Jesus pregou aos mortos?

Existem duas passagens na primeira carta de Pedro que tem sido muito mal interpretadas pelos cristãos. A primeira fala que Cristo pregou aos espíritos em prisão, a segunda que o evangelho foi pregado aos mortos. Eis as passagens: “No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;” (1 Pedro 3:19). “Porque por isto foi pregado o evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito;” (1 Pedro 4:6).

Tanto uma como a outra estão no mesmo contexto, assim ao entendermos o contexto, entenderemos o sentido destas afirmações. Não há segredos. Uma leitura atenciosa é suficiente. Mas isto não é possível ser feito aqui, por isso, vou apenas dar as poucas indicações suficientes.


Esta carta de Pedro foi dirigida aos irmãos que estavam dispersos pelo mundo, algumas congregações na Capadócia, Galácia, Bitínia, Ponto e Ásia. Toda a carta é dominada pela ideia de que estes irmãos passavam por grandes lutas e sofrimentos no mundo. Pedro os exorta a se espelharem nos sofrimentos de Cristo. Leia a carta e enumere quantas vezes aparecem palavras ligadas ao verbo sofrer e você se certificará disso.

O sofrimento é fruto da opressão daqueles que detém o poder. No intuito de ensinar os irmãos a evitar o sofrimento, Pedro aconselha que os mesmos sejam submissos às autoridades políticas, aos patrões, as mulheres aos maridos, os jovens aos mais velhos, os irmãos aos irmãos. Sua exortação vai além, e pede que os irmãos abençoem ao invés de maldizerem (cap. 3:8-12), pois é melhor sofrer praticando o bem do que praticando o mal (v. 17). Finalmente, citando o exemplo de Cristo, ele diz no verso 18: “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito”. Se Cristo padeceu, devemos nós também padecer. Porém, este texto não se refere somente à morte de Jesus na cruz, mas também, e mais especificamente, sobre sua morte para as coisas carnais. Uma rápida avalição do contexto nos fará entender isso. Vejamos o texto do verso 18 até o 22 do capítulo 3.

Além de morrer fisicamente na cruz, Cristo foi mortificado na carne e vivificado no espírito. Isto se deu em sua vida terrena, depois de seu batismo. Jesus nunca pecou, portanto não precisava de perdão, evidentemente, não precisa ser batizado, mas foi. O seu batismo marcou a sua mortificação para servir a Deus em espírito. Foi neste espirito, mortificado na carne para o mundo e vivificado no espírito para viver conforme a vontade de Deus que Ele pregou aos espíritos em prisão. Estes espíritos eram os homens presos no pecado que viviam na época de Jesus (publicanos e prostitutas etc), que antes de ouvir sua mensagem eram desobedientes, mas Deus era paciente com eles. Para exemplificar esta paciência de Deus, Pedro cita a história do dilúvio. Deus foi extremamente paciente com aqueles homens pré-diluvianos enquanto Noé construia a arca, isto é, foram 120 anos de paciência (haja paciência!), mas mesmo assim, apenas oito almas se salvaram. O fato é que esta passagem não fala, como muitos pensam, que Jesus estava lá no tempo de Noé pregando em espíritito, ou depois da sua ressureição pregou as espíritos em prisão. A pregação de Jesus aos espíritos em prisão foi durante seu ministério terreno, período entre seu batismo e sua morte na cruz. Vejamos Isaías 61:1 para comprovar: “O espírito do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos”.  

Pedro ainda compara a salvação daquelas oito almas pela água com a nossa salvação pelo batismo, mesmo que o batismo não serve para tirar a sujeira do corpo, mas para firmar nossa consciência para com Deus em virtude da ressureição de Cristo, que está nos céus à direita de Deus, sendo-Lhe submisso todo tipo de autoridade. Então, se Jesus está no céu com toda autoridade e poder diante de Deus e nós fizemos o compromisso de mantermos uma boa consciência com Deus pelo ato de nosso batismo, que representa a morte e ressureição de Cristo, devemos ficar firmes, mesmo diante de todas as adversidades e sofrimentos da vida produzidas pelos homens maus. Esta é a recomendação que Pedro vai dizer nos versos que seguem do capítulo 4, isto é, para lutarmos tenazmente contra o pecado e contra os insultos dos ímpios.

Por fim, diz: “Contudo, eles terão que prestar contas àquele que está pronto para julgar os vivos e os mortos. Por isso mesmo o evangelho foi pregado também a mortos, para que eles, mesmo julgados no corpo segundo os homens, vivam pelo Espírito segundo Deus” (1 Pedro 4:5-6). Percebamos que este texto não fala nada de diferente do que foi explicado acima. Ele apenas afirma que os ímpios, que nos insultam e nos fazem sofrer, terão de prestar conta a Deus, pois a eles também foi pregado o evangelho com a finalidade de que julgassem a si mesmos enquanto homens e vivessem segundo a vontade de Deus e escapassem do juízo. Tanto os vivos (santos), como os mortos (ímpios) serão julgados. Nos versos 17 a 19, Pedro fala: “Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus; e, se começa primeiro conosco, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? E, “se ao justo é difícil ser salvo, que será do ímpio e pecador?” Por isso mesmo, aqueles que sofrem de acordo com a vontade de Deus devem confiar suas vidas ao seu fiel Criador e praticar o bem” (1 Pedro 4:17-19). Veja que este julgamento não é futuro, é agora, no tempo presente. Nós, os vivos em Cristo, estamos sendo julgados, também os ímpios, mortos no pecado. De acordo com o texto, não é fácil a nossa salvação, por isso, temos que fazer o bem, salvação do ímpio, sem chance, sem o arrependimento.   

As pessoas tem dificuldade de entender este texto por causa da expressão: “evangelho foi pregado também aos mortos”. Evidentemente, não está falando de mortos literalmente, mas mortos no pecado. Lembremos da fala de Jesus: “Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus” (Lucas 9:60) É fato que quem está morto literalmente não pode sepultar ninguém. São os mortos espirituais, homens no pecado, que Jesus se referiu. O evangelho pregado aos mortos é o evangelho pregado ao pecador.

Vejamos, ainda, mais algumas passagens que nos ajudam a entender o estar morto na concepção que Pedro apresenta aqui.”Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus”, (Romanos 6:10) “Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno” (Romanos 7:13). “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça? (Romanos 6:16). Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino,” (II Timóteo 4:1). “Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore” (1 João 5:16). Todas estas passagens reafirmam o seguinte conceito: O ímpio é um morto no pecado e os justos são mortos para o pecado. Os justos que estão mortos para o pecado, estão vivos para Deus, mas se ele voltar a cometer o pecado do ímpio, morre novamente para Deus, e aí, João pede para nem orar por ele. Só lhe resta a intercessão do advogado.  

Em suma, esta carta de Pedro foi dirigida àqueles irmãos que sofriam no mundo pagão. Pedro nos exorta a não confrontarmos os ímpios para não sofrermos ainda mais. É melhor obedecer às autoridades e a vida irá bem. Toma como exemplo, Cristo, que sofreu a morte física. Porém, o maior exemplo de Cristo é sua mortificação para o pecado. Cristo não pecou, pois sempre teve uma boa consciência para com Deus, assim como nós devemos ter. Nos dias de sua carne, Ele viveu no espírito, e foi nesta condição que pregou aos espíritos em prisão, isto é, o homem pecador, morto espiritual, mas vivo na carne como homem natural.

A pregação de Cristo não foi lá no tempo do dilúvio, como pensam muitos, mas durante seu ministério, logo após o seu batismo. Com estes homens pecadores que ouviram a mensagem de Jesus, Deus teve muita paciência. Pedro demonstra esta paciência divina, citando como exemplo os 120 anos de pregação de Noé, enquanto construía a arca. A paciência de Deus se esgotou e apenas oito almas foram salvas. Então, Pedro não está dizendo que Jesus estava lá no tempo do dilúvio pregando. O dilúvio é usado apenas como exemplo da paciência de Deus.

Por fim, semelhantemente, o juízo de Deus acontece em nossos dias, e poucas pessoas serão salvas, por isso, devemos ficar firmes no combate ao pecado, perseverando na prática do bem, conforme nosso compromisso no ato do batismo. Os ímpios perecerão, pois são julgados pelo mesmo juízo que já começou na casa de Deus.

A dificuldade que as pessoas tem para entender estas passagens se concentra principalmente na incompreensão do termo “morto”, que nem sempre se refere à morte física, mas espiritual. Como está esclarecido acima. Inclusive, a partir desta compreensão, também fica fácil entender o “pecado para morte”, que fala o apóstolo João. Assim, com uma leitura atenta de toda a carta de Pedro e com a ajuda do conceito correto aplicado ao termo “morto” nestas passagens nossas dúvidas sobre o pregar aos “espíritos em prisão” e aos “mortos”  são dissipadas.

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