Pais da Igreja atribuíram erroneamente este conceito a Jesus; e, 3) o argumento bíblico: a ideia de que Jesus é preexistente não é confirmada pela Bíblia.

Fundamentos históricos e filosóficos que deram origem à divindade de Jesus #

Vamos nesta parte falar sobre a história do logos. Sua origem e quais os passos percorridos para que este conceito penetrasse no cristianismo. O início de tudo se dá nas religiões pagãs e suas doutrinas, depois o próximo passo foi a filosofia grega, e, por fim, a filosofia judaica. Esta análise histórica vai ajudar a debelar a ideia de que Jesus era um ser preexistente. Nossa argumentação é a de que o conceito da preexistência de Jesus foi elaborado fora da Palavra de Deus.

As religiões pagãs, a imortalidade da alma e as moradas celestiais #

A imortalidade da alma está na base de todas as falsas doutrinas. O primeiro pecado foi consequência da falsa ideia de que o homem não morre.[1] Consequentemente, o pensamento de que o homem vai morar no céu também tem raiz nesta falsa ideia da imortalidade. De fato, no pensamento pagão, ninguém morre, mas vai viver na companhia dos deuses.

O homem natural sempre esteve habituado com a ideia de imortalidade da alma, independente de cultura e época. Os povos pagãos sempre pensaram que as almas boas sobem ao céu a partir de um espaço sagrado. Este espaço pode ser uma montanha, uma árvore, um poste-ídolo, um altar ou um templo, localizado no centro da terra (sempre entendida como plana). Já, as más descem para o abismo e inferno, onde habita o grande dragão em meio ao fogo de tormento. Também faz parte cultura pagã a ideia de que os deuses descem do céu através de uma porta aberta na abóboda celeste para se estabelecer no lugar santificado, ou para encontrar e encarnar no homem santo. As religiões pagãs tem fundamento nestes errôneos pensamentos. Não é por menos que as falsas religiões modernas ainda carregam essas falsas doutrinas: imortalidade da alma, morada no céu e encarnação.[2]

São os pensamentos pagãos de alma imortal e moradas celestiais em companhia dos deuses que sustentam a preexistência de Cristo. Sem eles, o homem nunca teria chegado à concepção de que Cristo existia antes da fundação do mundo na companhia de Deus. Crer na preexistência de Cristo é sustentar estas falsas ideias.

O conceito histórico e filosófico do logos #

O mundo grego, por volta do V século antes de Cristo, começou a elaborar uma concepção mais sofisticada sobre a divindade. Para os primeiros filósofos, o mundo não era obra das divindades, mas um produto de uma razão/ordem universal, o logos. O pai deste pensamento foi Heráclito. Contudo, filósofos posteriores, principalmente, Platão, introduziram ao pensamento de Heráclito a ideia de um agente intermediário entre a razão universal e a matéria. Para eles existiam dois mundos, um material, ao qual nós pertencemos, e outro espiritual, ao iremos pertencer através do alcance da sabedoria. A criação do mundo material e ligação com o mundo espiritual era elaborada pelo agente intermediário, o demiurgo. Este pensamento teve impactos profundos na doutrina cristã.

Para a concepção desta parte histórica do conceito de logos, foi utilizado um trabalho muito bem elaborado, postado no site Em defesa da graça, a Revista de Cultura Teológica, algumas partes da Wikipedia, entre outros endereços web, todos devidamente identificados.

Definição do logos:  “O Logos (em grego λόγος, palavra), no grego, significava inicialmente a palavra escrita ou falada — o Verbo passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Verdade e da Beleza.”[3]

Importante prestar atenção nestas definições. O logos em seu conceito primeiro é a palavra-ação e em seu conceito posterior é a razão. Há, portanto, duas principais definições para o logos no pensamento grego. Uma em que logos é a palavra falada e a outra que é a razão. Devemos separar essas definições. Foi a aplicação da segunda em João 1:1 que causou toda a confusão. Vamos para a história.

Heráclito #

Heráclito (535 a.C – 475 a.C), filósofo, é a origem e inspiração do conceito do logos que permeou a discussão cristológica e serviu para definir a essência e personalidade de Cristo.

Para ele:

“[…] todas as coisas estavam em um determinado curso, e […] nada permanece da mesma maneira. Entretanto, a ordem e o padrão podem ser percebidos em meio ao fluxo e aos refluxos eternos e incessantes das coisas no Logos – o princípio eterno de ordem no universo.” Ele mantinha ainda que “o Logos, por trás de qualquer mudança duradoura, é que faz com que o mundo se torne um cosmos e um todo ordenado” (LADD, 2009, p. 357.)[4]

Heráclito, de certa forma, dispensou os deuses para se concentrar numa razão, lógica, que governava o cosmos. Seu conceito, podemos dizer, não é nem pagão e nem sagrado.

Platão #

Platão (428/428 – 348/347 a.C) é mencionado neste estudo devido sua influência sobre a teologia cristã.  “Para ele: Deus mantinha ligação com o mundo sensível através do Logos, a razão universal”, (2010, p. 51). [5] E, “segundo proposto por Cullmann, ‘esta concepção filosófica do Logos ocupa um lugar essencial na história longa e complicada deste termo, pois influenciou ao menos na forma, as idéias judaicas e pagãs tardias de um Logos mais ou menos personificado’ (2008, p. 330).” [6]

Platão, entre outras coisas, explica a relação do Deus transcendental com a matéria através de um agente identificado por ele como “demiurgo”.

“[…] A meta perseguida pelo demiurgo platônico é o bem do universo que ele tenta construir.[94] Este bem é recorrentemente descrito em termos de ordem,[95] Platão descreve o demiurgo como uma figura neutra (não-dualista), indiferente ao bem ou ao mal,[96]”.[7]

De Heráclito a Platão, a razão impessoal começa a ser tornar o logos pessoal.

Filo de Alexandria #

Enquanto Heráclito é a origem, Platão a grande influência, Filo de Alexandria é a figura central do processo de desenvolvimento do conceito do logos no judaísmo e cristianismo.

Nascido em Alexandria (20-25 a.C.), de acordo com Lopes (2007, p. 83), “Filo era um judeu praticante, da Diáspora”, que teria morrido entre 42 e 50 d.C.[7] Ele foi […] contemporâneo de Herodes, o Grande, dos sábios rabínicos como Gamaliel, Hilel e Shamai, e ainda de Jesus e de Paulo” (LOPES, 2007, pp. 83, 84). Bem versado na Septuaginta e nas tradições do Judaísmo, Lopez declara ainda que “Filo teve um treinamento completo em filosofia grega” e, “Filosoficamente falando, ele era uma mistura de platonista e estóico, com a predominância do pensamento de Platão” (2007, p. 84).

Relevante para nossos objetivos é o empreendimento de Filo na “[…] extraordinária tarefa de casar a religião judaica com a filosofia helenística” (LADD, 2009, p. 358). Filo defendia “[…] a perspectiva grega de um Deus completamente transcendente e separado do mundo; e utilizou o conceito do Logos para prover uma forma de mediação entre o Deus transcendente e a criação” (LADD, 2009, p. 358).

O Lógos, ou Razão, conforme concebido por Filo é, portanto, “[…] o mesmo que o<<demiurgo>> de Platão”, ou seja, “O princípio de mediação entre Deus e a matéria […], no qual estariam comprimidas todas as idéias das coisas finitas, e que teria criado o mundo material, fazendo estas idéias penetrarem na matéria”, ou ainda, “[…] é a razão divina e universal, a razão imanente, que contém dentro de si mesmo o ideal universal, mas que ao mesmo tempo, é a palavra expressa, que procede da parte de Deus e que se manifesta neste mundo em tudo quanto aqui existe” (CHAMPLIN, 2008, p. 900). Por esta razão, Ferreira e Myatt (2007, p. 509) resumem o pensamento de Filo acerca do Lógos como “[…] a emanação divina que intermediou a criação do universo”.

Assim sendo, vendo o Lógos como “[…] a manifestação que Deus faz de si mesmo neste mundo”, Filo entendia que “ao revelar a si mesmo, Deus poderia ser chamado de Logos”, e “[…] o Logos, na qualidade de agente revelador de Deus, poderia ser chamado de Deus” (CHAMPLIN, 2008, p. 900). [8]

Está nítida a influência da filosofia grega sobre o pensamento de Filo. Um judeu que queria ficar de bem com a comunidade judaica, mas sem perder o prestígio da sabedoria grega. Ele abriu a porta para o pensamento grego avançar sobre a teologia cristã. O resultado já conhecemos.

Judaísmo #

A história da influência do conceito do logos no judaísmo se “divide” em dois períodos: o remoto e o tardio. No judaísmo remoto, o conceito não se deriva de uma filosofia, mas de um símbolo cultural. Enquanto no tardio, sofre influência da concepção do logos elaborado pelos gregos.

No judaísmo remoto, logos é a palavra-ação como descreve a Revista de Cultura Teológica da PUC, páginas 34 e 35:

O livro de Gênesis 1 e 2 nos apresenta todo o relato da criação que tem como ponto de partida a Palavra de Deus, palavra que é ação, verbo, capaz de criar todas as coisas. Verificamos a mesma realidade no Salmo 33,6.[9]

Ainda podemos ver que:

Na LXX (SEPTUAGINTA), o termo LOGOS (em hebraico: DAVAR) foi usado com freqüência para descrever as declarações de Deus, e as mensagens dos profetas – por meio da qual Deus comunicou Sua vontade ao Seu povo. LOGOS ocorre em ambos os livros dos profetas maiores e menores, como uma figura de expressão que designa a atividade de Deus ou sua ação.[10]

Conforme estas definições históricas, logos no judaísmo mais antigo é a palavra-ação de Deus. Já, no judaísmo tardio, debaixo da influência das concepções filosóficas gregas, principalmente em Filo, o logos é apresentado mais ou menos como se fosse um ser. O site Em Defesa da Graça, diz:

É digno de nota que, embora não devamos permitir que a analogia da terminologia nos induza “[…] a identificar a concepção de Logos atestada no judaísmo tardio, ou mesmo a do Evangelho de João, com a da filosofia grega” (CULLMANN, 2008, p. 330), segundo proposto por Cullmann, “esta concepção filosófica do Logos ocupa um lugar essencial na história longa e complicada deste termo, pois influenciou ao menos na forma, as idéias judaicas e pagãs tardias de um Logos mais ou menos personificado” (2008, p. 330).[11]

Devemos especial atenção aqui, o logos praticamente ganha status de pessoa, e foi esta concepção que ofuscou o entendimento das verdadeiras características de Cristo durante a Era Cristã. Não há nenhuma prova de que João se baseou na concepção filosófica de razão universal para usar a palavra logos no seu evangelho. É certo que ele a usou no seu sentido original de palavra-ação. João conhecia muito bem Deus e seu Filho. Não faria mistura e confusão de termos. João jamais importou o conceito dos gregos.

Estoicismo #

O Estoicismo, uma religião presente no tempo da Igreja Primitiva, adota em sua teologia o conceito do logos, aproximando-o de “Deus”.

Para o estoicismo, que “por sua vez, teve origem com Zenão de Cício (263 a.C.) […] Sua doutrina do Logos o concebia como a razão impressa na estrutura do universo e também como a fonte de energia de todas as coisas” (GRANCONATO, 2010, p. 51), ou, como o expressou Cullmann (2008, p. 330), “O Logos aí é a lei suprema do mundo, que rege o universo e que, ao mesmo tempo, está presente na razão humana. Trata-se pois de uma abstração e não de uma hipóstase”. Uma espécie de “alma impessoal e panteísta do mundo”. É, portanto, muito natural a declaração de Ladd (2009, p. 357) de que “o Logos era um dos elementos mais importantes na teologia estóica”. Foi esta idéia do Lógos que “os estóicos usaram […] para prover a base para uma vida moral e racional” (LADD, 2009, p. 357) [12]

O pensamento estóico é influenciado pela filosofia grega. Esta aí um logos que não é um deus, nem matéria, é uma lei, e está presente na razão humana e serve para diretrizes morais. Este pensamento, porém, não se aproxima tanto do judaísmo como o pensamento elaborado por Filo, visto que esta não era uma religião judaica.

Gnosticismo #

O gnosticismo era um sistema religioso baseado no conhecimento, cuja salvação vem através do alcance da sabedoria. Gnosis significa conhecimento. Pouco se sabe sobre sua origem. As informações dão conta que surgiram pelo mesmo tempo do cristianismo, ou um pouco antes. Mas, o que nos interessa é sua doutrina. É muito provável que o apóstolo João escreveu sua terceira carta contra as doutrinas do gnosticismo. A partir do pensamento gnóstico é fácil entender o seu combate aos anticristos que surgiram pelo mundo, dizendo que o Jesus não veio em carne.

Assim no pensamento gnóstico Jesus é “uma encarnação do Ser Supremo para trazer a gnōsis para a terra.[21] “ “Este segundo deus é um deus menor, inferior ou falso. Esse deus criador é comumente referido como o demiourgós.[19] O demiurgo gnóstico apresenta semelhanças com as figuras de Platão em Timeu e A República.

O termo Demiurgo deriva da forma latinizada do termo grego dēmiourgos (δημιουργός), literalmente, “artesão”, “alguém com habilidade específica”, de dēmios do povo, popular (dēmos, pessoas ou povo) e ourgos, trabalhador (ergon, trabalho).[37] No gnosticismo, o Demiurgo não é Deus mas o arconte ou chefe da ordem dos espíritos inferiores ou éons.[13]

Aí está uma pequena citação sobre o gnosticismo da qual podemos tirar uma breve conclusão. Nascido ao mesmo tempo da igreja primitiva, sob influência da filosofia grega que rezava “que somente aqueles que fossem amantes da sabedoria, teriam permissão para viver na companhia dos deuses”, o gnosticismo combateu severamente a principal doutrina cristã da imortalidade apenas através do sacrifício de Cristo. Esta doutrina cristã era um incomodo para o gnosticismo. Então, para eles, Jesus era apenas a forma como a sabedoria “encarnou” e chegou à terra. Jesus seria a razão, o conhecimento, a sabedoria, não um homem de carne e osso. Não é sem razão que o apóstolo João combateu o espírito do anticristo porque tal dizia que Jesus “não veio em carne”.

O gnosticismo não foi o responsável direto pela introdução do conceito do logos no cristianismo, mas ele preparou o terreno para o debate teológico que se seguiu à morte dos apóstolos. Foi o combate às doutrinas gnósticas que fez os pais da igreja perder a base de seus argumentos. Ao invés de centrarem nos escritos bíblicos, se posicionaram na filosofia grega, mais especificamente nos conceitos judaico-helênicos de Filo de Alexandria. O desvio teológico estava prestes a acontecer.

Cristianismo #

O conceito do logos no cristianismo é uma fusão da concepção judaica tardia (em Filo) e as concepções filosóficas gregas platônicas, e, em certo grau, influência por tabela do gnosticismo. Estes conceitos foram erroneamente aplicados ao texto de João 1:1, gerando uma sequência de afirmações falsas sobre Deus, Jesus e da relação entre eles.

Teólogos cristãos geralmente consideram que João 1:1 como o principal texto para suportar a crença de que Jesus é Deus, considerando a ideia de que o Paio Filho e o Espírito Santo são iguais. Embora seja unicamente neste versículo que Jesus é chamado de “Verbo de Deus”, o tema aparece por todo o Evangelho de João em variadas formas[2].

Embora o termo Logos não apareça como um título além do prólogo, todo o livro de João defende este argumento básico. Sendo o Logos, Jesus Cristo é Deus auto-revelado (Luz) e a redenção (Vida). Ele é Deus presente para o homem e por ele conhecido. Tomé o reconheceu como Deus quando duvidou de sua ressurreição (João 20:28), mas o Logos também é, de alguma forma, diferente de Deus, pois como disse João, “…estava com Deus”. Deus e o Logos portanto não são dois seres e, por outro lado, não são simplesmente idênticos. Este aparente paradoxo permeia os evangelhos. Deus, quando age e se revela, não “exaure” o que Deus é e isto aparece em várias frases de Jesus:

«Eu e meu Pai somos um.» (João 10:30)

«…o Pai é maior do que eu.» (João 14:28)

Assim, o Logos é Deus ativo na criação, revelação e redenção. Jesus Cristo não apenas traz a palavra de Deus aos homens, ele “é” a palavra, o “Verbo”[3]. E este entendimento é o que foi proclamado no Credo niceno-constantinopolitano, resultado do Primeiro Concílio de Constantinopla em 381[4].

O teólogo Stephen L. Harris alega que João teria adaptado o conceito de Fílon de Alexandria sobre o Logos, identificando Jesus como uma encarnação do Logos divino que formou o universo[5] (cf. Provérbios 8:22-36).

Dá para entender sem muito esforço: o conceito do logos foi importado da filosofia. Os teólogos pensam que João usou o termo logos mais ou menos de acordo com o conceito grego e aplicou em seu texto [João 1:1], como diz parte da citação acima: “embora seja unicamente neste versículo que Jesus é chamado de ‘Verbo de Deus’”. Errada a aplicação do conceito filosófico ao texto e errado o pensamento que o texto afirma ser Jesus a palavra. Portanto, Jesus não é Deus na criação, nem a palavra que traz a palavra. Muito menos isto é um paradoxo que “permeia o evangelho”. Não há confusão no texto bíblico de João. O que causa a confusão na mente da maioria dos cristãos é aplicar um conceito extra-bíblico ao texto bíblico. É querer pensar como um grego, sendo um judeu.

Conclusão #

Esta parte sobre história antecedente à discussão cristológica merece uma síntese. A religião pagã com sua ideia de alma imortal é a base da falsa doutrina da preexistência de Cristo. O conceito natural do logos é o de palavra-ação. Seu segundo conceito, o filosófico, é o de razão universal. O filósofo grego Heráclito trabalhou este segundo conceito. Sua definição de logos destituiu a ideia de que vários deuses trabalhavam em prol de manter a ordem no universo, como pensava a religião pagã, e a substituiu por uma razão universal que tudo governa. Em Platão, surge a ideia de um ser, um agente, um demiurgo fazendo a mediação entre a razão universal e a matéria. Filo procurou estabelecer um elo entre a filosofia grega e pensamento judaico sobre Deus e o cosmo. Daí que, para não ferir a crença judaica de um Deus criador, reduzindo-O a uma mera lei racional, sem dispensar a filosofia grega, aceitou a ideia de Platão sobre o demiurgo, equiparando-o com o logos (judaico) de Deus. O logos de Deus, agora é, um agente entre Deus e a matéria. Assim, Filo agradou a gregos e a judeus. Pronto, as bases para a confusão cristológica que se seguiu nos primeiros séculos da Igreja estavam preparadas.

No bojo destes acontecimentos, quatro sistemas religiosos absorveram partes destes conceitos. No Judaísmo isso se divide em dois momentos. Primeiramente, o conceito de logos é simplesmente “davar” (hebraico), palavra criadora, palavra dos profetas. Depois, sob influência grega, é o logos, a palavra personalizada, o Ser. Mas isto aconteceu no judaísmo alexandrino, não no judaísmo bíblico de João. A religião estóica, baseada nestas ideias filosóficas, estabelece doutrinas razoavelmente diferentes do paganismo e mais próximos do Deus judaico-cristão. Isto é um fato! Em Atos 17, Paulo prega em Atenas, “aceitando” o conceito estóico do “deus desconhecido”, como sendo o próprio Deus. O Gnosticismo amalgamou estes conceitos. Ele fez uma fusão (que pode ser chamada de confusão) entre Deus dos judeus, o demiurgo dos filósofos e Jesus dos cristãos, daí resultando uma espécie de salvação pelo conhecimento. Por fim, o Cristianismo é o resultado de tudo o que antes aconteceu. No cristianismo dos primeiros séculos, a aplicação do conceito de logos = razão = demiurgo  invés de Logos = davar = ação criadora a João 1:1 gerou toda a contenda cristológica que persiste até nossos dias.

Assim, vemos que a origem do conceito do logos é um pensamento fora do cristianismo primitivo e fora da Bíblia. A caminhada se inicia em Heráclito, sendo seu próximo passo Platão e o terceiro Filo. Caminhada ajudada pelo estoicismo e gnosticismo. Sendo que o lugar-comum foi o pensamento antigo de que o homem é imortal e irá morar com os deuses.

Como dissemos, nossa argumentação é a de que o conceito da preexistência de Jesus foi elaborado fora da Palavra de Deus. Esta análise histórica pontuou o que é o conceito do logos e sua origem. A ideia de que Jesus era um ser preexistente partiu da aplicação equivocada deste conceito a João 1:1. Nosso argumento histórico é válido.

Na próxima parte, trataremos do debate cristológico em si, isto é, dentro do próprio cristianismo. Veremos como este conceito sobre o logos permeou o pensamento cristão pós-morte dos apóstolos.

A discussão cristológica e a concepção de Jesus como o Verbo #

Vimos anteriormente a origem e o desenvolvimento histórico do conceito do logos. Agora, vamos nos concentrar na história do uso deste termo dentro do cristianismo. A discussão cristológica foi o processo pelo qual o conceito grego do logos foi aplicado ao texto evangélico de João 1:1 e atingiu a pessoa central, Jesus. Os chamados “Pais da Igreja” erraram ao escolher como sentido filosófico grego (logos = razão = agente) em detrimento da concepção judaica (logos [davar] = palavra = ação = criação). Daí gerou-se um amontoado de ideias que tentaram explicar a relação de Deus com o homem. Nada refletiu a verdade.  Vamos ver como isto aconteceu e decifrarmos as estruturas conceituais que daí surgiram. Para isso, avançaremos nosso conhecimento sobre a história cristã do logos e sobre Filo de Alexandria, dado sua influência na formulação da doutrina do logos. Algumas partes extraídas da Wikipedia serão suficientes para compor a visão. Também usamos um texto de igrejadedeussaopaulo.org que sintetiza a história de Filo de uma forma simples e completa para nosso propósito no momento.  Somado a outro texto do site Brasil Escola, nossa compreensão sobre a filosofia de Filo será suficiente para esclarecer a razão de tremenda confusão dentro do cristianismo. Os textos seguem em destaque itálico.

Um pouco mais sobre Filo de Alexandria #

Filo de Alexandria, também conhecido como Filon, o judeu, foi, provavelmente, o maior judeu escritor da diáspora, do primeiro século E.C. Foi o representante mais notável do judaísmo helenístico de Alexandria. Pouco se sabe da vida de Filo. Ele nasceu aproximadamente em 20 a.E.C., numa rica e influente família judaica em Alexandria, no Egito, na época, ficava a maior comunidade de judeus fora da Palestina (cerca de um milhão de judeus podem ter vivido lá). Ele foi educado em todos os aspectos da cultura grega na cidade de Alexandria, onde morou até o fim de sua vida. Ele morreu aproximadamente em 50 E.C., talvez na época em que Paulo estava escrevendo a sua primeira carta aos Tessalonicenses, o primeiro livro escrito para a nova aliança.

Apologética Judeu/Alexandrina #

Como filósofo, Filo, tinha um profundo conhecimento da cultura grega, mas a maioria de suas obras (todas escritas em grego) tem a ver com a interpretação das escrituras hebraicas. Filo era muito respeitado na sua época, e seus escritos tiveram grande influência sobre vários escritores cristãos dos primeiros séculos. Na sua teologia, a fim de explicar a Bíblia, Filo recorria ao método alegórico, que alguns pagãos aplicavam a Homero e à mitologia, cujo objetivo era desvendar, no texto sagrado, sob seu sentido literal, um sentido oculto, profundo e espiritual, em que residia a essência da revelação. À luz dessa interpretação, os episódios e personagens da história bíblica, assim como as prescrições da Lei convertiam-se na expressão simbólica de verdades metafísicas ou morais. Ao que parece, a alegoria foi característica de todo o judaísmo alexandrino, Filo transformou-a em princípio básico de sua exegese. Filo elaborou baseado nas Escrituras um sistema lógico e filosófico, que, embora manifeste bem claramente a influência de diversas escolas pagãs, possui uma estrutura essencialmente platônica. Nele se encontra a mesma oposição entre mundo sensível e mundo inteligível. Entre Deus e o Universo material, Filo concebia uma completa hierarquia de seres intermediários, assimilados ora às ideias platônicas, ora às coortes angélicas, criaturas ou emanações de Deus conforme a crença judaica, que receberam a designação de Potências ou Lógoi. No vértice dessa pirâmide de entes celestes, situa-se o Logos, entendido simultaneamente como um dos lógoi individuais – o mais próximo de Deus – e como uma espécie de ser coletivo, fonte e instrumento da criação, que, sem, contudo ser igual a Deus participa da natureza divina. As interpretações alegóricas de Filo foram fortemente influenciadas pela filosofia de Platão (platonismo). Por maior que se afigure a distância entre a corrente principal do pensamento judeu na Palestina e esse tipo de especulação, em que não há quase lugar para aspirações propriamente nacionalistas e messiânicas, não se encontrava isolado por completo no interior do judaísmo. Verificam-se paralelos em alguns escritos da literatura sapiencial, canônicos ou deuterocanônicos (Provérbios, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico), nos quais a Sabedoria divina personificada apresenta analogias bem precisas com as hipóstases de Filo. A posterior Cabala judaica revela também certas afinidades com as concepções Filonianas. Mas foi principalmente sobre a igreja em formação (cristianismo) que se exerceu a influência do Alexandrino: Filo abriu caminho à teologia cristã. Em grande parte, a popularidade de que Filo gozou entre os cristãos explica o silêncio total que os rabinos mantiveram em torno de seu nome.

Filo e a nova aliança #

O pensamento de Filo apresenta afinidades demasiado precisas com certos escritos da nova aliança para serem fortuitas (casual ou por acaso). Está nesse caso o prólogo do quarto evangelho (João) e sua doutrina do VERBO – o LOGOS grego. Diversos traços atributos do LOGO de Filo encontram-se presentes no LOGO joanino. Aqui, a originalidade essencial do cristianismo, manifesta-se nessa identificação do LOGOS na pessoa de “Jesus”. Não é menos evidente, sem dúvida, que a ideia de explicar “Jesus” em termos de LOGOS (VERBO) ocorreu apenas porque a palavra e o conceito se haviam popularizado no judaísmo alexandrino por intermédio de Filo. Filo, influenciado pela filosofia grega, usa a palavra LOGOS para descrever que um Ser – o mais próximo de Deus – preexistente, foi a fonte e instrumento de toda a criação. A palavra LOGOS (geralmente traduzida por VERBO ou por PALAVRA) é usada da mesma forma no evangelho de João (anos depois da morte de Filo), com um desdobramento considerável ao LOGOS de Filo: no prólogo joanino (João1: 1-14) aqui o LOGOS, do quarto evangelho, ele não apenas participa da criação, como ele é o próprio Deus Criador que se fez carne e habitou entre nós. Um conceito que foi extraído da filosofia grega, conforme veremos na teologia ensinada pelos apologistas ou polemistas dos séculos II e III, e que não há nenhum respaldo nas escrituras hebraicas.Por outro lado, o pensamento filoniano só poderia ter ascendência sobre um cristianismo em vias de helenização, e que, por fim, seu pensamento filosófico e platônico contribuiu decisivamente para configurar a teologia da igreja, notadamente sobre a doutrina da Preexistência/Divindade e Encarnação do Verbo (o LOGOS grego). Em síntese, a apologética judeu/alexandrina, através de Filo, comprovadamente, influenciou e abriu caminho aos apologistas do século II. É o que veremos, resumidamente, apenas alguns deles, onde nas suas doutrinas (teologias), observa-se o amplo emprego de conceitos extraídos da filosofia grega, notadamente sobre a doutrina da Encarnação do Verbo, o LOGOS grego. [1]

A conciliação entre fé e razão para Fílon de Alexandria #

Fílon de Alexandria aproxima a filosofia grega do judaísmo a partir da conciliação entre fé e razão que influenciará a filosofia cristã.As bases da filosofia cristãA difusão do cristianismo, a partir do século I, é o pano de fundo para discussão entre fé e razão que mobilizou muitos filósofos a partir de então. Temos que considerar dois fatores que nos ajudam a entender esse processo:1) Universalidade do cristianismo. A religião cristã, diferente de outras expressões religiosas, tinha o propósito de se tornar universal. Enquanto as religiões costumavam se referir a um povo e a uma cultura, o cristianismo queria converter todos os povos. Esse propósito tem sua expressão nas pregações de Paulo, como podemos notar em Gálatas 3, 28: “Desse modo não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus.”2) Cosmopolitismo de Alexandria. É em Alexandria, no século I a.C., que encontramos uma aproximação entre o judaísmo e a cultura grega que dará origem a uma filosofia cristã. Romanos, egípcios, judeus e gregos conviviam com tolerância religiosa.

Fílon de Alexandria #

É Alexandria que nasceu Fílon, conhecido como “Fílon, o judeu”, que faz uma primeira aproximação entre a filosofia grega e o judaísmo. Tudo o que se sabe sobre sua vida é aquilo que foi trazido pela obra do historiador Josefo. Embora não saibamos muito sobre sua vida, além de que era possivelmente integrante de uma rica família judaica, a obra de Fílon, cerca de quarenta tratados, trouxeram uma grande contribuição para o pensamento dos cristãos posteriores.

Aproximação entre judaísmo e filosofia grega. #

Em seus comentários sobre o Pentateuco (os cinco livros iniciais do Antigo Testamento), há uma tentativa de aproximação entre judaísmo e filosofia grega a partir de uma influência que ele considera, mas nunca comprovada por documentos históricos, ter sido exercida pelo Antigo Testamento e pela tradição mosaica sobre os filósofos. Ele não via distinção entre as preocupações filosóficas com o ser e a physis da Revelação cultivada pela tradição judaica.O historiador Werner Jaeger salienta que não era o objetivo de Fílon converter os gregos da importância da tradição mosaica. Ele se dirigia aos judeus mostrando a importância do pensamento filosófico. Vejamos:“Para nós, Fílon de Alexandria é, evidentemente, o protótipo do filósofo judeu que absorveu toda a tradição grega e se serve do seu rico vocabulário conceptual e dos seus meios literários para provar o seu ponto de vista, não aos gregos, mas aos seus próprios compatriotas judeus. Isso é importante, visto que demonstra que toda a compreensão, mesmo entre gente não-grega, precisava do meio intelectual do pensamento grego e das suas categorias”( JAEGER, 1991, p. 47-48).

Fé e Razão #

Percebemos, a partir desse fragmento, que para Fílon já havia um esboço da tentativa de conciliar fé e razão. Para ele, a Teologia era superior à filosofia, mas a filosofia era indispensável para que não se interpretasse as escrituras de forma literal. A respeito da Bíblia, ele recorre à noção de alegoria: para Fílon, as Escrituras teriam um sentido literal e um sentido oculto. Os personagens e situações que são compreendidos por uma leitura mais superficial escondem significados filosóficos em vários níveis. Para estar apto para essa leitura alegórica das Escrituras, a filosofia era indispensável. Por isso, Fílon considera os filósofos como inferiores aos profetas: para ele, a filosofia não consegue alcançar a perfeição de Moisés e, assim, não optava por uma filosofia em detrimento da outra, pois todas as doutrinas tendiam à imperfeição.Ele diz:“Como as ciências sobre as quais se baseia a cultura geral contribuem para o aprendizado da filosofia, assim também a filosofia contribui para a aquisição da sapiência. De fato, a filosofia é o esforço para alcançar a sapiência, e a sapiência é a ciência das coisas divinas e humanas e das causas destas. Portanto, como a cultura geral é serva da filosofia, assim também a filosofia é serva da sapiência” (FILON, De congressu eruditionis gratia. Apud. REALE. G., História da Filosofia Grega e Romana, p. 232).

Logos de Deus #

Podemos perceber que, para Fílon, há uma distinção entre a atividade de filosofar e a “sapiência”, noção que talvez ele tenha desenvolvido a partir de Aristóteles. A sabedoria, para ele, procede do Logos Divino. O Logos, um princípio a partir do qual Deus opera no mundo, pode ser entendido como:* Uma realidade incorpórea;*Tem um aspecto imanente, pois o mundo sensível é criado a partir dele;* Pode ser entendido como tendo a função de reunir os poderes de Deus, inúmeras expressões da sua atividade;* Também pode ser entendido como a fonte dos poderes ilimitados de Deus; (Fílon cita dois: O poder criativo e o poder régio);* Tem o sentido de “Palavra de Deus”, no sentido criador que aparece no Evangelho de João. Nesse sentido, foi apropriado pelos primeiros cristãos como uma prefiguração de Cristo, ou seja, Cristo seria o Logos de Deus;* Tem um sentido ético como “Palavra de Deus que guia para o bem”;* Por fim, ele entende o Logos como um cosmo inteligível que Deus cria em sua mente para, a partir dela, criar a matéria, ou seja, o mundo físico. Nesse sentido, ele concilia a noção de “mundo das ideias” de Platão ao pensamento religioso: aquilo que Platão se referiu como “ideias”, para Filon correspondia a pensamentos de Deus.

Antropologia de Fílon #

Novamente, em sua concepção de humano, Fílon concilia o pensamento platônico ao pensamento religioso: se para Platão havia a distinção entre corpo, Fílon acrescenta uma terceira dimensão ao humano, a dimensão espiritual.A alma humana corresponderia ao intelecto, material, terreno e corruptível. A alma humana não era imortal nessa concepção, como era Platão. Imortal é o Espírito (pneuma), conferido por Deus e que representa, portanto, o vínculo entre o humano e o divino. A partir dessa divisão, compreende-se que a vida humana teria três possibilidades: uma dimensão física/animal, referente ao corpo; uma dimensão racional, referente à capacidade de pensar da alma-intelecto; uma dimensão espiritual, referente à possibilidade de a alma humana viver segundo o Espírito.Com essa terceira dimensão, a Espiritual, Fílon introduz a moral como parte da filosofia e da religião. A vida feliz, para ele, pode ser pensada a partir da figura de Abraão durante seu exílio: a ideia da realização humana está vinculada a uma espécie de “itinerário para Deus”, ideia que será desenvolvida por Santo Agostinho. O homem precisa, nesse sentido, transcender a si mesmo para se dedicar a Deus, fonte de tudo o que possui.[2] Notadamente, Filo é o ponto de flexão na teologia cristã. Sua filosofia guinou o entendimento dos Pais da Igreja no II e III século. Sem ele, o cristianismo seria outro, dado seu peso, influência e dependência de suas ideias para a teologia. A aplicação de sua filosofia na interpretação de João capítulo 1 desvirtuou o sentido do texto evangélico. O cristianismo com base em Filo e Platão não é o cristianismo bíblico. E o que existe é altamente dependente dele. O que é a Cristologia? Cristologia é o estudo sobre Cristo; é uma parte da teologia cristã que estuda e define a natureza de Jesus, a doutrina da pessoa e da obra de Jesus Cristo, com uma particular atenção à relação com Deus, às origens, ao modo de vida de Jesus de Nazaré, visto que estas origens e o papel dentro da doutrina de salvação tem sido objeto de estudo e discussão desde os primórdios do cristianismo.[3]

Eixo central da Cristologia #

A Cristologia tem sido debatida incansavelmente durante séculos, em várias nações, dentro de várias correntes cristãs, com pontos de vista semelhantes, divergentes e mesmo com algumas controvérsias. Alguns aspectos deste assunto muito debatidos no eixo central da cristologia no decurso da história do cristianismo são: A Natureza divino-humana de Jesus (União hipostática; A Divindade de Jesus; A Humanidade de Jesus; A Encarnação; […][4] etc, Entre outros.

Dois lados de um conflito #

Talvez a disputa mais antiga dentro do cristianismo centrou-se sobre se Jesus era Deus. Esta longa discussão iniciou-se com duas posições bem distintas: Jesus homem versus Jesus Deus. Um número de cristãos primitivos acreditavam que Jesus não era divino, mas fora simplesmente o Messias humano prometido no Antigo Testamento, tal como o vê os fariseus contrariamente à vista mais geral dos outros judaico-cristãos. E: Uma explanação alternativa é que eram uma oposição às doutrinas dos Cristãos Gnósticos que afirmavam que Jesus Cristo teve somente a ilusão de um corpo humano e, assim, nenhuma ancestralidade humana, como o via o docetismo. A disputa iniciou-se nessa divergência, mas logo foi abandonada para centrar-se na definição da natureza de Jesus. Apenas parte da cristandade se ateve a ideia da humanidade de Jesus. Rapidamente, esta parte foi considerada como herética pelos demais que se “consideravam” de acordo com os apóstolos. A opinião de que Jesus era somente humano, como afirmava o adopcionismo, foi oposta por líderes da igreja tais como São Paulo, e veio eventualmente a serem aceitas somente por seitas como a dos ebionitas e (de acordo com São Jerônimo) dos nazarenos, mas logo subjugadas pelas igrejas ortodoxas de uma forma ou outra. A partir de então, a discussão já não estava mais centrada na divergência de naturezas de Cristo (homem ou Deus), mas sobre qual era a sua natureza como Deus e como poderia ser explicado a relação homem-deus/deus-homem. Porém, é bom ter em mente que isto se deu entre as chamadas igrejas ortodoxas e ficaram de fora aquelas que defendiam a natureza humana. O assunto Jesus homem não fez parte da disputa cristológica, por isso, pode ser definido de antemão que nenhum dos conceitos obtidos são ativos de verdade.

Natureza de Cristo #

A partir da ideia de que o logos (palavra) de João 1:1 é um agente entre Deus e a matéria, conforme elaborado por Filo, surgiram vários pensamentos e conceitos. Vamos destacá-los de forma lógica, ou seja, as ideias em progressão, partindo da humanidade até a divindade de Jesus. Ebionismo: crê em Jesus como um profeta, nascido de Maria e José, que teria se tornado Cristo no ato do batismo. Elcasaismo: recusam a divindade de Cristo, consideram-no o último dos profetas e chamam-lhe anjo Jesus. Monofisismo: segundo o qual Cristo teria uma única natureza composta da união de elementos divinos e elementos humanos. Miafisismo: defende que em Jesus Cristo há a natureza humana e a natureza divina, mas que estas duas naturezas se unem natural e completamente para formar uma única e unificada Natureza de Cristo. Nestorianismo: segundo a qual Jesus Cristo é, na verdade, duas entidades vivendo no mesmo corpo: uma humana (Jesus) e uma divina (Cristo). Docetismo: defende que Jesus era um mensageiro dos céus e que seu corpo era “carnal” apenas na aparência e sua crucificação teria sido uma ilusão. Arianismo: crê que Jesus, apesar de um ser superior, seja inferior ao Pai sendo uma criatura sua. Sabelianismo: defende que Jesus e Deus não eram pessoas distintas, mas sim “aspectos” ou “modos” diferentes do trato da Divindade com a humanidade. Trinitarianismo: crê em Jesus como a segunda pessoa da Trindade divina.

As principais cristologias #

Óbvio que os descritos acima não representam a totalidade dos pensamentos que surgiram sobre a pessoa do Cristo. Muitos ficaram de fora, principalmente aqueles que refletiam a verdade. Acima estão apenas aqueles que por circunstâncias históricas obtiveram destaque. Depois de certo tempo, estes pensamentos se reúnem em torno de três escolas que obtiveram supremacia: ortodoxa, monofisita e ariana. Sendo que posteriormente, prevalece a ortodoxa, com a proclamação de anátema sobre as demais.

Ortodoxa #

A Cristologia ortodoxa, defendida pelas Igrejas CatólicaOrtodoxas e protestantes, tem por base o Concílio de Calcedônia (em 451 d.C., o qual estabelece as bases desta corrente, na qual o Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem (união hipostática) e se apresenta em duas naturezas sem distinção, indivisíveis e inseparáveis, de tal forma que as propriedades de cada uma permanecem ainda mais firmes quando unidas numa só pessoa. Para os defensores desta cristologia, o termo “Filho de Deus” aplicado a Jesus deve ser interpretado com a natureza de Deus, gerado já desde o início de tudo e, portanto co-eterno.

Monofisita #

Discordando da Cristologia Ortodoxa, os miafisitas afastaram-se para compor as Igrejas ortodoxas orientais da Síria, da Armênia, do Egito, da Etiópia e da Índia do Sul. Para eles a natureza divina em Jesus era muito mais forte e preponderante daquela natureza humana. Mas, estas mesmas Igrejas dissidentes rejeitam o rótulo de monofisita, porque elas afirmam que defendem na verdade o miafisismo, que é a crença de que em Jesus há a natureza humana e a natureza divina, mas que estas duas naturezas se unem para formar uma única e unificada Natureza de Cristo. Estas Igrejas afirmam que o miafisismo é diferente do monofisismo, mas esta doutrina cristológica igualmente se diverge da doutrina ortodoxa da união hipostática.

Ariana #

arianismo, que recebeu este nome por ser derivado da doutrina de Ário, apresenta uma distinção clara entre o Cristo e o Logos como razão divina. O Cristo é apresentado como uma criatura pré-temporal, super-humana, a primeira das criaturas, não Deus, porém mais que homem. “O logos é a própria razão divina a qual Deus pai admitiu sair de si mesmo sem a diminuição do seu próprio ser.” (Justino Martir)

Credos #

Dois são os conceitos sobre Jesus: o apostólico, aquele que está na Bíblia, e o cristológico, resultado do longo debate. O debate cristológico culminou em dois momentos que fixaram o conceito da divindade de Cristo, suprimindo os demais pensamentos e condenando-os ao anátema. O primeiro foi Niceia, 325, e o segundo Constantinopla, 389.

Apostólico #

O conceito apostólico sobre a pessoa de Jesus é encontrado ao ler as páginas bíblicas. Não é intenção defini-lo por completo aqui porque será amplamente debatido na próxima parte. Por ora: Jesus é o Filho do homem, prometido por Deus através dos profetas, descendente de Davi, Rei de Israel, nasceu de Maria, aprendeu a obediência, viveu sem pecar, morreu pelos pecados do mundo, ressuscitou ao terceiro dia, ascendeu aos céus e está à direita de Deus, como homem e Senhor.

Niceno #

O conceito niceno reza que Jesus é: o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por quem foram feitas todas as coisas que estão no céu ou na terra. O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem.[5] Como se vê, esta definição se apresenta radicalmente diferente ao exposto logo acima. Mais do que isso, havia uma forte ameaça a quem se prontificasse definir Cristo em outros termos. E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica.[6]

Constantinopla #

A partir de Constantinopla, crê-se: Em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por quem, foram feitas todas as coisas. O qual por nós homens e para a nossa salvação, desceu dos céus: se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem.[7]

Conclusão #

Em resumo, a Cristologia, foi o amplo debate que envolveu, entre outras coisas, a natureza de Jesus. Começou após a passagem dos apóstolos e a aplicação pelos Pais da Igreja do conceito filosófico de Filo de Alexandria, que rezava ser o logos (grego) comparável ao davar (hebraico) ao texto de João 1:1. A ideia cristã de que Jesus é preexistente depende profundamente de Filo. O debate se estendeu por vários séculos. Iniciado no dilema entre Jesus homem e Jesus Deus teve rápida ascenção para o tema: a substância de sua natureza divina. Vários pensamentos surgiram, entre eles, Jesus é apresentado como profeta, anjo, mensageiro, como possuindo uma ou duas naturezas (humana e divina), duas entidades, superior aos anjos, criado por Deus, modo da manifestação de Deus, e, por fim, a tese vencedora, Jesus como segunda pessoa da Trindade. Deste emaranhado de conceitos, três escolas se firmaram na luta pela definição da natureza de Cristo: ortodoxa, monofisita e ariana. A ortodoxa, como o próprio nome diz, sobressaiu e foi marcada por dois momentos, Niceia e Constantinopla, que definiram a sua natureza com base no conceito do logos. Jesus obteve natureza divina, da mesma substância do Pai e tão eterno como Ele. Jesus passou a ser preexistente contrapondo à Bíblia que o apresenta apenas como o homem, nascido de mulher. Esta parte teve como objetivo mapear a história do debate teológico mais importante do cristianismo. Depois de conhecermos um pouco da história do conceito do logos, vamos ao debate bíblico propriamente dito e ver que este conceito de logos não se encaixa no texto. Foram os “Pais da Igreja” que introduziram o conceito grego para definir a natureza de Jesus. Não é bíblica a ideia de que Jesus existia antes do seu nascimento de Maria.  

Os contra fundamentos bíblicos sobre da preexistência de Jesus #

Esta é uma análise hermenêutica que busca encontrar o tema central do evangelho joanino. A análise se concentra em torno de três palavras-chaves que estruturam o texto: Ensino, Glorificação e Crer.

O tema central do Evangelho de João #

A essência do Evangelho de João é mostrar que a palavra de Deus chegou aos homens através da pregação do Messias. Compreender a temática de João poderia ser feito de forma simples ao ler o versículo: […] Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome, (João 20:31). Deste texto, deduz-se que o tema central do Evangelho de João é mostrar que Jesus é o Messias, aquele que trouxe a palavra de Deus. Contudo, a interpretação dada pelos filósofos da igreja do segundo ao quinto século trouxe uma nuvem negra de confusão sobre a linguagem usada por João. É o pensamento destes primeiros interpretes que tem predominado ao longo da história do cristianismo e tem dificultado o entendimento do livro. A aplicação do conceito grego ao texto de João 1 levou  à mudança de sentido do objetivo do escrito joanino. O conceito judaico do Logos de João capítulo 1 é o de uma ordem, comando criador, emitida pela “boca de Deus” para a criação de todas as coisas. Já, o conceito grego é o de um agente, um ser entre Deus e a matéria. Para os gregos este agente era o responsável pela criação de todas as coisas e pela relação entre a entidade divina e o Universo. No conceito judaico, Deus falava e as coisas eram criadas. No conceito grego, Deus não criava diretamente, mas dava a ordem a um agente (segundo Deus) para criar. Nada mais errado do que transportar a ideia grega de que o Logos é um deus-agente para a Bíblia. Isto causou uma enorme mudança de sentido em João 1:1 e nos demais textos do Evangelho de João. Com a introdução dessa filosofia grega, resultando na interpretação de que o Logos (Verbo, ou Palavra) é o Deus-Filho, ou Jesus, aqueles que leem João presos a esta ideia terão muitas dificuldades para compreender e muitos textos perderão o verdadeiro sentido, tais como: João 6:62: onde primeiro estava?; João 8:38 – vi junto de meu Pai; João 17:5 – junto de ti mesmo; João 13:3 – havia saído de Deus; João 16:8 – Saí do Pai, e vim ao mundo; João 17:8 – que saí de ti; João 7:33 – aquele que me enviou; João 17:21 – para que o mundo creia que tu me enviaste; João 5:36 – que o Pai me enviou; João 3:13 – senão o que desceu do céu; João 6:33 – aquele que desce do céu. É preciso ter em mente a diferença conceitual e substancial entre Deus, Jesus e Messias para se aplicar corretamente o sentido de tais textos. Deus é o arquiteto, o Messias o projeto, Jesus o executor.

A hermenêutica estrutural/vertical e horizontal de João #

Através desta análise hermenêutica-estrutural[1] se perceberá que o Evangelho de João não tem como meta conceituar Jesus como Deus-Filho preexistente com Deus-Pai. Esta análise vai mostrar Jesus não é a Palavra. Ele era um homem que precisou aprender de Deus. Também que messias é a função, o papel desempenhado por Ele. Ser reconhecido como messias foi a Sua glorificação. Os intérpretes ao longo da história perderam o tema de João de vista e se concentraram apenas na falsa ideia de que a palavra de Deus era o próprio Messias. Nada mais errado. Nesta parte, será realizada uma análise estruturada do Evangelho de João para recuperar seu verdadeiro sentido. Esta análise hermenêutica se apoia numa estrutura de direções vertical e horizontal do texto joanino. A estrutura de direção horizontal será percebida a partir de três palavras-chaves, propriamente três verbos: ensinar, glorificar e crer. Através destas palavras é possível traçar uma equivalência lógica de sentido entre as histórias narradas por João. Todas as histórias do Evangelho de João são marcadas por três ideias básicas. Sempre há um que é a fonte da palavra, Deus, outro que transmitiu a palavra de Deus, Jesus, e os que Creram na palavra de Deus, os discípulos. Este evangelho foi narrado em torno destes três verbos para mostrar que a palavra de Deus desceu do céu, foi pregada com autoridade por Jesus e crida pelos homens. Tabela da ideia exposta acima.

VERBOAÇÃOEXEMPLO 1EXEMPLO 2
EnsinarComo o Pai me ensinouMestre vindo de Deus O messias ensinará
GlorificarO Filho será levantadoSubiu ao céuSoubesse quem é
CrerMuitos creramNicodemosSamaritanos

  Esta hermenêutica através desta direção horizontal será aplicada sobre estas três as palavras-chaves: ensino, glorificação e crença. Os linguistas sabem que o tema de um texto é definido por seu vocabulário. Por exemplo, maçã, laranja e uva formam um vocabulário do tema frutas. Já florestas, montanhas e rios sobre o tema natureza.  Ensino, glorificação e crença são palavras-chaves do tema de João. O Evangelho de João, diferente dos demais, apresenta também uma estrutura de direção vertical marcada pela relação entre Pai/Jesus/discípulos. Esta relação vertical é ligada por estes três importantes verbos: ENSINAR, GLORIFICAR E CRER. Os três verbos são presentes, com mais ou menos grau, em todas as histórias do Evangelho. Esta estrutura vertical da narrativa é apresentada numa relação de dois níveis, alto e baixo, primeiro entre Deus e Jesus, depois entre Jesus e seus discípulos. João mostra categoricamente uma relação entre um Ser que está no Alto (Deus) e outro que está embaixo (Jesus). Esta relação é caracterizada entre um que ensina e outro que aprende. Um que envia, outro que é enviado. Um que está no Céu, outro que está na Terra. O Pai, fonte instrutora, no alto, nos céus, é quem ensina o Filho, o aluno, embaixo, na terra. Esta característica vertical da relação entre Deus e seu Filho é notável em textos figurativos, tais como: João 3:13: …ninguém subiu, senão o que desceu do céu; João 6:62: onde primeiro estava; João 6:33: aquele que desce do céu; João 6:62: vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava; João 6:50: Este é o pão que desce do céu. Estes textos não estão dizendo que Jesus, o homem, desceu ou subiu ao céu. Simplesmente falam de uma relação de ensino/aprendizado. Quando Jesus aprendeu de Deus, Ele se tornou o Messias. Isto aconteceu porque Deus ensinou e Jesus internalizou todo o entendimento da Sua palavra, da Sua vontade e das Suas leis. Assim, o que desce do céu é a palavra, o ensino, a doutrina, o plano, a ideia, o conceito, a promessa de Deus sobre o Messias concretizada em Jesus. Messias é aquele, ou aquilo, que reúne tudo de Deus em si, Filho de Deus/Filho do Homem. O plano abstrato de Deus de Messias ou, simplesmente, o Messias, foi enviado do céu, mas a pessoa física de Jesus nunca esteve no céu. Deus transferiu dos céus Sua palavra a Jesus aqui na terra e Ele a recebeu porque procurou saber tudo de Seu Pai. Nesta relação vertical de ensino/aprendizado, Jesus foi elevado em conhecimento. Por exemplo, no encontro com Nicodemos, ao dizer de forma figurada “ninguém subiu ao céu, senão o que de lá desceu”, (João 3:13), Ele está afirmando que foi o único a aprender toda a doutrina de Deus. Nicodemos se tornou (isto é, “subiu”) mestre do conhecimento humano, mas Jesus se tornou mestre do conhecimento celestial. Jesus foi elevado acima de todo conhecimento humano. A direção vertical se encontra também no processo de exaltação de Jesus como messias. Assim como um aluno universitário é confirmado que subiu seu nível de conhecimento quando participa da solenidade de Colação de Grau, Jesus precisava ser autenticado como o Messias. Para isso, um processo de glorificação foi realizado por Deus. Esse processo é confirmado por testemunhos especificamente selecionados pelo apóstolo João. João teve o cuidado de escolher e mencionar que cada história glorifica, exalta e eleva Jesus como Messias. As frequentes expressões glorificação, exaltação e elevação denotam que Jesus saiu de uma posição inferior e subiu, isto é, se tornou uma autoridade do Pai. Jesus foi glorificado por Deus e também glorificou a Deus. Deus testificou de Jesus como sendo seu Filho e Jesus testificou de Deus como sendo seu Pai. O testemunho de dois homens é verdadeiro. João constantemente evidencia estas provas da autoridade de Jesus. Ainda, outro aspecto pode ser apresentado para confirmação da autoridade:  o emprego da palavra “nome” para referir Jesus. A expressão “nome” no aramaico quer dizer na pessoa e denota autoridade dela. João explica que muitos creram no Seu nome, isto é, na pessoa de Jesus, na autoridade de suas palavras. João também diz que Ele veio em nome do Pai e o espírito santo foi enviado em Seu nome. Jesus era uma autoridade elevada por Deus. Esta elevação de Jesus, o homem, como o Messias, filho de Deus, é mais uma colaboração para a estrutura vertical da narrativa joanina.

Analisando hermeneuticamente o Evangelho de João #

Como visto acima, João apresenta seus relatos estruturados verticalmente em três partes, ou ideias: ensino, glorificação e crença. O ensino, a primeira, a parte superior, tem como fonte o Pai e Jesus como canal. A glorificação, a parte segunda e intermediária, tem Deus e Jesus como agentes. Deus glorifica o Filho e o Filho ao Pai. E a terceira, a base, a crença, tem o povo e os discípulos crendo ou não crendo na palavra. Então, tem-se na direção vertical Deus que ensinou Jesus que ensinou os homens. Deus é a fonte (=Pai), Jesus é o canal, os discípulos o destino da palavra de Deus. A análise horizontal é caracterizada pela deslocação linear por todas as histórias de João desta estrutura ensino/glorificação/crença. Na direção horizontal este processo de direção vertical se repete em cada história. Esta estrutura já é percebida na introdução, capítulo 1:1-18: ENSINO: No princípio era o Verbo, […] Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. […] Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. (1:1-5, 9). Aqui a primeira parte da estrutura ENSINAR/GLORIFICAR/CRER, caracterizada pelo verbo ensinar. Iluminar é ensinar. A palavra de Deus foi ensinada, mas os homens não a compreenderam e não foram iluminados. Como visto na seção anterior, aqui não se trata da pessoa de Jesus, apenas da palavra de Deus. É na palavra de Deus que estão as instruções para todo o homem que nasce neste mundo. Quem entende estas instruções, adquire a vida para sempre. GLORIFICAÇÃO: Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, […] (1:10). […] vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. […] O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. (1:14-16) Aqui a segunda parte da estrutura ENSINAR/GLORIFICAR/CRER, caracterizada pelo verbo glorificar. A palavra de Deus é glorificada pelo fato de que foi ela quem criou o próprio mundo. Ela é cheia de glória, assim como um filho único é importante para seu pai. Neste caso, a palavra de Deus, que estava chegando ao mundo, é mais importante do que João e seus ensinos. A palavra de Deus é exaltada, é glorificada. Não se trata de Jesus, pois ele ainda não tinha começado seu trabalho e não havia sido ainda glorificado, conforme João 7:39. CRENÇA: […] e o mundo não o conheceu. (1:10). Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (1:11-13). Aqui a terceira parte da estrutura ENSINAR/GLORIFICAR/CRER, caracterizada pelo verbo crer. O mundo não conheceu a palavra de Deus que foi ensinada aos homens, por isso nem todos creram. Mas, os que creram se tornaram filhos de Deus, nascidos dEle. A introdução do evangelho mostra esta estrutura ENSINO/GLORIFICAÇÃO/CRENÇA. A gloriosa palavra de Deus foi ensinada aos homens, alguns creram e outros não. Nas histórias que seguem esta mesma estrutura se faz presente. Porém, por questão de espaço e foco, apenas algumas narrativas relevantes serão analisadas, o suficiente para o entendimento. São basicamente doze boas histórias, e outras menos relevantes, ocorridas durante o período de pregação de Jesus que foram escolhidas por João para mostrar que Ele era o Messias. Também mais alguns outros episódios relativos aos últimos dias de seu ministério. Todas elas estruturadas na ideia de que Jesus ensinou, foi glorificado e crido. São elas: o testemunho de João, a escolha dos discípulos, as bodas de Caná, a purificação do templo, a instrução a Nicodemos, o novo testemunho de João Batista, a mulher samaritana, a incredulidade dos irmãos de Jesus, a mulher adúltera, a cura do cego de nascença, a incredulidade dos judeus (bom pastor) e a ressureição de Lázaro. Três histórias serão analisadas: a instrução a Nicodemos, a mulher samaritana, a mulher adúltera. As demais serão apenas mencionadas de acordo com o modelo estrutural de análise hermenêutica aplicado neste estudo. Nota: prestar atenção às palavras sublinhadas. Instrução a Nicodemos Ensino: “Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus” (3:2), “nascer do alto”, “Se falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais”, (3:3). Glorificação: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu. E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; (3:13,14). Crença: “Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”, (3:15,16). Como defendido, os três aspectos estruturais da teologia de João, são: ensino, glorificação e crença. Na história de Nicodemos, todos se fazem presentes. João mostra que Jesus é glorificado e aprovado por Deus como mestre em Israel. Que Jesus ensina a doutrina de Deus de forma que os homens possam entender e crer. O ensino de Jesus não pertencia às escolas humanas, como era a de Nicodemos. A escola, a fonte, o lugar de onde vinham os ensinos de Jesus era o alto, o divino. Ninguém no mundo havia alcançado grau tão elevado de conhecimento sobre Deus, somente aquele homem que havia sido planejado pelo próprio Deus no céu. Apenas o projeto, o plano sobre o Filho do Homem foi elaborado no céu, mas sua realização se deu aqui na terra. Por isso, Ele disse que “ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu”. O que desceu foi o conceito de Filho do Homem, (veio de entre as nuvens do céu, Daniel 7:13) não a pessoa Jesus. A pessoa Jesus precisava ser e foi levantada como Filho do Homem, isto é “subir” em outra linguagem. A serpente levantada no deserto por Moisés foi a metáfora usada para exemplificar a elevação do conhecimento de Jesus sobre as coisas celestiais. João termina a narrativa sobre Nicodemos, talvez com o texto bíblico mais conhecido dos homens (“Deus amou…”), mostrando que era necessário crer em Jesus. Assim, ensino, glorificação e crença são as partes estruturais da narrativa sobre o encontro noturno com Nicodemos. Neste episódio, assim como no capítulo 1, João quer mostrar que a palavra divina desceu dos altos céus aos homens através dos ensinos de Jesus. Não há nada na expressão “ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu” que pode ser usada como prova de que a pessoa Jesus estava no céu, junto de Deus, desde a criação. Esta é apenas uma expressão que denota o elevado grau de conhecimento de Jesus frente ao conhecimento de Nicodemos. Faz parte do estilo vertical da narrativa de João. Ele fez isso em seu evangelho para poder explicar o quão elevado e sublime era o ensino de Jesus. A mulher samaritana Ensino: “Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos ensinará tudo”, (4:25). Glorificação: “Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz”, (4:10). Crença: “E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele”, (4:39); “E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo”, (4:42). Não é diferente com a história da mulher samaritana, o estilo vertical da narrativa joanina se faz presente de acordo com a estrutura ensino/glorificação/crença. Na história anterior, Nicodemos era mestre em Israel, a samaritana, ao contrário, era uma pobre mulher que não podia sequer conversar com um judeu (“por ver Jesus conversando com uma mulher”, João 4:27 — os judeus não se comunicavam com samaritanos, João 4:9). Aqui, não um mestre como Nicodemos, mas alguém diferente em vários os sentidos. Primeiro, por ser mulher, depois por ser samaritana e conseguinte por não estar bem informada sobre a teologia dos judeus. Ainda, era uma frenética pecadora que havia passado por cinco casamentos e estava irregular no sexto. De acordo com o estilo vertical da escrita joanina a mulher samaritana estava na parte mais baixa. Com certeza, ela precisava muito aprender do Mestre. Jesus não perdeu a oportunidade e usou de todos os artifícios espirituais para ensinar a palavra de Deus. O elevado ensino de Jesus alcançou a pobre e humilde samaritana que creu, juntamente com muitos outros samaritanos. João retratou nesta narrativa, de acordo com a estrutura da análise, a parte do ENSINO com a declaração da mulher: “…quando ele vier, nos ensinará tudo”. A parte da GLORIFICAÇÃO com a expressão “Senhor, vejo que és um profeta”, (João 4:19), depois com a afirmação do próprio Jesus de que Ele era o Messias, (João 4:26), e com a expressão: “Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz”, (João 4:10). Todas estas expressões elevam o conceito de Jesus de um simples homem que passava por terras samaritanas — os judeus, normalmente não faziam isso —, para o conceito de Filho do Homem, o Messias. E a parte da CRENÇA no fato de que muitos samaritanos, depois de ouvirem a mulher, ouviram a Jesus e creram nEle. Na história da mulher samaritana, o ensino do mais alto céu veio ao mais baixo dos homens, no caso, as mulheres e samaritanos desprezados e estes creram. Assim, como na história de Nicodemos, esta história revela o estilo vertical do Evangelho de João. Aos poucos, se percebe que certas expressões de João foram empregadas para valorizar Jesus como Messias, não para descrevê-lo como Deus, ou como palavra, preexistente no céu. A mulher adúltera Ensino: “E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava”, (8:2). “Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida”, (8:12). Estas palavras disse Jesus no lugar do tesouro, ensinando no templo”, (8:20).Glorificação: “Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou”, (8:18). “Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo”, (8:23). “Disseram-lhe, pois: Quem és tu? Jesus lhes disse: Isso mesmo que já desde o princípio vos disse”, (8:25). “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis que eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas isto falo como meu Pai me ensinou”, (8:28). “Eu não busco a minha glória; há quem a busque, e julgue”, (8:50). “És tu maior do que o nosso pai Abraão, que morreu? E também os profetas morreram. Quem te fazes tu ser? Jesus respondeu: Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; quem me glorifica é meu Pai, o qual dizeis que é vosso Deus”, (8:53,54). “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou“, (8:58)Crença: “Dizendo ele estas coisas, muitos creram nele,  (8:30). “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele”, (8:31). Talvez, o caso da mulher adúltera seja o mais importante em todo o evangelho, cuja estrutura vertical ensino/glorificação/crença se destaca pela grande ênfase na glorificação de Jesus. Relembrando que o objetivo do apóstolo João é provar que Jesus era o Messias, por isso, procurou mostrar o quão grande Ele era. Como visto, mais uma vez Jesus aparece cumprindo sua missão de ensinar. Estava no templo logo pela manhã. No caso da mulher samaritana, Jesus disse diretamente que Ele era o Messias (aquele que devia ensinar, João 4:25), mas ao povo e aos doutores da lei Ele se apresenta como a “luz do mundo”. Esta é uma maneira figurada de dizer que era o Mestre, o Rabi. Quem tem ou quem é a “luz” é alguém com conhecimento e entendimento mais elevado para ensinar os outros, no caso, Jesus estava ali para ensinar o mundo, até mesmo os doutores da lei. Isto mostra o quão importante e exaltado era seu ensino. Ao contrário, quem não tem a “luz” é aluno, que como discípulo aprende do mestre. De acordo com as profecias, o Messias seria um profeta com autoridade para ensinar. Moisés, disse que o Senhor levantaria um profeta semelhante a ele, a quem os judeus deveriam ouvir, ou seja, aprender. Jesus era este profeta e estava ali para trazer o correto ensino sobre a lei. Aproveitando o caso da mulher adúltera, ensinou sobre a verdadeira justiça da lei. A nova luz sobre a lei e o posicionamento de Jesus como “a luz do mundo” (o novo mestre) causaram certa indignação aos fariseus que passaram a questionar a autoridade de Jesus. Então, sucede um longo e acalorado debate, cujas palavras e expressões utilizadas por João nesta narração demonstram seu esforço redacional em manter Jesus glorificado nas alturas. Os fariseus disseram que os testemunhos de Jesus de nada valiam porque falava de si mesmo e questionavam “quem és tu?”. Mas Jesus se defende dizendo que sabia de onde veio e para onde ia. Defende a fonte e a qualidade de seu ensino. Fala que Ele era do alto e os fariseus de baixo. Que seria levantado como Filho do Homem. Que não buscava sua glória, pois alguém buscava por Ele. Todas estas expressões colocavam Jesus numa posição cada vez mais elevada e irritavam ainda mais os fariseus. Eles insistentemente o desonravam e queriam rebaixá-lo a um samaritano com demônio e questionavam: “És tu maior do que o nosso pai Abraão, que morreu? E também os profetas morreram. Quem te fazes tu ser?”, ( João 8:53), ou seja, porque de fazes tão importante. Jesus explica que não está glorificando a si mesmo, pois de nada valeria esta exaltação, mas o Pai o glorificava. Devido à glória dada pelo Pai, Jesus se apresenta aos fariseus como Filho do Homem, alguém tão importante que até mesmo Abraão queria ver seu dia. A expressão “antes de Abraão”, neste contexto, mostra que o Messias era maior que Abraão, conhecido, elevado, glorificado e aclamado em tempos anteriores ao pai da fé. Trata de superioridade em contraposição a inferioridade que os fariseus queriam classifica-lo e nada quer dizer sobre idade e existência natural de Jesus. Erram aqueles que, fora de contexto, aplicam esta expressão no sentido de antiguidade. Por fim, lembrar que esta intensa discussão e acusação contra Jesus se deu com aqueles que creram nEle. “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele”, (João 8:31). Imagine se fosse com aqueles que não criam? Esta análise hermenêutica estrutural tem o poder de clarear o sentido geral do Evangelho de João. A narrativa de João obedece a estrutura ensino/glorificação/crença. É apenas um estilo, um jeito, o modo de escrever de João que procurou glorificar Jesus como Messias. Para cumprir tal objetivo, João fez uso de uma linguagem que, se lida de forma independente e não estruturada, pode desviar o sentido do texto para a concepção do leitor, aquela grega de que o Logos é a palavra. Abaixo apenas a relação com as outras histórias do evangelho. O leitor poderá, posteriormente, estudá-la mais detalhadamente. O raciocínio acima se aplica nestes textos. Testemunho de João: Ensino: “Batizará com Espírito Santo”, (1:33).  Glorificação: “um homem que tem a primazia”, (1:30); “Eu vi e testifico que este é o Filho de Deus”, (1:34). Crença: [não presente no texto] Discípulos: Ensino: “Rabi (que quer dizer Mestre)”, (1:38). Glorificação: “Rabi, tu és o Filho de Deus”, (1:49). Crença: “Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês?”, (1:50). Bodas de Caná: Crença: [não presente]. Glorificação: “Ainda não é chegada a minha hora”, (2:4); “manifestou sua glória”, (2:11). Crença: “e seus discípulos creram nele”, (2:11). Purificação do templo: Crença: [não presente]. Glorificação: [não presente]. Crença: “e seus discípulos creram nele”, (2:22); “muitos, vendo os sinais que fazia, creram no seu nome”, (2:23). Novo testemunho de João Batista:  Ensino: “isso testifica”, (3:32); “fala as palavras de Deus”, (3:34). Glorificação: “foi dado do céu”, (3:27); “ele cresça e eu diminua”, (3:30); “vem de cima é sobre todos […] vem do céu é sobre todos”, (3:31). Crença: “[…] mas ninguém aceita […] Aquele que aceitou”, (3:32,33); “Aquele que crê […] que não crê no Filho”, (3:36). A incredulidade dos irmãos de Jesus e a pregação na festa: Ensino: “os teus discípulos”, (7:3); “e ensinava”, (7:14); “sabe este letras, não as tendo aprendido?”, (7:15); “minha doutrina não é minha”, (7:16). Glorificação: “procure ser conhecido”, (7:4); “por ainda Jesus não ter sido glorificado”, (7:39); “sua própria glória; mas o que busca a glória”, (7:18). Crença: “nem […] criam nele”, (7:5); multidão creram nele”, (7:31); “creu nele porventura algum dos principais ou dos fariseus?”, (7:48). A cura do cego de nascença: Ensino: “sou a luz do mundo”, (9:5); “fazer-vos também seus discípulos?”, (9:27,28). Glorificação: “Que é profeta”, (9:17). Crença: “Crês tu no Filho de Deus? […] para que nele creia? […] Ele disse: Creio”, (9:35-38). Bom pastor e a incredulidade dos judeus: Ensino: “não entenderam o que era que lhes dizia”, (10:6). Glorificação: “As obras […] essas testificam de mim”, (10:25). Crença: “não o credes”, (10:25); “vós não credes”, (10:26); “muitos ali creram nele”, (10:42). Ressureição de Lázaro: Ensino: [Não presente]. Glorificação: “mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”, (11:4). Crença: “para que acrediteis”, (11:5); “quem crê em mim, […] e crê em mim […]; crês tu isto? Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio”, (11:25-27); “se creres, verás”, (11:40); “para que creiam que tu me enviaste”, (11:42); “muitos, pois, dentre os judeus […] creram nele”, (11:45); “todos crerão nele”, (11:48). Capítulo 12: Ensino: “Enquanto tendes luz…”, (João 12:36); “E se alguém ouvir as minhas palavras,” (12:47); “não tenho falado de mim mesmo; […] mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar”, (12:49)Glorificação: “quando Jesus foi glorificado”, (12:16); “hora em que o Filho do homem há de ser glorificado”, (12:23); “Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei”, (12:28); “quando for levantado da terra”, (12:32); “convém que o Filho do homem seja levantado?”, (12:34); “viu a sua glória”, (12:41); “mais a glória dos homens do que a glória de Deus”, (12:43). Crença: “iam e criam em Jesus”, (João 12:11); “crede na luz […] não criam nele; […] quem creu na nossa pregação? […] não podiam crer”, (12:36-39); “muitos dos principais creram nele”, (12:42); “Quem crê em mim, crê, não em mim”, (12:44); “aquele que crê em mim” , (12:44); “e não crer”, (12:47). Capítulo 13:  Ensino: [não presente]. Glorificação: “de passar deste mundo para o Pai”, (13:1); “Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele. Se Deus é glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e logo o há de glorificar”, (13:31,32). Crença: [não presente]. Capítulo 14: Ensino: “palavras que eu vos digo”, (14:10); “esse vos ensinará todas as coisas”, (14:26). Glorificação: “o Pai seja glorificado no Filho,” (14:13). Crença: “credes em Deus, crede também em mim”, (14:1); “Não crês tu que eu estou no Pai, […] Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras […] aquele que crê em mim”, (14:10-12); “quando acontecer, vós acrediteis”, (14:10-12). Capítulo 15: Ensino: “pela palavra que vos tenho falado”, (15:3); “as minhas palavras”, (15:7); “…porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer”, (15:15);  “nem lhes houvera falado”, (15:22). Glorificação: “Nisto é glorificado meu Pai”, (15:8). Crença: [não presente]. Capítulo 16: Ensino: “muito que vos dizer {ensinar}”, (16:12). Glorificação: “me glorificará”, (16:14); “porquanto vou para o Pai {ir para o Pai é ser levantado da terra, isto é, glorificado}”, (16:16); “e vou para o Pai”, (16:28). Crença: “porque não crêem em mim”, (16:9); ”e crestes que saí de Deus”, (16:27); “cremos que saíste de Deus […] Credes agora?”, (16:30,31). Capítulo 17: Ensino: “Agora já têm conhecido {entendido} […] lhes dei as palavras que tu me deste {ensinou}”, (17:6-8). Glorificação: “glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti”, (17:1); “glorifiquei-te na terra, […] agora glorifica-me tu, […] com aquela glória”, (17:4,5); “e neles sou glorificado”, (17:10); “dei-lhes a glória”, (17:22); “vejam a minha glória”, (17:24). Crença: “e creram que me enviaste”, (17:8) “hão de crer em mim […] para que o mundo creia”, (17:20,21). Capítulo 18: Ensino: “eu sempre ensinei […] é que lhes ensinei”, (18:20,21). Glorificação: [não presente]. Crença: [não presente] Capítulo 18: Ensino: [não presente]. Glorificação: [não presente]. Crença: “para que também vós o creiais”, (19:35). Capítulo 20: Ensino: [não presente]. Glorificação: “não subi para meu Pai, […] que eu subo para meu Pai”, (20:17). Crença: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo”, (20:31). Capítulo 21: Ensino: [não presente]. Glorificação: “que morte havia ele de glorificar a Deus”, (21:19). Crença: [não presente] Este esforço analítico teve como objetivo encontrar de uma forma consistente o tema central do Evangelho de João. Sabem os hermenêuticos que um assunto é definido por seu vocabulário. Por exemplo, se o assunto é a saúde, as palavras-chaves são remédios, médicos, hospitais, farmácias, vacinas etc. Se o assunto é a natureza, o vocabulário converge para rios, lagos, árvores, montanhas, florestas etc. No caso do Evangelho de João, o vocabulário é composto por algumas palavras-chaves, cujas principais são: ensino, discípulos, aprender, doutrina, mestre, glorificação, elevação, exaltação e crença. Essas palavras-chaves são a pista para definir com mais assertividade o tema central. Esta análise hermenêutica encontrou apoio estrutura nas histórias de João composta de três partes categorizadas como: ensino, glorificação e crença. Há um conjunto de palavras em torno do verbo ENSINAR compondo a primeira parte, palavras como: falou, disse, discípulos, aprender, doutrina, mestre, ensino. Em torno do verbo GLORIFICAR, compondo a segunda parte: exaltado, levantado, elevado, subir, glória, glorificar, glorificado, poder, autoridade, maior. Em torno do verbo ACREDITAR, compondo a terceira parte: crença, acreditar, crerdes, ouvirdes etc. É contundente o fato de que o livro de João trata de um tema bem específico que pode ser assim definido: A palavra de Deus desceu do céu quando Jesus ensinou os homens. O que nos resulta disso? Que todas as expressões como subir, descer, estar junto de Deus, antes onde primeiro estava, antes de Abraão, entre outras, devem ser entendidas apenas sob a égide dessa afirmativa que compõe o contexto global do livro. [1] Por análise Hemenêutica-Estrutural é utilizado o conceito de uma relação lógica entre os fatos, mais ou menos como é feito na interpretação jurídica, onde a interpretação gramatical, interpretação teleológica, interpretação histórica e interpretação logica sistemática vão contribuir para o entendimento do ordenamento jurídico. No caso aqui em pauta, consiste apenas em extrair das histórias selecionadas pelo apóstolo João as características lógicas que estruturam o objetivo do seu texto e compará-las coerentemente entre si possibilitando a compreensão objetiva do tema. Por parte lógica é entendido a ideia, ou ideias, principais de cada história. 

A Palavra de Deus em João 1 #

Para alguns, certas passagens bíblicas dizem que Jesus era preexistente. Estas passagens podem ser agrupadas em três categorias representadas por três afirmações:

1) Jesus estava no céu junto de Deus;

2) Jesus foi criado antes de todas as coisas;

3) Jesus é Deus.

Para nosso propósito é suficiente mostrar que se apenas uma dessas afirmações é falsa, são falsas as demais e falsa toda a ideia da preexistência. Vamos, então, analisar cada uma delas com base nos textos bíblicos que parecem apoiar tais afirmações.

Em torno dessa afirmação podem ser catalogadas passagens como: Junto de Deus: João 6:62: onde primeiro estava?; João 8:38 – vi junto de meu Pai; João 17:5 – junto de ti mesmoSaiu de Deus: João 13:3 – havia saído de Deus; João 16:8 – Saí do Pai, e vim ao mundo; João 17:8 – que saí de ti.  Enviado por Deus: João 7:33 – aquele que me enviou; João 17:21 – para que o mundo creia que tu me enviaste; João 5:36 – que o Pai me enviouDesceu do céu:  João 3:13 – senão o que desceu do céu; João 6:33 – aquele que desce do céu. Citamos apenas algumas, pois a elucidação de umas se aplica no entendimento das outras:

Quem lê diretamente estas passagens pode pensar que Jesus estava no céu antes de nascer de Maria. Contudo, se a leitura é feita de forma compreensiva este pensamento é afastado. Estas passagens não dizem que a pessoa física de Jesus estava no céu. Elas fazem alusão à função (papel) que Jesus desempenhou como Messias, isto é, de ensinar a palavra de Deus. A palavra de salvação ESTAVA com Deus, SAIU dEle, porque foi ENVIADA e, assim, DESCEU do céu. A palavra era Deus e estava com Ele desde o princípio. Não era Jesus, o homem, quem estava.

Para refutar a afirmação que Jesus estava no céu junto de Deus, três aspectos do evangelho de João devem ser analisados:

  1. a) O que é a palavra de Deus mencionada por João;
  2. b) O tema central do evangelho; e
  3. c) A linguagem utilizada.

Veremos que Jesus não é a Palavra de Deus, pois isto seria o mesmo que dizer que Ele é Deus. Também veremos através de uma análise estrutural que o tema central de do Evangelho de João é mostrar que a palavra de Deus chegou aos homens através de Jesus e não o de mostrar que Jesus seja uma espécie de “Deus” que desceu do céu. Esta análise estrutural é composta por uma relação vertical ENSINO/GLORIFICAÇÃO/CRENÇA. E, por fim, veremos que a o evangelho é composto por uma linguagem figurada, cujo entendimento é dificultado pela interposição de uma ideia extra-bíblica. Com isso, teremos por refutada a ideia de que Jesus estava junto de Deus no céu. Cairá, assim, por terra a concepção de um Jesus preexistente, seja qual forma for imaginada, como Deus, como anjo, como espírito, ou como a palavra.

Não houve maior engano teológico do que a afirmação: Jesus é a palavra de Deus. Jesus não é a palavra de Deus, Jesus transmitiu a palavra de Deus. Jesus não pode ser ao mesmo tempo a palavra de Deus e o meio, o canal, através do qual a palavra de Deus foi transmitida. Isto não tem lógica. E, se Jesus não é a palavra de Deus, então Ele não estava no princípio “junto de Deus”. De fato, quem estava era a palavra, não Jesus. Jesus como SER não preexistiu.

No máximo, podemos admitir que antes de todos os tempos o plano de Deus era ungir um homem — poderia ser outro, não apenas Jesus, mas Ele foi o eleito — o portador de Sua palavra (revelação). Este plano Ele chamou de salvação. Deus concretizou seu plano através do homem Jesus. Jesus nascido na plenitude dos tempos recebeu a palavra de salvação que estava em Deus antes de todos os tempos e a transmitiu aos homens. Jesus e a palavra são coisas diferentes.

O Logos (a Palavra) #

Quatro passagens são comumente usadas na tentativa de provar que Jesus é a palavra (Logos). Todas são mal aplicadas. São elas: João 1:1; João 1:14, I João 1:1 e Apocalipse 19:13.

João 1:1 – No princípio era o Verbo [palavra], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Os chamados Pais da Igreja usaram o sentido dado pela filosofia grega de um “ser-agente” para entender o texto de João 1:1. Este método ofuscou o sentido ao invés de esclarecê-lo. O Logos, em João, significa palavra-ação (criar) de Deus. Logos em João é “davar” no hebraico, a palavra que criou todas as coisas. O próprio Apóstolo no verso 3 diz que é a palavra criadora: Todas as coisas foram feitas por ela [palavra], e sem ela nada do que foi feito se fez. O sentido está claro: a palavra criadora estava em Deus e era Deus. João não diz que é um “SER” fora de Deus, não diz que é Jesus. Aliás, a menção a Jesus só aparece muito mais tarde no texto, verso 17, mas para mostrar que Ele trouxe (como porta-voz) “a graça e a verdade”, completando o processo iniciado por Moisés (também como porta-voz) que trouxe a lei. João está dizendo que a palavra criadora de Deus chegou aos homens como palavra de vida (de salvação). Neste texto, Jesus não é a palavra. Ele transmitiu a palavra. Ele não pode ser, ao mesmo tempo, a voz e porta-voz de Deus.

Se fez carne #

João 1:14 – E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

O verso 14 diz que a palavra “se fez carne”. Aqui, deve-se acompanhar o contexto. João introduz o texto com referência à palavra criadora (“davar” de Deus), versos 1 a 3. A partir de então, quatro pequenos contextos são apresentados entre os versos 1 a 13 até chegar o verso 14. O sentido de “davar” não pode ser abandonado. Assim, primeiro, nos versos 4 e 5, a palavra criadora é vida e é luz dos homens. Segundo, nos versos 6 a 8 o profeta João testifica da palavra criadora. Terceiro, os versos 9 a 11 dizem que a luz estava na palavra, que estava no mundo, por ela criado, mas ninguém a conheceu, ou a recebeu. Quarto, os versos 12 e 13 dizem que aqueles que conheceram a palavra de Deus se tornaram seus filhos. O contexto até o verso 14 está relacionado à palavra (“davar”) criadora, não a Jesus. Quem “se fez carne” foi a palavra de Deus, não um deus.

Resumindo:

  • Versos 1 a 3: A palavra criadora estava com Deus;
  • Versos 4 e 5: A palavra criadora é luz (conhecimento);
  • Versos 5 a 8: João Batista testifica da palavra criadora;
  • Versos 9 a 11: A luz (conhecimento) estava na palavra criadora;
  • Versos 12 e 13: Quem conheceu a palavra criadora se tornou filho de Deus;
  • Verso 14: A palavra criadora chegou aos homens.

Vamos ao texto com a ajuda contextual:

No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus, e a palavra era Deus. Ela [a PALAVRA] estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas (por ela) [pela PALAVRA], e sem (ela) [a PALAVRA] nada do que foi feito se fez. (Nela) [na PALAVRA] estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.
[A PALAVRA] estava no mundo, e o mundo foi feito (por ela) [pela PALAVRA], e o mundo não (a) conheceu [a PALAVRA]. Veio para o que era seu, e os seus não (a) receberam [a PALAVRA]. Mas, a todos quantos (a) receberam [a PALAVRA], deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome {de Deus}; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E a PALAVRA se fez carne {se tornou audível}, e habitou entre nós, e vimos a (sua) glória [da PALAVRA], como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. João testificou (dela) [da PALAVRA], e clamou, dizendo: Esta [PALAVRA] era aquela [PALAVRA] (de quem) [da qual] eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da (sua) plenitude [da PALAVRA], e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. (João 1:1-18)

Assim, a frase “se fez carne” nada mais é do que uma figura de linguagem semita para expressar materialização de algo abstrato. “Fazer carne” é tornar humano. No caso, possibilitar que os homens ouçam.

De acordo com Pe Luiz Cechinato, o povo semita era simples, intituitivo, com uma linguagem concreta, personificando e encarnando o seu pensamento. Por exemplo não existe nesta linguagem a expressão “humanidade”. Para expressar a “natureza humana” se usa a expressão “carne”.[1]

A palavra “se fez carne” porque chegou ao mundo na mensagem de Jesus. Ele humanizou a palavra de Deus. Quem encarnou não foi Jesus. Jesus só aparece no verso 17 como Aquele que trouxe o que ainda faltava da palavra de salvação. Moisés trouxe a lei, Jesus completa com a graça e a verdade, isto é, com a palavra de Deus.

O tema central de João capítulo 1 é a palavra de Deus, não Jesus. A palavra não é Jesus. Jesus falou da palavra de Deus. Jesus não é nem a palavra e nem Deus. A palavra é essencialmente divina, Jesus é essencialmente humano. Jesus não pode ser, ao mesmo tempo, a palavra de Deus e o canal transmissor.

A palavra da vida #

I João 1:1 – O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida.

No mesmo sentido, I João 1:1, este texto já se encontra parcialmente explicado. O texto da carta diz de forma direta o que é dito por analogia no evangelho. Que a palavra da vida estava no princípio com Deus e chegou literalmente ao mundo, sendo agora possível ouvi-la, senti-la e vê-la (compreender). João complementa com mais um elemento. Ele fala que esta palavra é a vida eterna. Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada; (I João 1:2). Está claro que a palavra da vida eterna estava no princípio com Deus e, agora, está com os homens. Nenhum destes textos menciona Jesus. Não se pode confundir Jesus com a palavra criadora de Deus, que criou a salvação. Esta palavra gerou o próprio Jesus. E isto seria uma contradição. Jesus não poderia gerar, ou criar, Ele mesmo.

Se chama a Palavra de Deus #

Apocalipse 19:13 – E estava vestido de veste tingida em sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus.

Alguns usam Apocalipse 19:13 para provar que Jesus é Deus por ser aqui chamado de Palavra de Deus. Mas este texto não é suficiente por si mesmo como prova de que Jesus é a palavra de Deus. As razões são: primeiro, o texto é simbólico; segundo, não aparece a palavra Jesus no texto; terceiro, chegamos à conclusão que se trata de Jesus por interpretação; quarto, o sentido é de que o “cavaleiro” é chamado de palavra de Deus, não que seja a palavra; quinto, Ele também é chamado por outros nomes, “Fiel e Verdadeiro” (v. 11), e um de seus títulos é um nome “que ninguém sabia senão ele mesmo” (v. 12). Não dá para usar esta passagem de forma direta como prova de que Jesus é a palavra, e que por conseguinte seria Deus.

Em Apocalipse 6 aparecem quatro cavalos com seus quatro cavaleiros. Os estudos mais avançados sobre o tema mostram que estes “cavaleiros” representam características de governos. Especificamente do Império Romano. Aqui em Apocalipse 19 não é diferente. De forma figurada, fala das características do governo de Deus que virá sobre a terra. Portanto, esta passagem está mais para uma representação simbólica do que para uma afirmação categórica. Um bom interprete não a usará para afirmar que Jesus é a palavra.

Vamos, agora, para outras passagens que merecem nossa atenção principalmente porque elas demonstram que Jesus não é a palavra de Deus no sentido literal, mas que foi o canal pelo qual Deus transmitiu Sua palavra.

Jesus não é a personificação da Palavra de Deus #

Todos os teólogos, quase sem exceção, transformam Jesus na palavra de Deus. Eles ignoram as passagens que demostram Jesus como alguém à parte da palavra de Deus. Jesus e a palavra de Deus são distintos. Jesus nunca se apresentou como sendo a palavra de Deus, mas como aquele Messias que falava a palavra.

Jesus não é a palavra, Ele transmitiu a palavra. Veja neste texto que a palavra de Deus é considerada como algo à parte de Jesus. O próprio Jesus faz referência à palavra de Deus como algo fora dEle. E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; (João 17:20) A palavra de Deus fomenta a crença em Jesus. Ele não é a palavra.

Atos 10:36 mostra claramente que Jesus é o canal através do qual Deus trouxe sua palavra ao mundo. Esta é a mensagem que Deus enviou aos filhos de Israel, evangelizando-lhes a paz por meio de Jesus Cristo-este é o Senhor de todos. O texto mostra que Deus enviou uma mensagem, não uma pessoa. Que esta mensagem veio por meio de (através) de uma pessoa, Jesus.

Hebreus 1:1: Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho. De fato, Jesus não é a palavra. Ainda que figuradamente alguém tente dizer que Jesus é a palavra, não faz sentido.

Ele cresça e eu diminua #

João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu, (João 1:15) Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca. (João 1:27) Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu, (João 1:30) Estes três textos parecem dizer que Jesus existia antes de João, mas sabemos que Ele nasceu depois. Na verdade é uma questão de sentido. A palavra grega ανωτερος, traduzida como “antes” na maioria das versões, significa acimasuperior. O próprio contexto dá a ideia de que João se inferioriza ao dizer que não era o “Cristo” e nem “digno de desatar a correia da alparca”. Então, o Cristo era “antes” e “primeiro” porque era mais importante, mais elevado.

Durante toda a Era Cristã, a mistura de conceitos entre Jesus, a palavra e Cristo, obscureceu o entendimento dos homens. Por isso, é muito importante separar estes conceitos: Logos é a palavra de Deus; Cristo é a função, o papel, a posição; e, Jesus é o homem. Assim, Jesus foi o homem que cumpriu a missão de ser o Cristo ao divulgar a palavra de Deus. Daí que, os versos 27 e 30 se referem a Jesus, a pessoa que foi reconhecida por João como Cristo. O verso 15 não se refere a Ele, mas à palavra de Deus, como já explicado acima. Portanto, de acordo com o verso 15, quem devia crescer, ou se tornar cada vez mais superior, era a palavra de Deus.

Deus unigênito #

Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer, (João 1:18) Este não é um texto difícil de entender. A expressão “Deus unigênito” não ocorre em todas as versões, outras trazem “filho unigênito”. Portanto, foi uma questão de escolha do tradutor. E, seja qual for a expressão usada, o sentido trazido pelo contexto é a palavra de Deus. Assim, João, o evangelista, está dizendo que não é possível ver Deus, somente a palavra dEle é quem O revela. Ou seja, Deus fala de Si e nós ouvimos e vemos. A palavra gerada em Deus e comparada com a glória do “filho unigênito” [não está dizendo que é Jesus] chegou até nós “cheio de graça e de verdade” através de Jesus, (v. 14 e 17). Como já mencionado anteriormente, a palavra de Deus foi em parte revelada por Moisés (a lei) e em parte por Jesus (a graça e a verdade). Esta palavra, ou este ensino, veio de Deus, como “Deus”, ou como “filho unigênito” e revelou Deus quando Jesus pregou o evangelho.

Conclusão #

Um dos dois pilares da preexistência é a ideia de que Jesus estava no céu junto de Deus. Esta ideia nasce da má compreensão de alguns textos do Evangelho de João. O texto mais usado com tal propósito é o capítulo 1. Talvez, este seja o texto mais mal compreendido durante toda a história do cristianismo. Procuramos, então, nesta parte desmistificar o conceito de que Jesus é a Palavra de Deus. Jesus só poderia estar no céu junto de Deus antes de nascer de Maria se Ele, de fato, fosse a palavra de Deus. Como mostrado, não é. É um erro teológico muito grande dizer que Jesus é a palavra de Deus.

Este erro começou com a aplicação filosófica do conceito grego do Logos como sendo um agente pessoal de Deus ao texto de João 1:1. Este erro foi, primeiro, cometido pelo filósofo judeu-helênico Filo [não há concordância sobre a sua influência na história cristológica] no campo da filosofia e, depois, transportado ao campo teológico pelos Pais da Igreja. Não tinha nada haver uma coisa com a outra. Daí resultou que Jesus era o Logos de Deus. Ao estender este conceito de que a palavra era Jesus por todo o texto, a conclusão foi de que Ele estava no céu, junto de Deus, era Deus e encarnou para vir ao mundo. Nada mais errado.

O Logos (palavra) que João fala é a palavra criadora, a palavra de salvação, a palavra da vida que Deus enviou ao mundo através de Jesus, Seu Filho que Ele levantou entre os homens. Jesus não é a palavra de Deus. Jesus não é a encarnação e a personificação da palavra de Deus. Jesus também não é o Deus unigênito. Quem é comparada como “deus unigênito” é a palavra de Deus. E quando João Batista fala “ele cresça e eu diminua”, num contexto, fala da palavra de Deus, no outro, fala que Ele (Jesus como Messias e só nesta condição) é superior, não anterior. O Logos em João 1 não é Jesus. Jesus não é e não era Deus. Jesus não estava com Deus no princípio. Quem estava no “princípio” com Deus era a Sua palavra. Jesus não era preexistente.

[1] http://papocatolico.blogspot.com.br/2011/08/linguagem-do-povo-semita.html. Acessado em: 9 dez. 2017.

[1] http://www.igrejadedeusemsaopaulo.org.br/filodealexandria.htm [2]SANTOS, Wigvan Junior Pereira dos. “A conciliação entre fé e razão para Fílon de Alexandria”; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/a-conciliacao-entre-fe-razao-para-filon-alexandria.htm>. Acesso em 29 de setembro de 2018.[3]https://pt.wikipedia.org/wiki/Cristologia. Acessado em: 16 de Nov. 2017[4] Idem.[5]https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.  Acessado em: 18 nov. 2017. [6]https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.  Acessado em: 18 nov. 2017. [7] Idem.

[1] Gênesis 3:1-4.

[2] NOTA: Para maiores informações veja o livro O sagrado e profano de Mircea Eliade. Nele há uma síntese de todo o pensamento humano sobre a relação do homem com o cosmo. Em poucas palavras, cada cultura religiosa deduz que sua nação vive no centro de uma terra plana, coberta por uma abóboda celeste, com o inferno abaixo e o caos nas extremidades. O espaço onde se vive é sagrado; distante do centro vivem os inimigos no caos, onde ninguém dos santificados pode lá chegar; abaixo, no inferno são lançados as almas más e os inimigos; e no lugar sagrado se encontra a porta do céu, onde se efetua o contato com Deus.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Logos. Acessado em: 03 nov. 2017

[4] http://emdefesadagraca.blogspot.com.br/2012/06/doutrina-do-logos-uma-analise-historica.html. Acesso em: 03 nov. 2017.

[5] Ibidem.

[6] Ibidem.

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o#Filosofia. Acesso em: 03 nov. 2017.

[8] http://emdefesadagraca.blogspot.com.br/2012/06/doutrina-do-logos-uma-analise-historica.html. Acesso em: 03 nov. 2017.

[9] https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/viewFile/15341/11457. Acessado em: 06 nov. 2017.

[10] http://igrejadedeusemsaopaulo.org.br/seculos.htm. Acessado em: 06 nov. 2017

[11] [11] http://emdefesadagraca.blogspot.com.br/2012/06/doutrina-do-logos-uma-analise-historica.html. Acesso em: 03 nov. 2017.

[12] Ibidem.

[13] //pt.wikipedia.org/wiki/Gnosticismo. Acessado em : 11 nov. 2017.

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