Satanás foi rei de Babilônia e rei de Tiro?

O rei da Babilônia e o Rei de Tiro: uma análise de Isaías 14:12-15 e Ezequiel 28:11-19

Carlos Augusto Vailatti (1)

O presente artigo tem o objetivo de discutir a respeito da identidade dos reis da Babilônia e de Tiro nas respectivas passagens bíblicas de Isaías 14:12-15 e Ezequiel 28:11-19 a partir do contexto interpretativo judaico-cristão. Além disso, buscar-se-á apresentar a análise dos referidos textos bíblicos, tendo como principal referencial a abordagem histórico-mitológica deles.

Introdução

Ao longo da história da interpretação bíblica, os exegetas têm divergido consideravelmente sobre o verdadeiro significado de Isaías 14:12-15 e Ezequiel 28:11-19. Para alguns, o sentido desses textos é incerto, de modo que os veem como “duas passagens enigmáticas” da Bíblia. (2)

 Já para outros, o significado desses trechos bíblicos é bem claro, pois, argumentam, “as duas passagens centrais do Antigo Testamento sobre Satanás são Ezequiel 28 e Isaías 14”. (3)

E ainda outros, por sua vez, afirmam que estes mesmos textos se referem com clareza a “reis humanos”, e não a um anjo mau. (4)

Ora, quem, afinal, está com a razão? Qual é a interpretação mais adequada para esses textos? Será que Isaías 14:12-15 e Ezequiel 28:11-19 retratam tanto a queda de dois reis humanos, isto é, o rei da Babilônia e o rei de Tiro, respectivamente, como também descrevem a queda original de um ser angelical, conhecido na tradição cristã antes de sua queda como Lúcifer e posteriormente como Satanás? Essas passagens bíblicas realmente falam sobre a queda de um anjo originalmente bom? Se não, qual seria então a verdadeira identidade desses reis? Quem seriam os personagens hêlêl ben-shâhar de Isaías 14:12 e melekh tsôr de Ezequiel 28:12?

Como interpretar algumas expressões presentes nessas passagens que parecem apontar realmente para uma entidade angelical? Como o Judaísmo e o Cristianismo têm interpretado esses textos nas origens de suas respectivas tradições? Bem, estas são algumas perguntas que buscaremos responder até o término desse estudo.

Neste artigo apresentaremos as principais interpretações dadas a Isaías 14:12-15 e Ezequiel 28:11-19 no contexto judaico-cristão e, em seguida, forneceremos a nossa tradução, análise e interpretação dos principais termos e frases presentes nessas passagens bíblicas. Por meio do reexame desses textos bíblicos pretendemos dar a nossa contribuição para os estudos referentes a este assunto. Iniciemos, então, a nossa jornada.

A identidade do Rei da Babilônia e do Rei de Tiro segundo a tradição judaica

A identidade dos reis de Tiro e da Babilônia é um tema que tem estado presente na tradição judaica por meio dos escritos de seus sábios. Contudo, devido às limitações do presente estudo, nos restringiremos a apresentar apenas algumas fontes literárias que abordam este assunto.

Talmude Babilônico (200-500 d.C.)

O Talmude Babilônico, no Tratado Shabbath 149b, interpreta Isaías 14:12desse modo:

“Como caíste do céu, ó estrela do dia, filho da manhã! Como foste lançado por terra tu holesh [que fizeste lançar sortes] sobre as nações” (Isaías 14:12) etc. Rabbah, filho do R. Huna disse: “Isto ensina que ele [Nabucodonosor] lançou sortes sobre os chefes reais para saber de quem era a vez da pederastia”. (EPSTEIN, 1961, p.925).

Essa descrição altamente depreciativa e fantasiosa do rei babilônico mostra que “as lendas sobre os excessos e a má conduta sexual de Nabucodonosor cresceram ao longo do tempo e tornaram-se cada vez mais bizarras”. (5)

Entretanto, excluindo-se os elementos lendários, nota-se que essa declaração talmúdica associa o personagem hêlêl ben-shâhar (“o brilhante, filho da Alvorada”) de Isaías 14:12 a Nabucodonosor. (6)

Além disso, o Talmude Babilônico, no Tratado Pesahim 94a-94b, interpreta Isaías 14:14 assim:

R. Yohanan ben Zakkai disse: “Que resposta a Bath Kol deu àquele homem perverso [Nabucodonosor] quando ele afirmou: ‘Eu subirei acima das alturas das nuvens; Eu serei semelhante ao Altíssimo’? (Isaías 14:14). Uma Bath Kol veio e o repreendeu: ‘Tu és um homem mau, filho de um homem mau, descendente do perverso Nimrod, que incitou todo mundo a se rebelar contra Mim durante o seu reino!'”. (EPSTEIN, 1961, pp.1764-1765).

Aqui, o Talmude põe a declaração megalomaníaca de Isaías 14:14 nos lábios do rei babilônico Nabucodonosor, nome este que não aparece uma única vez em todo o livro do profeta Isaías. Observa-se ainda o emprego que o Talmude faz da expressão hebraica Bath Kol (“filha de uma voz”), uma terminologia recorrente na literatura rabínica usada para referir-se à “voz divina”. (7)

Além disso, nota-se novamente a presença de uma lenda talmúdica segundo a qual Nimrod, como o primeiro de seus ancestrais, teria servido de inspiração para Nabucodonosor em sua conduta arrogante diante de Deus. (8)

Mekhilta De-Rabbi Shimon Bar Yohai (70-500 d.C.)

Esta Mekhilta, que apresenta uma antologia de tradições rabínicas deinterpretação (midrash), no Tratado Shirata XXVIII:1:10:A-C, declara:

A. Porque assim você descobre com Nabucodonosor, que pelos [muitos] meios pelos quais ele se exaltou diante dEle, Ele exigiu a sua punição. B. Como diz a Escritura: “Uma vez que você pensou em seu coração, ‘Eu subirei ao céu etc'”. (Isaías 14:13). C. O que [mais] a Escritura diz? – “Em vez disso, você será levado para baixo, ao Sheol etc” (Isaías 14:15). (NELSON, 2006, p.125).

Nesse trecho da Mekhilta De-Rabbi Shimon Bar Yohai percebe-se mais uma vez a relação estabelecida entre Nabucodonosor e o personagem arrogante descrito em Isaías 14:12-15.

Livro dos Segredos de Enoque (I Século d.C.)

No Livro dos Segredos de Enoque 29:3-4 (obra pseudepígrafa também conhecida como Enoque Eslavônico ou 2 Enoque) encontramos uma linguagem que remete àquela de Isaías 14:12-13a:

3 E um dos anjos, tendo saído de sua hierarquia e se desviado para uma hierarquia abaixo da sua, concebeu um pensamento impossível: colocar o seu trono acima das nuvens que se encontram sobre a terra, para que seu poder se igualasse ao meu. 4 Precipitei-o do alto com seus anjos, e ele pôs-se a voar por cima do abismo, continuamente. (PROENÇA, 2005, p.116).

Apesar dessa obra ser datada do I Século d.C. e classificada geralmente como de origem judaica,(9) foi aventada também a possibilidade de ter sido escrita entre o II ou III Séculos d.C. por “um judeu cristão que estava interessado em produzir uma contraparte cristã ao 1 Enoque judaico”.(10) Seja como for, essa referência feita a um anjo que é precipitado do céu com seus anjos se aproxima mais da descrição cristã da queda do diabo e seus anjos em Apocalipse 12:9 do que da menção ao rei babilônico Nabucodonosor. Desse modo, independentemente da procedência de 2 Enoque, a influência do pensamento cristão nesse trecho do livro é evidente.

Pirkê De-Rabbi Eliezer (IX Século d.C.) (11)

Os Pirkê De-Rabbi Eliezer (também conhecido pela sigla: PRE), uma obra midráshica-agádica sobre a Torah que contém exegese e releituras de histórias bíblicas, apresentam, em seu Capítulo 12, a seguinte explicação sobre a identidade do personagem mencionado em Ezequiel 28:13:

O Santo, bendito seja, fez dez aposentos nupciais para Adão no jardim do Éden. Eles foram todos (feitos) de pedras preciosas, pérolas e ouro. […] a fim de conferir honra especial ao primeiro homem, o Santo, bendito seja, fez dez (aposentos nupciais) no jardim do Éden, como está escrito: “Tu estavas no Éden, jardim de Deus; toda pedra preciosa era tua cobertura, a sardônica, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, a esmeralda, o carbúnculo e o ouro” (Ezequiel 28:13). Eis que estes são os dez aposentos. Os anjos estavam tocando tamborins e dançando com pífaros, como está escrito: “A obra dos teus tambores e dos teus pífaros estava contigo” (Ezequiel 28:13). (FRIEDLANDER, 1916, pp.88-89).

Observa-se, nesse trecho dos Pirkê De-Rabbi Eliezer, a total ausência de vínculo entre o rei de Tiro (que nem sequer é mencionado) e Adão, relação que é estabelecida em Ezequiel 28:11-13. Além disso, a referência feita aos aposentos nupciais de Adão é interpretada pelo Tratado Baba Bathra 75 a-b como uma indicação escatológica de que Adão foi um homem justo e que, portanto, ele será contado entre os justos no mundo vindouro.(12)

Mekhilta De-Rabbi Ishmael (I-II Século d.C.) (13)

A Mekhilta De-Rabbi Ishmael, que é uma antologia de antigas interpretações rabínicas sobre o livro de Êxodo, em seu Tratado Shirata 8:32, declara o seguinte:

[Outra interpretação: Quem ­­­­é semelhante a Ti entre os deuses, ó Senhor (Êxodo 15:11)]. Quem é semelhante a Ti entre aqueles que se chamam deuses? Faraó chamou a si mesmo deus, como está escrito: “Uma vez que o rio Nilo é meu e eu me fiz” (Ezequiel 29:3). E do mesmo modo Senaqueribe, como está escrito: “Quem são eles entre os deuses dessas nações” etc (Isaías 36:20). E da mesma sorte Nabucodonosor, como está escrito: “Eu subirei acima das alturas das nuvens” etc (Isaías 14:14). E também o príncipe de Tiro, como está escrito: “Filho do homem, diga ao príncipe de Tiro: Assim diz o Senhor Deus: ‘Porque o teu coração se levou'” etc. (Ezequiel 28:2). (LAUTERBACH, 2004, p.398).

Neste trecho, a singularidade de Yahweh é realçada em detrimento das tentativas humanas malsucedidas de autodivinização exemplificadas por quatroreis estrangeiros: Faraó, rei do Egito; Senaqueribe, rei da Assíria; Nabucodonosor, rei da Babilônia; e o anônimo rei de Tiro. Aqui, tanto o rei da Babilônia quanto o rei de Tiro são retratados como meros seres humanos que aspiram insensatamente à posição da divindade.

Midrash Tanhuma (VIII-IX Século d.C.) (14)

Finalmente, o Midrash Tanhuma (edição de Salomão Buber), obra que apresenta uma coleção de comentários sobre a Torah, assim se pronuncia sobre a identidade do rei de Tiro no contexto de Ezequiel 28:1-19:

Outra interpretação […] você encontra em Hirão [rei de Tiro], quando se fez um deus. O que está escrito? “Porquanto se elevou o teu coração e disseste: eu sou um deus” (Ezequiel 28:2). O Santo, bendito seja, lhe disse: “Eis que tu és mais sábio que Daniel” (Ezequiel 28:3). Nabucodonosor quis oferecer-lhe sacrifícios [a Daniel] e ele se recusou, mas tu tens fabricado um deus. Qual é o seu fim? “Eu te lançarei sobre a terra” (Ezequiel 28:17). (ARMENTEROS, 2009, p.429).

Observamos neste midrash que Hirão, rei de Tiro, ao auxiliar o rei Salomão na construção do templo (cf. 1 Reis 5:1-18; 9:10-28; 2 Crônicas 2:1-16 etc), acabou tendo a sua imagem vinculada pela imaginação rabínica à figura do rei de Tiro de Ezequiel 28:11-19. (15)

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NOTA: Este post é parte do artigo de Carlos Augusto Vailatti. Estamos publicando em nossa página pela relevância de sua pesquisa para a questão teológica referente a satanás. Esta foi a primeira parte, publicaremos as demais em breve. Mas para quem desejar se antecipar e conhecer o estudo completo, segue o link abaixo:

Link para o PDF do artigo de Carlos Augusto Vailatti

Também, quem quiser adquirir alguns de seus livros, segue link:

1  Doutorando em Estudos Judaicos e Árabes, com concentração em Estudos Judaicos, pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Servo de Cristo (STSC) e Bacharel em Teologia pelo Instituto Betel de Ensino Superior (IBES) e também pela Escola Superior de Teologia (EST). (augustovailatti@ig.com.br )

2 MARKOS, 2013, p.218.

3 INGRAM, 2006, p.46.

4 HEASTER, 2007, p.342.

5 HENZE, 1999, p.133.

6 BOTTERWECK & RINGGREN, 1974, p.468.

7 COHN-SHERBOK, 1998, p.40.

8 EFRÓN, 1987, p.85.

9 Classificamos essa obra como pertencente à tradição judaica porque entende-se comumente

que o seu autor foi um judeu de Alexandria, no Egito. (Cf. HELYER, 2002, p.380-381).

10 CROSS & LIVINGSTONE, 2005, p.551.

11 Embora esta obra seja atribuída tradicionalmente ao Rabi Eliezer ben Hyrcanos (I-II Século

d.C.), todavia, o estudo da linguagem e do estilo dos PRE revelou tratar-se, na verdade, de

uma obra pseudepigráfica, uma tentativa do autor do período dos gueonim (589-1038 d.C.) –

mais precisamente do IX Século – de representar o seu trabalho como sendo do período

tanaítico (100-200 d.C.). (Cf. SACKS, 2009, p.42).

12 PATMORE, 2012, p.23-24.

13 Apesar das discussões referentes à datação dessa Mekhilta, Neusner afirma que o consenso

prevalecente entre os eruditos é de que ela foi redigida entre o I e o II Século d.C. (Cf.

NEUSNER, 2001, p.xxxiv, nota 15).

14 Towsend afirma que é muito difícil datar com precisão a redação do Midrash Tanhuma.

Contudo, explica que “a recensão de Buber como nós a conhecemos não pode ter existido

muito antes do nono século simplesmente porque o Midrash cita um capítulo completo das

She’iltot por R. Ahai de Shabba, que viveu na metade do oitavo século”. (Cf. TOWSEND, 1989,

p.xii).

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