Antes que Abraão existisse, “Eu Sou”

Este artigo é uma anáslise hermenêutica de João 8:58, que diz: Antes de Abraão, Eu sou...
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Este texto é uma análise contextual de João 8:58, onde diz: “antes que Abraão existisse, eu sou”. Muitos pensam ser prova da suposta preexistência de Cristo. Apesar da referência tempo se fazer presente através do advérbio “antes”, o tema deste versículo é a autoridade de Jesus para ensinar. Jesus era a pessoa certa para ensinar a palavra de Deus porque sua fonte de autoridade era o Pai. Em suma, o assunto nada mais é do que a autoafirmação da superioridade do Mestre em relação a Abraão e aos profetas.

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A mulher adúltera e Jesus diz que tem a capacidade e autoridade ensinar o mundo

De antemão, afirmamos e depois provamos que a expressão “antes que Abraão existisse, eu sou” refere-se à qualificação e não à substanciação de Jesus. O texto contém duas importantes partes que são indispensáveis para sua compreensão: 1) o episódio da mulher adúltera, (v. 1-11); e, 2) o debate com os fariseus, (v. 12-59).

Quanto à primeira parte, o caso da mulher, os doutores da lei tinham por finalidade testar os ensinos de Jesus. A decisão dEle sobre o fato mostra um “novo olhar”, ou um olhar mais adequado e justo, para a Lei de Moisés. Não bastava apenas seguir a lei ao pé-da-letra, necessário se fazia uma interpretação que levasse em conta o coração do próprio julgador. Todos aqueles acusadores se acharam em pecado e não condenaram a mulher. Por isso, os fariseus não conseguiram achar, ou provar, falhas nos ensinos do Mestre.

Diante disso, Jesus se posiciona como autoridade para ensinar, afirmando: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” (v. 12b) “Luz do mundo”, (figura de linguagem para “iluminação mental ou espiritual; esclarecimento, explicação, ilustração”). Os fariseus questionaram tal posicionamento de Jesus, (v. 13) e dão início a um intenso debate que quase resulta no apedrejamento do Mestre. O debate discorreu sobre a autoridade e fonte de ensino de Jesus e também sobre a base religiosa dos judeus.

As expressões a seguir contidas no capítulo 8, classificadas por tema, ajudam entender João 8:58. Sobre a autoridade de Jesus: “testificas de ti mesmo”, “de mim testifica também o Pai”, “sei de onde vim, e para onde vou”, “Onde está teu Pai?”, “eu sou de cima”, “Quem és tu?”, “aquele que me enviou está comigo”, “que és samaritano”, “não busco minha glória”, “És tu maior que nosso pai Abraão”. Sobre o ensino de Jesus: “o que dele tenho ouvido, isso falo ao mundo”, “nada faço por mim mesmo; mas isto falo como meu Pai me ensinou”, “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos”, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, “Eu falo do que vi junto de meu Pai”, “verdade que de Deus tem ouvido”, “não entendeis minha linguagem”, “minha palavra”, “não me credes”, “quem guardar minha palavra”. Sobre a origem religiosa dos judeus: “somos descendência de Abraão”, “Nosso pai é Abraão”, “obras de vosso pai”, “Vós tendes por pai ao diabo”, “não sois de Deus”.

Ao lermos João 8 com atenção a estas afirmações veremos que se trata de uma intensa discussão entre Jesus e os judeus. De um lado, os judeus questionam seus ensinos e sua autoridade, e, por fim, chegam à conclusão de que Ele é um samaritano e tem demônio. Por outro lado, Jesus se defende apontando que seu ensino e sua autoridade vêm de seu Pai, que é Deus, mas o pai dos judeus é o diabo. Esta claro que a narrativa de João apresenta Jesus como o Mestre (messias) vindo da parte de Deus, a “luz do mundo”. Isso se explicita nas seguintes situações: interpretou o caso da mulher adúltera, mostrou o pecado dos fariseus, ensinava somente aquilo que havia aprendido de Deus e que para conhecermos a verdade é necessário ser seu discípulo.

Ele não está afirmando que sua substância física vinha de Deus (através de um processo de encarnação, base da teologia trinitária). O assunto é a origem de seu conhecimento e autoridade, não a origem do seu Ser. O Mestre insistia que seus ensinos vinham de Deus e ao dizer que quem guardar (aprender) suas palavras (que eram de Deus) “não verá a morte” (v. 51), os judeus não entenderam, achando que Jesus afirmara ter vivido no tempo de Abraão. Daí surge o questionamento: “Quem tens a pretensão de ser?” Esta é a chave para o entendimento do assunto. Pois, Jesus afirma que seu conhecimento, capacidade e autoridade para interpretar a lei de Moisés de forma justa vinham de Deus e os judeus achavam que Ele havia declarado existir antes de Abraão.

Uma síntese de João 8 vai ajudar-nos a compreender melhor. A narrativa tem alguns pontos importantes que nos faz ver uma gradação no diálogo entre Jesus e os judeus, saindo de um baixo nível de exigência de compreensão, julgar sua própria consciência, para culminar num elevado ensino sobre a vida eterna, não alcançado pelos judeus que ouviam Jesus.

Jesus defende a fonte de seu ensino, o Pai, e sua autoridade como Messias

O capítulo começa com a história da mulher “adúltera” que os judeus queriam condená-la, ou pelo menos queriam provar o ensino do Mestre. “E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?“, (v. 5) Jesus veio enviado pelo Pai para glorificar a sua lei. Ele tinha uma nova forma de julgar, não mais segundo a lei de Moisés. Usando deste artifício: “Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela“, (v. 7). Todos eles se acharam em pecado e foram embora.

Num segundo momento, ao se encontrar novamente com os judeus, Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo” (v. 12). Ou seja, Ele se autodeclarou sobre o que havia acabado de fazer em relação à mulher. Mas, aqueles judeus, que já haviam confessado pecadores, ainda questionam Jesus: “Tu testificas de ti mesmo; o teu testemunho não é verdadeiro“, (v. 13). A partir de então, Jesus desenvolve uma defesa de sua fonte de autoridade para fazer o que fez.

O terceiro momento desta trama, do verso 21 ao 30, Jesus desenvolve uma explicação do porquê aqueles judeus morreriam em seus pecados (eram pecadores, a consciência deles os acusou e não apedrejaram a mulher): “…porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados“, (v. 24). Este “eu sou” se refere ao “eu sou a luz“, (v.12), isto é, a autoafirmação de Jesus de que Ele é o grande Mestre da humanidade, Ele é o Messias. Era nisso que os judeus deviam acreditar. “Disseram-lhe, pois: Quem és tu? Jesus lhes disse: Isso mesmo que já desde o princípio vos disse“, (v. 25). Aqui, um adendo. Jesus sempre disse que era o Filho do homem, Filho de Deus (que significados de Messias), nunca disse que era Deus. Então, a resposta de Jesus era a de que Ele era o Messias.

Ainda neste contexto, Jesus afirma a origem de seu ensino: “mas aquele que me enviou é verdadeiro; e o que dele tenho ouvido, isso falo ao mundo“, (v. 26), mas os judeus não entenderam que falava do Pai. Diante de todas as dificuldades deles, Jesus dá a chance deles reconhecerm isto por um sinal: “Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis que EU SOU…” (v. 28). [Mas, nem quanto a isso os judeus tiveram sorte, pois as outoridades oculturam a ressureição de Jesus ao povo]. Aqui, como no verso 24 e 58, o “Eu sou” aparece sem o complemento predicativo. Mas, tudo o que Jesus quer dizer seguindo o contexto é que Ele é o Messias. O Messias é aquele que devia ensinar tudo (Jo. 4:25). O Messias é a luz do mundo. Jesus encerra este diálogo complementando que Ele tem como fonte, como Pai, a Deus: “e que nada faço por mim mesmo; mas isto falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada”, (v. 28b, 29). Diante de toda esta argumentação de Jesus, muitos creram nele, (v. 30).

Jesus fala da vida eterna e os judeus pensam que Ele disse que vivia há muito tempo

O quarto momento desta narrativa se estabelece quando Jesus se dirige somente àquele que creram nEle. O Mestre passa a falar de um novo aprendizado que estes judeus precisavam obter. Isto incluía se tornar discípulo do Mestre, a “luz do mundo”. Mas, eles se achavam filhos de Abraão e não quiseram aceitar a Jesus como seu “novo Pai” (isto é, nova fonte de aprendizado). “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?“, (v. 33), como não? Eles haviam acabado de admitir que serviam ao pecado quando não puderam condenar a mulher adúltera. “Todo aquele que comete pecado é servo do pecado“, (v. 33 e 34). O salário do pecado é a morte, (Ef. 6:23). Jesus estava tentando livrá-los da morte, mas a palalavra (ensino) de Jesus não entrava neles, (v. 37). Então, se estabelece uma longa discussão entre Jesus e os judeus sobre a origem, fonte, “Pai” do ensino de cada lado, até que Jesus encerra: “…se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte“, (v. 51). Isto é, seu ensino salva. Os judeus que criam em Jesus não mais conseguiam acompanhar seu ensino.

Jesus não viu Abraão, foi Abrão que viu seu dia

Quando o ensino de Jesus apresentou este novo nível de explicação da verdade de Deus, os judeus passaram a questionar sua capacidade de ser quem Ele dizia ser. “És tu maior do que o nosso pai Abraão, que morreu? E também os profetas morreram. Quem te fazes tu ser?“, (v. 53) [grifado por nós]. Jesus começa a explicar que “quem” faz Ele ser o que é, é Deus, (vs. 54-56). Mas, quando começa a explicar que é “maior” do que Abraão, é interrompido pelos judeus que não haviam compreendido a fala do Mestre (Aliás, desde o verso 43, já é notório que eles não estavam compreendendo: “Por que não entendeis a minha linguagem?“, disse o Mestre). Jesus disse,”Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se“, (v. 56), mas os judeus entenderam que Jesus havia dito que Ele tinha visto Abraão. Jesus não disse que viu Abraão, mas que Abraão viu seu dia. E o texto não diz que Abraão viu Jesus, como ensinam os trinitarianos. Vemos, então, que havia uma dificuldade generalizada entre eles, não compreendiam os ensinos mais elevados de Jesus, e, agora, estavam se confundindo com afirmativas mais simples. Isto se confirma pela palavra deles: “Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?“, (v. 57). O que eles entenderam é o contrário do que Jesus falou. Aliás, não só é o contrário, como não é a mesma coisa.

Que tens a pretensão de ser?

Aqui está o segredo. Esta pergunta dos judeus tem conexão hermenêutica com a resposta de Jesus no verso 58. O “ser” (Jesus) do verso 53 é comparado com Abraão: “És tu maior do que o nosso pai Abraão, que morreu?”, (v. 53) E Jesus responde aos judeus afirmando sua superioridade. Assim Ele responde à pergunta: “quem tens a pretensão de ser?” “Eu sou” está no sentido de alguém superior (“maior”) que Abraão, não no sentido de existir antes. Isto é certo, pois no verso 54, a resposta do Senhor mostra que o assunto é a sua superioridade. Jesus respondeu: “Se eu me glorifico [me torno superior] a mim mesmo, a minha glória não é nada; quem me glorifica é meu Pai”, (v. 54).

Não há razão nenhuma para se pensar diferente, o verbo “ser” se refere à grandeza do Mestre em relação a Abraão. O “sou” é um verbo de ligação. Ele aponta para um predicativo, para uma qualidade. Este predicativo está no “maior” que Abraão. A título de exemplo, poderíamos completar a frase da seguinte forma: “antes que Abraão existisse, eu sou [MAIOR]”. Ainda dentro do contexto, também dizer: “antes que Abraão existisse, eu sou [A LUZ]”. Mas nunca completar com uma ideia fora do contexto e principalmente fora da Bíblia.

A expressão “eu sou” aparece dezenas de vezes em João. Muitas de forma completa, como: eu sou a porta, eu sou a videira, eu sou o pão, eu sou de cima, eu sou o bom pastor, eu sou a ressureição etc;. E muitas vezes incompleta, apenas: eu sou. Também, aparece de forma invertida: sou eu. Por exemplo, quando falava com a mulher samaritana, (4:26). Jesus afirmou claramente para a mulher: “sou eu”, o Messias. Em nenhum momento no capítulo 8 de João, Jesus afirma que vivia antes de Abraão, mas o tempo todo defende que Ele é a “luz do mundo”, que a fonte desta “luz” (ensino) é o Pai.

O tempo todo a proposta da narrativa de João 8 é mostrar a superioridade de Jesus. Assim como o apóstolo João fez em outras passagens, ele faz aqui, apresentando uma narrativa de acordo com o sentido geral do evangelho. Ele escreveu para mostrar a grandeza do Messias. Que Jesus é o grande profeta que havia de vir ao mundo, (João 6:14). Maior que João Batista, que devia diminuir para Jesus crescer, (João 3:30); maior de todos os profetas, (Lucas 7:28); maior que Salomão, (Mateus 12:42). Enfim, maior que Abraão.

Os judeus interpretaram equivocadamente a afirmação de Jesus: “se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte”, (v. 51). Acharam eles que o Mestre se fazia mais velho que Abraão: “Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão?” (v. 57). Não foi isso que Jesus disse. Ele disse que era antes de Abraão e dos profetas porque Deus o planejou e o anunciou antes de todos os tempos. Mesmo antes de criar o primeiro homem, Deus pesnou em tomar um dentre os homens para ensinar aos homens sua lei. Deus anunciou seu plano a Enoque, por exemplo, (Judas 14) e a todos os profetas. Chegado o tempo, Jesus veio engrandecer a lei de Deus.

Ele deu à lei o verdadeiro sentido de justiça. A lei de Moisés não fazia isso. Como diz João no início de seu evangelho: “a lei veio por Moisés, mas a graça e a verdade por Jesus Cristo“, (Jo. 1:17). Jesus era o novo Mestre, seus ensinos eram luz. Ele era a “luz do mundo”. Não havia, e não há mestre maior. Ele é o Mestre dos mestres. Nem mesmo Abraão, ou qualquer dos profetas. Ele tinha autoridade para libertar a mulher adúltera, pois foi Lhe dado pelo Pai a autoridade de ensinar o verdadeiro cumprimento da lei. 

Conclusão

Está claro, o texto não fala de vida substancial de Jesus antes de Abraão, mas da qualificação dEle no tempo de sua missão. Erram aqueles que usam a frase “antes que existisse Abraão, eu sou” no sentido de existência e em apoio à doutrina da Trindade. Não podemos completar o “eu sou” do v. 58, com nossas ideias preconcebidas, como se ali tratasse de sua preexistência. Preexistência é uma ideia fora da Bíblia. Não é provada pelo texto de João 8:58.

Jesus, não tomando conhecimento da interrogação deles, continua respondendo porque é maior que Abraão: “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou“, (v.58). Não é EU SOU DEUS, que está escrito, nem que deve ser entendido assim. A referência de Jesus é à pergunta que eles fizeram lá no verso 53 e Jesus vinha desenvolvendo a resposta. E, eles perguntaram se ele era maior do que Abrão, não se Ele era Deus.

Está evidente no contexto de João 8 que o verso 58 não trata de uma existência de Jesus anterior a Abraão. Este capítulo, com esta história, foi escrita por João para provar que Jesus era o o Messias (Jo. 20:31), assim como são todas as demais narrativas de seu livro. Aqui, o que vemos é a imposição da autoridade, superioridade e fonte dos ensinos de Jesus sobre aqueles judeus que não sabiam julgar. Do simples juízo sobre a mulher adúltera eles não conseguiram entender os ensinos de Jesus que os chamavam para ser seus discípulos, afinal, quem era escravo do pecado precisava aprender a se libertar. Quanto mais difícil foi para eles aceitar um ensino sobre vida eterna e aceitar que Jesus era o Messias.

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CRISTOLOGIA : Evangelho de João
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