A discussão cristológica e a concepção da preexistência divina de Jesus

Vimos acima a origem e o desenvolvimento histórico do conceito do Logos. A discussão cristológica foi o processo pelo qual este conceito foi aplicado ao texto evangélico de João 1:1, e atingiu a pessoa central, Jesus. Os chamados “Pais da Igreja” erraram ao escolher como sentido o conceito filosófico grego (logos = razão = agente) em detrimento da concepção judaica (Logos [davar] = palavra = ação = criação). Daí gerou-se um amontoado de conceitos que tentaram explicar a relação de Deus com o homem. Nenhum deles refletiu a verdade.

Vamos, agora, entender como isto aconteceu e decifrarmos as estruturas conceituais que surgiram. Algumas partes extraídas da Wikipedia já são suficientes para compor a visão. Na próxima parte colocaremos por terra todas estas filosofias cristológicas e mostraremos que Jesus é o homem enviado por Deus.

O que é a Cristologia

Cristologia é o estudo sobre Cristo; é uma parte da teologia cristã que estuda e define a natureza de Jesus, a doutrina da pessoa e da obra de Jesus Cristo, com uma particular atenção à relação com Deus, às origens, ao modo de vida de Jesus de Nazaré, visto que estas origens e o papel dentro da doutrina de salvação tem sido objeto de estudo e discussão desde os primórdios do cristianismo.[1]

Eixo central da Cristologia

A Cristologia tem sido debatida incansavelmente durante séculos, em várias nações, dentro de várias correntes cristãs, com pontos de vista semelhantes, divergentes e mesmo com algumas controvérsias. Alguns aspectos deste assunto muito debatidos no eixo central da cristologia no decurso da história do cristianismo são: A Natureza divino-humana de Jesus (União hipostática; A Divindade de Jesus; A Humanidade de Jesus; A Encarnação; […][2] etc, Entre outros.

Dois lados de um conflito

Talvez a disputa mais antiga dentro do cristianismo centrou-se sobre se Jesus era Deus. Esta longa discussão iniciou-se com duas posições bem distintas: Jesus homem versus Jesus Deus.

Um número de cristãos primitivos acreditavam que Jesus não era divino, mas fora simplesmente o Messias humano prometido no Antigo Testamento, tal como o vê os fariseuscontrariamente à vista mais geral dos outros judaico-cristãos.

E:

Uma explanação alternativa é que eram uma oposição às doutrinas dos Cristãos Gnósticos que afirmavam que Jesus Cristo teve somente a ilusão de um corpo humano e, assim, nenhuma ancestralidade humana, como o via o docetismo.

A disputa iniciou-se nessa divergência, mas logo foi abandonada para centrar-se na definição da natureza de Jesus. Apenas parte da cristandade se ateve a ideia da humanidade de Jesus, contudo, rapidamente foi considerada como herética pelos demais que se “consideravam” de acordo com os apóstolos.

A opinião de que Jesus era somente humano, como afirmava o adopcionismo, foi oposta por líderes da igreja tais como São Paulo, e veio eventualmente a serem aceitas somente por seitas como a dos ebionitas e (de acordo com São Jerônimo) dos nazarenos, mas logo subjugadas pelas igrejas ortodoxas de uma forma ou outra.

A partir de então, a discussão já não estava mais centrada na divergência de naturezas de Cristo (homem ou Deus), mas sobre qual era a sua natureza como Deus e como poderia ser explicado a relação homem-deus/deus-homem. Porém, é bom ter em mente que isto se deu entre as chamadas igrejas ortodoxas e ficaram de fora aquelas que defendiam a natureza humana. O Jesus homem não fez parte da disputa cristológica, por isso, pode ser definido de antemão que nenhum dos conceitos obtidos são ativos de verdade.

Natureza de Cristo

A partir da ideia de que o Logos (palavra) de João 1:1 é um agente entre Deus e a matéria, conforme elaborado por Filo, surgiram vários pensamentos e conceitos. Vamos destacá-los de forma lógica, ou seja, as ideias em progressão partindo da humanidade até a divindade de Jesus.

Ebionismo: crê em Jesus como um profeta, nascido de Maria e José, que teria se tornado Cristo no ato do batismo.

Elcasaismo: recusam a divindade de Cristo, consideram-no o último dos profetas e chamam-lhe anjo Jesus.

Monofisismo: segundo o qual Cristo teria uma única natureza composta da união de elementos divinos e elementos humanos.

Miafisismo: defende que em Jesus Cristo há a natureza humana e a natureza divina, mas que estas duas naturezas se unem natural e completamente para formar uma única e unificada Natureza de Cristo.

Nestorianismo: segundo a qual Jesus Cristo é, na verdade, duas entidades vivendo no mesmo corpo: uma humana (Jesus) e uma divina (Cristo).

Docetismo: defende que Jesus era um mensageiro dos céus e que seu corpo era “carnal” apenas na aparência e sua crucificação teria sido uma ilusão.

Arianismo: crê que Jesus, apesar de um ser superior, seja inferior ao Pai sendo uma criatura sua.

Sabelianismo: defende que Jesus e Deus não eram pessoas distintas, mas sim “aspectos” ou “modos” diferentes do trato da Divindade com a humanidade.

Trinitarianismo: crê em Jesus como a segunda pessoa da Trindade divina.

As principais cristologias

Óbvio que os descritos acima não representam a totalidade dos pensamentos que surgiram sobre a pessoa do Cristo. Muitos ficaram de fora, principalmente aqueles que refletiam a verdade. Acima estão apenas aqueles que por circunstâncias históricas obtiveram destaque. Depois de certo tempo, estes pensamentos se reúnem em torno de três escolas que obtiveram supremacia: ortodoxa, monofisita e ariana. Sendo que posteriormente, prevalece a ortodoxa, com a proclamação de anátema sobre as demais.

Ortodoxa

A Cristologia ortodoxa, defendida pelas Igrejas CatólicaOrtodoxas e protestantes, tem por base o Concílio de Calcedônia (em 451 d.C., o qual estabelece as bases desta corrente, na qual o Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem (união hipostática) e se apresenta em duas naturezas sem distinção, indivisíveis e inseparáveis, de tal forma que as propriedades de cada uma permanecem ainda mais firmes quando unidas numa só pessoa. Para os defensores desta cristologia, o termo “Filho de Deus” aplicado a Jesus deve ser interpretado com a natureza de Deus, gerado já desde o início de tudo e, portanto co-eterno.

Monofisita

Discordando da Cristologia Ortodoxa, os miafisitas afastaram-se para compor as Igrejas ortodoxas orientais da Síria, da Armênia, do Egito, da Etiópia e da Índia do Sul. Para eles a natureza divina em Jesus era muito mais forte e preponderante daquela natureza humana.

Mas, estas mesmas Igrejas dissidentes rejeitam o rótulo de monofisita, porque elas afirmam que defendem na verdade o miafisismo, que é a crença de que em Jesus há a natureza humana e a natureza divina, mas que estas duas naturezas se unem para formar uma única e unificada Natureza de Cristo. Estas Igrejas afirmam que o miafisismo é diferente do monofisismo, mas esta doutrina cristológica igualmente se diverge da doutrina ortodoxa da união hipostática.

Ariana

arianismo, que recebeu este nome por ser derivado da doutrina de Ário, apresenta uma distinção clara entre o Cristo e o Logos como razão divina. O Cristo é apresentado como uma criatura pré-temporal, super-humana, a primeira das criaturas, não Deus, porém mais que homem. “O logos é a própria razão divina a qual Deus pai admitiu sair de si mesmo sem a diminuição do seu próprio ser.” (Justino Martir)

Credos

Dois são os conceitos sobre Jesus: o apostólico, aquele que está na Bíblia, e o cristológico, resultado do longo debate. O debate cristológico culminou em dois momentos que fixaram o conceito da divindade de Cristo, suprimindo os demais pensamentos e condenando-os ao anátema. O primeiro foi Niceia, 325, e o segundo Constantinopla, 389.

Apostólico

O conceito apostólico sobre a pessoa de Jesus é encontrado ao ler as páginas bíblicas. Não é intenção defini-lo por completo aqui porque será amplamente debatido na próxima parte. Por ora: Jesus é o Filho do homem, prometido por Deus através dos profetas, descendente de Davi, Rei de Israel, nasceu de Maria, aprendeu a obediência, viveu sem pecar, morreu pelos pecados do mundo, ressuscitou ao terceiro dia, ascendeu aos céus e está à direita de Deus, como homem e Senhor.

Niceno

O conceito niceno reza que Jesus é:

o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por quem foram feitas todas as coisas que estão no céu ou na terra. O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem.[3]

Como se vê, esta definição se apresenta radicalmente diferente ao exposto logo acima. Mais do que isso, havia uma forte ameaça a quem se prontificasse definir Cristo em outros termos.

E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica.[4]

Constantinopla

A partir de Constantinopla, crê-se:

Em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por quem, foram feitas todas as coisas. O qual por nós homens e para a nossa salvação, desceu dos céus: se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem.[5]

Em resumo, a Cristologia, foi o amplo debate que envolveu, entre outras coisas, a natureza de Jesus. Começou após a passagem dos apóstolos e a aplicação pelos Pais da Igreja do conceito filosófico de Filo de Alexandria, que rezava ser o Logos (grego) comparável ao davar (hebraico) ao texto de João 1:1. O debate se estendeu por vários séculos. Iniciado no dilema entre Jesus homem e Jesus Deus teve rápida ascenção para o tema: a substância de sua natureza divina. Vários pensamentos surgiram, entre eles, Jesus é apresentado como profeta, anjo, mensageiro, como possuindo uma ou duas naturezas (humana e divina), duas entidades, superior aos anjos, criado por Deus, modo da manifestação de Deus, e, por fim, a tese vencedora, Jesus como segunda pessoa da Trindade.

Deste emaranhado de conceitos, três escolas se firmaram na luta pela definição da natureza de Cristo: ortodoxa, monofisita e ariana. A ortodoxa, como o próprio nome diz, sobressaiu e foi marcada por dois momentos, Niceia e Constantinopla, que definiram a sua natureza com base no conceito do Logos. Jesus obteve natureza divina, da mesma substância do Pai e tão eterno como Ele. Jesus passou a ser preexistente contrapondo à Bíblia que o apresenta apenas como o homem, nascido de mulher.

Depois de conhecermos a história do conceito do Logos, vamos ao debate bíblico propriamente dito e ver que este não se encaixa no texto. Foram os “Pais da Igreja” que introduziram o conceito grego para definir a natureza de Jesus. Não é bíblica a ideia de que Jesus existia antes do seu nascimento de Maria.

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Cristologia. Acessado em: 16 de Nov. 2017

[2] Idem.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.  Acessado em: 18 nov. 2017.

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Credo_Niceno.  Acessado em: 18 nov. 2017.

[5] Idem.

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