A ideia original acerca de Satan

Pra começar, Satán é um conceito judaico, que os cristãos usurparam, deturparam, modificaram, corromperam e antropoformizaram. Como dissemos, a palavra hebraica remete-nos a um inibidor, opositor, adversário [humano; jamais de D´us!] 

Segundo o Judaísmo, ele é um Maláh (Um ser espiritual autômato enviado por D´us para específicas missões, cuja indicação missionária está no título {nome} que é dado ao ser. Podemos no momento entender este ser simplesmente como “anjo”.) Um anjo, neste contexto é um princípio de força guiada pela Inteligência Suprema, D´us. A função ou missão do Satan é explicada no Talmud da seguinte forma: Esta entidade é o Ietzer Hará. Esta entidade é o Satan. Esta entidade é o Maláh HaMávet (Anjo da Morte). 

Começando pela primeira explicação, quando falamos de Ietzer Hará, estamos nos referindo à má inclinação; às NOSSAS idéias estranhas ao nosso próprio objetivo ético e moral; ao desejo que cometer ações contrárias à Lei divina, e às justificativas mentais que são geradas POR NÓS enquanto decidimos sobre fazer ou não fazer aquilo que ferirá os princípios da Lei de D´us que decidimos observar. Do mesmo modo que temos dentro de nós o Ietzer Hará o Instinto ao Mal, temos na mesmíssima medida o Ietzer HaTov o Instinto ao Bem. Do mesmo modo, este nosso lado se mostra presente quando manifestamos pensamentos e conceitos que nos levam a agir à favor do bem e da justiça. Ambos estão dentro de nós na mesma medida. Assim, por exemplo; se uma pessoa se levanta contra você para te matar, e você subitamente se vê motivado a se defender e proteger sua vida, mesmo que custe a vida daquele que primeiro se levantou contra você, esta é a motivação do Ietzer HaTov (o que é diametricalmente contrário ao conceito de “dar a outra face”, isto é; fazer mal a si mesmo). A essência do Ietzer Hará é o “fervor do sangue”. E a arma do Ietzer Hará é a imaginação, o devaneio. Mas o Ietzer Hará por si mesmo, não é mau, assim como a Imaginação ou o devaneio não são maus por si mesmos. O que ocorre é que a pessoa é aquela que caracteriza as forças dentro de si, tornando-as boas ou más.

Outro conceito importante é que somente o ser humano pode ser mau. Portanto, o Ietzer Hará é a natureza humana voltada – pela própria pessoa – para o mal. Em si mesmo, não é mais que uma força neutra que podemos utilizar para o que desejarmos, inclusive para temas espirituais bons e de caráter justo. Já a natureza animal/emotiva precisa ser controlada pelo intelecto.

Após estar convencido de fazer o mal, a decisão da pessoa é levada pelo Satan diante da Corte Celestial para o veredicto. Então ele pode voltar com a missão de punir a pessoa, ou mesmo como a missão de ser o Maláh HaMávet (“anjo” da morte) e por um fim na vida de crimes vivida pela pessoa. Tudo isso são temas de caráter espirituais e, portanto, NÃO PODEM SER COMPREENDIDOS LITERALMENTE. Todas estas colocações são meros exemplos de conceitos puramente espirituais!

Outra alegoria que explica o que dizemos, é o que é dito em Kabalá: O ar dos céus e o ar do inferno estão sempre nos rodeando. Quando uma pessoa faz uma boa ação esta é escrita no ar dos céus. Quando faz uma má ação é escrita no ar do inferno.

A completa explicação destas alegorias é maior do que o que posso oferecer por agora, mas o ponto principal disso tudo, é que Satán não é mesmo o cara com chifres.

As Escrituras Hebraicas deixam bem claro, que o Altíssimo colocou no mundo, tanto o bem como o mal como está Escrito: Devarim {Deuteronômio} 30:15, Vê que pus diante de ti hoje a vida e o bem, a morte; e o mal. Em Ieshaiáhu {Isaías} 45:7, o profeta descreve o plano da criação de D´us expressando que, Eu formo a luz e crio a escuridão; Eu faço a paz e Sou Eu quem cria o mal; EU SOU o ETERNO que tudo faz. Estes versos declaram abertamente que o único responsável pelo que chamamos de mal é  D´us. Estes versos apóiam e comprovam a ideia judaica sobre o balanço espiritual perfeito entre o que denominamos “bem e o mal”, que toda alma confronta. Este é o plano de criação de seres conscientes, realizado pelo D´us o Altíssimo. Ieshaiáhu 45:7 e Devarim 30:25 apresentam problemas teológicos ao Cristianismo, que mantém que D´us haveria criado o Satan, o anjo que ficou mal.

De acordo com a doutrina cristã, o Satán teria sido um anjo elevado, o qual; por um ato de corrupção espiritual e rebelde desobediência, tornou-se o chefe adversário e caluniador de D´us, e teria sido ele quem introduzira o mal no mundo. Na teologia cristã D´us não criou aquilo que chamamos mal, ELE somente seria o autor do que chamamos bem. Portanto – dizem os cristãos – D´us jamais criaria algo tão sinistro como o diabo. Ao invés disso, foi o diabo mesmo que teria se tornado perverso e se transformado no diabo que é hoje. Esta concepção é completamente estranha ao pensamento hebreu (de onde a idéia de Satán se origina), e obviamente não tem suporte nos textos originais hebraicos; nem no sistema legal judaico.

Afinal, sugerir que D´us teria criado o Satán perfeito, mas mesmo sendo “perfeito” o Satán ainda pudesse se rebelar contra D´us, mostra que D´us fez algo “perfeito” de forma “imperfeita”. Afinal, se D´us cria somente o bem, o mal é algo fora do seu plano, ou seja; uma conseqüência inesperada, que O levou para um “plano B”…E se o Satan tirou de dentro de si mesmo, sua própria rebelião, então não era de fato perfeito. Satan teria então, um “defeito de fábrica” que transferiria a responsabilidade para D´us, em última análise! Ignorando esta contradição por enquanto, o Judaísmo ensina que o propósito da criação do Satán é justamente o sugerido por seu nome “ser um inibidor do homem”. Como servo de D´us, o Satan leva adiante os propósitos divinos em todos os seus detalhes.

Satan é um dos “anjos” mencionados nas Escrituras Hebraicas. Em momento algum ele é chamado de diabo ou demônio. Em momento algum a palavra hebraica Maláh que significa mensageiro é usada nas Escrituras Hebraicas para referir-se a seres diabólicos! Não existe um único exemplo nas Escrituras Hebraicas, sobre o Satan ser inimigo de D-us ou ter um reino paralelo ao de D´us. O Satán jamais se opõe a vontade de D´us! Em parte alguma da Bíblia Hebraica isso é mais evidente do que o livro de Ióv (Jó).

No primeiro capítulo, Satan aparece juntamente com outros anjos diante de D´us, e sugere que a fé a fidelidade de Ióv poderia ser simples resultado da sua falta de dificuldades. Então propõe que Ióv fosse testado em suas convicções. D´us concorda com a elaboração de Satan, e não somente permite que ele realize o que sugeriu, mas ainda lhe concede instruções específicas, que ele por sua vez observa religiosamente. Ou seja, não estamos diante do relacionamento de dois inimigos! Estamos diante de D´us e uma de suas criaturas! Numa alegoria que procura nos revelar um pouco mais do caráter espiritual do mundo. Em última análise, todo o sofrimento de Ióv foi a vontade de D´us para ele para testá-lo e elevá-lo. Enquanto em termos de interpretação (leia, deturpação) cristã, o triunfo pessoal de Ióv é algo teologicamente impossível (Ex: eles jamais dizem aos seus fiéis que conseguem vencer por si mesmos o diabo, mas que eles precisariam de ajuda externa do ídolo que cultuam como deus…) enquanto que, em termos autenticamente judaicos sua história (a de Ióv) é apenas o reflexo da própria missão humana, e o modelo do projeto de D´us para a humanidade.

Em Devarim {Deuteronômio} 30:15 a Torá declara abertamente sobre D´us colocar o que chamamos “mal” diante de nós, enquanto que em Ieshaiáhu {Isaías} 45:7 este mesmo conceito está vivo no Judaísmo ecoando a mensagem da Torá de que D´us mesmo é o criador do bem e do mal. E como tais conceitos obviamente foram problemáticos para os “tradutores” cristãos, eles preferiram modificar (leia, deturpar) o sentido das frases “adaptando” o texto à sua própria “teologia”. Como pode a Igreja insistir que o homem é irremediavelmente depravado quando D´us Mesmo declara ter colocado no mundo tanto o bem como o mal? Como pode a Igreja sustentar a doutrina de eleição e predestinação em face do livre arbítrio que o ser humano deve expressar?

Como podem os cristãos manter a opinião de que D´us não criou o mal, se as Escrituras Hebraicas declaram que sim, ELE criou o mal? É até compreensível que os “tradutores” – por exemplo – os da Bíblia Católica Ave Maria, ao invés de traduzir corretamente a palavra Hebraica “ráh” (mal) registrada em Ieshaiáhu {Isaías} 45:7 escrevam ao invés disso: 7. formei a luz e criei as trevas, busco a felicidade e suscito a infelicidade. Sou eu o Senhor, que faço todas essas coisas.

As palavras “felicidade” e “infelicidade” foram eleitas para deturpar o conceito original do termo que nada mais é que o reflexo do próprio pensamento hebreu no uso da palavra “ráh” que significa literalmente Mal. Isso não incomoda nem mesmo os protestantes, e apenas demonstra o mau uso e desonestidade dos cristãos em geral no uso das Escrituras Hebraicas. Se existem Bíblias que procuraram traduzir corretamente este trecho em particular, não deixam de usar outros para continuar impondo seu sistema particular de pensamento em frente ao texto original hebraico. Agora, vale a pena mencionar que o Cristianismo apresenta Ieshaiáhu {Isaías} 14:12 como se fosse uma referência sobre a mitologia de um demônio rebelde que teria caído do céu, um anjo caído. Eles argumentam dizendo que Ieshaiáhu {Isaías} teria usado o termo “estrela da manhã” como uma referência ao tempo, no qual Satan falido será jogado num lago de fogo segundo o vigésimo capítulo de Apocalipse. Temos aí sérios problemas com tais alegações.

Primeiro, caso cristãos mantenham que a expressão “estrela da manhã” seja uma referência ao Satan exclusivamente; como é que irão explicar que no seu próprio livro religioso, em Apocalipse 22:16 o Jesus é chamado “estrela da manhã” também?

Em segundo lugar, uma leitura atenta de Ieshaiáhu {Isaías} 14 revela que ele está se referindo a Nevuhadnetzar (Nabucodonosor), o perverso rei da Babilônia e não ao Satán.

Em 14:4 o profeta explicitamente menciona diretamente do rei da Babilônia como o tema da sua profecia: Que pronunciarão esta parábola sobre o rei da Babilônia: Como o opressor cessou de oprimir e como se esgotou sua arrogância? Por intermédio de todo este capítulo e do capítulo anterior, o profeta prediz o levante e a queda deste arrogante rei, que usou seu poder para atacar Jerusalém e destruir o Templo; mas que no fim; sofreria também uma queda cataclísmica. Em 14:12 Nevuhadnetzar é comparado ao planeta Vênus, cuja luz ainda pode ser vista no começo da manhã, mas que finalmente se esvai quando surge o sol. Assim como a luz de Vênus, Nevuhadnetzar reinaria e brilharia com um curto período de tempo, mas como o profeta disse, ele seria ofuscado pela luz de Israel que perduraria para além de seu tempo, e ofuscaria toda sua glória arrogante.


Rabi Tovia Singer

Fonte: B´ney Noah do Brasil

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